Sete obviedades e uma opinião sobre protestos (em geral e os de 17 de junho de 2013)

A verdade é que eu não queria interromper minha série atual de posts, mas, como o Brasil não fala nem escreve hoje senão sobre os protestos de ontem, eu me sentiria um alienado se ignorasse esse movimento.

Tenho lido muita obviedade por aí, que não vale a pena discutir, mas que as pessoas insistem em discutir. Por isso, resolvi publicar seis proposições óbvias (que eu tomaria como pressupostas) e uma, nem tanto, sobre protestos (em geral e os de ontem, 17 de junho de 2013).

Sem me apoiar em nenhuma autoridade científica, as seguintes proposições são óbvias para mim:

  1. Protestos pacíficos são exercício saudável de democracia; protestos violentos, não.
  2. O Poder Público não deve conter protestos pacíficos (muito menos com violência).
  3. Manifestantes pacíficos não devem ser responsabilizados pelos atos dos violentos.
  4. O Poder Público deve conter protestos que causem danos pessoais ou patrimoniais.
  5. Não faltam motivos para insatisfação e protesto popular no Brasil, desde o Império.
  6. Um protesto (pacífico ou violento) pode desencadear transformação social.
  7. Pode haver percepções diferentes (e igualmente válidas) sobre um mesmo protesto.
Já o seguinte ponto não é tão óbvio:
  • Protesto sem estratégia tem pouca ou nenhuma força argumentativa.

Casualmente, ontem mesmo (antes dos protestos) li um artigo sobre negociação escrito por Adam M. Grant. O autor menciona a conclusão de Neil Rackham e John Carlisle de que um negociador experiente dá, em média, menos razões para seus argumentos que um negociador inexperiente. Traduzo livremente do artigo que li o seguinte trecho (onde o autor se referia a uma “oferta inicial” de uma negociação, tomei a liberdade de traduzir genericamente, por “argumento”):

“Quanto mais razões são indicadas, mais um argumento é potencialmente diluído,” escreve Rackham. “Se um negociador dá cinco razões para servir de fundamento ao seu argumento e a terceira razão é fraca, a parte oposta, em sua resposta, explorará essa terceira razão.” Apresentar razões em número excessivo também pode transmitir falta de [auto]confiança, tornando claro que não estamos certos da legitimidade do nosso argumento. A melhor fundamentação de um argumento eficaz consiste em uma ou duas razões convincentes.

O trecho acima tem um paralelo evidente com os episódios de ontem. Foram tantos os motivos dos protestos (nem vou tentar enumerá-los) que cada um deles ficou diluído em sua força argumentativa. Por mais nobres que sejam as causas defendidas, os críticos dos manifestantes tendem a desprezar as causas menos consistentemente fundamentadas, a falta de alvo certo ou estratégia, ou o protesto como um todo. O protesto que consiste em disparar tiros para todos os lados (com o perdão da metáfora violenta!) dá a impressão, ainda que equivocada, de que os manifestantes não sabem contra que protestam. Parece difícil um protesto sem estratégia ou com aparência de não ter estratégia surtir o efeito desejado.

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