Vida sentimental passada a limpo

Tive (pretérito perfeito, concluído, com início e fim em momentos determinados no passado) um só verdadeiro caso de amor, ao longo dos meus 21 anos.

Eu a conheci no supletivo, embora já a tivesse visto no Cefet. No início, foi apenas uma identificação – o gosto pela música, risadas em comum, semelhança de pensamentos e reações. A identificação convivida (no supletivo, no Cefet, no Direito) gerou uma amizade bastante sólida. E não passava disso. Aliás, era uma tripla amizade, entre ela, uma colega e eu. Formamos um trio – uma panelinha de amigos.

Com o tempo, percebi que a amizade deixou de ser apenas uma amizade – por parte dela. Quanto a mim, não estava à procura de nada além de amizade. Não pretendia passar a limpo minha vida sentimental repetindo os erros do rascunho… O amor não é um contrato gratuito, em que só um dos contratantes assume obrigações. Depois do que fizera no rascunho, conhecia meu potencial lesivo: poderia causar grave mal ao declarar com dúvidas o meu amor.

Não estava à procura, mas tampouco fechado ao amor. E minha dúvida persistia por um só fato. Tínhamos gostos, jeitos e pensamentos parecidos – mas ela não era cristã. Não queria prender-me a jugo desigual. Era inadmissível pensar em fazer planos tão importantes com alguém que não tivesse a mesma fé que eu. Convidei-a para participar dos cultos na comunidade cristã onde cresci e até hoje estou. E ela aceitou.

Já não nos enganávamos mais – eu sabia que ela gostava de mim mais do que a um amigo, porque ela o tinha dito, com essas mesmas palavras (“gosto de ti mais do que a um amigo”), no baile de formatura do Cefet. Eu não podia, por causa da minha dúvida, comprometer-me, mas ela, sabendo da minha única restrição, podia comprometer-se a [tentar] mudar. E foi o que fez. Ela já ia aos cultos e passou a participar (eu a acompanhava) de um curso para novos membros. Ela estava mudando, não radicalmente, mas aos poucos, deixando-se transformar pelo agir de Deus.

E, em certo ponto, venci a dúvida, com a ajuda do meu melhor amigo. Depois de uma longa conversa, em que lhe expus todas as minhas angústias, ele me disse (nunca vou esquecer): “Se tens tanta certeza de que queres estar com ela, namorar com ela, apesar de todas essas angústias, não é comigo que deverias estar falando agora“.

Não descrevo, aqui, detalhes da linda história de amor que se iniciou dias mais tarde, em 10 de setembro de 2003. Construí com ela, ao longo de quase 2 anos de relacionamento, um namoro que, embora não perfeito (até porque isso não existe!), era tão sólido e feliz quanto eu podia imaginar…

…até que ela passou a ter dúvidas. A perspectiva de estar comigo para sempre passou a ser negativa. Para ela, o bebê, teria eu uma tendência a não levar uma vida dedicada a Deus. Aos poucos, a tendência que ela achava vislumbrar passou a servir de pretexto para que agisse com negligência quanto ao namoro – esqueceu de suas obrigações de carinho, dedicação, e mesmo consideração e respeito. Ela passou a achar que essa tendência era decisiva ou definitiva ou determinante. Meus erros – é claro que eu os tinha, assim como ela! – passaram a não mais ser tolerados. Nossos planos perderam validade. Não se tratava mais daquilo que nós queríamos e haveríamos de construir juntos, mas daquilo que ela queria para si e que haveria de construir – sozinha.

(Omite-se, aqui, apenas um “detalhe” desse rolo todo. Para mim, não é detalhe, mas circunstância determinante. Mesmo assim, a divulgação desse fato caberia tão-somente a ela – a mim até caberia, mas nunca publicamente.)

A ironia: eu outrora tivera dúvidas quanto a iniciar o namoro por ela não ser cristã; ela passou a ter dúvidas quanto a continuar o namoro por um motivo bem simples – ela era (ou antes se supunha, na sua imaturidade) mais cristã do que eu.

Eu acreditava que ela poderia superar isso. No fundo, ela sabia que me amava e que nosso amor valia a pena. Ela me pediu um tempo, não no relacionamento, mas para que ela pudesse resolver-se. Ao fim desse período, ela afirmou ter superado sua dúvida. Estaria salvo um relacionamento de 2 anos de vida, sadio e cheio de potencialidade.

Aí, eu parti por mês e meio para o Canadá, para uma conferência do clima. Aí, ela foi ao meu encontro nos Estados Unidos, para um mês de férias. Aí, voltamos juntos ao Canadá, para um mês de estágio que realizei em uma ONG ambiental do Quebec. Tempos maravilhosos, tempos de contos-de-fadas, tempos de mares intermináveis de rosas.

Aí, voltamos para o Brasil, para um mês e meio de sofrimento: ela voltou a ter dúvidas, e a negligenciar o namoro, e eu, a ser paciente. Um belo dia, oito meses depois daquela primeira crise de dúvida, esgotou minha paciência. Cansei de correr atrás de um amor que virou histórico, de executar um contrato repetidamente inadimplido. Em termos curtos e grossos, cansei de cobrar reciprocidade de alguém que já não estava muito aí. Cansei de proporcionar a ela aquele ambiente de segurança tudo-de-bom – “continua, aí, com tuas dúvidas e indecisões; estarei sempre aqui, à tua espera”. Paciência tem limite.

O rompimento foi doloroso, é claro, como deve ser o rompimento de um relacionamento tão estável. No primeiro dia, um pouco de raiva pelas memórias estraçalhadas. No segundo dia, um pouco de rancor pela negligência mascarada pelo que atribuía à vontade de Deus, e não ao próprio livre-arbítrio. No terceiro dia, indignação pela empáfia de agir como se a amizade pudesse continuar invariavelmente depois do ocorrido.

Mas, no quarto dia, veio o conforto, porque, desde logo, restabelecera eu minhas prioridades: Deus, família, amigos, nesta ordem. Só por ajuda de meu Salvador, meus parentes e meus amigos é que foi possível reconstruir meu coração degenerado pela frustração do investimento feito no relacionamento e pela sensação de confiança traída.

Além disso, a sensação de dever cumprido também ajudou. Ao longo dos 2 anos, 7 meses e 5 dias de namoro, fui carinhoso, amigo, respeitoso, [absurdamente] dedicado e fiel por 2 anos, 7 meses e 5 dias – se falhei, falhei como qualquer um falharia em uma ou outra circunstância atípica. Não é convencimento meu; ela mesma reconhece isso. Foi através de mim que ela ouviu falar de Cristo. Eu servi de instrumento pra melhor coisa que podia acontecer na vida dela. Se isso não é motivo de orgulho (mesmo velado…), então não há motivo de orgulho sobre a Terra. Fico de consciência limpa.

Curiosamente, é como se voltasse à mesma situação, subjetivamente falando, em que me encontrava antes do relacionamento. Faço sem demora a ressalva de que amadureci. Não quero fazer parecer que reduzo a participação dela na minha vida a um post de blog… Ela própria sabe da importância que teve para meu crescimento, em muitos aspectos. Ao final, ela avacalhou bastante, é verdade, aquilo que realizou – por exemplo, tinha feito com que eu desse mais crédito às pessoas, o que antes não conseguia (por trauma) fazer, e acabou por me causar novo trauma que me dificulta novamente a fazê-lo. Não é por isso, porém, que vou negar todo o benefício anterior.

Quero que fique bem clara a ressalva: a reconstrução da minha vida tal como era antes do namoro não significa que este só atrapalhou as atividades de antes e que agora busco retomar. Não estou dizendo: “viu só tudo o que eu deixei de fazer por causa do namoro?”. Não. Deixei de fazer tudo isso por opção – assim como agora retomo, também por opção.

Como dizia, com a ressalva de que amadureci, volto (quanto a mim mesmo, desconsiderando-se o contexto à minha volta) à situação em que estava três anos atrás; além disso, algumas revelações se fizeram possíveis…

  • Estou retomando minha paixão pela escrita. Se para alguns o amor funciona como uma espécie de catalisador para as atividades literárias, pode ser que para mim tenha um efeito negativo; talvez porque seja um escritor mais melancólico – o amor deve liberar substâncias alegriógenas que impedem essa atividade. Minha produção literária no período foi pouco significativa. Para estimular meu retorno, criei este blog para relatar minha(s) história(s), resolvi participar de concurso literário
  • Estou retomando (mais lentamente) minha paixão pela música. Quero estudar mais flauta-doce (meu instrumento musical há muito tempo!) e vou começar a estudar flauta transversa. Assim espero!
  • Percebi que preciso parar de me punir por gostar de atividades solitárias. Hoje eu reconheço que minha natureza se inclina a esse tipo de atividade, e não tenho porque me recriminar por isso, já que não implica em que eu seja anti-social. É por isso que tenho mais vontade de retomar a escrita, a música, a leitura, o estudo…
  • Estou resgatando, restabelecendo, revigorando minhas amizades. Mesmo depois de quase três anos de um relacionamento bastante possessivo, percebo que não as perdi, mas que fui no mínimo negligente quanto a elas.
  • Continuo sem estar à procura do amor, embora não fechado a ele…
  • Estou livre para perseguir ideais e planos a que renunciara em virtude da perspectiva de casar em breve. Quero concluir meus estudos sem essas preocupações, mas procurando aprimorar meu conhecimento sobre a Palavra de Deus e sobre o que ele quer que eu faça profissionalmente… Quero poder aceitar oportunidades que venham a surgir sem me prender ou sujeitar a vínculos… Quero investir na idéia de estudar no exterior…

Enfim, quero “mergulhar em palavras não ditas, viver de braços bem abertos; o livro da minha vida começa hoje e o resto está por escrever”… Não quero planejar nada: quero ver o que [não] acontece, conforme o que Deus [não] tem previsto para mim. À medida que faço minhas descobertas, vou perseguindo aquilo que Ele confirma. “[…] esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 2:13-14). Nesse prosseguir, cumpro a vontade dEle, servindo o próximo e também a Ele. Nada mais importa.

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9 ideias sobre “Vida sentimental passada a limpo

  1. MDBrauch

    A todos os apressados que acharam que eu deixaria de escrever um post verdadeiramente post para me redimir (hehe, Bruno, pouco indireta essa)… :PAí está: o post definitivo! O maior post da história da blogosfera, rumo ao livro dos recordes! Eu poderia, pela quantidade de texto nesse post, dar o blog por completo nas próximas três semanas, mas não farei isso.Desculpem a total falta de noção. Não tinha como essa história ser mais curta, nem particionada. Foi como tinha que ser. É um post que resolve (no sentido de CONCLUIR) muita coisa, uma reflexão que eu precisava MESMO fazer.Abraços!

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  2. Sami

    Estou correndo, mas depois conversamos melhor. Só passei para dar “oi”, mostrar minha compreensão a tudo o que se passou, lembrar do seu “rascunho sentimental”, e patativas. Um big abraço, Martin!

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  3. bruno

    Isso é qué POSTÂNCIA, Guri! Mas Bah! Acho que, nesses últimos anos, esse blog foi o meio de comunicação mais efetivo que nós tivemos. hehehehhehe

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  4. MDBrauch

    Ahahaha 😛 Achei o máximo o teu comentário, Bruno.Mas, quanto ao blog ser o único meio de comunicação, pior é que é verdade. :/ Ou, então, vejamos pelo lado positivo: ainda bem que pelo menos temos o blog! 😀 😉

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  5. bruno

    Sim, o único porém é que ele é um pouco unilateral. Não adianta, o único jeito é eu criar o meu blog e receber os teus comentários. 😛

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  6. Angélica

    Martin!Dessa vez eu peço desculpas por nao aparecer mais aqui.. e o certo nao seria pedir desculpa só “por nao aparecer mais aki” mas assim “dsculpe por nao aparecer mais aki, sendo q sempre t cobro qdo tu nao posta!!” hehehPq tu nao deu o endereço do teu blog pro pessoal do concurso?? daih tu nao perderia tempo escrevendo outra história :DAcho triste o final dessa historia d namoro. Mas sempre penso q o q eh pra acontecer, vai acontecer… o q tiver q ser serahAbraço!

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  7. Déh

    Não sei como cheguei até no seu blog, mas entendo perfeitamente como é ruim essa situação de jugo desigual mesmo eu nunca tendo lidado com ela, esse teu texto até me ajudou a tomar mais cuidado com as ofertas que a vida pode oferecer… parabéns, és um ótimo escritor 😀

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