Tabelionato, química, jardinagem

Ainda no post anterior comentei que uso o blog do Guri como memória auxiliar: às vezes revisito meu próprio blog pra relembrar coisas que aconteceram comigo. É assustador que se apaguem da minha memória situações que eu mesmo vivi. Também há momentos em que fico perplexo com a quantidade e a diversidade de informações que tenho na caixola e que nem sempre sei como ou por que foram parar lá.

Recentemente meu pai escreveu dizendo que precisava reconhecer minha firma num documento. Gelei: “nunca abri ficha pra reconhecer minha firma no Brasil”. No mesmo instante comecei a ver como fazer isso no consulado brasileiro aqui em Nova Iorque (e a sofrer por antecipação com toda a trabalheira que esse procedimento haveria de me dar). Mas respondi para o meu pai, “Só pra ter certeza, vai ao Primeiro Tabelionato de Pelotas; tenho a impressão de que minha firma possa estar lá. Se é que está em algum lugar, só pode ser lá”.

Lá foi ele e, pro meu alívio e pra minha surpresa, reconheceu minha firma. Inexplicável. Um belo dia, num passado que não pode ser tão distante assim (não sou tão velho, ora!), eu me abalei até o tabelionato na Anchieta, retirei ficha, esperei ser atendido, pedi para depositar firma, assinei um cartão-autógrafo, e fui embora. Como pode que não me lembro de absolutamente nada disso? Tampouco me lembro de por que fiz isso. Alguém já tinha precisado reconhecer minha firma? Eu mesmo, talvez? Não faço ideia. Mas taí. Se alguém precisar reconhecer minha firma, já sabe onde pode fazê-lo.

Mais dois casos chocantes aconteceram comigo ontem. Fui com um grupo de amigos da igreja a Jersey City (do lado de lá do Hudson, “ali no outro estado”!), para visitar duas outras amigas da City Grace que moram lá e que nos convidaram para uma noite de jogos. Na maior parte do tempo jogamos Cranium, um divertido jogo de tabuleiro à la “Imagem e Ação”. Só pra dar uma ideia melhor do jogo, os desafios estão divididos em quatro categorias:

  • Creative Cat: um dos jogadores do time tenta fazer o outro adivinhar uma palavra através de desenho, escultura, ou desenho de olhos fechados.
  • Data Head: perguntas de conhecimentos gerais, curiosidades.
  • Word Worm: os jogadores do time desembaralham palavras, soletram palavras (às vezes ao contrário, quer dizer, do fim pro início da palavra), adivinham definições, identificam palavras com letras omitidas.
  • Star Performer: um dos jogadores do time assobia ou “murmura” (bocca chiusa; canta fazendo mmm) uma canção, imita uma celebridade, ou faz mímica, e o outro adivinha.

Formei time com o Ryan. Fechou todas: o Ryan é ator (formado em teatro) e músico (pianista, cantor, líder de banda), então ficava com as coisas artísticas (Creative Cat e Star Performer); eu, o estudante nerd que gosta de palavras, ficava com as coisas de estudante nerd que gosta de palavras (Data Head e Word Worm).

Tivemos alguns lances de sorte: uma das músicas pra cantarolar de boca fechada era The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema). Quando eu vi, minha reação só pôde ser, “dude, I’m so ready for this“. Mais tarde veio a definição de “illicit“, barbada pra advogado. Só não ganhamos o jogo por falta de sorte nos dados. 😉

Houve momentos bastante emocionantes no jogo (especialmente quando a competitividade aguda de alguns, nos quais me incluo, vinha à tona), mas me restrinjo a relatar os exemplos de perplexidade (própria e alheia) quanto à aleatoriedade de meus conhecimentos.

Uma das perguntas do Data Head foi: “Qual é o elemento químico mais comum na atmosfera terrestre?”. Nitrogênio. Certo. Tudo bem que eu até participei de olimpíada de química no ensino médio, mas devo ter estudado os elementos predominantes da atmosfera lá pela quinta ou sexta série do ensino fundamental, e depois não mais. Como é que eu ainda me lembro disso? Fico até triste por me lembrar. Prefiro ter livre esse espaço na memória pra guardar outras coisas!

Mas o mais chocante da noite foi um desafio de verdadeiro ou falso do Data Head. A afirmação era algo do tipo: “Figuras geométricas e simetria são características do estilo inglês de jardinagem ou paisagismo”. Ora, para alguém com o meu background (estudos em economia e direito; conhecimentos sobre mudança climática, música, idiomas… mas longe de saber algo sobre jardinagem), a reação mais natural a uma pergunta dessas não poderia ser senão: “hein?!”.

Eu, porém, comecei a pensar alto: “Verdadeiro… não, peraí. A tradição francesa de jardinagem, e não a inglesa, é que tem traços de formalismo, racionalidade e simetria, com figuras geométricas e organização mais ‘quadradinha’. Os jardins ingleses são mais naturais, românticos… A afirmação é falsa.” Nem precisava explicar nada; bastava dizer falso ou verdadeiro. Mas provei que não era chute.

Acertei. A afirmação era mesmo falsa. Pedi pra ler a explicação da resposta no verso do cartão, e a explicação era, embora obviamente não com as mesmas palavras, a mesma que eu tinha dado. Agora… não faço ideia de onde tirei essa explicação. Onde e quando e por que cargas d’água eu aprendi a diferença básica entre um jardim inglês e um jardim francês? É perturbador.

Uma ideia sobre “Tabelionato, química, jardinagem

  1. Xiru do Posto

    E na semana passada, um professor de português perdeu meio milhão de reais num show-caça níqueis-pseudo sei lá o quê no SBT por não saber que o Nitrogênio é o elemento mais abundante na atmosfera… a pergunta foi algo como “em cidades como São Paulo e Tóquio, qual o elemento presente em maior proporção no ar” ou alguma tosquice assim… dã, o cara foi a seco no gás carbônico…

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