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Homeopatia: tão eficaz quanto ler a Bíblia

Por acaso ouvi alguém opinar que homeopatia seria tão eficaz quanto ler a Bíblia. O tom foi de sarcasmo puro: a real mensagem era que homeopatia e leitura da Bíblia seriam ineficazes. Além de sarcasmo, preconceitos. Mesmo assim, ou até mesmo por isso, achei que valia comentar.

Homeopatia (assim como acupuntura, quiropraxia, fitoterapia) faz parte do que se chama de Medicina Complementar e Alternativa. No Brasil, é especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. Mesmo assim, há quem duvide da eficácia das terapias homeopáticas, por não se enquadrarem perfeitamente nos moldes e critérios científicos da Medicina ocidental. Nesse sentido, é um preconceito compreensível: tendemos a desconfiar do que foge ao convencional.

Quanto à eficácia de ler a Bíblia, o comentário deslizou na construção de frase. De fato, ler a Bíblia não é eficaz, porque não basta: é preciso ler a Bíblia, entendê-la, aceitar sua mensagem, meditar nela e praticá-la. Como acontece com a Homeopatia, seguir a Bíblia foge ao convencional; por isso, há desconfiança e preconceito. A diferença é que, enquanto os críticos da Homeopatia testam sua eficácia, os críticos da Bíblia rejeitam sua eficácia mesmo sem testá-la.

Re: A invenção do Terror

Lendo este post aqui do meu amigão Felipe, me surgiram gazillions of comments a fazer, mas não posso, porque tenho prova sexta, e só tinha ido lá no blog dele pra descontrair um pouco.

Por outro lado, eu sendo eu, não posso me furtar a uns comentariozinhos básicos (que poderão vir a ser complementados depois). E, eu sendo eu, acabei me estendendo um pouco além do que gostaria, por isso resolvi fazer meu comentário “aqui em casa”, no BdG, pra não abusar do espaço da casa do meu amigo. Então vamos lá.

Também não sou católico. Também discordo dos absurdos históricos (e também correntes, muitas vezes!) da Igreja Católica Apostólica Romana, ICAR (e não estamos sozinhos, Felipe: muita gente pensa assim – vide outros exemplos aqui e ali no blog da Nadia Latosinski).

(Terreno complicado pra mim, porque tenho tias e primas que são católicas e que talvez leiam este post. Desde já: espero ter absoluto sucesso na minha intenção de meramente tecer comentários, sem ofender ninguém em suas convicções espirituais.)

Em mim há outros aspectos ainda mais graves que não ser católico e discordar dos absurdos históricos da ICAR:

  1. Nasci numa família protestante (menos tradicionalmente luterana que a média, é verdade, e com alguns pezinhos em outras igrejas, mas ainda assim protestante “lato sensu”);
  2. Me chamo Martin (não por causa do deus pagão da guerra, mas por causa do Martin Luther, aquele homem supercorajoso que se colocou em risco de morrer na fogueira por defender suas ideias contrárias à ICAR);
  3. Sou protestante por opção própria (porque eu penso por mim mesmo, faço minhas próprias escolhas, e não me sinto vinculado às opções e tradições dos meus pais – muito embora meu sobrenome signifique “costume” em alemão!).

Sei, por tudo isso, que muitas vezes a ICAR produz terror a partir de textos bíblicos. E, afinal, talvez seja forço reconhecer, como leitor da Bíblia, que ela de fato tem trechos aterrorizantes, especialmente no Velho Testamento – aqueles primeiros livros que tratam da história do povo hebreu até a chegada do Messias (que, aliás, não foi recebido pelo povo a quem veio, nem então nem até hoje!).

Mas não é por acaso que o Velho Testamento se chama Velho Testamento. Depois dele, tem o Novo, contando da vida – e da morte – e da vida de novo – de Jesus Cristo, uma figura não só histórica, porque determinante na conformação da civilização ocidental, mas também pessoalmente importante para muitos – inclusive para mim.

Cristo, através do que pregava, mostrou que Deus (o Pai dEle) não era tanto aquele julgador aterrorizante e cheio de regras que até então vinha sendo apresentado quanto um Pai de amor e compaixão pelos seus filhinhos.

Em suma, a ideia não era ir a fundo, e não vou, porque pra isso eu precisaria de uma fundamentação mais elaborada do que a que o tempo me permite. Então, apenas replico ao comentário: essas histórias de terror, embora não “sobrescritas” pelo Novo Testamento, ganham outro significado à luz dele. Um significado bem mais leve, e nada aterrorizante. Vale a pena conferir! À venda na livraria mais próxima (e, por muito tempo, the best-selling book ever).

Quero muito tudo isso

Depois de dois posts what really grinds my gears consecutivos, e em meio a uma fase atual de muitos incertezas e medos (principalmente quanto à NYU: bolsas, financiamentos, moradia etc.), li um texto que me fez muito bem:

Após a ressurreição, Jesus aparece aos seus discípulos, ainda assustados, para acalmá-los. […] Do mesmo modo que Jesus veio aos discípulos, Ele vem a nós, acalma-nos e nos deixa aliviados. Não apenas com palavras de paz, mas, principalmente, com o seu Espírito: “Depois soprou sobe eles e disse: ‘Recebam o Espírito Santo'” [João 20.22].

Jesus não disse “fiquem com Ele, segurem-nO, Eu vos deixo o Espírito Santo”, mas “recebam”. Receber significa abrir o coração e deixar entrar o poder de Deus. Calma, tranquilidade, sossego, são características de pessoas entregues aos cuidados do Senhor.

(Flávio L. Peiter, Castelo Forte 2009, mensagem de 19 de abril, Eds. Sinodal e Concórdia, 2009.)

Quero muito tudo isso. Que o Papai do Céu me ajude a deixar tudo nas mãos dEle. Um abençoado domingo a todos nós!

Buscando orientações práticas sobre a virtude

O que significa agir virtuosamente? Ter uma conduta virtuosa e correta aos olhos de Deus é o objetivo de vida de todo cristão, mas de forma geral não é tarefa fácil. Todos valorizam a virtude; ninguém é capaz de dizer que deseja não ser virtuoso. O problema é que o próprio conceito de virtude encontra-se perdido em meio a idéias nebulosas, incertas. Para complicar, nosso mundo repleto de opiniões individualistas não parece ser ambiente muito fértil para discutir esse tema e encontrar uma solução satisfatória.

O recurso a entendimentos sólidos, frutos de sistemática reflexão, é uma das soluções viáveis para esse problema. Aristóteles, em obra sobre a ética, trata a respeito da virtude. Ao fim de longo desenvolvimento sobre o tema, o filósofo apresenta seu entendimento:

“A virtude é, então, uma disposição de caráter relacionada com a escolha de ações e paixões, e consistente numa mediania (…). É um meio-termo entre dois vícios, um por excesso e outro por falta, pois nos vícios ou há falta ou há excesso daquilo que é conveniente no que concerne às ações e às paixões, a passo que a virtude encontra e escolhe o meio-termo.” (Aristóteles, Ética a Nicômaco, Livro II, Capítulo 6).

Aristóteles não se contenta com essa definição de ordem geral e parte aos casos particulares. No Capítulo seguinte, discorre a respeito da virtude (o meio-termo) e dos vícios (a falta e o excesso) quanto a diversas ações e paixões. Sua exposição pode ser resumida no seguinte quadro:

Vício por falta

→ Virtude = Meio-Termo ←

 

Vício por excesso

 

Medo, covardia

Coragem

 

Temeridade
excesso de audácia

 

Insensibilidade (raridade)

Temperança

 

Intemperança

 

Avareza
(excesso no ganho, falta no gasto)

Liberalidade, generosidade

 

Prodigalidade
(excesso no gasto, falta no ganho)

 

Mesquinhez

Magnificência (somas grandes)

 

Vulgaridade, ostentação

 

Humildade inadequada

Justo orgulho

 

Pretensão

 

Apatia

Calma

 

Irascibilidade

 

Falsa modéstia

Veracidade

 

Jactância

 

Rusticidade

Espirituosidade (divertir)

 

Chocarrice, deboche

 

Misantropo, desagradável

Amabilidade (agradar)

 

Obsequioso (nenhum fim)

 

Adulador (para si mesmo)

 

Acanhamento

Recato

 

Despudor

 

Despeito

Justa indignação

 

Inveja

 

A Bíblia, por sua vez, cita poucas vezes a palavra virtude (apenas seis, desconsiderando-se aquelas em que figura na expressão “em virtude de”). No entanto, em todas elas, a virtude é destacada como algo a ser perseguido por aquele que quer seguir a Deus.
  1. Em 2 Crônicas 19:3, diz-se que Josafá, rei de Judá, apesar de seus defeitos, tinha alguma virtude (ou algo de bom, segundo a Nova Versão Internacional, NVI), por ter em seu coração a disposição de buscar a Deus e de haver derrubado postes de idolatria.
  2. É pela virtude de homens prudentes e entendidos que se mantêm as nações, apesar dos pecados delas, como ensina Provérbios 28:2.
  3. Conforme Filipenses 4:8, a virtude é uma das coisas que devemos buscar, em nosso agir.
  4. Quando Deus permitiu que Sara, mesmo em idade avançada, mas por causa de sua fé, tivesse um filho, ela recebeu uma virtude, de acordo com Hebreus 11:11.
  5. Deus nos chama para sua glória e virtude, como ensina 2 Pedro 1:3.
  6. Por fim, a partir de 2 Pedro 1:5, é recomendável o empenho para alcançar a virtude em nosso agir quotidiano, pois essa é uma qualidade que impede que sejamos inoperantes, improdutivos, cegos quanto ao nosso pecado.

Como se pode perceber, não só para nós, homens, mas também para Deus é muito importante a busca da virtude. Minha proposta, hoje, é compreender melhor as palavras que Aristóteles aponta como exemplos de virtude, à luz do que a Palavra de Deus diz a respeito desses meios-termos.

Coragem. Em Deuteronômio 31:6, o Senhor garante que sempre acompanhará Israel; é por isso que os israelitas deveriam ser corajosos diante dos outros povos. Já em Efésios 6:20, a coragem é um pedido de oração de Paulo: ele precisa dela para cumprir seu papel como discípulo de Cristo.

Temperança. Deus chama a atenção daqueles que estão insensíveis, duros de coração, em Isaías 46:12, pois cumpriria sua promessa de salvação. Novamente em Efésios 4:19, o Senhor adverte aqueles que perdem a sensibilidade e entregam-se à depravação.

Liberalidade e magnificência. Em várias passagens, a Bíblia diz que contribuições (para a Igreja, para os necessitados) devem ser feitas de modo generoso. A generosidade é tida como um dom da graça de Deus em Romanos 12:8. O Senhor promete riqueza (não só material) aos justos, não para benefício deles próprios, mas para que sejam generosos, como ação de graças a Deus (2 Coríntios 9:11).

Justo orgulho: São tantas as advertências contra o orgulho na Bíblia! Como exemplo, cabe citar a profecia de Isaías 2:17: no dia final, o orgulho do homem será abatido e só o Senhor será exaltado. É dos humildes o reino dos céus, conforme Mateus 5:3. A humildade pode, porém, ser inadequada, quando chega ao extremo da baixa auto-estima, da auto-depreciação, da insegurança. O cristão humilde não deve anular-se a ponto de esquecer que é templo do Espírito Santo e de que, mesmo indigno, conta com a graça salvadora de Cristo.

Calma. A Bíblia não nega ao homem o direito de irar-se, mas adverte para que, quando isso ocorrer, não caia em pecado, vindo a agredir o próximo (Salmo 4:4 e Efésios 4:24). A mansidão e o domínio próprio são tidos como fruto do Espírito, em Gálatas 5:23.

Veracidade. O apego à verdade é um mandamento de Deus (Efésios 4:25). O próprio Deus é caracterizado, no Salmo 31:5, como o Deus da verdade. Em Provérbios 12:17, a verdade é tida como a manifestação da justiça. No Salmo 119:163, o salmista abomina a falsidade e declara o amor pela Lei de Deus, que traduz a verdade de uma forma que permite o entendimento do homem.

Espirituosidade. Devemos viver com alegria, exteriorizando o amor que recebemos de Deus e cuidando para não nos tornarmos zombadores. Assim, servimos às necessidades do próximo e mostramos a ele a liberdade que temos em Cristo. O conselho de Efésios 4:29 é, nesse sentido, muito válido: não devem sair palavras torpes de nossa boca; apenas aquelas que sejam boas e necessárias para o crescimento dos que a ouvem.

Amabilidade. O propósito de nossa vida não é agradar os homens, mas a Deus, o que, sem fé, simplesmente não é possível (Hebreus 11:6). Mesmo assim, é importante buscarmos uma convivência agradável com os que estão à nossa volta, não para que nós mesmos vivamos de forma proveitosa entre nossos amigos, mas para que possamos passar adiante a mensagem do amor de Deus e da salvação dada por Ele através de Jesus (1 Coríntios 10:33).

Recato. Associo o recato e o pudor à idéia de pureza. Os conselhos bíblicos quanto à pureza tem grande importância para os jovens. Em Timóteo 4:12, Paulo não quer que a mocidade de Timóteo seja desprezada, mas que ele seja um exemplo de pureza, o que se demonstra através da conduta, da fala, da fé.

Justa indignação. O homem não precisa (nem deve) conformar-se ao ver o injusto prosperar. Porém, a Palavra de Deus recomenda que não inveje o pecador, mas que se conserve no temor do Senhor (Provérbios 23:17). O salmista em Salmo 73 admite quase ter caído por invejar a prosperidade dos ímpios, mas se alegra por ter permanecido fiel ao Senhor.

No presente estudo, decidimos pinçar apenas o que a Bíblia diz a respeito das virtudes incluídas no quadro geral apresentado por Aristóteles. Há, porém, muitas outras passagens na Bíblia que ensinam as verdadeiras virtudes recomendadas por Deus – em número suficiente para um estudo diário ao longo de um ano inteiro, ou até mais!

A palavra do homem, por mais que resulte de reflexão, sempre corre o risco de ser duvidosa ou inconclusa. É o caso da análise de Aristóteles, que clama por complementação. A Palavra de Deus, porém, não está sujeita a esses riscos: é clara, certa, completa. As orientações das Escrituras são as melhores possíveis para nossa conduta. São, sem dúvida, o recurso mais eficaz para nossos dilemas práticos quanto à virtude.