A hermenêutica das fotos dançantes

O comentário do Felipe ao post “Estilo importa” motivou uma resposta. Ia responder por e-mail, mas acabou que a mensagem virou um quase-post, que, com algumas adaptações, virou post. Voici.

Fico tão feliz quando “as pessoas” (tanto mais quando são grandes amigos e leitores qualificados!) comentam sobre e gostam do que escrevo. Afinal de contas, escrever dá trabalho, blogar dá trabalho… Ter um reconhecimento de vez em quando é bom e me motiva a continuar. 🙂

Imagina: ter o meu texto dissecado num vestibular seria uma honra enorme! Um dia, quem sabe. Outro dia, talvez, vou publicar um artigo no American Journal of International Law. Um dia, quem sabe, alguém vai me pedir uma carta de recomendação! Deve ser muito legal estar “do lado de lá”. (Aspas, ponto.) Um dia, espero.

Embora não seja professor, gostei do exercício de hermenêutica proposto pelo Felipe:

“Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura”.

(Aspas, ponto. Se a frase do Felipe terminasse com “na minha formatura”, poderia muito bem ser: “Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura.” Ou seja: ponto, aspas. E sem ponto depois das aspas.)

Abstraindo do contexto, consigo pensar nas seguintes interpretações para a frase (claro que apenas a primeira é séria):

  • Martin dançou na formatura de Felipe. Esse momento tragicômico foi registrado em fotos. Karina e Felipe viram essas fotos recentemente.
  • Martin tirou fotos durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (sei lá, num telão) essas fotos.
  • Martin aparece em fotos tiradas durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (num telão, de novo?) essas fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas foram exibidas (num bom e velho telão) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam durante a formatura, viram essas fotos.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas foram exibidas (onde? que tal num telão?) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam na formatura, viram essas fotos.
  • Martin tirou fotos durante a formatura do Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando por aí. Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em fotos tiradas na formatura de Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando. Karina e Felipe foram testemunhas oculares da dança das fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.

Tudo bem, admito que me puxei um pouco. Mas me justifico: enquanto escrevo este post-resposta, percebo que meu colega de apartamento está ouvindo valsas vienenses. Não tenho bem certeza, mas acho que é Johann Strauss.

(O autor das valsas vienenses, não o meu colega de apartamento! Mais: o autor das valsas e o meu colega de apartamento não são a mesma pessoa! Bah, bem que eu gostaria que fossem, mas ele está morto. [Quem morreu foi Strauss, faz mais de um século. Meu colega de apartamento está vivo e ouvindo Strauss. {Meu colega de apartamento está ouvindo músicas que Strauss compôs; não está ouvindo o próprio Strauss.}])

Divagações à parte: ouvindo a música, fiquei imaginando fotos que dançam ao som de valsas vienenses. Neste momento, Vir (minha mamá greco-argentina) perguntaria: “¿fumaste cosas raras?

(Ponto de interrogação, aspas. A interrogação faz parte do que Vir perguntaria. E não há necessidade de ponto final depois das aspas: o ponto final faz o serviço.)

Aparentemente não consigo mais não divagar nos meus posts.

(Prova disso é que aqui me obrigo a fazer mais um comentário parentético metadiscursivo: o que acabo de dizer, “não consigo mais não divagar”, é algo que a minha professora de escrita jurídica desaconselhou um dia desses – dupla negação.)

Divagações à parte, segunda tentativa: não, não fumei cosas raras. Nunca fumei. É tudo efeito das valsas vienenses.

Paro por aqui. Preciso dançar.

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4 ideias sobre “A hermenêutica das fotos dançantes

  1. SamiAguiar

    HAHAHAH! Teu problema não é falta de linearidade no pensamento, muito pelo contrário: estão te dando “muita corda”!Recuerdos: lembra-se do episódio com a Renata Bielermann, em que ela alega “apagão de ideias” e o respostaço da Sandrine (creio ser esse o melhor termo ao que aconteceu)? “Não é apagão, é excesso de luzes”!

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