Boboleta

O blog do Guri tem andado com os pés muito firmes no chão ultimamente. Só relatos jornalísticos. Só fatos. “In this life, we want nothing but Facts, sir; nothing but Facts!” (Hard Times, de Charles Dickens – e não é que já citei esse livro aqui no blog?).

Normal. É o reflexo cristalino da minha resignada rotina pragmática e sem poesia: leitura de muitas coisas que preferiria não ter de ler (i.e., leis), estudo de muitas coisas que eu preferiria não ter de estudar, e muitas outras coisas que compõem uma longa lista de “what really grinds my gears”. Raras têm sido as oportunidades de fugir do basicão, blogando, musicando, caminhando ou nadando (na piscina cuja caldeira insiste em ser problemática) – e difícil tem sido persistir nessa fuga, porque o ter-que-fazer me chama de volta aos berros.

Hoje aceitei um convite a resistir a esses berros, tirar os pés do chão e voar. Conheci uma borboleta. Porém, ao contrário do que se possa pensar, não foi ela que me convidou a voar, porque era uma borboleta um pouco abobada, ou que pelo menos estava abobada quando a conheci.

Era a Boboleta. Não estava nem um pouco a fim de voar. Quando a vi, estava caminhando na grama. Achei que estivesse em apuros, não conseguindo bater as asas por causa das folhas de grama (ingenuidade a minha), então ofereci ajuda. Ela aceitou e subiu na minha mão. Foi subindo para o meu braço e ficou de um lado pro outro… caminhando. Como uma formiga. Como qualquer ser humano. Aliás, com bem menos pressa que qualquer formiga e que muito ser humano por aí.

Fiquei na volta dela por um bom tempo. No início brincamos um pouco; depois comecei a encorajá-la a voar, mas não adiantou nada. Estava muito inquieta, perambulando, e só se aquietou quando, com a minha ajuda, encontrou a luz do sol.

Podendo voar por aí, ficou parada ao sol! Bah, fiquei de cara. Ora, se ela queria mesmo ficar paradinha ao sol, pelo menos poderia voar para um lugar onde tivesse um montão de sol. Definitivamente não fazia sentido ficar no pátio dos fundos de casa – ali onde, às 17h de uma tarde de outono, só com muita dificuldade se encontra um redutinho de luz entre as folhas da árvore e longe da alongada sombra da casa.

Conhecer a Boboleta me rendeu algumas fotos e uma reflexão. Eu aqui, cada vez mais consciente da passagem do tempo, e mesmo condenado à incapacidade de voar, insisto em passar a vida tentando: me atirando do alto e me quebrando no chão. E a Boboleta, cheia de potencial, faz pouco caso do dom invejável que tem. Se fosse comigo… se eu deixasse de ser larva, certamente não me faria de bobo.

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