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Bye Bye, Budapest: triatlo na Ilha Margit

O último dia da Expedição 2015 em Budapeste foi de arrancar lágrimas de nostalgia: céu perfeitamente azul, temperatura ideal e um passeio agradável e tranquilo.

Nada mais apropriado para se despedir de Budapeste – sem causar ciúme nem a Buda nem a Peste – que passar o dia na Ilha Margarete ou Margit (Margit-sziget), que fica no meio do Danúbio (mapa) e, portanto, não é propriamente nem Buda nem Peste!

A parte do triatlo, no título do post, é só brincadeira. Não fizemos triatlo nenhum. Mas quase: andamos de bicicleta, caminhamos bastante (mas não corremos…) e nadamos. 😀

Começamos o dia com um brunch húngaro reforçado no Művész Kávéház (mapa, website em Húngaro, facebook), na chiquérrima Avenida Andrássy, 29. Como (estranhamente) não tirei foto lá, o Művész acabou ficando de fora do post sobre cafés e restaurantes de Budapeste. Foi inaugurado em 1898, em estilo Neo-Renascentista, e restaurado em 2008. Quase em frente à Ópera, é mais um dos muitos cafés elegantes da época, como o New York Café e o BookCafé.

Depois do Művész, passamos um tanto de dificuldade e perdemos um tempinho tentando alugar uma segunda bicicleta do sistema de compartilhamento MOL Bubi usando o aplicativo de celular. Teria sido mais fácil e rápido ir logo até a máquina disponível na Déak Ferenc ter, como afinal fizemos – e em um minuto ambos tínhamos bicicletas alugadas!

Fomos pedalando pelo centro de Peste, passando pelo Parlamento, até a Ponte Margit (Margit híd). A ponte em T liga Buda e Peste, e também permite descer na Ilha Margit, no Danúbio.

Danúbio e o lado Buda da Ponte Margit

A partir do século XI a Ilha Margit foi ocupada por diferentes ordens religiosas. Vimos lá importantes ruínas medievais: da igreja e do convento dominicanos, do século XIII, e da igreja franciscana em estilo gótico, do século XIV. No convento dominicano viveu a Princesa Margit, filha do Rei Béla IV, na segunda metade do século XIII; a ilha acabou recebendo o nome da princesa. Os religiosos abandonaram a ilha em meados do século XVI, para fugir da ocupação dos turcos, que destruíram as construções. Só no século XIX as ruínas foram reencontradas.

A ilha foi aberta ao público em 1869 e hoje é um grande parque, com gramados, muita um jardim japonês, um roseiral, hotéis-spas, um complexo esportivo e, claro, banhos termais.

Na entrada sul da ilha, o chafariz e, ao fundo, o monumento ao centenário da unificação de Buda e Peste (comemorado em 1973)

Um dos belos jardins

Detalhe do roseiral

O grande gramado do centro da ilha – e nenhuma nuvem no céu espetacularmente azul!

Almoçamos no restaurante aos pés da Torre da Caixa d’Água e depois, subimos seus 57 metros. A torre foi construída em 1911 e hoje funciona como espaço para exibições artísticas, além de oferecer vistas incríveis da ilha e da cidade.

Não é uma foto panorâmica, mas ao longe se podem ver alguns marcos da cidade. Da esquerda para a direita, temos a cúpula da Basílica e outros prédios do centro de Peste, o Monumento à Libertação no alto de Gellért Hill, a cúpula do Parlamento e o Castelo de Buda.

Superzoom: o Parlamento, em Peste, e o Castelo, em Buda

Por fim, depois de andar de bicicleta e caminhar pela ilha, fomos nadar na Praia Palatinus (Palatinus Strandfürdő, mapa, website em inglês). Há 11 piscinas , todas externas, incluindo uma de ondas e outra com toboáguas. O movimento tranquilo no dia em que fomos (início de temporada) permitiu que aproveitássemos bastante. Desci os quatro toboáguas!

Deu um aperto no coração encerrar o agradável dia no Palatinus, mas, como se vê nas últimas fotos, a tarde estava caindo… Alugamos bicicletas para voltar a Peste, jantar pela última vez em alto estilo húngaro (no Callas, com música ao vivo), voltar ao apartamento e fechar as malas, para partir cedo da manhã no dia seguinte de volta para as Américas.

Voltamos com a bagagem cheia de nostalgia. A Expedição 2015 foi um sucesso absoluto.

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Budapeste ao anoitecer – Danúbio iluminado

E a Expedição 2015, com seus n posts, chega ao post n-1… Hoje farei a despedida noturna de Budapeste, com uma seleção de fotos das melhores vistas no entorno do Danúbio ao entardecer e à noite – do lado Buda e do lado Peste!

No último dia da participação especial da minha amiga Stephanie na Expedição 2015, fizemos – com minha irmã Lu e meu cunhado James – um passeio de barco pelo Danúbio ao entardecer, fortemente recomendável. O dia estava um pouco nublado, então não muitas fotos ficaram boas. Independentemente disso, o passeio valeu muito.

Também gosto do desafio da fotografia na hora mágica e de longa exposição (aqui no blog há exemplos de Köln, New York, Genève, Paris, San Antonio… e provavelmente outros de que nem me lembro), por isso não podia deixar de convidar a Lu a pegar seu contêiner de paciência e me acompanhar numa caminhada fotográfica ao longo do rio.

Pra começar, claro, o Parlamento, tal como se pode ver no passeio de barco: bem de perto e bem de frente. Mesmo atravessando a Buda é difícil ter a mesma vista.

Caminhando perto do Memorial dos Sapatos tirei esta foto da Igreja Mátyás e do “terraço” Bastião dos Pescadores, ambos já iluminados ao entardecer (o post sobre a visita a Buda conta mais sobre essas construções).

Ainda fotografando a partir do lado Peste, capturei o Castelo de Buda iluminado ao entardecer, com a Ponte das Correntes, igualmente iluminada, “atrapalhando a vista” (isso da “ponte iluminada atrapalhando a vista” virou mania fotográfica minha, como se verá a seguir).

Noutro dia, mais uma da Igreja Mátyás, do Bastião dos Pescadores e da Ponte das Correntes (atrapalhando a vista), todos iluminados ao entardecer.

Nesse mesmo dia achei um bom lugar, pertinho do Vigadó, para fotografar o Castelo de Buda, que aqui parece revestido de ouro!

Então atravessamos a Buda. Uma das paradas para foto foi o Várkert Bazár (ou Bazar dos Jardins do Castelo). É o prédio alongado (e também muito bem iluminado) que se vê “aos pés” do Castelo na foto acima.

Não comentei sobre o Várkert Bazár em outros posts porque, inacreditavelmente, não o visitamos (ficou como “gostinho de quero mais”). Foi construído de 1875 a 1883 em estilo Neo-Renascentista, como um portão aos jardins do Castelo de Buda. Até pouco tempo atrás, o lugar estava praticamente em ruínas, mas foi lindamente restaurado no início da década e hoje recebe eventos, concertos, mostras de arte.

O vídeo promocional mostra a beleza do prédio restaurado e dos jardins:

Budapeste é mesmo inesgotável. Nem me despedindo eu consigo me despedir. 🙂

Continuando a caminhada fotográfica noturna, à noite, vimos o Parlamento ao longe, revestido de ouro (com a Ponte das Correntes atrapalhando a vista).

Também vimos o elegante Gresham Palota, ou Palácio Gresham, onde hoje funciona o hotel Four Seasons em Peste. A cúpula da Basílica de Santo Estêvão também aparece ao fundo. E nesta foto a Ponte das Correntes aparece, mas até que não atrapalha tanto a vista.

Por fim, como não poderia deixar de ser, paramos (por bastante tempo) perto da Batthyány tér para fotografar o Parlamento.

Miniversum e mais um gostinho (amargo) de comunismo

Miniversum (website em inglês, mapa), na Avenida Andrássy, é uma exibição de maquetes e miniaturas, principalmente de Budapeste e da Hungria, mas também com seções dedicadas à Áustria e à Alemanha. É legal para adultos, pela riqueza de detalhes e informação, e para crianças, pela interatividade – há botões que acionam sons, luzes e movimentos.

Há miniaturas perfeitas de muitos dos prédios importantes da cidade. Gostei especialmente de ver os detalhes dos edifícios que, no tumulto urbano, são difíceis de contemplar (por causa do trânsito, dos cabos de bonde, das árvores) – como é o caso da Estação Budapeste-Ocidente, conhecida simplesmente por Nyugati (Budapest-Nyugati pályaudvar, mapa).

Budapest-Nyugati pályaudvar no Miniversum

Como na série Expedição 2015 já publiquei muitas fotos dos próprios prédios, dedico o resto deste post à mostra A Vida sob o Comunismo (Life Under Communism) do Miniversum, que traz dez cenas e lugares da era comunista na Hungria.

A construção de moradias populares era dever do Estado durante a era comunista, e o ímpeto de industrialização levou a uma rápida urbanização. Cerca de 800.000 apartamentos de 30 a 70 metros quadrados foram construídos em materiais pré-fabricados, em prédios padronizados de quatro ou dez andares, além de escolas, centros comunitários etc. Cerca de um quinto da população da Hungria ainda vive nesses edifícios pré-fabricados. A população desses centros residenciais comprava os alimentos a baixo custo nas lojas ABC – como até hoje são conhecidos os mercadinhos e as lojas de conveniência em Budapeste!

Residências populares pré-fabricadas

No post sobre o Parque Memento incluí uma foto de um monumento aos Pioneiros, o movimento criado pelo Partido Comunista. Esse movimento estabeleceu diversos acampamentos de verão, onde a ideia era para doutrinar os jovens na ideologia soviética comunista, para torná-los fiéis ao partido. As crianças e jovens até queriam que esses retiros fossem férias, mas a disciplina era rígida. No auge do movimento, até 200.000 crianças e adolescentes participavam desses acampamentos por ano. Na prática, a participação era obrigatória para estudantes de 10 a 14 anos.

Acampamento do Movimento dos Pioneiros

Também no post sobre o Parque Memento há uma foto de uma estátua de Lênin colocada em frente a uma fábrica após uma “sugestão” de Khrushchev. Essa estátua ficava na entrada do distrito industrial Csepel, criado em 1892 numa área de 200 hectares não muito distante do centro de Budapeste.

Durante o regime comunista, 30.000 pessoas chegaram a trabalhar em Csepel na produção de máquinas, bicicletas e motocicletas para os países membros do Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecon), a organização econômica dos países do bloco comunista, que existiu de 1949 até 1991. Com a restauração do capitalismo, desapareceu o mercado para os produtos de baixa qualidade fabricados em Csepel. Por isso, hoje há apenas pequenas fábricas no velho complexo.

Csepel

O regime comunista na Hungria – como em diversos países soviéticos e em outros países comunistas até hoje – implantou o controle central da economia pelo Estado, sem considerar as circunstâncias de mercado. Abriram-se mineradoras inviáveis economicamente, com policiamento de uma milícia ligada ao Partido Comunista, para fornecer matéria-prima e energia para a indústria pesada criada artificialmente pelo Estado. Praticamente não havia desemprego – mas a produção era ineficiente e havia desperdício de recursos.

Modelo de mineradora da era comunista

Parque Memento: um dos melhores passeios em Budapeste

O Parque Memento (website em inglês, mapa) foi, de longe, um dos melhores passeios que fizemos durante a Expedição 2015 a Budapeste.

(E falando em longe… o parque fica bastante longe do centro da cidade; 30 a 40 minutos de ônibus. Minha irmã, meu cunhado e eu fomos de ônibus urbano, com uma conexão bem complicada – mas, pra facilitar, voltamos ao centro com o ônibus direto que liga o parque à Déak Ferenc tér, a estação que conecta as linhas M1, M2 e M3 do metrô. Vale reservar umas três horas para o passeio. E vale muito fazer a visita guiada – nossa guia foi excelente.)

Vamos ao parque. Mas, antes, aos antecedentes do parque!

Na Segunda Guerra, a Hungria estava do lado perdedor. O Exército Vermelho Soviético chegou para libertar os húngaros da tirania das forças alemãs nazistas. O Dia da Libertação, com ficou conhecido o 4 de abril de 1945, significava para a Hungria, a um só tempo, o fim dos horrores de um regime opressor, de uma Grande Guerra e da sombra do Holocausto.

Mas os libertadores soviéticos foram prolongando sua ocupação… e acabaram estabelecendo no país o regime comunista e uma ditadura totalitária, com mais opressão e estado de terror. E assim a Hungria continuava do lado perdedor.

De 1947 a 1988, o regime soviético espalhou pelas ruas e praças de Budapeste não só terror, mas também diversas estátuas e monumentos (muitos deles também aterrorizantes – e odiados pelo povo) em homenagem aos ideais comunistas e aos seus líderes.

Com o fim do regime comunista no final dos anos 1980 e início dos anos 1990, antes que a população farta da ditadura destruísse os monumentos que o glorificavam, o governo de Budapeste decidiu removê-las e preservá-las em um parque memorial – o Parque Memento.

As botas de Stálin

Uma construção esquisita em frente ao parque (fora dele) – botas sobre um pedestal? – lembra que não se trata de uma homenagem ao comunismo, mas em homenagem à sua queda.

Nos primeiros anos da ditadura soviética, tinha sido instalado na praça Felvonulási tér – na parte sul do Parque da Cidade – um pedestal elevado e, sobre ele, uma estátua de bronze de 8 metros de altura de Josef Stálin, Primeiro Secretário do Partido Comunista, Chefe de Estado, General. Era diante desse pedestal e da estátua de Stálin que se realizavam as paradas militares organizadas pelos soviéticos.

Mas num levante civil húngaro contra a ditadura, em 23 de outubro de 1956, a multidão cortou a estátua pelas pernas, derrubando o corpo. Ficaram só as botas – um deboche ao ditador.

Infelizmente aquele 23 de outubro não foi o fim da ditadura. Os próprios comunistas removeram as botas e remodelaram o pedestal (sem repor a estátua). O que está em frente ao Parque Memento é uma réplica em tamanho real do pedestal e das botas de Stálin.

O portal do Parque Memento

Ákos Eleőd foi o arquiteto cujo projeto venceu o concurso para o desenho do parque, inaugurado em 1993. Seu projeto é rico em simbolismo, como ficará evidente em muitos dos comentários ao longo do texto. Foi intitulado “Uma Frase sobre Tirania”, em homenagem ao poema do húngaro Gyula Illyés; o poema está gravado na grande porta central do parque.

O imponente portal de tijolo à vista lembra elementos arquitetônicos muito usados pelos comunistas: formas clássicas, grandes colunas, alcovas em arco. O arquiteto usou esses elementos para representar o regime comunista, que, com mania de grandeza, esmagou as liberdades individuais e humilhou a população húngara.

O portal também representa a promessa vazia do comunismo. Apesar da imponência aparente, não há nada atrás, nenhum edifício. Só fachada.

A grande porta central (onde está gravado o poema) está, como na foto abaixo, sempre fechada. Para entrar, é preciso encontrar uma outra solução, uma porta lateral. É outra alusão do arquiteto à vida no regime comunista: “para cada grande porta existe uma pequena janela”.

Na parte esquerda do portal, está uma estátua de bronze de Lênin, outro líder do Partido Comunista na Rússia. A estátua de 4 metros de altura, esculpida por Pál Pátzay, ficava também na Felvonulási tér, próxima à estátua (e, depois, às botas) de Stálin.

Na parte direita do portal, fica uma estátua de 1971 do escultor György Segesdi, retratando Marx e Engels, teóricos alemães do comunismo. A tem 4,2 metros de altura e, originalmente, ficava perto da sede do Partido Comunista. É a única estátua cubista de Marx e Engels. O escultor queria construí-la com chapas de aço, mas os políticos da época insistiram no uso de um material mais pesado e tradicional – o granito.

Soldado Soviético Libertador

Entrando no parque, à direita, fica a estátua de bronze de 6 metros de altura do Soldado Soviético Libertador, esculpida por Zsigismond Strobl Kisfaludy, em 1947.

Essa estátua ficava numa posição extremamente privilegiada: no alto do Gellért Hill, aos pés do Monumento à Liberdade (na foto abaixo ainda se vê o pedestal onde ficava). Pretendia ser, por assim dizer, o “protetor soviético” do próprio espírito de liberdade!

Originalmente, o monumento em Gellért Hill era em homenagem à libertação da Hungria das forças alemãs nazistas pelo exército soviético. A inscrição no pedestal dizia: “à memória dos heróis soviéticos libertadores – a povo húngaro, com gratidão – 1945”.

O monumento acabou ficando lá e não sendo “condenado” ao Parque Memento porque ganhou novo significado. Hoje a inscrição diz: “à memória de todos aqueles que sacrificaram suas vidas pela independência, pela liberdade e pela prosperidade da Hungria”. Isso inclui os que sacrificaram suas vidas para livrar a Hungria dos soviéticos antes homenageados!

Memorial da Amizade Húngaro–Soviética

Essa estátua de bronze, esculpida em 1956 por Zsigismond Strobl Kisfaludy, tem traços que demonstram o desequilíbrio da amizade entre húngaros e soviéticos. O trabalhador húngaro, em vestimentas simples, oferece as duas mãos, em posição de subserviência; o soldado soviético, por sua vez, mais alto e forte, oferece apenas uma mão e mantém-se afastado.

Monumento aos Pioneiros

Para doutrinar as crianças na ideologia comunista e soviética, o Partido Comunista criou o Movimento dos Pioneiros, para crianças de 6 a 14 anos.

Estátua de Lênin

Nikita Khrushchev, Primeiro Secretário do Partido Comunista da Rússia, visitou a grande siderúrgica húngara Csepel em 1958. Durante a visita, comentou que deveria haver ali uma estátua que lembrasse os trabalhadores da ideologia comunista e os encorajasse ao trabalho. A “falha” foi corrigida rapidamente, e uma estátua de bronze de Lênin, com a mão elevada, foi instalada em frente à fábrica no mesmo ano.

Estrela vermelha de cinco pontas

A estrela vermelha de cinco pontas é um emblema do movimento internacional dos trabalhadores. Durante o regime comunista, foi colocada em prédios públicos civis e militares, fábricas, escolas, até mesmo no topo do Parlamento. No centro do Parque Memento, há uma estrela de flores, semelhante à que havia perto do marco zero de Budapeste, em Buda.

No Brasil, é o símbolo do Partido dos Trabalhadores (PT).

Na Hungria, com uma emenda de 1993 ao Código Criminal de 1993, chegou a ser crime o uso do símbolo – assim como o da suástica, da SS (a polícia nazista), a cruz flechada (símbolo do Partido da Cruz Flechada, o “primo húngaro” do Partido Nazi) e a “foice & martelo” (outro conhecido símbolo comunista – como o do Partido Comunista do Brasil, PCdoB).

A polêmica sobre essa proibição renderia outro post cheio de Direito… talvez ainda renda! Mas o resumo da situação é o seguinte…

Attila Vajnai, um membro do Partido dos Trabalhadores da Hungria, usou um broche da estrela vermelha de cinco pontas e foi multado pelo Judiciário Húngaro. Apelou à Corte Europeia de Direitos Humanos, que, em 2008, decidiu contra a Hungria. Para a Corte, a multa aplicada pela Hungria violava a liberdade de expressão.

Em virtude desse e de casos semelhantes, em 2013 a Corte Constitucional da Hungria declarou inconstitucional aquela norma do Código Criminal, entendendo que a proibição dos símbolos era muito ampla e imprecisa. E o uso dos símbolos voltou a ser permitido em maio de 2013.

Memorial do Movimento dos Trabalhadores

Esse monumento, construído por István Kiss em 1976 em placas de aço, representa a supostamente perfeita ideologia do movimento dos trabalhadores. As duas mãos protegem esse tesouro frágil e ao mesmo tempo o exibem a todos.

Monumento à República Soviética Húngara

Antes da Primeira Guerra, a Hungria fazia parte do Império Austro-Húngaro, que, perdedor, desmantelou-se. O fim da monarquia foi seguido de instabilidade política, econômica, social e de política externa. Em 21 de março de 1919, aproveitando-se dessa instabilidade, ativistas liderados por Béla Kun e inspirados na Revolução Russa proclamaram uma ditadura do proletariado e criaram a República Soviética Húngara. O regime durou apenas 133 dias.

Para homenagear essa (primeira) República Soviética Húngara, os soviéticos do regime comunista posterior à Segunda Guerra resgataram uma imagem usada em posters de 1919, a ilustração “Às Armas!”, de Róbert Berény.

O escultor István Kiss tornou essa ilustração tridimensional por meio de sua estátua de 1969, que ficava também na Felvonulási tér, próxima às estátuas de Lênin e Stálin.

A população de Budapeste não tardou a ridicularizar a estátua. Diziam que parecia um gigante que vinha correndo pelo meio do Parque da Cidade, passando por entre as copas das árvores e tentando chamar a atenção de alguém: “Ei, você esqueceu seu cachecol!

Por fim, a parede dos fundos do parque

As alusões geniais do arquiteto Ákos Eleőd à promessa ilusória, circular e vazia do comunismo estão por toda parte. Os caminhos internos do parque, que levam às estátuas, têm o formato do símbolo matemático do infinito (∞, um “8 deitado”). O centro desses “infinitos” é o centro do próprio parque, onde está a estrela de cinco pontas feita com flores vermelhas. E o caminho que fica no eixo central do parque, por sua vez, leva a uma parede nos fundos.

Encerro com uma citação do livro “Na Sombra das Botas de Stálin – Guia de Visitantes ao Parque Memento” (In the Shadow of Stalin’s Boots – Visitor’s guide to Memento Park), que – além das informações ensinadas pela excelente guia que nos acompanhou durante a visita – foi referência muito útil na preparação deste post:

Mas a estrada na qual o visitante tem caminhado só continua por mais alguns metros: de repente ela atinge a parede dos fundos. Daqui não se pode ir adiante; só se pode voltar. É um beco sem saída.

Em Budapeste visitei até museu

Com tantos passeios por Budapeste (e ainda faltam algumas histórias a contar!) durante a Expedição 2015, visitei apenas dois grandes museus: o Museu Nacional da Hungria (Magyar Nemzeti Múzeum) e o Museu de Artes Aplicadas (Iparművészeti Múzeum), ambos no centro de Peste. Seria impossível comentar exaustivamente sobre cada as atrações de cada um, por isso me atenho a comentários sobre as favoritas – sejam do público em geral, sejam minhas.

Museu Nacional da Hungria

(mapa, website em inglês)

O Museu Nacional da Hungria foi fundado em 1802, mas só em meio século depois mudou-se para o grandioso palácio neo-clássico onde hoje se encontra, construído entre 1837 e 1847 pelo arquiteto Mihály Pollack.

A escadaria da entrada leva ao primeiro andar, onde, logo à esquerda, está exposta em uma sala com iluminação controlada uma das peças mais valiosas do museu: o manto da coroação, em tecido de seda bizantina bordado com fios de ouro e prata. Conforme a inscrição em latim na própria peça, o manto foi confeccionado por ordem do Rei Santo Estêvão (o primeiro rei da Hungria) e sua esposa Giselle no ano 1031. No site oficial há mais sobre a história do manto.

Ainda no primeiro o andar, há Entre o Oriente e o Ocidente, uma mostra arqueológica permanente, com artefatos encontrados no atual território da Hungria desde 400.000 a.C. até o século IX da era Cristã, quando os magiares se estabeleceram na região.

No segundo andar, está a grande exposição permanente sobre a História da Hungria, que contempla desde a criação do Estado Húngaro (em 896) até a queda do regime comunista (em 1990). Gostei particularmente (como tende a ser o caso) da parte que mostra móveis, vestimentas e objetos dos séculos XVIII e XIX, quando a Hungria estava sob o domínio da dinastia dos Habsburgos. A parte sobre a Segunda Guerra (da qual a Hungria participou do lado perdedor) decepcionou; parece haver uma perspectiva histórica distorcida, de vitimização, como se a participação do Estado Húngaro tivesse sido totalmente passiva.

Uma das minhas partes preferidas do museu conta a história de um piano muito especial. Foi fabricado por Thomas Broadwood, de Londres, que construía os melhores e mais modernos pianos da época, e enviado a Viena em 1817. Pertenceu a ninguém menos que Beethoven, que, segundo o relato histórico, amava o instrumento e o utilizou até vir a falecer. O piano foi adquirido em um leilão por C. A. Spina, um negociante de arte e editor de música. Em sinal de respeito, Spina doou o piano a Liszt, o compositor maior da Hungria, grande admirador de Beethoven. Liszt, por sua vez, doou o piano ao Museu nacional da Hungria em 1873. Hoje o instrumento está lá exposto. O nome “Beethoven” está gravado no mogno, acima do teclado.

Museu de Artes Aplicadas

(mapa, website em inglês)

O palácio do Museu de Artes Aplicadas foi, literalmente, o primeiro edifício de Budapeste que me chamou a atenção. No táxi do aeroporto para nosso airbnb, ao ver a linda cúpula com cerâmicas coloridas Zsolnay (do mesmo estilo das que estão na Igreja Mátyás e na Igreja Calvinista, em Buda), mandei uma mensagem para minha irmã, que já estava no apartamento. “Lu, estou passando por uma cúpula verde espetacular… tô perto?

 

A cúpula verde espetacular

Vista aérea (foto de foto) do palácio do museu

No teto da entrada do palácio, mais cerâmica Zsolnay

O palácio do museu por si só vale a visita. Foi projetado pelos arquitetos Ödön Lechner e Gyula Pártos no estilo Secessão, ligado ao Art Nouveau, e inaugurado pelo Imperador Franz Joseph em 1896, para a festa do milênio da Hungria. Notam-se as influências Indo-Orientais e, especialmente na parte externa, o uso da cerâmica Zsolnay.

A coleção permanente inclui peças de mobiliário, têxteis, vidros, cerâmicas e obras de arte. No dia da nossa visita, as mostras temporárias eram sobre arte islâmica e sobre a obra fantástica e criativa do próprio Lechner.

Vitral da cúpula

O pátio interno e as galerias com arcos indo-orientais

Detalhes dos arcos próximos às escadarias

Aquincum: a origem romana de Buda

Não conheço a Itália (ainda). Já vi algumas construções ou ruínas romanas na Alemanha (em Bonn) e no Reino Unido (em York). Por isso, estava bastante curioso para conhecer as ruínas romanas de Aquincum, ao norte de Buda. Num dia de folga, atravessamos de metrô para a estação Batthyány ter, de onde tomamos um trem HÉV até o Museu Aquincum. Chegando lá, fiquei muito impressionado com o tamanho do parque arqueológico.

Panorama do parque arqueológico de Aquincum

Em meados do primeiro século depois de Cristo, os romanos estabeleceram um castrum, assentamento militar para fins de defesa, na região da atual Óbuda (literalmente, Antiga Buda). Ao norte dali, formou-se o assentamento civil que deu origem a Aquincum.

Em 106 d.C., o Imperador Traianus elevou Aquincum ao status de capital da província romana de Pannonia Inferior. Seu sucessor, o Imperador Hadrianus, declarou-a Colonia Splendidissima. No seu auge, Aquincum chegou a ter entre 50.000 e 60.000 habitantes.

Nos seus cinco séculos de existência, Aquincum chegou a uma área de 2,7 quilômetros quadrados. Os muros da cidade tinham 1,5 quilômetro de extensão, e o aqueduto, 3,5 quilômetros. Havia dois anfiteatros – um civil, para 5.000 ou 6.000 pessoas, e um militar, para 13.000 pessoas – e dois fóruns, importantes centros da vida pública romana. Também havia 9 banhos públicos (apenas 2 a menos que Roma!) e 4 banhos privados. Já naquela época surgia a tradição das termas de Budapeste.

A cidade começou a decair a partir das invasões dos Sármatas (povos iranianos), em meados do século IV, e dos Germanos, a partir do século V. Na Idade Média, Buda surgiu onde ficava o campo de legionários de Aquincum; no outro lado do Danúbio, Peste surgiu a partir da fortificação romana de Contra-Aquincum.

Em 1778, um vinicultor de Óbuda descobriu resquícios de de um sistema de aquecimento de uma antiga casa romana. Foi a primeira descoberta arqueológica ligada à cidade de Aquincum. Aos poucos, uma área maior foi escavada, embora chegando apenas a um quarto da área original da antiga cidade.

As ruínas visíveis hoje demonstram o impressionante nível de urbanização de Aquincum: ruas calçadas, fórum, tribunal (basilica), anfiteatro, mercado público (macellum) e aqueduto, templo (Mithraeum), além de prédios privados, como casas e lojas (tabernae). É fácil identificar as fornalhas para o aquecimento das águas dos banhos e o avançado sistema de aquecimento das casas: sob o piso passavam canais de água quente e vapor.

Junto ao muro da cidade, hoje está o lapidarium, com diversos túmulos, estátuas e monumentos de pedra. Outra atração é a casa de um pintor do século II, reconstruída para demonstrar a arquitetura e o estilo de vida da época. No prédio do museu estão os artefatos encontrados nas escavações.

A Budapeste dos cafés e restaurantes

Parte importante da Expedição 2015 foi conhecer diferentes cafés e restaurantes de Budapeste, seja para descansar dos intensos passeios nos dias de folga, seja para sair um pouco de casa nos dias de trabalho e passar o dia abusando do WiFi grátis. O New York Café – o mais lindo do mundo – ganhou um post especial devido ao seu interior espetacular, mas visitamos muitos outros. Neste post ficam algumas dicas, antes que a memória comece a falhar…

BookCafé

Andrássy út 39 (mapa, Facebook)

Na chiquérrima Avenida Andrássy funcionava a Grande Loja de Departamentos Paris (Párisi Nagyáruház), que abriu em 1910 num lindo edifício no estilo Art Nouveau (na parte da frente). Hoje funciona ali a livraria Alexandra.

Fachada da livraria Alexandra, na Andrássy út

A Kis Herceg – O Pequeno Príncipe, em húngaro, na livraria Alexandra

Uma escada no segundo andar da parte dos fundos da livraria leva ao surpreendente Salão Lotz (Lotz terem), de estilo distinto (Neo-Renascentista), que abriga o BookCafé, um dos nossos preferidos para trabalhar (e o café e os pratos de almoço eram bastante bons também). Alguns garçons até nos reconheciam. Viramos fregueses!

O BookCafé poderia muito bem rivalizar com o New York Café como o mais lindo do mundo. O salão é ricamente decorado com candelabros e, no teto, pinturas de Károly Lotz – o mesmo artista húngaro que pintou o teto do salão da grande escadaria do Parlamento Húngaro e que contribuiu com vitrais para a Igreja Mátyás, em Buda.

O interior do BookCafé

Detalhe do teto do BookCafé

Smúz

Kossuth Lajos tér 18 (mapa, Facebook, web)

Outro café de que viramos fregueses foi o Smúz. Lá, o café era um dos melhores. Também servem uma deliciosa limonada quente com gengibre (Gyömbéres limonádé). Como fica na Praça Kossuth Lajos, tem vista privilegiada para o Parlamento e o Danúbio.

Não resisti e tirei foto da minha página preferida do cardápio – puro design.

Anyám szérint… According to my mom…

Wesselényi u. 25 (mapa, Facebook)

Outro café muito bom – especialmente para o café da manhã – e pertinho de casa era uma casinha de boneca de alguém que preza muito a opinião de sua mãe, a ponto de chamar seu estabelecimento de De acordo com minha mãe… Foi bastante tranquilo trabalhar no segundo andar, razoavelmente silencioso e com pouco movimento.

Hummus Bar Budapest

Wesselényi u. 14 (mapa, Facebook, web)

Passando aos restaurantes: na mesma rua do “De acordo com minha mãe…”, quase atrás da Grande Sinagoga, fica o nosso restaurante preferido da rede Hummus Bar Budapest. É de suspirar só de pensar no hummus dali. Delicioso. Porções muito fartas e baratas.

E o uso da vírgula serial (“hummus, falafel, and more…”) deixa o lugar ainda mais encantador.

Mazel Tov

Akácfa u. 47 (mapa, Facebook, web)

Quase ao lado de casa, na rua Akácfa mesmo, fica o “ruin pub” Mazel Tov. O hummus ali é igualmente delicioso ao do Hummus Bar – justamente por ser da mesma rede.

Rosé Étterem

Akacfa u. 24 (mapa, web)

Não longe do Mazel Tov fica o Restaurante Rosé (Rosé Étterem), que minha irmã insistentemente chamava de Rosie’s. Era um refúgio ideal para um almoço muito bom e próximo de casa.

KönyvBár & Restaurant

Dob u. 45 (mapa, Facebook, web)

Também no Erzsébetvaros, pertinho de casa, fica o KönyvBár & Restaurant. Repleto de estantes de livros, lembra uma aconchegante biblioteca. Foi ali que provei meu primeiro Tokaji, o vinho de sobremesa da região de Tokaj. Esse vinho recebeu a primeira denominação de origem da história, a partir de 1730.

Nonloso Caffé

Zrínyi u. 16 (mapa, Facebook, web)

Perto da Basílica de Santo Estêvão fica o Nonloso, um dos primeiros restaurantes a que fomos; talvez tenha até sido o da noite da minha chegada. A taça de vinho tinto da casa, que pedi no tamanho médio para pegar leve, era mesmo assim praticamente um balde.

Tivemos de voltar lá mais vezes para repetir o mesmo prato: queijo camembert recheado com cogumelos chanterelle refogados, servido com molho de frutos silvestres e salada de folhas frescas. “Vamos lá naquele do camembert?”

Dunacorso Étterem

Vigadó tér 3 (mapaFacebook, web)

O Restaurante Dunacorso é um restaurante mais turístico, de excelente qualidade, à beira do Danúbio. Das mesas na parte externa há lindas vista para o Castelo de Buda, logo do outro lado do rio, e para o Teatro Vigadó (Vigadó Concert Hall).

Dunacorso e, ao fundo, o Castelo de Buda

Teatro Vigadó

Callas Café & Restaurant

Andrássy út 20 (mapaFacebook, web)

O restaurante da janta de despedida, no final de maio, foi o Callas. Em plena Avenida Andrássy, bem ao lado da Ópera, o restaurante só poderia ser grandioso e de pura elegância. Escolhemos uma mesa na parte externa, para aproveitar a música ao vivo e a vista noturna da Ópera.