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Outra história daquelas

Daquelas tipo esta.

Um assunto sobre o qual não comentei muito (ou pelo menos não de forma sistemática) aqui no blog foi o bar exam – o exame de ordem do estado de Nova Iorque. No post aquele das 4.000 palavras eu comentei que, depois da minha formatura no mestrado, em meados de maio, tive miniférias e logo comecei o curso preparatório para o exame, no barbri. No início de junho, contei um pouco sobre a minha árdua rotina de preparação, que não mudou muito até o fim de julho, exceto no período em que fui para San Antonio visitar mana e cunha.

Quem acompanhou o blog na época vai se lembrar (e quem não acompanhou vai ficar sabendo agora): os meses de barbri, junho e julho, foram de posts curtos e poucos. Em geral, postei só pra compartilhar alguns de meus olhares fotográficos para a cidade de Nova Iorque, às vezes combinados com momentos esparsos de inspiração literária aleatória e incontrolável. Até que em agosto finalmente voltei à postância normal, mesmo antes de fazer a última prova relacionada ao bar exam – a de responsabilidade profissional.

Vale lembrar meu posicionamento oficial sobre a prova:

[…] não tenho nenhuma base para saber como fui – e nem quero ficar pensando a respeito, porque os resultados só saem daqui a alguns meses (nem estarei mais em Nova Iorque quando saírem). O que posso dizer de consciência limpa é que fiz o meu melhor considerando as circunstâncias. E seja o que Deus quiser [e digo isso da forma mais sincera possível – nada de “força de expressão”].

E então eu parei de pensar nisso. Aproveitei muito bem aproveitados meus últimos dois meses morando em Nova Iorque, e depois vim pra Genebra. Muitas transições. A vida aqui é bem diferente da vida lá. Outros projetos, outras coisas pra me manter ocupado. A ideia era mesmo nem ter muitas esperanças, e deixei isso bem claro para todos com quem falei sobre esse assunto. Claro que muitos amigos seguiram insistindo que tinham certeza de que eu tinha passado… o que, embora não seja mal-intencionado, não ajuda muito; só me coloca ainda mais na responsa, na necessidade (autoimposta) de sempre mostrar bons resultados e de corresponder às expectativas do mundo ao meu redor.

Como já expliquei no meu posicionamento oficial, fiz o meu melhor na prova. Passar seria ótimo, mas não passar não seria o fim do mundo – talvez apenas um sinal de que Papai do Céu não quisesse que eu fosse um big-shot New York lawyer (difícil traduzir isso!). Cheguei a dizer isso pra alguns amigos aqui e ali.

Aliás, saindo do escritório ao final do expediente na minha primeira sexta-feira de trabalho no IISD aqui em Genebra, a Jocelyn, uma colega de trabalho, perguntou sobre a prova da ordem (eu já tinha comentado que tinha feito a prova). Então eu expliquei essa minha postura – nas palavras que usei no parágrafo anterior, mesmo. Pra minha total surpresa, ela respondeu, “bom, se já colocaste essa questão diante do Senhor, talvez Ele possa mesmo responder dessa forma.” E foi assim que, na minha primeira interação com alguém do trabalho fora do ambiente de trabalho, ainda novo na cidade e sem igreja e sem amigos, descobri uma colega de trabalho cristã, e aparentemente a única do escritório. Coincidência?

Até que chegou novembro e comecei a pensar, “o resultado do exame de ordem deve sair em breve.” Semana passada comecei a olhar o site… todos os dias, na esperança de encontrar a lista de aprovados. Mas nada. Chegou um e-mail do barbri, dizendo que os resultados só sairiam a partir da semana que vem. E me determinei, “pronto, não adianta ficar olhando o site freneticamente; o negócio é ter paciência.”

É interessante como determinar-se não significa absolutamente nada. Semana passada, um dia sonhei que tinha olhado a lista e meu nome estava lá. Outro dia, também semana passada, sonhei que tinha olhado a lista e meu nome não estava lá. Sim: na semana passada, sonhei duas vezes com a lista dos aprovados. Por mais que não quisesse me importar com o resultado (“passar seria ótimo, mas não passar não seria o fim do mundo”), a simples determinação de não me importar com o resultado era um sinal de que já estava me importando.

Foi bem isso que me disse a Jocelyn no intervalo de almoço de sexta-feira. Eu tinha contado a ela que a história do bar exam vinha me atormentando… e que eu não queria mais me importar. Mais, ela enfatizou bastante o que eu já sabia: tinha apenas que deixar de lado essa preocupação e confiar em Deus. Pronto. Claro que eu já sabia disso. Mas é tão difícil pôr em prática… Os amigos cristãos  às vezes ajudam simplesmente nisso – lembrando o que já sabemos sobre Deus, mas que às vezes é difícil de aplicar no dia-a-dia. Ótimo. Mais uma vez, eu disse a Deus, “tá contigo… quero paz; não quero mais pensar nesse exame.”

Sábado acordei superdisposto e fui passear. Peguei um bonde até o Palais de Nations (sede das Nações Unidas aqui), de onde caminhei até o Jardim Botânico. De lá, caminhei na Pérola do Lago (um parque) e atravessei de barco até o outro lado do lago, em Genève Plage. Voltei pra casa, fiz um almocinho básico, e à tarde fui até a Piscine de Pervenches, em Carouge: fui nadar, o que não fazia desde abril, quando ainda tinha acesso ao centro esportivo da NYU. Comprei um passe para toda a temporada; pretendo ir regularmente! Cãimbras à parte (normal, depois de tanto tempo!), a primeira vez foi ótima. Eu amo natação. Ria sozinho no vestiário, me preparando pra entrar na piscina. “Não acredito – eu vou nadar!” Haha… Espero que ninguém tenha notado minha felicidade boba. Voltei pra casa a pé. O dia foi lindo – chegou a fazer 19 graus! E em nenhum momento do dia pensei no exame.


Jardim Botânico de Genebra


Jardim Botânico


Pérola do Lago, parque em Genebra.
Não parece a Pérola da Lagoa, São Lourenço do Sul? 😉


Ainda na Pérola do Lago


Cisne no Lago de Genebra


Mont Blanc


Jato d’Água


Jato d’Água e o Salève


Catedral e Jato d’Água


Jato d’Água e cisnes


Jato d’Água e arco-íris

Finalmente vim para o computador colocar os e-mails em dia. Também estava determinado a telefonar para alguns amigos de Nova Iorque (telefonemas pelo Google Voice para os EUA são de graça até o fim do ano – fica aqui a dica!). Então vi que tinha um e-mail do comitê de examinadores da ordem dos advogados de Nova Iorque na minha caixa de entrada. Não podia ser. Eu tinha olhado pela última vez o site da ordem na sexta-feira à noite e o resultado não tinha saído; no sábado é que não teria sido publicado! Mas tinha a diferença de horário… será? Não podia ser. Mas aí entrei no facebook e vi várias atualizações dos meus amigos, anunciando que tinham passado… Não podia ser. Mas era: tinha saído o resultado do exame de ordem.

Aí, o que se faz? Entra-se na caixa de entrada e abre-se o e-mail do comitê de examinadores, certo? Não. Surta-se primeiro. Catei minha prima Carol no Google Talk. “Carol, acontece o seguinte…”, e expliquei a história, acrescentando, “não quero abrir o e-mail. Tô com medo.” Acho que se não fosse a Carol me ordenar que abrisse o e-mail imediatamente (hahaha!), até agora estaria aqui, esperando… sei lá exatamente pelo quê. E então eu abri o e-mail. Diz assim:

The New York State Board of Law Examiners congratulates you on passing the New York State bar examination held on July 27-28, 2010.

Passei. No e-mail, o comitê me dá os parabéns. Só tenho a agradecer a Deus por tudo… pelo meu intelecto, sim, mas principalmente pela capacitação e pela paz de espírito que Ele me concedeu, desde o tempo de barbri, passando pelos os dias de prova, até a publicação do resultado (apesar do momento “low” da última semana). Também sou muito grato a minha família e aos meus amigos (no Brasil e em Nova Iorque), por torcer e orar por mim, e especialmente por me aturar (ou aturar minha ausência) durante os meses estressantes de estudos. O que essa aprovação significa em termos práticos eu ainda não sei; isso também está nas mãos de Deus. A única certeza, por enquanto, é que uma porta segue aberta. 🙂

Encontros e despedidas

Com um tantinho de tristeza, devo dizer que este é o último post da série NYC 2009-2010. Agora que estou (geograficamente, pelo menos) distante da minha realidade nova-iorquina dos últimos 14 meses, tenho uma perspectiva mais ampla da minha mais recente saga – resolver minha vida em Nova Iorque e vir para a Europa em menos de uma semana. Neste post, convido o leitor a acompanhar a versão sem cortes dessa história, que é um dos mais belos exemplos do quanto Deus me tem abençoado por toda a minha vida. Escrevo este texto para os amigos que, de uma forma ou de outra (com ajuda prática ou em oração), fizeram parte desta saga, bem como para mim mesmo – minha memória já é fraca e algum dia eu acabaria esquecendo os detalhes se não os escrevesse.

Se tivesse que escolher uma data, eu diria que o complicado e doloroso processo de dizer adeus a Nova Iorque iniciou-se no final de semana de 18 e 19 de setembro. Passei o sábado com a sogra da minha irmã, que chegou do norte do estado de Nova Iorque para visitar o Zoológico do Bronx e também para ver Roosevelt Island, onde morei por mais ou menos cinco meses. No domingo, foi o aniversário da minha Confirmação – sempre me lembro da data, e este ano teve um quê a mais de significado, porque foi num domingo, como há 11 anos. Fui ao culto na City Grace Church, como fiz quase todo domingo por mais de um ano, mas sem dúvida foi diferente do típico domingo de 2009‒2010, não só por causa do aniversário. Os pastores anunciaram que eu estava indo embora para Genebra, contaram histórias sobre minha participação na comunidade no último ano, e oraram por mim. Ganhei um CD especial de fotos, um bolo de despedida e agradecimento, e uma quantidade atipicamente grande (mas de forma alguma inapropriada) de abraços. À noite, minhas duas boas amigas Dana e Natasha fizeram uma janta de despedida, à qual muitos outros amigos foram. Cada um deles compartilhou uma lembrança curta mas cheia de sentimento sobre mim, e eu dei um discurso de despedida (prolixo e sem inspiração).

Então fui pra casa e suspirei profundamente – por que eu tinha dito a todos que aquele era muito provavelmente o meu último domingo em Nova Iorque? Sim, meu estágio em Genebra deveria começar em duas semanas, e aquele domingo devia de fato ser meu último domingo em Nova Iorque antes de ir a Genebra via Frankfurt. Ainda assim, não conseguia me imaginar partindo. Embora minha ONG na Suíça tivesse solicitado meu visto com permissão de trabalho havia bastante tempo, ela ainda não tinha recebido a carta final de aprovação do governo suíço. Eu teria de levar essa carta ao Consulado-Geral da Suíça em Nova Iorque, onde carimbariam o visto em meu passaporte. Poderia levar ainda um mês para a carta chegar – ou poderia ser que a carta nem viesse. Isso trancava tudo. Como eu não tinha visto, não podia fazer planos. Não queria comprar passagens aéreas sem saber por certo quando (ou mesmo se) o visto chegaria, e portanto nenhuma motivação de fazer as malas (empacotar a vida). O que era ainda pior para um control freak como eu, não tinha nenhum jeito de tornar mais rápido o processo do visto, e era difícil até acompanhar esse processo.

Felizmente, aprendi algumas lições sobre vistos. Já tinha tido problemas com processos de solicitação de visto enervantemente demorados – em 2008, quando solicitei um visto alemão, e em julho de 2010, quando estava esperando pela extensão do meu visto americano de estudante. Primeira lição: surtar não ajuda nem um pouco. Embora isso seja bastante óbvio, infelizmente não é tão fácil evitar um surto. Segunda lição: se é que há qualquer coisa que ajude, só pode ser acompanhar de perto o processo de solicitação de visto junto à organização solicitante e, na medida do possível, junto ao governo estrangeiro ao qual se pede o visto.

Além disso, através de experiências relacionadas ou não à obtenção de vistos, aprendi muitas lições sobre o meu Deus. Uma lição importante é: Ele nunca me deixa na mão. Mesmo em situações quando inicialmente pensava que Ele o tinha feito (por exemplo, quando algo que eu queria muito e por que tinha orado não acontecia nunca), cedo ou tarde eu acabava percebendo que Ele não tinha me deixado na mão – em vez disso, Ele tinha me dado algo que eu nem tinha pensado que poderia ter e que era muito melhor que o originalmente almejado. De certa forma, acho que posso dizer que sou mimado de verdade por Ele.

Como qualquer control freak, preciso ter um plano, mas tentei ser uma criatura melhor, tornando essas três lições o núcleo do meu plano, assim:

  1. Não surtarei por causa desse processo de pedido de visto.
  2. Acompanharei insistentemente o processo junto à organização solicitante e ao consulado.
  3. Para atingir (1) e além de realizar (2), confiarei essa questão do visto a Deus.

(3) + (2) = Agostinho: “Ora como se tudo dependesse de Deus. (= 3) Trabalha como se tudo dependesse de ti. (= 2)”

Por favor, não pense que eu sou um herói. Sou bastante novo nessa determinação e ainda tenho que lutar contra minhas neuroses para poder pensar assim. Não é um superpoder inato.

De acordo com meu plano, fui ao Consulado-Geral da Suíça em Nova Iorque na segunda-feira, 20 de setembro (e viva o Rio Grande!). A ideia era perguntar como eu poderia acompanhar o processo do visto junto ao governo suíço, por que estava demorando tanto para minha organização solicitante receber a carta final de Berna, quais eram minhas opções se eu não recebesse a carta e o visto antes que vencesse meu visto americano (o que aconteceria logo, em outubro). Não vou entrar nos detalhes de quão mal eu fui tratado inicialmente; vou dizer apenas que, em algum momento durante um intrincado diálogo com a oficial consular, ela disse, “seu nome está em nosso sistema e estamos autorizados a dar-lhe o visto”. Fiquei surpreso. Não fazia nenhum sentido – eu não tinha que trazer a carta que a organização solicitante receberia de Berna? Era um milagre inesperado que meu nome estivesse no sistema deles. Fui ao consulado novamente na terça-feira para deixar meu passaporte e ainda uma vez na quarta-feira para buscá-lo – com um visto suíço!

A notícia de que eu teria meu visto na quarta-feira desencadeou intensos preparativos para partir imediatamente. Na terça-feira, encontrei uma passagem aérea com preço decente para ir de Nova Iorque a Frankfurt no sábado. Depois de terminar um trabalho de tradução cujo prazo terminava na quarta-feira à tarde, comecei a fazer as malas, uma tarefa que eu só concluiria na sexta-feira à tarde. Após vender, doar, enviar pelo correio, ou jogar fora muitas de minhas coisas, consegui encher duas malas para despachar. Cada uma delas pesava o máximo que a companhia aérea aceitaria levar, mesmo pagando excesso de bagagem (o que eu teria de fazer, inevitavelmente). Minha bagagem de mão tinha o dobro do peso permitido. Então olhei à minha volta… e para o meu pavor ainda tinha um monte de coisa pra levar! Decidi simplesmente jogar tudo dentro das duas malas grandes e torcer que a companhia aérea não fosse muito rigorosa.

No meio da loucura de fazer malas, ainda tive a oportunidade de dar adeus individualmente a muitos amigos, inclusive alguns que não tinham ido à festa de despedida. Na terça-feira, tive um almoço italiano com a Maurizia da NYU, sobremesa-tardia (e uma sobremesa maravilhosa) com a gourmet Christine da City Grace, e um jantar memorável em um restaurante chique (para o qual eu tinha ganhado um vale-presente de $100!) com as irmãs Leslie e Stephanie da City Grace. Na quarta-feira, almoço e sorvete e conversa maravilhosa (como sempre) com o Kyle da City Grace. Na quinta-feira, a Isabela da NYU me ofereceu hospitalidade e comida típicas da Bahia, e mais tarde encontrei novamente a Leslie e a Stephanie em um evento beneficente que a Leslie ajudou a organizar. Na sexta-feira à tarde, a Natasha veio de Nova Jersey me visitar, o que foi um grande incentivo para eu terminar de empacotar (incluindo café, de que eu realmente precisava àquelas alturas). Na sexta-feira à noite, minha última noite em Nova Iorque, fui à festa de inauguração do loft de Kyle, Lee e Ryan, onde vi ainda uma vez muitos dos bons amigos que acabo de mencionar, bem como muitos outros (que não vou citar aqui, porque seria uma longa lista). Foi a forma perfeita de terminar um ano maravilhoso em Nova Iorque.

Em todos os momentos, mas especialmente quando as coisas não pareciam ir muito bem nos meus preparativos, era evidente que eu permanecia sob o cuidado de Deus.

  • Nunca tinha tido problemas para chegar a Roosevelt Island com o metrô F – exceto, é claro, no meu penúltimo dia em Nova Iorque, quando perdi algumas horas por causa de atrasos, acidentes e mudanças de rota inesperadas. Mas nem a MTA (Metropolitan Transit Authority, empresa de transporte público de Nova Iorque) podia me deter: apesar da perda de tempo, ainda consegui me aprontar em tempo.
  • No sábado, o táxi que deveria me levar de Roosevelt Island até a parada do ônibus expresso entre Midtown e o aeroporto de Newark não consegui chegar bem até a parada, por causa de ruas interrompidas em Manhattan. Felizmente, Deus enviou-me um dos Seus anjos, meu amigo Naoki, que me ajudou a carregar as malas até a parada de ônibus.
  • Quando cheguei ao aeroporto de Newark, fiquei em choque quando o ônibus parou e me largou na área de desembarque, não de embarque. Tão frustrante! Tinha que dar um passo adiante com uma das malas, então voltar para pegar as outras duas malas e trazê-las junto à primeira – e assim por diante. Era humanamente impossível carregá-las todas ao mesmo tempo e não havia carrinhos por perto. Aí, do nada, um funcionário do aeroporto se aproximou e me trouxe um carrinho!
  • Então, fui ao balcão da companhia aérea, fazer check-in. Ambas as malas grandes passaram – miraculosamente, até, porque eu sabia que ambas pesavam mais que o máximo permitido. Além disso, não só a moça nem me pediu pra pesar minha mala de mão, mas também ofereceu para despachá-la sem custos adicionais. Inacreditável! Finalmente, ela me ofereceu um assento de corredor (meu tipo preferido) na fila de uma saída de emergência (o espaço para minhas pernas era tão enorme que eu podia dançar valsa ali). E nem precisei pedir.

Tudo parecia estar preparado pra mim. Só Deus poderia ter feito isso dessa maneira. Ele cuidou de detalhes em que eu nem pensei.

Quando desembarquei em Frankfurt, Alemanha, meus pais já estavam esperando por mim no portão. Contei a eles toda esta saga enquanto dirigíamos a Limburg, bem a tempo do culto na igreja evangélica de que minha irmã e meu cunhado participam. À medida que eu me acalmava, sentado na igreja, finalmente percebia que tinha chegado. No domingo anterior, meu aniversário de Confirmação, estava eu em Nova Iorque, dizendo adeus à minha comunidade e aos meus amigos, mas não tinha nem ideia de que receberia o visto e partiria tão rápido. Apenas uma semana depois, estava eu na Europa, com meus pais. Minha irmã e meu cunhado, que eu estava tão feliz de poder ver de novo depois de um ano, em breve chegaria com minha sobrinha e meu sobrinho, que eu estava tão feliz de poder ver pela primeiríssima vez! Eu me sentia realizado, embora exausto da viagem. Não tinha conseguido dormir nada no voo. Além disso, tinha que conciliar a euforia de encontros e desencontros com a tristeza de deixar para trás uma realidade que eu verdadeiramente amava – não estava mais morando em Nova Iorque, aquela igreja não era a City Grace Church, e nenhum dos meus amigos estava ali.

Meu nível de alemão é iniciante (não estou sendo modesto), definitivamente não suficiente para entender um culto inteiro em alemão. Pego umas palavras aqui e ali, infiro algumas a partir do contexto, e isso me permite chegar a um entendimento de uns 65% do que está sendo dito. E não faço ideia de daonde tirei esses 65%, porque é provavelmente bem menos que isso. Ainda assim, por alguma razão divina, eu entendi bem claramente quando o pastor disse que o versículo bíblico da semana era I João 5:4:

“…porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

Fiquei paralisado. Imediatamente interpretei o versículo à luz dos eventos recentes na minha vida – vencer desafios terrenos através da fé e da confiança em Deus. Mas isso era apenas a ponta de um iceberg de significado. Lágrimas começaram a correr dos meus olhos no momento em que ouvi o versículo. Só consegui me virar para o meu pai, que estava sentado ao meu lado – “Pai, tu te lembras? É o meu versículo de Confirmação!”

Eu já tinha derramado algumas lágrimas em três ocasiões no processo de partida de Nova Iorque e já tinha falhado na minha determinação de chorar somente quando estivesse no avião para a Europa. Primeira vez: quando voltei a Roosevelt Island depois da festa de inauguração do apartamento dos meus amigos, minha última noite em Nova Iorque. Segunda vez: quando entrava no túnel Holland, saindo de Manhattan a caminho de Newark. Terceira vez: durante o voo, especialmente quando li os cartões de despedida que o Naoki e a Stephanie escreveram (bem, o Naoki intencionalmente escreveu o seu como um “auxílio para chorar”, para o caso de eu ter me esquecido de levar uma cebola para cortar, como ele mesmo colocou, e a Stephanie disse que o dela era muito “emotional and crap” [difícil traduzir!], nas palavras dela mesma, então não é surpresa que eles me fizeram chorar). Mas aqueles momentos foram diferentes. Eu tinha a situação sob controle e não deixei ninguém ver. Desta vez, em Limburg, eu simplesmente não conseguia parar. Acho que só consegui quando lembrei que conheceria logo minha sobrinha e meu sobrinho de dois meses de idade, e quando percebi que eles teriam se comportado melhor durante o culto do que o seu tio de 25 anos.

Falando bem sério, não sei exatamente por que eu estava chorando – talvez porque estivesse tão aliviado de ter chegado com segurança depois da minha saga, ou porque estivesse triste por sair de Nova Iorque, ou porque estivesse feliz de estar na Europa e de ver minha família de novo, ou por causa de um mix de todas essas razões. Sempre se pode racionalizar e pensar que eu estava exausto e particularmente sensível e sei-lá-o-quê, mas outra possibilidade é que eu tivesse sido movido pelo Espírito. É difícil explicar ou descrever. Foi muito intenso. Minha ousadia em compartilhar essa história só se explica pela minha imensa gratidão a Deus.

Pra deixar o blog perfeitamente atualizado, não bastam estas 2.500 palavras; faltam ainda algumas. Escrevi o post (até o parágrafo anterior) originalmente em inglês, para dar notícias aos amigos em Nova Iorque, mas resolvi traduzir porque os amigos brazucas também merecem a atenção e um relatório completo. Aliás, ainda mais completo, escrito à medida que a história acontece. Do domingo 26 de setembro até hoje (sábado 2 de outubro), fiquei com minha família na região do Westerwald, na Alemanha, babando um pouco nos sobrinhos Isabel e Felipe.

Hoje, às 9h da manhã, tomei um trem rumo a Genebra via Frankfurt e Basileia. Chego em Genebra por volta das 18h. Na estação, vai me esperar o senhor em cuja casa vou alugar um quarto durante esse meu período aqui (até meados ou fins de janeiro do ano que vem). Fica em Troinex, a sudeste de Genebra.

Escrevo durante a viagem de trem. Escrevendo, contemplando, ouvindo música. Destaques da minha playlist de viagem:

  • Empire State of Mind, do Jay-Z (porque sair do “empire state of mind” é uma tarefa difícil)
  • Sonatas de violino de Beethoven (porque achei apropriado para o trecho alemão da viagem)
  • Songs In and For Curious Times (uma coletânea – presente de despedida do amigo Kyle)
  • Zooropa (porque U2 é U2, ora; não precisa de justificativas)
  • Encontros e Despedidas, com Maria Rita (porque achei apropriado para o contexto ferroviário)

Agora que estou no último trecho (Basileia–Genebra), já em território suíço, posso fazer alguns comentários sobre as primeiras impressões da chegada. E só algumas, porque quero parar de escrever logo pra curtir a paisagem! Na Alemanha estava chuvoso, mas desde que entramos na Suíça tem feito um dia lindo de sol, que só faz destacar a beleza natural do lugar. O trem faz curvas por entre os morros e entra em longos túneis e passa por pequenas cidades encantadoras. O que se vê ao redor são morros cobertos de florestas já com sinais de outono, o lago cercado de villas simpáticas e pontilhado de veleiros, as montanhas brancas dos Alpes à distância… é deslumbrante. Tô chegando…

Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem

(Encontros e Despedidas)

Vida sentimental passada a limpo

Tive (pretérito perfeito, concluído, com início e fim em momentos determinados no passado) um só verdadeiro caso de amor, ao longo dos meus 21 anos.

Eu a conheci no supletivo, embora já a tivesse visto no Cefet. No início, foi apenas uma identificação – o gosto pela música, risadas em comum, semelhança de pensamentos e reações. A identificação convivida (no supletivo, no Cefet, no Direito) gerou uma amizade bastante sólida. E não passava disso. Aliás, era uma tripla amizade, entre ela, uma colega e eu. Formamos um trio – uma panelinha de amigos.

Com o tempo, percebi que a amizade deixou de ser apenas uma amizade – por parte dela. Quanto a mim, não estava à procura de nada além de amizade. Não pretendia passar a limpo minha vida sentimental repetindo os erros do rascunho… O amor não é um contrato gratuito, em que só um dos contratantes assume obrigações. Depois do que fizera no rascunho, conhecia meu potencial lesivo: poderia causar grave mal ao declarar com dúvidas o meu amor.

Não estava à procura, mas tampouco fechado ao amor. E minha dúvida persistia por um só fato. Tínhamos gostos, jeitos e pensamentos parecidos – mas ela não era cristã. Não queria prender-me a jugo desigual. Era inadmissível pensar em fazer planos tão importantes com alguém que não tivesse a mesma fé que eu. Convidei-a para participar dos cultos na comunidade cristã onde cresci e até hoje estou. E ela aceitou.

Já não nos enganávamos mais – eu sabia que ela gostava de mim mais do que a um amigo, porque ela o tinha dito, com essas mesmas palavras (“gosto de ti mais do que a um amigo”), no baile de formatura do Cefet. Eu não podia, por causa da minha dúvida, comprometer-me, mas ela, sabendo da minha única restrição, podia comprometer-se a [tentar] mudar. E foi o que fez. Ela já ia aos cultos e passou a participar (eu a acompanhava) de um curso para novos membros. Ela estava mudando, não radicalmente, mas aos poucos, deixando-se transformar pelo agir de Deus.

E, em certo ponto, venci a dúvida, com a ajuda do meu melhor amigo. Depois de uma longa conversa, em que lhe expus todas as minhas angústias, ele me disse (nunca vou esquecer): “Se tens tanta certeza de que queres estar com ela, namorar com ela, apesar de todas essas angústias, não é comigo que deverias estar falando agora“.

Não descrevo, aqui, detalhes da linda história de amor que se iniciou dias mais tarde, em 10 de setembro de 2003. Construí com ela, ao longo de quase 2 anos de relacionamento, um namoro que, embora não perfeito (até porque isso não existe!), era tão sólido e feliz quanto eu podia imaginar…

…até que ela passou a ter dúvidas. A perspectiva de estar comigo para sempre passou a ser negativa. Para ela, o bebê, teria eu uma tendência a não levar uma vida dedicada a Deus. Aos poucos, a tendência que ela achava vislumbrar passou a servir de pretexto para que agisse com negligência quanto ao namoro – esqueceu de suas obrigações de carinho, dedicação, e mesmo consideração e respeito. Ela passou a achar que essa tendência era decisiva ou definitiva ou determinante. Meus erros – é claro que eu os tinha, assim como ela! – passaram a não mais ser tolerados. Nossos planos perderam validade. Não se tratava mais daquilo que nós queríamos e haveríamos de construir juntos, mas daquilo que ela queria para si e que haveria de construir – sozinha.

(Omite-se, aqui, apenas um “detalhe” desse rolo todo. Para mim, não é detalhe, mas circunstância determinante. Mesmo assim, a divulgação desse fato caberia tão-somente a ela – a mim até caberia, mas nunca publicamente.)

A ironia: eu outrora tivera dúvidas quanto a iniciar o namoro por ela não ser cristã; ela passou a ter dúvidas quanto a continuar o namoro por um motivo bem simples – ela era (ou antes se supunha, na sua imaturidade) mais cristã do que eu.

Eu acreditava que ela poderia superar isso. No fundo, ela sabia que me amava e que nosso amor valia a pena. Ela me pediu um tempo, não no relacionamento, mas para que ela pudesse resolver-se. Ao fim desse período, ela afirmou ter superado sua dúvida. Estaria salvo um relacionamento de 2 anos de vida, sadio e cheio de potencialidade.

Aí, eu parti por mês e meio para o Canadá, para uma conferência do clima. Aí, ela foi ao meu encontro nos Estados Unidos, para um mês de férias. Aí, voltamos juntos ao Canadá, para um mês de estágio que realizei em uma ONG ambiental do Quebec. Tempos maravilhosos, tempos de contos-de-fadas, tempos de mares intermináveis de rosas.

Aí, voltamos para o Brasil, para um mês e meio de sofrimento: ela voltou a ter dúvidas, e a negligenciar o namoro, e eu, a ser paciente. Um belo dia, oito meses depois daquela primeira crise de dúvida, esgotou minha paciência. Cansei de correr atrás de um amor que virou histórico, de executar um contrato repetidamente inadimplido. Em termos curtos e grossos, cansei de cobrar reciprocidade de alguém que já não estava muito aí. Cansei de proporcionar a ela aquele ambiente de segurança tudo-de-bom – “continua, aí, com tuas dúvidas e indecisões; estarei sempre aqui, à tua espera”. Paciência tem limite.

O rompimento foi doloroso, é claro, como deve ser o rompimento de um relacionamento tão estável. No primeiro dia, um pouco de raiva pelas memórias estraçalhadas. No segundo dia, um pouco de rancor pela negligência mascarada pelo que atribuía à vontade de Deus, e não ao próprio livre-arbítrio. No terceiro dia, indignação pela empáfia de agir como se a amizade pudesse continuar invariavelmente depois do ocorrido.

Mas, no quarto dia, veio o conforto, porque, desde logo, restabelecera eu minhas prioridades: Deus, família, amigos, nesta ordem. Só por ajuda de meu Salvador, meus parentes e meus amigos é que foi possível reconstruir meu coração degenerado pela frustração do investimento feito no relacionamento e pela sensação de confiança traída.

Além disso, a sensação de dever cumprido também ajudou. Ao longo dos 2 anos, 7 meses e 5 dias de namoro, fui carinhoso, amigo, respeitoso, [absurdamente] dedicado e fiel por 2 anos, 7 meses e 5 dias – se falhei, falhei como qualquer um falharia em uma ou outra circunstância atípica. Não é convencimento meu; ela mesma reconhece isso. Foi através de mim que ela ouviu falar de Cristo. Eu servi de instrumento pra melhor coisa que podia acontecer na vida dela. Se isso não é motivo de orgulho (mesmo velado…), então não há motivo de orgulho sobre a Terra. Fico de consciência limpa.

Curiosamente, é como se voltasse à mesma situação, subjetivamente falando, em que me encontrava antes do relacionamento. Faço sem demora a ressalva de que amadureci. Não quero fazer parecer que reduzo a participação dela na minha vida a um post de blog… Ela própria sabe da importância que teve para meu crescimento, em muitos aspectos. Ao final, ela avacalhou bastante, é verdade, aquilo que realizou – por exemplo, tinha feito com que eu desse mais crédito às pessoas, o que antes não conseguia (por trauma) fazer, e acabou por me causar novo trauma que me dificulta novamente a fazê-lo. Não é por isso, porém, que vou negar todo o benefício anterior.

Quero que fique bem clara a ressalva: a reconstrução da minha vida tal como era antes do namoro não significa que este só atrapalhou as atividades de antes e que agora busco retomar. Não estou dizendo: “viu só tudo o que eu deixei de fazer por causa do namoro?”. Não. Deixei de fazer tudo isso por opção – assim como agora retomo, também por opção.

Como dizia, com a ressalva de que amadureci, volto (quanto a mim mesmo, desconsiderando-se o contexto à minha volta) à situação em que estava três anos atrás; além disso, algumas revelações se fizeram possíveis…

  • Estou retomando minha paixão pela escrita. Se para alguns o amor funciona como uma espécie de catalisador para as atividades literárias, pode ser que para mim tenha um efeito negativo; talvez porque seja um escritor mais melancólico – o amor deve liberar substâncias alegriógenas que impedem essa atividade. Minha produção literária no período foi pouco significativa. Para estimular meu retorno, criei este blog para relatar minha(s) história(s), resolvi participar de concurso literário
  • Estou retomando (mais lentamente) minha paixão pela música. Quero estudar mais flauta-doce (meu instrumento musical há muito tempo!) e vou começar a estudar flauta transversa. Assim espero!
  • Percebi que preciso parar de me punir por gostar de atividades solitárias. Hoje eu reconheço que minha natureza se inclina a esse tipo de atividade, e não tenho porque me recriminar por isso, já que não implica em que eu seja anti-social. É por isso que tenho mais vontade de retomar a escrita, a música, a leitura, o estudo…
  • Estou resgatando, restabelecendo, revigorando minhas amizades. Mesmo depois de quase três anos de um relacionamento bastante possessivo, percebo que não as perdi, mas que fui no mínimo negligente quanto a elas.
  • Continuo sem estar à procura do amor, embora não fechado a ele…
  • Estou livre para perseguir ideais e planos a que renunciara em virtude da perspectiva de casar em breve. Quero concluir meus estudos sem essas preocupações, mas procurando aprimorar meu conhecimento sobre a Palavra de Deus e sobre o que ele quer que eu faça profissionalmente… Quero poder aceitar oportunidades que venham a surgir sem me prender ou sujeitar a vínculos… Quero investir na idéia de estudar no exterior…

Enfim, quero “mergulhar em palavras não ditas, viver de braços bem abertos; o livro da minha vida começa hoje e o resto está por escrever”… Não quero planejar nada: quero ver o que [não] acontece, conforme o que Deus [não] tem previsto para mim. À medida que faço minhas descobertas, vou perseguindo aquilo que Ele confirma. “[…] esquecendo-me das coisas que ficaram para trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus” (Filipenses 2:13-14). Nesse prosseguir, cumpro a vontade dEle, servindo o próximo e também a Ele. Nada mais importa.

Rascunho de vida sentimental

Entendo que o amor (e não uma paixonite ou um impulso movido por desequilíbrios hormonais na puberdade!) é a razão única para começar a namorar. Para um namoro valer a pena, deveria haver ao menos a perspectiva do forever. Só o amor pode proporcionar essa perspectiva. E o amor simplesmente acontece – ou não acontece.

Nessa minha postura, mesmo sem saber, cumpri (com gosto) a sugestão de Paulo: “Está solteiro? Não procure esposa.” (I Coríntios 7.27b). Jamais estive à procura de alguém. Nunca me pus a “caçar”. Nunca “fiquei”.

Aos 15 anos, no primeiro ano do ensino médio, tinha um grupo ótimo de amigos e amigas na turma do Cefet-RS. Uma das gurias me tratava de um modo especial. Não é a mim que cabe afirmar isto, mas tudo indica que ela me amava. Todos os colegas sabiam disso e, com ela, alimentavam a idéia de que um dia ficássemos juntos. Eu, embora não estivesse indiferente ao que ela sentia, posso afirmar – sem ser frio – que não havia reciprocidade, até porque não estava à procura de um amor.

Ao mesmo tempo, não é que estivesse fechado ao amor. Ela era divertida, carinhosa e me admirava. Tímida, nunca admitiria. Não teria coragem de me olhar nos olhos e declarar seu amor. Mas passei a me sentir amado e a achar que poderia estar respondendo a esse sentimento. Surgiu a dúvida: amo ou não amo? Meu coração ficou inquieto.

Numa festa de aniversário, cedi às pressões (externas e também internas) e a pedi em namoro. Minha intenção era ter um compromisso sério, porque me parecia haver aquela perspectiva de vida futura a dois. Foi um momento de festa (ainda maior!) entre os nossos amigos que estavam por perto… Parecia a remoção da batata engasgante.

Eu, porém, continuava engasgado, inquieto, engolindo em seco. Só fui percebê-lo quando meu pai me buscou. (É claro que ele me buscou: eu tinha 15 aninhos!). Não contei nada a ele; voltei quieto para casa. Como? Deveria ser importante o meu primeiro namoro – por que não conseguia dizer nada? Sentia que tinha cometido um erro. Achava que não nos conhecíamos suficientemente bem… Não tinha certeza de que queria estar com ela, e sabia que deveria ter essa certeza…

Cheguei em casa e chorei de arrependimento. E chorei não só por uma noite, mas durante todo o fim-de-semana. Na segunda-feira, não tinha coragem de olhar para ela, porque tinha consciência do mal que lhe fizera. Ela, coitada, nem sabia ainda, mas tinha de saber. Então expliquei tudo – por carta. Sim! Eu, que gosto tanto de escrever, fui inventar de mandar uma carta. Ah, e eu nunca gostei de escrever a mão… então mandei uma carta impressa. Que monstruosidade! Não acredito que (1) fui capaz de fazer isso por carta e que (2) a carta não era sequer manuscrita.

Terminar esse relacionamento, antes mesmo que se pudesse dizer que tinha começado, foi uma das coisas mais difíceis que já fiz. Talvez isso pareça um exagero, tendo em vista que vários anos se passaram, que tanto eu quanto ela superamos isso (assim acredito e espero!) e que foi coisa de adolescente imaturo. Não importa. Carregarei sempre o peso de ter causado um mal horrível a uma pessoa que me amava profundamente. E a situação é ainda mais grave por poder ter sido facilmente evitada.

Poderia tentar me defender esclarecendo que não pretendia causar mal nenhum, mas esse argumento tampouco importa, porque a verdade é que agi culposamente (em sentido jurídico). Foi uma barbeiragem na minha vida sentimental; um péssimo rascunho, pra começar. Quando penso nisso, até hoje, fico envergonhado. No entanto, não tenho vergonha de relatar o ocorrido. Talvez ainda hoje, mesmo depois de tanto tempo, seja preciso um pouco de auto-humilhação.

Tomara que ela um dia leia este post e aceite meu pedido de perdão…