Arrancar ou não arrancar

Sabe aquelas coisas bem pequenas que podem nos incomodar bem bastante? Uma delas eu tenho visto ao chegar em casa todos os dias, pelo menos ao longo do último mês.

Esse cartazinho petulante aí, afixado no meio da porta de entrada do edifício onde moro, tem tantos problemas de forma e conteúdo que fica difícil saber por qual começar. Então o jeito é começar.

Esteticamente, é horrendo, em todos os aspectos: caligrafia, recorte do papel, uso dos adesivos, escolha do local de afixação.

Socialmente, é grosseiro, para dizer o mínimo (que já inclui “de mau gosto”, na minha definição).

A conduta que o cartazinho parece pretender evitar (cinzas e bitucas de cigarro jogadas pelas janelas, no pátio e nos jardins) é obviamente contrária ao bom senso; os fumantes deveriam abster-se dessa conduta independentemente de aviso.

Porém, em vez de advertir os fumantes das penalidades a que estão sujeitos por causa dessa conduta (o que me pareceria mais adequado), o cartazinho emprega sarcasmo. É óbvio que janelas, pátio e jardins não são cinzeiros; todos os fumantes sabem disso (exceto, talvez, aqueles com distúrbios psiquiátricos gravíssimos).

Com esse sarcasmo, o cartazinho insulta a inteligência de todos os fumantes, tanto dos que descartam adequadamente as cinzas e bitucas quanto dos que as descartam inadequadamente. Ora, o fato de certos fumantes descartarem cinzas e bitucas inadequadamente não autoriza ninguém a insultar sua inteligência.

O cartazinho ainda ofende (não só com o sarcasmo, mas com todos os problemas listados aqui) todos os não fumantes que, para entrar em casa, inevitavelmente têm de passar por ele. Também envergonha todos os moradores, porque as visitas deles, ao entrarem no prédio, também acabam lendo esse cartazinho tosco. Eu, se fosse meu visitante, não teria dúvidas: “é, o Guri mora num cortiço.”

Administrativamente, é inútil. Duvido que algum fumante se sinta incentivado a abandonar ou tenha efetivamente abandonado sua conduta inadequada por causa desse cartazinho.

Ortográfica e gramaticalmente, o cartazinho é… bah, ortográfica e gramaticalmente, ele não é.

Til na letra errada (“atençaõ”, “naõ”, “saõ”). Aquele acento de “pátio” que está mais no “t” do que no “a”. Ponto de exclamação e ponto de interrogação ao final: não há como saber se é um, se é o outro, ou se são ambos. Sujeito separado do predicado por uma seta feiosa. “Atenção”, dois-pontos, “Fumantes”, dois pontos: obviamente, quem escreveu o cartazinho nem sonha em saber o que seja vocativo.

Por fim, temos a “Adm.” (que deve ser sigla para “Administração”) se dizendo “gratos” em vez de “grata”. E se a intenção foi agradecer em nome de todos os moradores (“gratos”), deixo registrado: a Adm. signatária desse cartazinho não me representa. #nãomerepresenta mesmo.

A agressão completa que esse cartazinho me impinge chegou a despertar em mim ímpetos vândalos, que até me envergonham. Pensei seriamente em descer à entrada do prédio numa noite qualquer e, no silêncio do sono dos vizinhos e da Adm., sem correr o risco de ser visto ou ouvido, arrancar o tal do cartazinho.

Mas esse não seria eu. Se não afixei eu o cartazinho, não seria meu o direito de arrancá-lo.

Por outro lado, se não têm bom senso nem os fumantes que jogam cinzas e bitucas pelas janelas e nos pátios e jardins nem a Administração que afixa cartazinhos imbecis, alguém que tem bom senso deveria tomar uma atitude. E se a atitude contra os fumantes transgressores é mais difícil, a atitude contra a Administração parece bem simples: arrancar o cartazinho.

Mas eu não sou polícia estética, social, administrativa, ortográfica ou gramatical. Não arranco.

Se bem que, nesse mundo de comportamentos absurdos, talvez uma polícia dessas viria bem. Arranco.

Ou talvez eu seja dramático e exija muito de mim mesmo, dos outros e do mundo. Talvez mais absurda que os comportamentos do mundo seja minha inquietação extremada por causa daquele cartazinho. Talvez eu simplesmente devesse deixá-lo estar. Não arranco.

Mas talvez, se eu arrancasse o cartazinho, conseguiria, junto com ele, arrancar do mundo um pouquinho do comportamento absurdo que faz faz minha alma doer…

Arranco ou não arranco?

4 ideias sobre “Arrancar ou não arrancar

  1. Eduardo TIllmann

    hahah gostei da discussão!! Eu acho que a pergunta final está errada, pensando duma maneira bem utilitarista: A questão é… se o custo de ver o cartazinho é alto para ti, dado todos os teus argumentos acima.. talvez o melhor seja tu fazeres um e colar por cima desse! 😉 Isso melhoraria o ambiente, conscientizaria melhor (pelo menos tentaria mais) os fumantes e.. vualá.. sem mais encontros indesejados com o cartaz!!

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    1. Martin D. Brauch Autor do post

      Amei a sugestão! Além dos argumentos econômicos, arrancando o cartaz eu poderia ser acusado de vândalo, mas fazendo um novo e afixando por cima, não. De qualquer forma, uns dias depois do post o cartaz foi enfim removido! o/

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