O mundo pára e a bola gira

Meu apetite postador de hoje está tal que chego a me aventurar a escrever sobre um assunto inesperado. No meu manual de instruções (Compreenda Martin em treze lições simples), esse tema figura na seção “Assuntos pouco prováveis em uma conversa”. Chega a ser um exemplo de livro-texto, quase caricato, daquilo que não tem absolutamente nada a ver comigo e a respeito de que não tenho qualificação alguma para discorrer. Para quem me conhece minimamente já deve estar óbvio que me refiro a futebol.

Eu nunca joguei muito bem – por isso, talvez, acabei virando goleiro (preconceito?). Agora, pelo menos isso: era um bom goleiro. Jogava de quando em quando com a gurizada da vizinhança, mas nunca fui um grande apaixonado. Torcedor, até que fui, mas só nominal – como todo o mundo, me dizia torcedor de um time de Porto Alegre e outro de Pelotas.

O futebol só virou trauma de infância quando meus pais me forçaram a jogar na escolinha que passou a funcionar na associação do bairro, perto de casa. “Eu sei que eu preciso fazer um esporte, mas quero jogar basquete!”. Que dúvida: sendo eu absolutamente incapaz para a prática de atos da vida civil, meus pais me colocaram na tal escolinha, e pronto. Não eram tão sofridos os treinos (até que me divertia), mas eu realmente não tinha talento algum. Eu era mesmo perna-de-pau. Também, não queriam que eu fosse goleiro…

Deve fazer seis anos (explosão!) que não chego perto de uma bola de futebol, tudo por causa do trauma. Assisti a um jogo em um estádio uma só vez – um BraPel, o clássico da cidade de Pelotas. Não teve, aliás, importância alguma na minha vida. Na televisão (eu sou ou não sou o sonho de qualquer namorada?) eu só assisto jogo de futebol quando é da Seleção Brasileira, e numa situação bem específica: Copa do Mundo.

OBS.: Quanto a eu ser ou não ser o sonho de qualquer namorada, não pensem que é presunção minha. Nada disso. Como diz um amigo, é justamente o contrário. Nesta situação de baixa auto-estima, eu preciso mesmo desse tipo de auto-incentivo.

Agora vem a confissão: hoje foi o primeiro jogo da Copa de 2006 que assisti (ou consegui assistir) do início* ao fim. Nos outros jogos, eu tentei, mas não deu certo – sofro demais. Hoje, consegui, mas continuo sofrendo. Ah, e pensar que ainda temos até três jogos pela frente nessa Copa… Eu sofro! E me irrito quando o desempenho dos jogadores não me agrada. E me irrito ainda mais por não ter esse direito – quem sou eu pra criticar qualquer jogador de futebol? Até os guris de oito anos aqui da rua me dão um show de bola.

E sofro mais: amo o Brasil e o futebol do Brasil, mas não me conformo com injustiça. Fico indignado com o fato de que os árbitros não podem usar a tecnologia disponível. No jogo de hoje (contra Gana, oitavas de final), aquele segundo gol do Brasil, feito em situação de impedimento que era evidente aos telespectadores, valeu só porque o juiz não era eu. (E eu nunca seria juiz, porque não passaria nem em concurso pra gandula). Quanto ao resultado do jogo, já dizia aquele velho ditado árabe: mais vale uma vitória justa por 2 x 0 do que uma vitória esmagadora de 3 x 0 com uma pulga atrás da orelha.

* * * * * *

Pra terminar, conto a experiência prévia ao jogo de hoje… Fiz uma prova das dez horas ao meio-dia – horário do fim da prova, horário do início do jogo (por isso é que assisti o jogo “do início* ao fim”). Peguei o ônibus para voltar pra casa. Nunca vi o ônibus deslizar tão rapidamente pela rua. A cidade estava totalmente deserta. Podia contar nos dedos o número de pessoas que vi na rua. As lojas estavam quase todas fechadas… parecia até domingo! O país simplesmente pára.

Quer saber? Que pare. (Já recebi críticas por isso: “Quê? Tu, um guri esclarecido, defendendo o pão-e-circo?”) O mundo poderia, é verdade, parar em prol dos direitos humanos, da qualidade de vida, da paz mundial e outros motivos nobres. Mas o esporte também é motivo nobre. Além do mais, já existe muita desilusão e tristeza nesse Brasil. A gente precisa de um motivo de patriotismo.

Parem tudo e vistam-se de verde-e-amarelo e azul-e-branco e estrelinhas e faixas de Ordem e Progresso! E que ninguém me venha com ingenuidade: não é mero acaso que a Copa caia em ano de eleição presidencial… é um presente divino!

3 ideias sobre “O mundo pára e a bola gira

  1. MDBrauch

    Gabriela Zago esteve por aqui e comentou o presente post, mas tive que apagá-lo por causa das tosquices de formatação que o blogger às vezes comete. Felizmente, recebi o comentário por e-mail. Aí vai ele, by Gabi:Aquele falso gol só teria relevância se o Brasil não tivesse feito nenhum outro gol na partida. Aí estaríamos falando de injustiça! Mas como teve outros 2 gols para legitimar a vitória… acho que a gente é capaz de ignorar os meios pouco escusos de obtenção do placar final da partida… ;)E a Copa do Mundo, embora seja absurdo o tanto que ela paralisa os brasileiros, é um bom bom pretexto para reacender o nacionalismo nas pessoas deste país. Todo mundo é um pouco mais patriota quando a seleção entra em campo! 🙂

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  2. MDBrauch

    Tá, e aí? Eu também tinha te falado pra não comentar, porque a formatação tava dando problema e eu ia ter de republicar (fazer uma república?!), mas tu comentaste igual. 😛 Estamos quites! 😉

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