O livro de agosto: Crossing

Em junho baixei um e-book gratuito disponibilizado pela University of Chicago Press no seu site de e-books gratuitos do mês. Comecei a ler o livro não logo que o baixei, mas há algum tempo (excessivo), e tinha me determinado a concluí-lo até o fim de agosto. Uma semana adiantado, terminei de ler Crossing: A Memoir, por Deirdre McCloskey (University of Chicago Press, 1999).

Por recomendação do grande Dr. Leo Monasterio, meu professor e orientador em dois ou três ou quase todos os projetos de pesquisa no curso de Economia, minha primeira leitura de McCloskey foi Economical Writing. O livro trata de forma prática sobre redação, estilo e retórica na academia. Enfatiza um pouco a escrita em Economia, em função da especialidade da autora, mas traz lições aplicáveis à escrita acadêmica em geral — aliás, sem exagero, à escrita em geral.

Foi contaminado com esse preconceito positivo que resolvi ler Crossing, da mesma autora, mas com um tema bem diferente: memórias de como ela atravessou a barreira do gênero e se tornou Deirdre, depois de 53 anos vivendo como Donald, casado por 30 anos, pai de dois filhos.

Confesso que inicialmente fiquei um pouco frustrado com a leitura. Tendo como parâmetro de comparação Economical Writing, um texto persuasivo e sucinto que mudou minha vida (sério, mesmo!), achei que Crossing parecia interminável. Em trechos, a autora divaga e conta detalhes irrelevantes para o fio condutor da narrativa, a ponto de me pôr em dúvida sobre continuar lendo.

Li até o fim, em parte porque sou avesso a desistências e em parte pela esperança de que o aparentemente irrelevante teria, afinal, alguma importância. Em regra, minha esperança foi em vão: confirmei que a maioria dos detalhes era mesmo irrelevante.

Mea culpa: tive expectativas equivocadas. Enfeitiçado pela densidade de Economical Writing, esperei o mesmo de Crossing, sem dar atenção a um detalhe tão básico, no subtítulo do livro: A Memoir. Tolinho, eu, esperando objetividade em um livro de memórias, uma obra autobiográfica.

Valeu a pena ler o livro até o fim? Sem dúvida. O jeito, para o leitor impaciente como eu, é nadar mais rápido até a margem do rio de irrelevância e correr para as montanhas onde está o ouro.

É fascinante a história, em termos gerais. Donald, professor universitário estabelecido, aos 53 anos resolve mudar de gênero e, assim, colocar em risco sua vida profissional (que Deirdre mantém com sucesso), suas amizades (que Deirdre mantém, em grande parte) e familiar (que Deirdre perde quase por completo). Independentemente de crítica, não é uma história que se leia com frequência. Vale a pena só por isso.

É surpreendente a firmeza de Deirdre em afirmar que a troca de gênero pela qual passou é uma questão de identidade, e não de sexualidade. Quanto ao assunto transexualidade, eu tinha em mente aquela visão estereotipada, “mulher presa em corpo de homem, ou homem, em corpo de mulher”. A leitura do livro me indicou que não tem de ser assim. Donald viveu bem e feliz e realizado como Donald. Não era efeminado nem se sentia atraído por outros homens. Decidiu tornar-se mulher porque, depois de uma epifania (explicada, mas não muito bem, nas páginas 49 a 51), percebeu que tinha identidade feminina e queria e podia tornar-se mulher.

É eletrizante a saga de Deirdre na luta contra os hospitais psiquiátricos e contra a própria irmã, que tentou interditá-la civilmente. A descrição amarga de Deirdre sobre sua percepção exagerada quanto aos protocolos de tratamento no processo de interdição é bastante marcante (traduzo livremente da página 98):

A vítima [o interditando] não tem direitos civis, especialmente se for pobre e não puder contratar um bom advogado; nada que ela diga terá crédito; as pessoas que dão início ao processo de interdição não estão sujeitas a nenhuma punição de perjúrio ou responsabilidade civil nem mesmo custas judiciais se o seu testemunho for enfim considerado falso; e os psiquiatras fazem todo o possível para evitar a responsabilidade de devolver a liberdade às vítimas, são covardes quanto a assumir a responsabilidade de fazer isso e, com efeito, ficam isentos de responsabilidade pelas consequências de uma detenção irrazoável do interditando.

É comovente o relato de Deirdre sobre o abandono que sofreu da maior parte da família após a decisão de trocar de gênero (mesmo antes de decidir ir até o fim e fazer a operação de troca de sexo). Tudo bem que a família tenha dificuldade em aceitar e leve tempo para aceitar, mas, depois de fato consumado, não faz sentido não aceitar. A esposa perdeu o marido (homem) e os filhos perderam o pai (homem), mas a pessoa que eles amavam como marido ou pai continuou existindo. No caso de Deirdre, não importou: sua ex-mulher e seus filhos cortaram relações com ela. A reflexão é inevitável. Natural? Radical? Faríamos o mesmo se acontecesse com alguém de nossa família? Quais são os limites do amor?

Por fim, é interessante como a autora demonstra que muitas das diferenças entre mulheres e homens são culturais (e não genéticas). Foi por isso que ela conseguiu tornar-se muito mais feminina que se poderia supor que sua genética masculina permitiria.

Ao mesmo tempo, é provocante e irritante como, ao mesmo tempo, ela reforça estereótipos. De forma feminista, enaltece as virtudes do Clube da Luluzinha e menospreza os vícios do Clube do Bolinha: homem “eu”, mulher “nós”; homem emocionalmente burro, mulher empática e sentimental; homem monotarefa, mulher multitarefa; homem agressivo, mulher sensível.

Esse tipo de estereótipo me cansa. O fato de um Donald pode se tornar uma Deirdre com bastante sucesso (aceitação social como mulher) demonstra não só que o determinismo genético sobre as características de gênero é um mito, mas também que as condicionantes socioculturais também podem ser vencidas e que, portanto, os estereótipos devem ser desconstruídos.

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