Nueva York con ganas

Apesar da nhaca meteorológica (chuva e chuva), hoje foi um dia proveitoso pra mim. Começou com a aula de Direito Internacional, que normalmente é com o professor Philip Alston. Além de professor na NYU, ele é Relator Especial das Nações Unidas sobre Execuções Arbitrárias, Sumárias ou Extrajudiciais; visitou o Brasil em 2007.

Tá, mas a aula de hoje não foi com ele: foi com Richard Goldstone, que anda aparecendo nas notícias (no Brasil também?) pelo relatório que preparou com conclusões de uma investigação sobre violações de direitos humanos e do direito humanitário na faixa de Gaza (eu li o sumário executivo do relatório, ok, não todas as 575 páginas!). Bom, o relatório anda dando o que falar, mas sobre isso é melhor perguntar pro google notícias ou pra BBC notícias (do contrário esse post não vai pra frente!).

Depois da aula fui o mais rápido possível (o que no dia chuvoso que foi hoje quis dizer: nadando! brincadeira, fui de metrô) para a sede das Nações Unidas! Encontrei lá uma amiga da igreja que trabalha no escritório de liaison da União Europeia nas Nações Unidas. Almoçamos com ela na cantina da ONU (talvez o lugar mais barato para se fazer uma refeição boa em Manhattan!).

Em seguida minha amiga voltou ao trabalho, e passei a ser “escoltado” por um diplomata brasileiro que conheci aqui em NYC, para atingir finalmente o objetivo principal dessa ida à ONU: fui com ele (e só graças ao convite dele) como observador à reunião do Sexto Comitê, o Comitê Jurídico da Assembleia Geral! A discussão foi sobre o relatório desde ano da Comissão de Direito Internacional, particularmente envolvendo assuntos que muito me interessam academicamente.

Mais que uma oportunidade intelectualóide, porém, foi legal revisitar o prédio da sede da ONU – já tinha feito uma visita guiada lá em 2006, na primeira vez que vim a NYC. (Recentemente fiquei sabendo que o Niemeyer foi um dos que projetaram o prédio… o que afinal não me surpreende tanto. E hoje fiquei sabendo que uma reforma com gastos de muitas e muitas cifras vem aí.) A reunião foi na sala do agora desativado Conselho de Tutela (a foto da wikipedia é melhor que a minha; aí vai).

Ao fim da reunião – mais ou menos 18h – fui à Biblioteca Pública de Nova Iorque, que até então eu só tinha visto de fora. O interior é espetacular. (Lembram do filme “O dia depois de amanhã“?)

A matadinha de tempo na biblioteca tinha motivo: em seguida fui com um casal de amigos ao Carnegie Hall, uma casa de espetáculos, para assistir a um concerto com a Orquestra da Juilliard, uma das melhores escolas de música por aqui, além de alguns concertistas importantes – o mais pop deles, sem dúvida, Lang Lang, o pianista chinês que tocou na abertura das Olimpíadas de Beijing em 2008.

Fato engraçado da ida ao Carnegie Hall… Para as pessoas que estavam à minha frente na fila, entrando no auditório, o funcionário dizia, “suba um nível e dobre a esquerda”, ou “suba um nível e dobre à direita”. Na minha vez, ele disse: “all the way up, sir” (tipo assim, “suba até não ter mais pra onde subir, senhor”). Quatro andares depois… Meu ingresso, obviamente, era um desses baratex, para estudante. Digamos assim que eu tive uma “visão muito superior” do concerto. (!) Mas nem de longe isso prejudicou a experiência. A acústica do auditório é espetacular – assim como o visual, aliás.

As peças do concerto foram de inspiração oriental. Uma delas foi a première mundial de uma composição de Chen Qigang encomendada especialmente pelo Carnegie Hall para a apresentação de hoje. Vai dizer que isso não faz o público se achar o máximo?

A última parte foi Das Lied von der Erde, ou “A Canção da Terra”, de Gustav Mahler. As canções – em alemão – são inspiradas em poemas chineses, com algumas partes bem dramáticas de que eu gostei muito. Tanto que tenho de citar uma delas (no original em alemão e na tradução para inglês fornecida pelo programa do concerto… lamento, mas não tenho a mínima condição de traduzir poesia em alemão para português – haha!):

Ich weine viel in meinem Einsamkeiten.
Der Herbst in meinem Herzen währt zu lange.
Sonne der Liebe, willst du nie mehr scheinen,
Um meine bitter’n Tränen mild aufzutrocknen?

I weep much in my solitude.
The autumn in my heart endures too long.
Sun of love, will you never shine again,
Tenderly to dry my bitter tears?

Gustav Mahler, Das Lied von der Erde, II. Der Einsame im Herbst, Text: after Chang Tsi

Depois de um dia intenso como este, tão intelectual e tão internacional e tão cultural, eu me sinto compensado por tantas vezes em que penso não estar aproveitando Nova Iorque ao máximo. Pode até ser que eu esteja perdendo aqui e ali, mas também estou ganhando bastante. Acho que o balanço até agora (três meses incompletos!) é positivo. Com folga.

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