Buscando orientações práticas sobre a virtude

O que significa agir virtuosamente? Ter uma conduta virtuosa e correta aos olhos de Deus é o objetivo de vida de todo cristão, mas de forma geral não é tarefa fácil. Todos valorizam a virtude; ninguém é capaz de dizer que deseja não ser virtuoso. O problema é que o próprio conceito de virtude encontra-se perdido em meio a idéias nebulosas, incertas. Para complicar, nosso mundo repleto de opiniões individualistas não parece ser ambiente muito fértil para discutir esse tema e encontrar uma solução satisfatória.

O recurso a entendimentos sólidos, frutos de sistemática reflexão, é uma das soluções viáveis para esse problema. Aristóteles, em obra sobre a ética, trata a respeito da virtude. Ao fim de longo desenvolvimento sobre o tema, o filósofo apresenta seu entendimento:

“A virtude é, então, uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consistente numa mediania (…). É um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta, pois nos vícios ou há falta ou há excesso daquilo que é conveniente no que concerne às ações e às paixões, a passo que a virtude encontra e escolhe o meio-termo.” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro II, Capítulo 6).

Aristóteles não se contenta com essa definição de ordem geral e parte aos casos particulares. No Capítulo seguinte, discorre a respeito da virtude (o meio-termo) e dos vícios (a falta e o excesso) quanto a diversas ações e paixões. Sua exposição pode ser resumida no seguinte quadro:

Vício por falta

→ Virtude = Meio-Termo ←

 

Vício por excesso

 

Medo, covardia

Coragem

 

Temeridade
excesso de audácia

 

Insensibilidade (raridade)

Temperança

 

Intemperança

 

Avareza
(excesso no ganho, falta no gasto)

Liberalidade, generosidade

 

Prodigalidade
(excesso no gasto, falta no ganho)

 

Mesquinhez

Magnificência (somas grandes)

 

Vulgaridade, ostentação

 

Humildade inadequada

Justo orgulho

 

Pretensão

 

Apatia

Calma

 

Irascibilidade

 

Falsa modéstia

Veracidade

 

Jactância

 

Rusticidade

Espirituosidade (divertir)

 

Chocarrice, deboche

 

Misantropo, desagradável

Amabilidade (agradar)

 

Obsequioso (nenhum fim)

 

Adulador (para si mesmo)

 

Acanhamento

Recato

 

Despudor

 

Despeito

Justa indignação

 

Inveja

 

A Bíblia, por sua vez, cita poucas vezes a palavra virtude (apenas seis, desconsiderando-se aquelas em que figura na expressão “em virtude de”). No entanto, em todas elas, a virtude é destacada como algo a ser perseguido por aquele que quer seguir a Deus.
  1. Em 2 Crônicas 19:3, diz-se que Josafá, rei de Judá, apesar de seus defeitos, tinha alguma virtude (ou algo de bom, segundo a Nova Versão Internacional, NVI), por ter em seu coração a disposição de buscar a Deus e de haver derrubado postes de idolatria.
  2. É pela virtude de homens prudentes e entendidos que se mantêm as nações, apesar dos pecados delas, como ensina Provérbios 28:2.
  3. Conforme Filipenses 4:8, a virtude é uma das coisas que devemos buscar, em nosso agir.
  4. Quando Deus permitiu que Sara, mesmo em idade avançada, mas por causa de sua fé, tivesse um filho, ela recebeu uma virtude, de acordo com Hebreus 11:11.
  5. Deus nos chama para sua glória e virtude, como ensina 2 Pedro 1:3.
  6. Por fim, a partir de 2 Pedro 1:5, é recomendável o empenho para alcançar a virtude em nosso agir quotidiano, pois essa é uma qualidade que impede que sejamos inoperantes, improdutivos, cegos quanto ao nosso pecado.

Como se pode perceber, não só para nós, homens, mas também para Deus é muito importante a busca da virtude. Minha proposta, hoje, é compreender melhor as palavras que Aristóteles aponta como exemplos de virtude, à luz do que a Palavra de Deus diz a respeito desses meios-termos.

Coragem. Em Deuteronômio 31:6, o Senhor garante que sempre acompanhará Israel; é por isso que os israelitas deveriam ser corajosos diante dos outros povos. Já em Efésios 6:20, a coragem é um pedido de oração de Paulo: ele precisa dela para cumprir seu papel como discípulo de Cristo.

Temperança. Deus chama a atenção daqueles que estão insensíveis, duros de coração, em Isaías 46:12, pois cumpriria sua promessa de salvação. Novamente em Efésios 4:19, o Senhor adverte aqueles que perdem a sensibilidade e entregam-se à depravação.

Liberalidade e magnificência. Em várias passagens, a Bíblia diz que contribuições (para a Igreja, para os necessitados) devem ser feitas de modo generoso. A generosidade é tida como um dom da graça de Deus em Romanos 12:8. O Senhor promete riqueza (não só material) aos justos, não para benefício deles próprios, mas para que sejam generosos, como ação de graças a Deus (2 Coríntios 9:11).

Justo orgulho: São tantas as advertências contra o orgulho na Bíblia! Como exemplo, cabe citar a profecia de Isaías 2:17: no dia final, o orgulho do homem será abatido e só o Senhor será exaltado. É dos humildes o reino dos céus, conforme Mateus 5:3. A humildade pode, porém, ser inadequada, quando chega ao extremo da baixa auto-estima, da auto-depreciação, da insegurança. O cristão humilde não deve anular-se a ponto de esquecer que é templo do Espírito Santo e de que, mesmo indigno, conta com a graça salvadora de Cristo.

Calma. A Bíblia não nega ao homem o direito de irar-se, mas adverte para que, quando isso ocorrer, não caia em pecado, vindo a agredir o próximo (Salmo 4:4 e Efésios 4:24). A mansidão e o domínio próprio são tidos como fruto do Espírito, em Gálatas 5:23.

Veracidade. O apego à verdade é um mandamento de Deus (Efésios 4:25). O próprio Deus é caracterizado, no Salmo 31:5, como o Deus da verdade. Em Provérbios 12:17, a verdade é tida como a manifestação da justiça. No Salmo 119:163, o salmista abomina a falsidade e declara o amor pela Lei de Deus, que traduz a verdade de uma forma que permite o entendimento do homem.

Espirituosidade. Devemos viver com alegria, exteriorizando o amor que recebemos de Deus e cuidando para não nos tornarmos zombadores. Assim, servimos às necessidades do próximo e mostramos a ele a liberdade que temos em Cristo. O conselho de Efésios 4:29 é, nesse sentido, muito válido: não devem sair palavras torpes de nossa boca; apenas aquelas que sejam boas e necessárias para o crescimento dos que a ouvem.

Amabilidade. O propósito de nossa vida não é agradar os homens, mas a Deus, o que, sem fé, simplesmente não é possível (Hebreus 11:6). Mesmo assim, é importante buscarmos uma convivência agradável com os que estão à nossa volta, não para que nós mesmos vivamos de forma proveitosa entre nossos amigos, mas para que possamos passar adiante a mensagem do amor de Deus e da salvação dada por Ele através de Jesus (1 Coríntios 10:33).

Recato. Associo o recato e o pudor à idéia de pureza. Os conselhos bíblicos quanto à pureza tem grande importância para os jovens. Em Timóteo 4:12, Paulo não quer que a mocidade de Timóteo seja desprezada, mas que ele seja um exemplo de pureza, o que se demonstra através da conduta, da fala, da fé.

Justa indignação. O homem não precisa (nem deve) conformar-se ao ver o injusto prosperar. Porém, a Palavra de Deus recomenda que não inveje o pecador, mas que se conserve no temor do Senhor (Provérbios 23:17). O salmista em Salmo 73 admite quase ter caído por invejar a prosperidade dos ímpios, mas se alegra por ter permanecido fiel ao Senhor.

No presente estudo, decidimos pinçar apenas o que a Bíblia diz a respeito das virtudes incluídas no quadro geral apresentado por Aristóteles. Há, porém, muitas outras passagens na Bíblia que ensinam as verdadeiras virtudes recomendadas por Deus – em número suficiente para um estudo diário ao longo de um ano inteiro, ou até mais!

A palavra do homem, por mais que resulte de reflexão, sempre corre o risco de ser duvidosa ou inconclusa. É o caso da análise de Aristóteles, que clama por complementação. A Palavra de Deus, porém, não está sujeita a esses riscos: é clara, certa, completa. As orientações das Escrituras são as melhores possíveis para nossa conduta. São, sem dúvida, o recurso mais eficaz para nossos dilemas práticos quanto à virtude.

4 ideias sobre “Buscando orientações práticas sobre a virtude

  1. MDBrauch

    Tudo bem, é o maior post já postado (!) em toda a blogosfera ao longo da história do bloguismo, mas tinha que publicar! Foi um estudo que fiz para o meu grupo de discipulado, ontem (sábado). Um bom domingo e que Deus abençoe todos os leitores! 😀

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  2. Carol Schwarzbold

    Oi Martin! Mt boa esse seu estudo… to até com vontade de imprimi-lo pra mim… hehehe… posso?Bjs e boa semana!

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  3. Mateus Fonseca Pereira

    Oi Martin, parabéns pela reflexão! Realmente no mundo contemporâneo, extremamente individualista, perdemos a noção de valores “morais”, que em nosso caso têm um reflexo espiritual.Com a facilidade que tens de escrever, te sugiro juntar um certo número de artigos e encaminhar para alguns jornais e revistas (se já não fizesse) para quem sabe conseguir um espaço fixo para publicar.Abraço!

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