Arquivo mensal: setembro 2013

A mensagem secreta no voto não mais secreto

Não declaramos a perda do mandato de um parlamentar condenado à prisão. O Povo não gostou, achando que não votamos corretamente.

Mas estamos atentos aos clamores do Povo. Em resposta, desengavetamos uma proposta de Emenda Constitucional que acaba com o voto secreto no Legislativo, aprovando-a por unanimidade.

Fique tranquilo, Povo. Agora podemos até continuar votando incorretamente, mas o faremos de forma assumida, publicamente. Lembramos que a obrigação de votarmos abertamente não implica necessariamente em obrigação de deixarmos de ter cara de pau.

P.S.: Se a Emenda Constitucional não for aprovada, a culpa será da outra casa, a da bacia virada para baixo, essa instituição elitista, anacrônica e cheia de segredos. Se nada mudar, como de costume, lavaremos nossas mãos, como de costume, nessa grande bacia virada para cima onde nos reunimos.

Um celular deveria bastar

Primeiro comprei um número daquela azul dos 25 centavos por dia. Estava indo muito bem, até que comprei meu primeiro celular (todos até então tinham sido os antigos de pais, irmãs e cunhados). No novo aparelho, a conexão à Internet por aquela azul dos 25 centavos não funcionou, não sei por quê. Migrei meu número para aquela vermelha dos 21 centavos.

Só que eu já estava mal-acostumado a falar com muita gente por 25 centavos. Além disso, muita gente estava acostumada a falar comigo por 25 centavos e não conseguiu se acostumar com o fato de que meu número passou a ser da vermelha de 21 centavos. Causei confusão.

Então resolvi comprar mais um número da azul de 25 centavos, e usá-lo em um dos celulares antigos, herdados, sobressalentes. Anunciei o novo número ao pessoal da azul de 25 centavos. Continuei usando o número da vermelha de 21 centavos no telefone novo, principal, com Internet.

Ambos são pré-pagos. Gasto no máximo 40 reais por mês e me recuso a gastar mais com celular.

Confusão resolvida – para todos, menos pra mim. Tenho de andar por aí com dois aparelho. Às vezes me esqueço de levar ou de carregar um deles (o sem Internet, o secundário, só para chamadas da azul de 25 centavos). Ou perco chamadas de um ou de outro. Ou me esqueço de bloquear o teclado e faço ligações sem saber. Ou todas as anteriores incontrolavelmente.

Tenho uma colega que optou por não ter celular (mais ou menos como estou quase por optar por não ter carro). Acho admirável. É um fator de estresse a menos.

Pra mim, estresse seria ficar sem celular: não tanto pela telefonia (quase não uso), mas pela Internet. Não me imagino sem. A regra pra mim quanto ao número de celulares é a do “um é pouco, dois é bom, três é de mais”, mas menos um. Nenhum celular seria pouco. Um seria bom. Dois já são de mais.

O problema é que não se tem outra opção. Conheço muita gente que, para economizar, tem números de mais de uma operadora, aproveitando as vantagens de cada uma. Fora dos 21 ou 25 centavos nas chamadas para números da mesma operadora, as tarifas são altíssimas – quatro ou cinco vezes as promocionais. As prestadoras de serviço de telefonia móvel não competem: somente dividem, fidelizam, escravizam. E lucram, claro.

Enquanto isso, na Suíça, uma operadora oferece chamadas internacionais por 5 centavos por minuto. Nos EUA, por menos de 50 dólares tinha um pacote ilimitado em tudo: ligações para fixos e celulares em todo o país, SMS para celulares de todo o país e de qualquer operadora, Internet todos os dias sem limitação de volume de tráfego. Todas as operadoras ofereciam pacotes assim.

Um dia a telefonia no Brasil chega lá. Por enquanto, a dica pra quem quer ter telefone móvel sem gastar um absurdo é confundir os amigos tendo vários celulares pré-pagos, um de cada operadora disponível no mercado, para aproveitar as vantagens de cada uma delas.

E, pra carregar tudo isso, com muito estilo, uma pochete.

Repensando necessidades

Acostumar-se com um aumento no padrão de vida é tranquilo; difícil é aceitar uma diminuição. Desde os casos mais trágicos (perder bens por causa de uma enchente) aos tragicômicos (depois de ter banda larga, mudar-se para uma cidade onde não há portas de banda larga disponíveis e, por isso, ter de voltar à conexão discada), o padrão inferior incomoda e infelicita a vida.

Mas e se, em vez de acidental e súbita, a diminuição no padrão de vida for deliberada? E se for insignificante ou apenas aparente?

É o que tenho pensado ultimamente quanto a deixar de ter um carro. Na linha do último texto, andei conversando sobre o assunto com amigos e parentes no último final de semana. Cada vez fico mais convicto de que o custo de ter um carro não cobre a comodidade.*

Pelo menos para mim. Claro que isso é muito pessoal. Para um pai de família que mora no subúrbio (como a Zona Sul de Porto Alegre), ter carro é muito mais importante que para um solteiro que mora ao lado de dois shopping centers e pode chegar ao trabalho com um só ônibus.

As pessoas com quem tenho conversado parecem um pouco preocupadas: “pensa bem; não age impulsivamente”. Claro. Tenho pensado bastante.

Mas me parece que em parte a preocupação das pessoas (bem-intencionada, sim) se deve a pressupostos diferentes dos meus. Muitos pensam “por que não ter um carro, podendo ter um?” em vez de “por que ter um carro, não precisando de um?”. Talvez pensem mais que eu no status social. Talvez pensem que deliberadamente deixar de ter um carro seria um retrocesso: querer trocar banda larga de 10 Mbps por discada de 56 Kbps… ou por uma vida sem conexão à Internet!

Quando me sinto mais próximo de uma decisão, as dúvidas dos outros me contaminam, mas não num sentido ruim: é bom ter essas dúvidas, porque assim me resguardo de uma decisão impulsiva. Vou seguir brincando de não ter carro (já voltou do conserto, mas ainda não chegou minha carteira de habilitação renovada) e ver como me sinto nas próximas semanas. E aí decidirei.

* Cada vez fico mais convicto de que o custo de ter um carro não cobre a comodidade. Hoje estou aliterando como se não houvesse amanhã. E na verdade não há.