Boa ação

Um dos meus amigos da City Grace Church, o Justin, está indo para a China depois de amanhã, por isso ontem saí da clausura forçada pelos estudos e fui a Mainland Manhattan [vide nota de fim] pela primeira vez na semana para a festa de despedida dele. É claro que a festa foi no East Meadow do Central Park – o ponto de encontro preferido da galera da City Grace para piqueniques, aniversários, festas de despedida, jogos de frisbee, reuniões sem motivo aparente etc. E é claro que a festa tinha que ser abruptamente relocalizada por causa de algum evento meteorológico inesperado. Ou é chuva, ou é vento, ou é frio, ou é calor insuportável…

Desta vez, a coisa começou com calor insuportável e total ausência de brisa. Até aí, nada de novo – o verão tem sido assim. Aí as nuvens carregadas começaram a ficar mais e mais evidentes. Então alguém disse, “a chance de chuva era de 50%; conferi na previsão.” Beleza, 50% não é tão ruim assim. Mas alguém discordou: “50%? Eu acho que vi 90% em algum lugar.” Tá bem: não tinha ali ninguém de açúcar (e o bolo da festa de despedida, que não era de açúcar mas tinha sem dúvida bastante açúcar na sua composição, estava coberto). Era só procurarmos abrigo quando a chuva começasse.

Até que alguém conferiu no iPhone e largou sutilmente, “pois é, mas além da chuva quase certa o serviço meteorológico do governo acabou de anunciar para toda a cidade de Nova Iorque um alerta de tornado.” Nesse momento, concordamos que era hora de ir embora! Fomos para o apartamento de dois dos amigos alguns minutos antes de o mundo desabar. Acabou que não houve tornado, mas os ventos e a chuva e os relâmpagos foram bastante assustadores.

* * * * *

Na volta pra casa tive que “fazer conexão” na minha estação de metrô preferida…

Num post de março, comentei sobre minhas entradas/saídas de estações de metrô preferidas – e despreferidas:

Não foi a primeira vez que desci na estação Lex–63rd, mas acabei esquecendo que a plataforma fica mais perto do centro do planeta que da superfície terrestre… Sem brincadeira. Fica nas mais cavernosas profundezas do soterramento. A Wikipédia não me deixa mentir: diz que “leva bastante tempo para ir do nível da rua até a plataforma”. E um site sobre o metrô diz que a plataforma inferior fica a 100 pés da superfície – 30 metros, ou cerca de dez andares.

Uma dessas ironias da vida fez com que eu me mudasse para Roosevelt Island, onde a única estação de metrô também fica a 30 metros de profundidade! Mas não reclamo. Vale a pena. Gosto daqui. Já me acostumei com as escadas rolantes (que quase sempre estão funcionando), e na maioria das vezes pego o elevador até a plataforma ou de volta à superfície.

Mesmo assim, continuo com minha birra com a Lex-63rd – onde eu inevitavelmente preciso fazer conexão para ir para ou voltar do East Meadow!

O sacrifício (!) da conexão, porém, valeu a pena ontem. Quando um casal que caminhava uns 10 metros à minha frente começou a descer o primeiro lance de intermináveis escadas rolantes, eu vi que o rapaz deixou cair, bem no início da escada, algo que parecia ser um cartão. Apressei o passo, apanhei o cartão, e desci os primeiros degraus em direção ao casal. Nos segundos em que tive o cartão na mão, a única coisa que pude ver foi que tinha uma bandeira da União Europeia com um “DK” (de Dinamarca) no meio das estrelinhas amarelas. Provavelmente era um documento de identidade.

Quando entreguei o cartão, o rapaz me agradeceu enfaticamente – ficou bastante evidente que era um documento importante. Eu, óbvio, disse que não foi nada (até porque não foi), mas fiquei secretamente feliz. Fiz minha boa ação do dia. Claro que não fiz nada além da minha obrigação, e acredito (talvez ingenuamente de mais) que qualquer outra pessoa naquela situação faria o mesmo. Por outro lado, já perdi coisas importantes (e quem é que nunca perdeu?) e imagino a trabalheira que o meu gesto mínimo poupou na vida do sujeito dinamarquês em NYC.

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*Nota de fim sobre Mainland Manhattan: Nossa, por onde eu começo a explicação? A cidade de Nova Iorque é composta por cinco “boroughs” (que a gente pode chamar de bairros ou, talvez mais apropriadamente, “distritos”): Brooklyn, o Bronx, Manhattan (a City), Queens e Staten Island. Desses cinco, o único que fica no continente (“mainland”) é o Bronx; os outros ficam em ilhas. Brooklyn e Queens ficam numa ilha chamada Long Island; Manhattan e Staten Island ficam respectivamente nas ilhas de Manhattan e Staten Island. Quer dizer… mais ou menos. Roosevelt Island, onde moro, é uma ilha no meio do East River, entre a ilha de Manhattan e Long Island. Mesmo geograficamente não fazendo parte de Manhattan, Roosevelt Island tecnicamente faz parte do “borough” Manhattan. Na semana passada, me dei conta de que fazia tempo que não ia a “Mainland Manhattan” – ou seja, a parte principal de Manhattan, que fica na ilha de mesmo nome. De início achei o máximo e tal, mas infeliz e obviamente não fui o primeiro a ter a ideia de me referir a Mainland Manhattan assim. Este artigo aqui, por exemplo, já usou essa expressão (vale a pena ler o artigo, aliás, pra conhecer um pouco sobre a minha ilhazinha).

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