Reclamar: vício ou virtude? (3) O discurso de formatura

Recentemente assisti ao vídeo da minha formatura de Ensino Médio, que meu pai resolveu converter de VHS para DVD. Quase uma década depois, foi legal rever os colegas, de muitos dos quais tenho saudade, e também meu desempenho como orador da turma.

A íntegra do discurso está aqui.

Muitos colegas gostaram do discurso e disseram que foi pró-discente. Muitos professores gostaram e disseram que foi pró-docente. E eu, que pretendia apenas fazer um discurso decente, fiquei surpreso com essas reações, que parecem irreconciliáveis, presumindo-se algum nível de antagonismo entre professores grevistas e alunos que acabaram por formar-se meio ano após o previsto por causa das greves.

Talvez eu tenha tido sucesso em alcançar públicos diferentes com a mesma mensagem… pode até ser. Mas prefiro acreditar que o polêmico discurso de formatura que fiz é a mais contundente prova de que as pessoas ouvem o que querem. O emissor não tem controle algum sobre a interpretação da mensagem pelo receptor. Se o receptor estiver, por qualquer motivo, predisposto a interpretar a mensagem como uma ofensa, é o que fará – ainda que a intenção do emissor era de que fosse um elogio. E vice versa.

Simplesmente, acho que muitos, tanto professores quanto alunos, estavam predispostos a gostar do discurso. E por isso gostaram. Certamente houve também quem não tenha gostado, mas esses não tiveram a dignidade de me procurar na saída para reclamar.

E lembrando que o tema desta série de posts é reclamar, fato é que meu discurso (independentemente de ser pró-qualquer coisa) incluiu aspectos de reclamação. Não consistiu unicamente de reclamação, porque procurei fazer um retrato equilibrado da Escola à época, elogiando o que conviesse elogiar e reclamando do que conviesse reclamar. A reclamação (aliás, assim como o elogio) não era nem mal nem bem-intencionada: era apenas um retrato – subjetivo, é claro, porque o fotógrafo escolhe o ângulo, a lente, o filtro…

Outro fato é que o aspecto reclamação do discurso desencadeou outra reclamação. Ao assistir ao vídeo do discurso recentemente, revi o então Diretor da Escola, ao encerrar a cerimônia de formatura, resgatar no improviso o meu discurso e endossar os problemas dos quais eu tinha reclamado. Um discurso com um elemento de reclamação gerou outro com elementos de desabafo e apelo por mudança.

Difícil avaliar se a mudança aconteceu. Difícil avaliar se, tendo acontecido, teria acontecido em virtude de qualquer dos discursos – e em que proporção. Afinal, mudanças podem depender de muitos fatores além da percepção do problema e da necessidade de mudança. Mesmo assim, acho que o discurso (com elemento de reclamação) contribuiu para difundir essa percepção.

* * * * *

Este post começou com uma parte nitidamente “reclamar: virtude” e vai encerrar com uma parte deliberadamente “reclamar: vício”.

Como bom nerd, curto estatísticas. De todo tipo. Melhor nem listar para não me empolgar! Vou direto ao específico: curto particularmente as estatísticas de visitação de páginas do Blog do Guri, que o Blogger gera desde julho de 2008.

Por exemplo: estatísticas de ontem, 22/11/2012. O post novo do dia (Reclamar: vício ou virtude? (2)) foi visitado 15 vezes e o de anteontem (Reclamar: vício ou virtude? (1)), 07. Mas o mais visitado, com 25 visitas (mais que os outros dois posts somados!), foi um velho post de 08/05/2006: O polêmico discurso de formatura.

Estranho? A explicação que tenho é que, em novembro, com a época de formaturas chegando, os oradores e potenciais oradores andam procurando na Internet inspiração para seus discursos. Plausível?

Considerando os últimos 30 dias, o post mais visitado é Apenas uma escolha, de 20/11/2012, com 31 visitas. Isto é, esse é o segundo mais visitado, porque o mais visitado é O polêmico discurso de formatura, com nada menos que seis vezes mais visitas: 197.

Considerando o período total para o qual o Blogger gera estatísticas, O polêmico discurso de formatura vem em primeiro lugar, com 5.560 visitas. Em segundo lugar, bastante depois, vem o misterioso “Já estou melhor, obrigada”, com 368 comentários (menos de um décimo do número de visitas do mais visitado).

Isso me irrita profundamente, porque um post específico tem envenenado minhas queridas estatísticas. Há muito tenho pensado em reclamar (no blog) sobre isso.

Quando resolvi fazê-lo, aproveitando esta série de reclamações, percebi que essa reclamação é autoboicotante. Com esta reclamação sobre o discurso, comentando sobre ele, citando o post original com sua íntegra e incluindo as palavras-chave “discurso de formatura” no título do post, acabarei fazendo com que o blog atraia ainda mais visitas de oradores em busca (no Google) de inspiração.

O post de hoje servirá para testar estatisticamente a hipótese de que reclamar sobre um post cujos efeitos me dão vontade de reclamar só agravará a situação, dando-me vontade de reclamar ainda mais.

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