Chico Pedreiro: uma pessoa muito importante

Ok. Um gesto simples para o estudante universitário diante do computador, mas intenso para a afirmação lingüística do jovem de dezoito anos. Pode parecer ridículo – e é, até certo ponto –, mas o que tem a dizer o corretor ortográfico do Word importa, sim. Afinal, é nele que tomo referência para retificar deslizes de digitação e grafia de meus trabalhos acadêmicos e de todos os meus escritos que, por absoluta falta de paciência e romantismo, não faço a mão. É o momento: estou em êxtase. Sem mais delongas, passo a digitar, pleno de expectativas. A palavra parece envolta ainda em névoa. Aí está ela, enfim, nítida: desimportante.

Pronto, passou. Contudo, para minha profunda decepção, ali está a agressiva linha serrilhada, nesse vermelho berrante que me faz doer os olhos e a alma, abaixo da palavra desimportante, que meu dicionário eletrônico desconhece. Até tu, Brutus?

Calma, leitor afoito. Não estou sob efeito de quaisquer entorpecentes. A tua indignação ante este texto igualmente indignado bem que se justifica, uma vez que não conheces minha história.

Precisamente no dia 10 de abril de 1997, eu fazia uma prova de língua portuguesa, na sexta série primária. Chico Pedreiro foi uma pessoa muito importante. Essa afirmação bem simples e particularmente imbecil eu tinha de reescrever, substituindo a palavra importante por outra de significado contrário. Chico Pedreiro foi uma pessoa muito desimportante, escrevi, na minha letrinha tosca de guri de onze anos.

Um X bem grande pra mim: questão errada. O léxico internalizado de minha cara professora (a quem eu não deixei de estimar, apesar da intolerância que teve para com minhas intuições lingüísticas) não reconhecia a palavra desimportante. Resposta certa e viável seria insignificante. Chico Pedreiro foi uma pessoa muito insignificante. O meu colega e amigo Hugo tinha acertado. Que inveja – claro, como se eu não conhecesse a palavra! Uma bobagem minha…

Mas eu ainda lembro. Não concordei assim, sem reservas ou contestações. Em casa, procurei no meu Aurelinho, mas ele não registrava o desimportante. Procurei no Luftinho de uma de minhas irmãs, mas ele também não registrava o desimportante. Nenhum dos dicionaristas em meu alcance deu a mínima importância ao desimportante. Também pudera: dicionaristas têm mais o que fazer do que dar importância ao desimportante, digo, ao insignificante (dizia a professora: desimportante não existe). E eu, que na hora do aperto da prova me sentira tão feliz com a minha construção vocabular por prefixação, depois do resultado, senti-me desimportante (sic). Sic, assim mesmo, tão mínimo e insignificante que não chegava sequer a existir, naquele momento: era uma coisa desimportante.

Superei a situação. No fim das contas, aquilo era, de fato, desimportante, ou melhor, insignificante. Tirei nove-e-seis – além dos dois décimos descontados por conta do desimportante, havia na prova outro erro insignificante – e não mais me preocupei com questões como aquela, de pouca importância (para não dizer outra coisa).

Isso até hoje, 3 de julho de 2003. O mundo deu 2.274 voltas em torno de si e eu vim parar numa aula de Lingüística e Comunicação, na Fabico, um ambiente que tem algo de superior à escola primária em que estudei – sem querer tirar das escolas públicas estaduais sua relevância, digo, significância, ops… ah, entenda-se! E hoje a professora de Lingüística me transportou sem querer aos meus longínquos-mas-nem-tanto anos pueris, fazendo retumbar em meus ouvidos um sonoro desimportante.

O tema da aula, por segundos, perdeu a… ahm… importância. Tudo parecia um déjà vu daqueles de rachar a cabeça. Cinco horas depois, chego em casa (acontece que moro um pouco longe da faculdade) e não tenho dúvida: consulto meu dicionário, que hoje é um Aurelião Século XXI. Coisa de doido, mas lá estava, inabalável, inatingível, irrevogável, escrito na História e, sobretudo, mais importante do que nunca, o meu, o meu desimportante: adjetivo que significa de nenhuma ou pouca importância. Yes! Olho para a negra noite de inverno. Uma luz se abre dos céus sobre mim e me regozijo: os lexicógrafos ouviram enfim as minhas preces! E ouço um canto divino, angelical.

Agora, porém, acabo de cair em tristeza. O meu corretor ortográfico não reconhece a importância do meu desimportante. Além dele, estão lá na minha estante, ainda ignorantes, o Aurelinho e o Luftinho – e tantos outros, em bibliotecas pelo Brasil afora. E, pior, talvez alguma professora esteja por aí, censurando guris que se atrevam a lançar mão de palavrinhas que fogem ao seu restrito universo; digo, palavrinhas que fogem não ao universo do aluno, mas ao da professora. E talvez os guris se creiam usuários incompetentes da língua portuguesa – talvez se achem uns desimportantes. Queria poder dizer a todos que não desanimem: a redenção, embora tardia, veio a mim, e um dia virá também a eles.

2 ideias sobre “Chico Pedreiro: uma pessoa muito importante

    1. Martin D. Brauch Autor do post

      Obrigado, Cida! Fico feliz que Chico Pedreiro tenha contribuído para mudar teu humor. Mais uma prova da importância dele! 🙂

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