O Tempo e o Vento (2013)

Tem que ter coragem pra fazer uma adaptação de O Tempo e o Vento. O risco é altíssimo. As consequências de uma adaptação infeliz seriam desastrosas. Exagero? Não mesmo. O Tempo e o Vento é uma obra querida ao Rio Grande do Sul, porque conta com genialidade e um sotaque muito próprio a formação do povo gaúcho. Ninguém queira brincar com isso, porque, se a gauchada não gostar, responde a laço e espora.

No Vinte de Setembro de 2013, o Rio Grande do Sul foi presenteado com a estreia exclusiva do filme O Tempo e o Vento (2013) (imdb e site oficial) dirigido por Jayme Monjardim. O filme é uma adaptação ao cinema que Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski fizeram de O Continente, primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho Érico Verissimo.

No elenco, ninguém menos que Fernanda Montenegro (como Bibiana Terra na terceira idade), além de Thiago Lacerda (como o Capitão Rodrigo Cambará), Marjorie Estiano (Bibiana Terra na juventude), Cléo Pires (Ana Terra), entre outros.

* Alerta de spoiler *

Não há como começar senão por Fernanda Montenegro no papel de Bibiana Terra, a primeira grata surpresa do filme. Pra mim, a presença dela é um fator de tranquilidade e garantia de sucesso no cinema. Se ela estava lá, a adaptação não teria como ser infeliz e o filme não teria como ser um fracasso. Porque ela estava lá.

Tê-la como narradora foi um acerto foi ainda maior, porque se alinha com a própria estratégia de Érico Verissimo. Na obra dele, a mulher gaúcha, símbolo de valor e constância mesmo em meio à guerra e ao sofrimento, é o fio condutor da história. Bibiana Terra é a âncora e a continuidade da narrativa assim como cada uma das matriarcas Terra Cambará representa, ao longo de seu matriarcado, a âncora e a continuidade da família.

O Capitão Rodrigo Cambará é um herói controverso, justamente porque é real. Não é o homem perfeito, idealizado. Embora cumpra o estereótipo do gaúcho valente que peleia de forma honrada, mas sabe ser sensível e galante, ele também têm traços bem humanos (“defeitos”, para quem preferir) — impulsivo, provocador, machista.

Quando li O Continente, não gostava muito do Capitão Rodrigo, por causa desse aspecto controverso: conquistador e ao mesmo tempo asqueroso. Tendo a esperar que o herói seja perfeitinho, e ele não é. E que bom: mais um elemento da genialidade de Verissimo.

Ao assistir ao filme, tive a mesma impressão e continuei não gostando muito do Capitão Rodrigo. Por isso mesmo, acho que Thiago Lacerda mandou bem. A cena em que ele entra em Santa Fé e, bem ao seu estilo, faz amizade com Juvenal Terra, o primeiro contato entre Terra e Cambará, ficou bem como eu a havia imaginado ao ler o livro.

Outro mérito foi a distribuição adequada do tempo do filme entre as diversas fases do livro. Não é fácil encaixar histórias de diversas gerações familiares narradas em centenas de páginas em um filme de duas horas. O filme fez isso muito bem, sem afobação. Apresenta a trajetória dos Terra-Cambará como uma representação familiar do processo de formação do próprio povo gaúcho, desde os índios e jesuítas nas missões e as relações conflituosas com os castelhanos, tudo em um contexto de instabilidade e guerra.

As referências a elementos materiais e imateriais de continuidade da obra de Verissimo também foram lindamente preservadas no filme.

  • Entre os elementos materiais, estão o punhal de prata que Padre Alonzo deu a Pedro Missioneiro, a roca de fiar de Henriqueta Terra, a tesoura de podar que Ana Terra passou a usar nos partos em Santa Fé — todos esses instrumentos, passados de uma geração à seguinte, são tão protagonistas da saga quanto os membros da família.
  • Entre os elementos imateriais, está a interface entre a vida e a morte, tão presente no filme quanto na obra original. Estão também a sabedoria, o trabalho e as frases das mulheres, a quem, em meio à desolação da guerra, só restava fiar, chorar e esperar. E, por fim e por óbvio, está também o vento. Perto do final do filme, quando ouvi Fernanda Montenegro como Bibiana Terra dizer, “Noite de vento, noite de mortos”, fiquei tranquilo. O filme tinha minha permissão para se encaminhar ao fim.

A fotografia do filme é uma homenagem às belezas naturais e ao casario histórico do Rio Grande do Sul. O verde dos Pampas, o azul do céu, os alaranjados do pôr-do-sol. E a trilha sonora, delicada, sublimante. 

Pra não dizer que só falei do que ficou muito bom: o sotaque me incomodou. O Rodriguinho, pobrecito, é um ator infantil; perdoável o seu jeitinho carioca fora de contexto. E perdoável até um limite, porque poderiam muito bem ter dado o papel a um gauchinho. Bem menos perdoável foi a chiadeira nos “ss” de Lacerda e Montenegro, que sabem fazer melhor.

Arrepios e lágrimas: não os contive, em diferentes momentos do filme. Fazia tempo que cinema não mexia tanto comigo. Talvez eu estivesse particularmente sensível. Ou talvez o filme esteja realmente tão bom. Estou curioso para ver outras críticas, tanto as dos entendidos de cinema quanto a do público, especialmente o gaúcho.

Gostei que, na sessão em que assisti ao filme, aplaudimos ao final. Eu estava muito tentado a puxar as palmas, mas o mérito de começá-las afinal não foi meu. Só me juntei, empolgado, ao aplauso em massa, merecido. Mesmo que os merecedores não estivessem ali, na mesma sala. Pode até ser esquisitice ou mico, mas, se a sala de cinema inteira cede ao ímpeto de aplaudir, só pode ser um bom indício sobre a percepção geral a respeito do filme.

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