Manual de Sobrevivência na Universidade: Da graduação ao pós-doutorado

Ele poderia escrever (ainda mais) sobre Economia Regional, Desenvolvimento Econômico, História Econômica. Ou poderia escrever um livro de ficção científica para a coleção O Guia do Mochileiro das Galáxias. Mas o livro que Leo Monasterio decidiu escrever, que eu li há uns dois meses e que vou hoje finalmente comentar é o Manual de Sobrevivência na Universidade: da graduação ao pós-doutorado, um guia para que “você evite os piores erros, aproveite as oportunidades e, no fim das contas, até curta o mundo acadêmico”.

Quando eu era graduando em Economia, tive o privilégio de ter o Dr. Leo Monasterio (ele fez pós-doutorado, mas lembrando, como ele mesmo ensina no livro: pós-doc não é título!) como orientador de projetos de iniciação científica. Foi dele que recebi o convite para criar minha conta no Gmail (sim, porque no início era só por convite, para quem não sabia ou não se lembrava!). Foi também ele que me inculcou a necessária neurose de fazer backups. Foi o primeiro professor que me provocou a planejar a carreira e me ajudou nisso.

Assim, tive o privilégio de receber muitas das dicas do livro uns sete anos antes de seu lançamento. Ao ler o livro, fiquei pensando em quantos colegas perambulavam pelo mundo acadêmico, porque não tinham dicas assim, e em como a vida acadêmica deles teria sido mais fácil se tivessem lido um livro como o Manual. Também fiquei pensando em como tê-lo desde o início da graduação teria evitado diversas inseguranças minhas.

Escrever os capítulos do livro como verbetes em ordem alfabética ficou, como o próprio autor reconheceu, esquisito. Mesmo assim, ler o livro de ABNT a Zotero é bem mais prazeroso que ler um dicionário. Eu, com toda a minha paciência, já tentei ler um dicionário (!), e não tive paciência. O Manual eu li numa sentada. O texto vai direto ao ponto, preza pela relevância e é sempre bem-humorado como o autor (rir alto ao longo da leitura é inevitável em alguns pontos). É uma leitura leve.

Como teria mesmo de ser, muitos verbetes são metodológicos: tratam da elaboração de projeto de pesquisa até a apresentação de um trabalho acadêmico em um congresso ou diante de uma banca e sua publicação por uma revista especializada. O primeiro verbete já assusta um pouco: ABNT. Mas a abordagem é realista e conciliadora:

Se você não tem distúrbio obsessivo-compulsivo, as normas da ABNT parecerão criadas por alguém que precisa de socorro psiquiátrico. […] Mas as normas têm sua razão de existir. As normas da ABNT impedem que outros malucos inventem seus próprios jeitos de apresentarem seus textos.

Nenhum dos verbetes é academicista, naquele sentido chato (existe outro?). Pelo contrário, todos são muito práticos. Afinal, é um Manual de dicas, não um livro de regras. Há verbetes sobre como escolher bem o orientador, preparar uma boa revisão de literatura e um bom resumo (abstract), usar gráficos e tabelas com elegância e sem estardalhaço, lidar com a rejeição de trabalhos enviados à publicação.

Leo Monasterio também é blogueiro e incluiu no Manual um verbete sobre Blogs (junto com redes sociais). Ele reconhece que um blog tem vantagens (“torna você conhecido no seu mundinho” e “lhe dá prática de escrita e disciplina” ) e desvantagens (“é o desperdiçador de tempo perfeito”). No mesmo sentido, o Manual contém também um verbete sobre a vilã Procrastinação, que todo acadêmico e trabalhador intelectual deveria combater.

Termino com duas citações de um dos meus verbetes preferidos, Escrita, porque nele a influência das ideias de McCloskey sobre redação é evidente, pelo enfoque na necessidade de clareza, fluidez, revisão, reescrita. O próprio Leo Monasterio foi quem me recomendou a leitura do livro dela, Economical Writing, e depois me contou que evitou relê-lo ao preparar o Manual, para evitar “contaminação”.

  • Tenha um leitor cobaia da sua área. Se ele não entendeu o texto, a culpa é sua. Repetindo: a culpa é sua. Reescreva o texto.” Qualquer semelhança com o escrito por McCloskey e citado no meu último texto não é mera coincidência: “Se o leitor acha que o que tu escreveste não está claro, então não está, por definição. Desiste de discutir.“.
  • Fingir profundidade com frases longas e palavras obscuras ou vagas funciona com uns figurões de algumas áreas das ciências humanas. Para mim, os textos dos grandes ‘intelectuais’ só fazem com que os meus fusíveis mentais rompam na tentativa de proteger a minha cabeça. Isso gera sono ou o desejo de incendiar o livro. Esses figurões alcançaram tanta importância que os leitores suam para entender aqueles parágrafos incompreensíveis. Como você não tem esses seguidores, o jeito é ser bondoso com o leitor e se esforçar para tornar a leitura o mais fluida possível.” É o que eu muito gostaria que fosse assimilado por certos colegas meus, juristas, que transitam no limite tênue entre a pompa e o pedantismo.
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