Apenas uma escolha

Durante o último ano, visitei nove comunidades cristãs, considerando seriamente cada uma delas como candidata a tornar-se a comunidade cristã de que faço parte aqui em Porto Alegre.

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Comecei por uma luterana (critério histórico-sentimental) perto de casa (critério geográfico). Ali, o fato de ser “luterano de berço” – nascido em família luterana, batizado e confirmado em igreja luterana – contou muito… talvez demais. Perguntaram de que comunidade eu era originalmente. Expliquei que era de uma comunidade de outra denominação luterana. “Ah, mas mas o que importa é ser luterano.”

Já torci o nariz. Eu achava que, numa igreja, não deveria importar ser de tal ou qual orientação. Além disso, se fosse isso mesmo o que importava, não fez sentido o pastor convidar os “membros desta comunidade ou de outra de nossa denominação” para a comunhão de mesa, abertamente excluindo outros cristãos (mesmo os luteranos).

Ainda assim, ao fim do culto, apresentei-me ao pastor, ao líder de jovens, a outros líderes. Pediram meus contatos; deixei telefone e e-mail. Mas ninguém me escreveu nem me telefonou.

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Nas outras igrejas luteranas que visitei, mesmo pertencentes à denominação da minha de origem, não me senti menos deslocado. Todas são bastante litúrgicas, tradicionais. Nenhum grave problema até aí – apenas prefiro cultos com mais espontaneidade.

Problema maior é ser um outlier na distribuição de frequência das idades. Nas luteranas que visitei, a grande maioria era de senhoras e senhores com idade para serem meus pais ou avós. Novamente, nenhum grave problema – apenas seria difícil encontrar nesses grupos interesses, atividades, assuntos e desafios comuns aos meus.

O grave problema foi mesmo a superficialidade das mensagens e, ainda mais inquietante, a menção a Deus Pai e Mãe. Ouvi isso pela primeira vez de uma pastora e, por isso, pensei que pudesse ser um esforço excessivo de equalização de gênero, por parte de uma teóloga-pastora feminista. Mas na segunda vez ouvi de um pastor e fiquei mais intrigado.

Entendo que o amor de Deus seja comparável tanto ao de uma mãe quanto ao de um pai. Também entendo que haja quem associe a figura paterna a uma imagem negativa, por ter sofrido agressão, abandono ou outros abusos de seu pai, e por isso preferem associar o amor de Deus ao que receberam de sua mãe.

Mas sigo não convencido de que exista fundamento bíblico para a existência de Deus Mãe. Equalização de gênero é uma coisa; outra bem diferente é a distorção, por pastores aqui e ali, do Credo Apostólico, adotado pela igreja luterana como expressão do conteúdo básico da fé cristã: Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra.

Essa distorção do credo denota uma falta de solidez e unicidade quanto ao que, afinal, a igreja professa. Por isso, tem afetado bastante minha a vontade de participar de uma igreja luterana.

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Também visitei quatro igrejas batistas.

Em duas delas não pude com a informalidade do culto. Para mim, a forma ideal de culto está num ponto difícil de localizar num continuum entre a liberdade total, sem qualquer ordem, e a total rigidez litúrgica, com repetição recitada de fórmulas prontas e sem espontaneidade. Essas duas batistas penderam muito para o primeiro extremo (assim como as luteranas que visitei penderam para o segundo).

Nas outras duas batistas, fiquei feliz com o que encontrei: igrejas vivas, acolhedoras, missionárias, musicais e com mensagens inteligentes, significativas e biblicamente fundadas.

Meu tema com as batistas é sempre o fato de elas serem batistas e eu, não. Fui batizado quando ainda criança. Para que pudesse me envolver plenamente na igreja, teria de ser batizado (do ponto de vista da igreja) ou rebatizado (do meu ponto de vista). Até que aceitasse isso, seria uma espécie de “membro de segunda classe” da igreja (por mais que tentem me convencer – e já tentaram – de que não seja bem assim).

Tenho reservas principiológicas quanto a ser rebatizado: sinto que seria como negar validade ao batismo e à confirmação de fé que tive na igreja luterana. Entendo que esse batismo enquanto criança e essa confirmação de fé apenas evidenciam que sou um cristão oriundo de uma igreja histórica – não me fazem menos cristão que um batista ou outro cristão batizado quando adulto.

Alguns se deixam rebatizar para poderem envolver-se em uma igreja batista. Talvez algum dia eu levante minhas reservas e faça o mesmo. Mas quando penso que uma igreja me obrigue a conflitos principiológicos por rejeitar a validade dos atos de fé que vivi por causa da origem da minha família, em vez de simplesmente me aceitar como cristão, perco a esperança de mudar de ideia quanto ao rebatismo – assim como a vontade de me envolver nessa igreja.

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Não gostaria que meu alto padrão de exigência na busca de uma igreja fosse interpretado como arrogância. Sei que não sou perfeito e que as pessoas não são perfeitas e que as igrejas não são perfeitas. Ao mesmo tempo, não acho ilegítima minha busca por uma igreja que se compare àquelas de que já fiz parte e onde me senti acolhido e envolvido.

Um dia desses escrevi a um dos pastores de NYC sobre minhas frustrações nessa busca e confessei que sinto muita saudade da igreja de lá, a City Grace. (Também comentei sobre isso em a blog with an accent.) Ele respondeu que talvez eu não encontrasse por aqui algo como a City Grace, “solidamente reformada, jovem e contemporânea, mas também voltada ao evangélico e não legalista – uma combinação singular”. Ele acertou que seja difícil encontrar igrejas assim (confirmei isso nas minhas andanças por aqui!), mas errou quanto à singularidade dessa combinação. A Igreja São João, em Pelotas, onde cresci, pode ser descrita da mesma forma. E por que aqui em Porto Alegre tenho tido tanta dificuldade?

Enfim, o que mais o pastor escreveu me fez refletir decisivamente:

O importante é estar em comunidade cristã e poder crescer na fé. Dentre opções limitadas, só tens que fazer uma escolha, certo?

Tenho percebido que um dos motivos por que 2012 tem sido um ano aquém (“aquém”, assim genericamente) é essa interminável jornada de church shopping e a minha perda de crescimento por estar em várias igrejas e ao mesmo tempo em nenhuma. Preciso mesmo fazer uma escolha (de fé, de compromisso) dentre opções limitadas.

No próximo domingo, estarei no Rio de Janeiro, onde participarei de um evento do Curso Alpha. O Alpha tem sido um interessante conector entre as igrejas de que já participei. No Rio, encontrarei amigos cristãos tanto de Pelotas quanto de NYC. Espero que esse tempo lá me ajude a, no retorno a Porto Alegre, fazer uma escolha e enfim cessar o church shopping no primeiro domingo de Advento.

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Uma ideia sobre “Apenas uma escolha

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