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Miniversum e mais um gostinho (amargo) de comunismo

Miniversum (website em inglês, mapa), na Avenida Andrássy, é uma exibição de maquetes e miniaturas, principalmente de Budapeste e da Hungria, mas também com seções dedicadas à Áustria e à Alemanha. É legal para adultos, pela riqueza de detalhes e informação, e para crianças, pela interatividade – há botões que acionam sons, luzes e movimentos.

Há miniaturas perfeitas de muitos dos prédios importantes da cidade. Gostei especialmente de ver os detalhes dos edifícios que, no tumulto urbano, são difíceis de contemplar (por causa do trânsito, dos cabos de bonde, das árvores) – como é o caso da Estação Budapeste-Ocidente, conhecida simplesmente por Nyugati (Budapest-Nyugati pályaudvar, mapa).

Budapest-Nyugati pályaudvar no Miniversum

Como na série Expedição 2015 já publiquei muitas fotos dos próprios prédios, dedico o resto deste post à mostra A Vida sob o Comunismo (Life Under Communism) do Miniversum, que traz dez cenas e lugares da era comunista na Hungria.

A construção de moradias populares era dever do Estado durante a era comunista, e o ímpeto de industrialização levou a uma rápida urbanização. Cerca de 800.000 apartamentos de 30 a 70 metros quadrados foram construídos em materiais pré-fabricados, em prédios padronizados de quatro ou dez andares, além de escolas, centros comunitários etc. Cerca de um quinto da população da Hungria ainda vive nesses edifícios pré-fabricados. A população desses centros residenciais comprava os alimentos a baixo custo nas lojas ABC – como até hoje são conhecidos os mercadinhos e as lojas de conveniência em Budapeste!

Residências populares pré-fabricadas

No post sobre o Parque Memento incluí uma foto de um monumento aos Pioneiros, o movimento criado pelo Partido Comunista. Esse movimento estabeleceu diversos acampamentos de verão, onde a ideia era para doutrinar os jovens na ideologia soviética comunista, para torná-los fiéis ao partido. As crianças e jovens até queriam que esses retiros fossem férias, mas a disciplina era rígida. No auge do movimento, até 200.000 crianças e adolescentes participavam desses acampamentos por ano. Na prática, a participação era obrigatória para estudantes de 10 a 14 anos.

Acampamento do Movimento dos Pioneiros

Também no post sobre o Parque Memento há uma foto de uma estátua de Lênin colocada em frente a uma fábrica após uma “sugestão” de Khrushchev. Essa estátua ficava na entrada do distrito industrial Csepel, criado em 1892 numa área de 200 hectares não muito distante do centro de Budapeste.

Durante o regime comunista, 30.000 pessoas chegaram a trabalhar em Csepel na produção de máquinas, bicicletas e motocicletas para os países membros do Conselho para Assistência Econômica Mútua (Comecon), a organização econômica dos países do bloco comunista, que existiu de 1949 até 1991. Com a restauração do capitalismo, desapareceu o mercado para os produtos de baixa qualidade fabricados em Csepel. Por isso, hoje há apenas pequenas fábricas no velho complexo.

Csepel

O regime comunista na Hungria – como em diversos países soviéticos e em outros países comunistas até hoje – implantou o controle central da economia pelo Estado, sem considerar as circunstâncias de mercado. Abriram-se mineradoras inviáveis economicamente, com policiamento de uma milícia ligada ao Partido Comunista, para fornecer matéria-prima e energia para a indústria pesada criada artificialmente pelo Estado. Praticamente não havia desemprego – mas a produção era ineficiente e havia desperdício de recursos.

Modelo de mineradora da era comunista

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Eu quero um contrato

A Maria* veio aqui em casa na sexta-feira para fazer a sua mágica, como costumo dizer. Em três ou quatro horas ela tira o pó, passa aspirador, lava alguma roupa ou louça de que eu não tenha dado conta durante a semana, troca roupas de cama e toalhas. Ela vem rapidinho, faz um café preto forte pra si (e pra mim também, claro, quando estou em casa), fica ouvindo música. Enquanto isso, vai deixando o apartamento todo (ainda mais) limpo, cheiroso e organizado.

Para ressaltar a importância da Maria, bastaria dizer que ela deixa o parquet brilhoso. Quem me conhece – e ainda mais quem já me visitou e conhece minha única regra para entrar aqui: tirar o calçado de rua e colocar chinelinhas de andar em casa – sabe quão neuroticamente importante para mim esse bendito parquet estar bem cuidado e brilhoso. A Maria vem e deixa o parquet brilhoso. Ou seja, é praticamente assim uma Santa Maria.

Não sou bagunceiro e até que sou bem limpinho, então às vezes dou conta sozinho por aqui. Mas a bem da verdade não gosto de fazer isso. Sem querer soar esnobe, não preciso fazer isso. Os honorários da Maria são razoáveis e eu não me importo de pagá-los; aliás, gosto de pedir que ela venha. Além de fazer um bom serviço, ela é uma pessoa do bem. Trabalha muito: três ou quatro faxinas por dia, mais um emprego à noite, lavando louça num restaurante. É humilde e tem uns quantos filhos. Ela escreve (às vezes me deixa uma lista com o que falta de material de limpeza), acho que bastante bem, mas se vê que não teve oportunidade de estudar muito. Conta com que seus “patrões”, como ela diz, continuem contando com ela.

Tem vezes que a Maria gosta de conversar. Se estou trabalhando, nem sempre posso dar muito papo. (Ha! Agora me lembro de que uma vez ela veio e eu estava em casa porque tinha tirado um siso; o motivo de eu não poder falar, nesse caso, era outro.) Na sexta-feira, quando ela estava terminando o serviço dela, eu já tinha terminado o meu dia de trabalho, então ainda pudemos conversar. Ela me contou que mandou trocar o telhado da casa dela.

– Ah, estava precisando trocar. Aí eu pedi um orçamento para o senhor que ia fazer a obra. Ele não quis me fazer um orçamento pelo serviço todo. Quis cobrar por dia. Eu não gostei muito. Cem reais por dia, pra ele e pro ajudante. Prometeu levar uns dois ou três dias. Mas eu sou pobre, né, seu Martin. E se ele começa a enrolar ou demorar, sei lá, e acaba levando uns sete dias? Eu não teria esse dinheiro todo pra pagar pra ele. Ah, seu Martin, então sabe o que eu fiz?

– O que, Maria? – eu estava genuinamente interessado!

– Pedi pra fazer um contrato com ele.

contrato

O meu rosto se iluminou. A Maria tinha acabado de ganhar minha total atenção. Continuou:

– Coloquei assim no papel: “Eu, Maria, estou fazendo um contrato com o senhor Fulano, para trocar meu telhado…” Ele não gostou muito. Ficou me perguntando, “mas isso vai complicar minha vida; a senhora não vai ficar dizendo por aí que fez contrato comigo, né?” Então eu disse pra ele, “olha, o que importa é que sem contrato eu não faço”. Ah, seu Martin, empresa grande faz a gente assinar contrato pra tudo; por que eu não posso fazer também, pra me sentir segura, pra não me passarem pra trás? Então eu fiz contrato. E ele terminou em dois dias.

Claro que encorajei a Maria.

– Tem que fazer contrato, mesmo. Acho ótimo. Não tem nada de mal nem de errado nisso.

Fiquei pensando em quanta energia já despendi em vão (profissionalmente e também em círculos familiares) orientando gente com educação superior a fazer contrato – para fixar preço, cronograma, multa por atraso etc. – e afinal vi tudo feito no fio do bigode; e mais tarde o orçamento foi excedido ou o cronograma, atrasado; e ainda mais tarde me vieram pedir ajuda. Até ajudo (nem tudo está perdido; contrato verbal também é contrato), mas primeiro vão me ouvir dizer: “bom, eu avisei.” Também me lembrei da série de posts sobre negociação, revisão e redação de contratos, que escrevi um tempo atrás.

A história do contrato da Maria me sinaliza esperança, uma luz no fim do túnel. Uma brasileira trabalhadora, mesmo com poucos recursos e limitada educação formal, não se acanha de usar as ferramentas jurídicas e econômicas que conhece e tem à disposição. Pouco importa a forma humilde (“Eu, Maria, estou fazendo um contrato…”). O que importa é a mensagem, que a Maria conseguiu transmitir muito bem para o senhor Fulano e que no Brasil precisamos transmitir todos os dias: estamos cansados de ser passados pra trás.

* O nome dela não é Maria, claro. Mas a quem quiser recomendação de diarista em Porto Alegre eu, com gosto, repasso o nome e o telefone dela.

Vergonhosamente motorizado

Durante um curto tempo com carteira de habilitação vencida e sem carro, andei de ônibus em Porto Alegre. Sou muito favorável ao transporte coletivo, apesar dos contratempos, por ser mais sustentável, menos estressante, mais produtivo. Cada vez mais convicto de que o custo de ter um carro não cobre a comodidade (há até calculadoras online que facilitam essa avaliação), comecei a refletir seriamente sobre me desfazer do carro.

Com vergonha e um quê de irresignação, admito que decidi não me desfazer do carro por enquanto. Meus motivos são fracos:

  • Gosto da (sensação de) liberdade proporcionada por ter um carro. Dá trabalho na vida não ter um, e eu ando um pouco chateado de passar trabalho. Pronto: juntei já no primeiro item os motivos mais fracos, egoístas, insustentáveis, vergonhosos.
  • A experiência de andar de ônibus piorou bastante por causa de uma onda de calor fora de época. Comecei a pensar em mim, de gravata, no verão: três meses, com alta umidade e temperaturas acima de 30 graus, em ônibus cheios e potencialmente abafados.
  • Com as esperas pelos ônibus e os trajetos feitos mais lentamente que de carro, vi que se esvaiu bem mais rapidamente meu pouco tempo disponível fora do trabalho. Este item a ver com a aversão a passar trabalho, mas num nível mais profundo: quando passar trabalho significa perder tempo já escasso, eu me sinto mais autorizado a ser egoísta.
  • O status quo me afeta significativamente. Eu já tenho um carro. Se não tivesse, talvez persistisse mais na ideia de usar transporte coletivo e eventualmente táxi.
  • A perda de padrão de vida me incomoda mais do que gostaria de admitir. Talvez porque não seja só uma perda aparente. Porto Alegre (ainda) não é (mais) uma cidade com transporte público conveniente e bom o suficiente a ponto de atrair classe média.

“Por que ter um carro, não precisando de um?” Ainda penso assim, mas acabei concluindo que, em Porto Alegre, preciso de um carro. Espero um dia sentir que não preciso mais.

Como redigir um contrato sem saber Direito?

No primeiro texto desta série sobre negociação, revisão e redação de contratos, comentei que cada um de nós, mesmo sem formação jurídica, negociará ou revisará um contrato em algum momento da vida. Porque, afinal, “viver é contratar”. (Forcei a barra?)

No segundo texto, tratei da importância de conhecer o editor de texto e usar as ferramentas que ele disponibiliza, tanto para preparar quanto para revisar ou negociar um contrato. Dei dicas de formatação que valem para advogados e não advogados.

Comecei o terceiro texto com uma provocação: Como negociar um contrato sem saber Direito? Meu argumento é que negociar um contrato não precisa ser motivo de pânico, mesmo para quem não tem formação em Direito. Dei dicas válidas para todos os públicos.

O foco do texto de hoje é a redação contratual. Começando também com uma provocação: Como redigir um contrato sem saber Direito? Sem saber Direito, negociar um contrato pode ser difícil, mas é viável; redigir um contrato pode ser viável, mas é difícil. (Sutil a diferença?)

A atividade econômica exige que todos possam redigir contratos, assim como revisá-los e negociá-los. O Estatuto da OAB não inclui a redação contratual expressamente na lista de atividades privativas de advogado. Entendo que não poderia ser diferente. Há Projeto de Lei na Câmara dos Deputados que pretende incluir nessa lista o “assessoramento jurídico em contratos e acordos extrajudiciais”. Mesmo que o projeto seja aprovado, o que seria privativo seria o assessoramento jurídico quanto aos contratos, e não a redação deles.

Sem exagero, redigir um contrato sem saber Direito é tão difícil quanto opinar sobre o tratamento médico adequado sem ter estudado Medicina, ou quanto elaborar um projeto de engenharia sem ter estudado Engenharia. Felizmente para a qualidade dos tratamentos médicos, é preciso estudar Medicina e ser inscrito no Conselho Regional de Medicina para prescrever tratamentos médicos. Felizmente para a qualidade das obras de engenharia, é preciso estudar Engenharia e ser inscrito no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia para assinar projetos de engenharia. Qualquer um pode opinar sobre tratamento médico e elaborar projeto de engenharia, informalmente, mas só médico pode prescrever tratamento médico e só engenheiro pode assinar projeto de engenharia, legalmente.

Existem motivos (além de uma intenção de reservar mercado!) por que só médicos e engenheiros podem atuar nas suas respectivas áreas. Tanto médicos quanto engenheiros têm conhecimento acadêmico e treinamento específicos, além de responsabilidade profissional pelo que fazem. No caso dos médicos, isso importa para a segurança dos pacientes; no dos engenheiros, para a segurança das obras de engenharia. 

Contratos redigidos por advogados têm benefícios análogos. Escritos por pessoas com conhecimento acadêmico e treinamento específicos, serão produtos intelectuais de mais qualidade. Os advogados têm responsabilidade profissional pelo trabalho jurídico que desempenham e, por meio dele, podem oferecer mais segurança jurídica a seus clientes.

Como negociar um contrato sem saber Direito?

Como comentei no primeiro texto desta série, cada um de nós, mesmo sem formação jurídica, precisará negociar um contrato em algum momento. Essa necessidade pode angustiar quem não tem formação em Direito, mas não há motivo para pânico. Compilei cinco dicas:

1)

A primeira é bastante óbvia, mas não por isso poderia ser dispensada: sabe aquilo de “não sou advogado, não vou entender, não adianta nem ler”? Nem pensar. Lê todo o contrato.

2)

Se estiveres diante de um contrato proposto de forma unilateral e padronizada pelo outro contratante, que não te dá chance de discutir ou modificar qualquer aspecto substancial, estás diante de um contrato por adesão. Nesse caso, resta identificar os riscos de contratar, ou pedir a um advogado que os identifique, sem pretensão de alterar o texto. (Pode acreditar: a operadora de telefonia celular não vai mudar seu contrato-padrão só porque estás pedindo.)

Se os riscos forem excessivamente altos, talvez o mercado ofereça alternativas. E se decidires assumir os riscos, tens a vantagem de que, em caso de problemas posteriores, o contrato será interpretado de forma mais favorável a ti. Essa interpretação mais favorável é garantida por lei.

3)

Uma coisa é a necessidade de um padrão. Por exemplo, é difícil imaginar uma operadora de telefonia (ela de novo) personalizar profundamente os contratos que tiver com cada usuário. A gestão contratual ficaria inviável. O serviço de telefonia varia entre os usuários, mas nem tanto.

Outra coisa bem diferente é a conveniência de um padrãoPara a gestão contratual de uma imobiliária, por exemplo, pode ser conveniente usar um mesmo modelo para todos os contratos. Porém, isso não quer dizer que a atividade da imobiliária imponha a necessidade de padronizar. Cada locação tem especificidades que dependem do imóvel, do locador, do inquilino. Nesse contexto, até faz mais sentido personalizar que padronizar.

Dessa forma, ao receberes um contrato “inalterável”, identifica se há real necessidade ou apenas conveniência de padronização. Se te enviarem uma primeira minuta contratual já em formato não editável (por exemplo, PDF), dizendo que não serão aceitas alterações “porque o contrato é padrão” ou “porque é gerado pelo sistema”, desconfia e questiona. É assim porque precisa ser, ou porque não estão dispostos a negociar? Pede uma minuta editável.

Se notares resistência, pensa se queres mesmo estabelecer uma relação contratual com um contratante inflexível, que te trata como número e não como parceiro. Talvez consigas encontrar alguém mais disposto a negociar e preparar um contrato que atenda tanto aos interesses dele quanto aos teus. Não há arrogância em querer ser tratado como VIP. Todos merecemos isso.

4)

Contratos são documentos importantes no mundo jurídico, porque criam direitos e obrigações. Os advogados que os elaboram empregam certos termos técnicos do Direito. Tudo certo e normal.

Porém, um contrato que só alguém com formação jurídica consegue entender tem algo de errado e anormal. Lembrando a primeira regra de ouro de Deirdre McCloskey, se um texto não está claro, a culpa é de quem o escreveu, nunca do leitor. Portanto, busca esclarecer o que está difícil de entender, corrigir erros e ambiguidades, equilibrar direitos e obrigações.

5)

Ao pedir auxílio jurídico quanto a um contrato, identifica o que é jurídico e o que é negocial. Teu advogado pode indicar o limite máximo de uma multa contratual, com base na lei e nas decisões judiciais, e talvez queira até opinar – mas não necessariamente queira sugerir ou decidir se haverá uma multa contratual no teu contrato e de quanto será. Ele poderá te ajudar a identificar os riscos da contratação – mas não necessariamente queira opinar ou te influenciar quanto a assumir ou não esses riscos. Enfim: teu advogado pode ajudar com questões jurídicas em um contrato, mas em regra as decisões negociais cabem a ti, como dono do negócio.

Encanto arranhado

Ontem, a caminho da parada de ônibus, fiquei sabendo que os ônibus não circulariam todo o dia. Paralisação. Poucos dias depois de ter ficado sem carteira nem carro e de ter escrito o seguinte:

[S]ou superpró-ônibus, desde que não esteja superlotado. É bem mais sustentável e bem menos estressante que enfrentar o trânsito sozinho. Leio, ouço música, até escrevo. Foi o que consegui fazer hoje. Vamos ver quanto tempo dura o encanto.

A paralisação me forçou a enfrentar uma corrida de táxi de 60 minutos e 33 reais para chegar ao trabalho. O encanto ficou um pouco arranhado depois dessa, mas não desistirei.

Primeiro, porque ir ao trabalho todos os dias de táxi seria impo$$ível.

Segundo, porque o problema não é o ônibus como meio de transporte – é a impossibilidade de depender exclusivamente do ônibus, por causa do descaso público quanto ao transporte público.

Terceiro, porque tenho uma dorzinha moral quando uso o transporte individual. Usar o carro pode até ser mais cômodo e econômico para mim, mas impõe custos sociais que eu poderia ajudar a evitar: o trânsito, a poluição (sonora, atmosférica) e a emissão de gases estufa, principalmente.

Aliás, tenho dúvidas se usar o carro é mais cômodo. Dirigindo, não posso ler nem escrever. Digo sem orgulho que escrevo, mesmo assim, mas cuidando para apenas digitar rapidamente no celular enquanto espero um sinal verde – e, mesmo com esse cuidado, assumo conscientemente o risco de uma multa. Dirigir na cidade é tempo improdutivo e estressante. Comodidade há, mas até ali.

Também tenho dúvidas se usar o carro é mais econômico: combustível, estacionamento, seguro (que não custa pouco para um carro modesto de um guri solteiro em uma capital cara e com alto índice de furtos e roubos), IPVA e outros tributos, manutenção, lavagens, consertos eventuais, o preço pago pelo próprio carro, a depreciação do carro e a economia necessária para a compra de outro quando o atual deixar de andar bem e tiver de ser trocado (senão antes). Se colocar tudo na ponta do lápis (leia-se “planilha”), o custo não cobre nem a (questionável) comodidade do carro.

O livro de agosto: Crossing

Em junho baixei um e-book gratuito disponibilizado pela University of Chicago Press no seu site de e-books gratuitos do mês. Comecei a ler o livro não logo que o baixei, mas há algum tempo (excessivo), e tinha me determinado a concluí-lo até o fim de agosto. Uma semana adiantado, terminei de ler Crossing: A Memoir, por Deirdre McCloskey (University of Chicago Press, 1999).

Por recomendação do grande Dr. Leo Monasterio, meu professor e orientador em dois ou três ou quase todos os projetos de pesquisa no curso de Economia, minha primeira leitura de McCloskey foi Economical Writing. O livro trata de forma prática sobre redação, estilo e retórica na academia. Enfatiza um pouco a escrita em Economia, em função da especialidade da autora, mas traz lições aplicáveis à escrita acadêmica em geral — aliás, sem exagero, à escrita em geral.

Foi contaminado com esse preconceito positivo que resolvi ler Crossing, da mesma autora, mas com um tema bem diferente: memórias de como ela atravessou a barreira do gênero e se tornou Deirdre, depois de 53 anos vivendo como Donald, casado por 30 anos, pai de dois filhos.

Confesso que inicialmente fiquei um pouco frustrado com a leitura. Tendo como parâmetro de comparação Economical Writing, um texto persuasivo e sucinto que mudou minha vida (sério, mesmo!), achei que Crossing parecia interminável. Em trechos, a autora divaga e conta detalhes irrelevantes para o fio condutor da narrativa, a ponto de me pôr em dúvida sobre continuar lendo.

Li até o fim, em parte porque sou avesso a desistências e em parte pela esperança de que o aparentemente irrelevante teria, afinal, alguma importância. Em regra, minha esperança foi em vão: confirmei que a maioria dos detalhes era mesmo irrelevante.

Mea culpa: tive expectativas equivocadas. Enfeitiçado pela densidade de Economical Writing, esperei o mesmo de Crossing, sem dar atenção a um detalhe tão básico, no subtítulo do livro: A Memoir. Tolinho, eu, esperando objetividade em um livro de memórias, uma obra autobiográfica.

Valeu a pena ler o livro até o fim? Sem dúvida. O jeito, para o leitor impaciente como eu, é nadar mais rápido até a margem do rio de irrelevância e correr para as montanhas onde está o ouro.

É fascinante a história, em termos gerais. Donald, professor universitário estabelecido, aos 53 anos resolve mudar de gênero e, assim, colocar em risco sua vida profissional (que Deirdre mantém com sucesso), suas amizades (que Deirdre mantém, em grande parte) e familiar (que Deirdre perde quase por completo). Independentemente de crítica, não é uma história que se leia com frequência. Vale a pena só por isso.

É surpreendente a firmeza de Deirdre em afirmar que a troca de gênero pela qual passou é uma questão de identidade, e não de sexualidade. Quanto ao assunto transexualidade, eu tinha em mente aquela visão estereotipada, “mulher presa em corpo de homem, ou homem, em corpo de mulher”. A leitura do livro me indicou que não tem de ser assim. Donald viveu bem e feliz e realizado como Donald. Não era efeminado nem se sentia atraído por outros homens. Decidiu tornar-se mulher porque, depois de uma epifania (explicada, mas não muito bem, nas páginas 49 a 51), percebeu que tinha identidade feminina e queria e podia tornar-se mulher.

É eletrizante a saga de Deirdre na luta contra os hospitais psiquiátricos e contra a própria irmã, que tentou interditá-la civilmente. A descrição amarga de Deirdre sobre sua percepção exagerada quanto aos protocolos de tratamento no processo de interdição é bastante marcante (traduzo livremente da página 98):

A vítima [o interditando] não tem direitos civis, especialmente se for pobre e não puder contratar um bom advogado; nada que ela diga terá crédito; as pessoas que dão início ao processo de interdição não estão sujeitas a nenhuma punição de perjúrio ou responsabilidade civil nem mesmo custas judiciais se o seu testemunho for enfim considerado falso; e os psiquiatras fazem todo o possível para evitar a responsabilidade de devolver a liberdade às vítimas, são covardes quanto a assumir a responsabilidade de fazer isso e, com efeito, ficam isentos de responsabilidade pelas consequências de uma detenção irrazoável do interditando.

É comovente o relato de Deirdre sobre o abandono que sofreu da maior parte da família após a decisão de trocar de gênero (mesmo antes de decidir ir até o fim e fazer a operação de troca de sexo). Tudo bem que a família tenha dificuldade em aceitar e leve tempo para aceitar, mas, depois de fato consumado, não faz sentido não aceitar. A esposa perdeu o marido (homem) e os filhos perderam o pai (homem), mas a pessoa que eles amavam como marido ou pai continuou existindo. No caso de Deirdre, não importou: sua ex-mulher e seus filhos cortaram relações com ela. A reflexão é inevitável. Natural? Radical? Faríamos o mesmo se acontecesse com alguém de nossa família? Quais são os limites do amor?

Por fim, é interessante como a autora demonstra que muitas das diferenças entre mulheres e homens são culturais (e não genéticas). Foi por isso que ela conseguiu tornar-se muito mais feminina que se poderia supor que sua genética masculina permitiria.

Ao mesmo tempo, é provocante e irritante como, ao mesmo tempo, ela reforça estereótipos. De forma feminista, enaltece as virtudes do Clube da Luluzinha e menospreza os vícios do Clube do Bolinha: homem “eu”, mulher “nós”; homem emocionalmente burro, mulher empática e sentimental; homem monotarefa, mulher multitarefa; homem agressivo, mulher sensível.

Esse tipo de estereótipo me cansa. O fato de um Donald pode se tornar uma Deirdre com bastante sucesso (aceitação social como mulher) demonstra não só que o determinismo genético sobre as características de gênero é um mito, mas também que as condicionantes socioculturais também podem ser vencidas e que, portanto, os estereótipos devem ser desconstruídos.