Arquivo mensal: fevereiro 2010

Duas páginas em dois dias?

Num dos textos que li pro mestrado esta semana apareceu uma referência a um episódio que aconteceu com o escritor Mark Twain – uma troca de telegramas muito interessante. Tive que achar o original. (Ah, adivinha onde achei? “Deu no New York Times!” O artigo, aliás, é bem legal; tem uns quantos exemplos de telegramas históricos.)

Um belo dia Twain recebeu de um editor o seguinte telegrama:

NEED 2-PAGE SHORT STORY TWO DAYS.
(PRECISO CONTO 2 PÁGINAS DOIS DIAS.)

Twain respondeu ao editor:

NO CAN DO 2 PAGES TWO DAYS. CAN DO 30 PAGES 2 DAYS. NEED 30 DAYS TO DO 2 PAGES.
(NAO POSSO 2 PAGINAS DOIS DIAS. POSSO 30 PAGINAS 2 DIAS. PRECISO 30 DIAS PARA 2 PAGINAS.)

Genial. De acordo. Escrever de forma concisa leva tempo e exige esforço. Tem tudo a ver com uma lição de McCloskey que citei aqui no blog alguns anos (!) atrás: redação fácil, leitura difícil. Sonho com o dia em que todos os habitantes do mundo das letras jurídicas aprendam que concisão é uma virtude e que verborragia não é sinônimo de produtividade nem de raciocínio apurado.

Irresistível

A semana será mais curta que o normal. Mas não é por causa do carnaval, que aqui não há; é que hoje foi feriado nacional de Presidents Day. Semana mais curta, porém, não significa semana menos intensa: dois trabalhos para quinta-feira, muita leitura, aula extra na sexta-feira (que era pra ser meu “dia livre” de aulas… nem sempre funciona). Apesar de tudo o que me espera, e mesmo sem muito tempo, simplesmente não posso deixar de postar sobre a semana que passou. Muitos acontecimentos importantes – postagem irresistível.

Segunda-feira, dia 8, escrevi meu primeiro reaction paper para a disciplina de Direitos Humanos (reaction paper é uma reflexão pessoal em resposta às leituras da semana – preciso escrever quatro ao todo; cada um vale 25% da nota do semestre). Também terminei um memorandum para a disciplina de Metodologia – nada menos que 50% da nota do semestre. São dois “pesos acadêmicos” científicos que tirei das minhas costas.

Terça-feira, dia 9, fui doar sangue. A parte boa foi saber que minha pressão estava normalíssima em 11 por 7 (“pressão de criança”, segundo o Sam, o enfermeiro que me atendeu), bem diferente do que aconteceu na última vez que doei. A parte ruim foi que quase não me deixaram doar. Quando eu disse que sou brasileiro e que morei no Brasil até menos de um ano atrás, o Sam olhou seu manualzinho e disse que não ia rolar doação de sangue pra mim – porque no Brasil tem risco de malária. Eu expliquei que no Rio Grande do Sul, onde morei a vida inteira, esse risco não existe. Mesmo assim, o Sam complicou; chamou um superior, que queria saber por onde eu andei no Brasil…

Aiai, que cansaço. “Bom, mas em nenhuma das regiões onde estive existe risco de malária. Mesmo que eu não tenha viajado tanto assim pelo Brasil, fica difícil explicar… Se tiveres um mapa aí, posso te mostrar.” E não é que ele tinha mesmo um atlas? Lá fui eu, dar aula de geografia pro rapaz. “Aqui é o meu estado, também já fui pra esse outro estado aqui, a São Paulo, ao Rio de Janeiro, mas não mais ao norte que o Rio.” Então o chefe do Sam pegou o telefone e ligou para o seu chefe pra verificar se eu podia doar ou não. Finalmente ele disse que sim.

Claro que tive que perguntar pros dois carinhas, só por curiosidade, o que dizia no manual deles. Fiz a seguinte comparação pra eles entenderem: é como se eu morasse a vida inteira em Seattle (que fica bem no noroeste aqui dos EUA) e eles não me deixassem doar sangue por causa de uma doença que só tem na Flórida (no sudeste dos EUA). Expliquei que o Brasil era um país bem grandinho. (Talvez ele ficasse chocado se eu dissesse que o Brasil é maior que a parte contígua dos EUA – ou seja, 48 estados mais o Distrito de Colúmbia, ou “área total menos Alasca e Havaí”.) Por isso, tratar o país como “uma coisa só”, tanto no caso do Brasil quanto no dos EUA, não fazia sentido.

Aí ele até me alcançou o manual, para eu mesmo consultá-lo. E estava lá a lista de todos os estados do Brasil onde há risco de malária – sendo que todos eles são estados onde eu jamais estive. No fim das contas, todo o rolo foi por falta de preparação deles (em receber doações de estrangeiros!), e não por uma falha do manual. Olha, considerando as experiências desagradáveis que já tive ao doar sangue (vide histórico do blog!), fica cada vez mais difícil entender por que persisto como doador. Se não é por altruísmo, só pode ser por teimosia!

Quando voltei pra casa, vi que tinha e-mail da NYU, oferecendo a alunos do meu programa (International Legal Studies) a oportunidade de observar a reunião do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, durante a segunda semana de março, na sede das Nações Unidas aqui em Nova Iorque. Apenas os vinte primeiros interessados teriam a oportunidade. Pensei que nem teria mais chance, porque o e-mail tinha chegado uma hora antes, mas resolvi tentar mesmo assim – e consegui! Tô dentro.

Na terça-feira à noite fui ao Carnegie Hall para o último concerto do meu pacote estudantil para a temporada. O concerto com a Orquestra Sinfônica de Pittsburgh foi, na minha opinião, o melhor dos três a que assisti (os outros foram com as orquestras da Juilliard e de Houston). A primeira parte do programa foi o Concerto para Violino de Brahms (Op. 77), com a violinista Anne-Sophie Mutter. Apenas o máximo. Só para deixar um gostinho do que foi o concerto: encontrei esta gravação do Allegro giocoso, ma non troppo vivace – Poco più presto (terceiro e último movimento) com a mesma violinista.

E quarta-feira nevou. O dia inteiro. Muito. Uns 30 centímetros. A nevasca foi forte a ponto de a NYU declarar snow day e fechar as portas – coisa que, segundo disseram por aqui, acontece muito raramente. Na quinta-feira, assim que me liberei da última aula, fui tirar fotos do Central Park coberto de neve.

 

 

Sábado fui de novo ao Carnegie Hall, dessa vez com meu ingresso baratinho de estudante para a Filarmônica de Nova Iorque. A primeira peça (e acho que minha preferida da noite) foi a ouverture de Rienzi (a gravação aqui não é da NY Phil), de Wagner. A orquestra, claro, é espetacular, mas o maestro – Alan Gilbert – faz o seu próprio show. Ele rege energicamente como se fosse ter um ataque cardíaco a qualquer momento.

Muito inspirador para mim: domingo de manhã voltei a ensaiar o City Grace Choir! Vamos preparar uma música para Sexta-Feira Santa e duas para a Páscoa. Acho que, além do coro, vamos organizar um quarteto só de guris. Ah, e talvez cantemos uma música em português… veremos! Depois do culto, mais um ensaio do coral (sim, um antes e outro depois do culto), almoço às 15h, passeio na Strand (uma biblioteca de usados enorme na Broadway).

Pra terminar o dia, fui ao Empire Hotel Rooftop com uma amiga – que vai permanecer anônima pra ninguém ficar me incomodando! – em comemoração ao Valentine’s Day, dia dos namorados aqui. Não, não foi um encontro romântico – foi um encontro de amigos solteiros, hehe! Mas com direito a chocolate e cartão (de amizade…). :)

A hermenêutica das fotos dançantes

O comentário do Felipe ao post “Estilo importa” motivou uma resposta. Ia responder por e-mail, mas acabou que a mensagem virou um quase-post, que, com algumas adaptações, virou post. Voici.

Fico tão feliz quando “as pessoas” (tanto mais quando são grandes amigos e leitores qualificados!) comentam sobre e gostam do que escrevo. Afinal de contas, escrever dá trabalho, blogar dá trabalho… Ter um reconhecimento de vez em quando é bom e me motiva a continuar. :)

Imagina: ter o meu texto dissecado num vestibular seria uma honra enorme! Um dia, quem sabe. Outro dia, talvez, vou publicar um artigo no American Journal of International Law. Um dia, quem sabe, alguém vai me pedir uma carta de recomendação! Deve ser muito legal estar “do lado de lá”. (Aspas, ponto.) Um dia, espero.

Embora não seja professor, gostei do exercício de hermenêutica proposto pelo Felipe:

“Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura”.

(Aspas, ponto. Se a frase do Felipe terminasse com “na minha formatura”, poderia muito bem ser: “Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura.” Ou seja: ponto, aspas. E sem ponto depois das aspas.)

Abstraindo do contexto, consigo pensar nas seguintes interpretações para a frase (claro que apenas a primeira é séria):

  • Martin dançou na formatura de Felipe. Esse momento tragicômico foi registrado em fotos. Karina e Felipe viram essas fotos recentemente.
  • Martin tirou fotos durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (sei lá, num telão) essas fotos.
  • Martin aparece em fotos tiradas durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (num telão, de novo?) essas fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas foram exibidas (num bom e velho telão) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam durante a formatura, viram essas fotos.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas foram exibidas (onde? que tal num telão?) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam na formatura, viram essas fotos.
  • Martin tirou fotos durante a formatura do Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando por aí. Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em fotos tiradas na formatura de Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando. Karina e Felipe foram testemunhas oculares da dança das fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.

Tudo bem, admito que me puxei um pouco. Mas me justifico: enquanto escrevo este post-resposta, percebo que meu colega de apartamento está ouvindo valsas vienenses. Não tenho bem certeza, mas acho que é Johann Strauss.

(O autor das valsas vienenses, não o meu colega de apartamento! Mais: o autor das valsas e o meu colega de apartamento não são a mesma pessoa! Bah, bem que eu gostaria que fossem, mas ele está morto. [Quem morreu foi Strauss, faz mais de um século. Meu colega de apartamento está vivo e ouvindo Strauss. {Meu colega de apartamento está ouvindo músicas que Strauss compôs; não está ouvindo o próprio Strauss.}])

Divagações à parte: ouvindo a música, fiquei imaginando fotos que dançam ao som de valsas vienenses. Neste momento, Vir (minha mamá greco-argentina) perguntaria: “¿fumaste cosas raras?

(Ponto de interrogação, aspas. A interrogação faz parte do que Vir perguntaria. E não há necessidade de ponto final depois das aspas: o ponto final faz o serviço.)

Aparentemente não consigo mais não divagar nos meus posts.

(Prova disso é que aqui me obrigo a fazer mais um comentário parentético metadiscursivo: o que acabo de dizer, “não consigo mais não divagar”, é algo que a minha professora de escrita jurídica desaconselhou um dia desses – dupla negação.)

Divagações à parte, segunda tentativa: não, não fumei cosas raras. Nunca fumei. É tudo efeito das valsas vienenses.

Paro por aqui. Preciso dançar.

555

Alguns affairs hoje em Midtown. Na ida para o Carnegie Hall (ingresso de estudante para a New York Philharmonic!), uma foto na esquina 555.


5th Ave & 55th St
The St. Regis & The Peninsula

Estilo importa

 

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma”, ressalta o Guri.

O trecho acima, além de expressar uma observação verdadeira minha, serve bem como ponto de partida para este post. As convenções de estilo que adotei no trecho são as que aprendi “com a vida” no Brasil e que uso consistentemente quando escrevo em português, inclusive aqui no blog. Nesse trecho não há nada de “estranho” para olhos brasileiros, né? Assim é porque estamos acostumados a ver o uso dessas convenções em jornais, revistas e livros de forma tão frequente e natural que as aceitamos e reproduzimos sem nem perceber.

Mas olha só como as convenções podem ser diferentes: pronto. Que tal? Acabei de fugir da convenção brasileira. Não dá pra ver? [Edit: Não dá mesmo pra ver: basta publicar no blog que a diferença desaparece! A autoformatação do blogger.com estragou meu texto.] É sutil: dois espaços após os dois pontos ou após o ponto final, convenção conhecida como double spacing, English spacing ou American typewriter spacing. (Sigo usando-a neste parágrafo.) Uma amiga canadense, eu acho, é que me disse para usar o double spacing em inglês, mas só comecei de fato a usá-lo quando fiz o estágio nas Nações Unidas: está no manual de estilo do secretariado. Desde então, comecei a observar que a convenção é bastante aplicada em documentos oficiais das Nações Unidas (em inglês). Mas nem sempre.

A mudança mais chocante, porém, foi quando vim para a NYU e entrei em contato com as convenções daqui, sejam elas específicas da área do direito ou gerais para a redação em inglês. (Parei de usar o espaço duplo. Aliás, bom começo: nos EUA não se usa [mais] o espaço duplo após os dois pontos ou após o ponto final. Até há quem ainda insista em usar, mas os manuais de estilo não recomendam.) Para tirar dúvidas que tenho de vez em quando, visito a versão online do Chicago Manual of Style (CMS). Algumas regras me agradam; outras, nem tanto.

O uso da vírgula serial (ou vírgula de Oxford) me agrada. Vírgula serial é a que separa o último elemento de uma lista. No trecho inicial deste post, eu citei como exemplos de convenções de estilo as relativas ao uso de aspas, travessões, e vírgulas. Essa última vírgula aí, entre “travessões” e “e vírgulas”, é a vírgula serial. Sim, é provável que tenhas ouvido da tua professora de português do ensino fundamental que “vírgula + e” era uma construção absolutamente inaceitável em português. Mas, pensando bem, talvez esse seja mais uma regra absoluta da professora de português do ensino fundamental que mereça (a regra!) ser flexibilizada, especialmente nos casos em que uma vírgula serial pode ajudar a evitar uma ambiguidade.

Clássico é o exemplo da Wikipédia. Imagina uma dedicatória de livro escrita assim: “Para meus pais, Amy Rand e Deus”. A quem o livro é dedicado? Talvez seja evidente: (1) aos pais de quem escreveu o livro, (2) a Amy Rand e (3) a Deus. Mesmo assim, não se pode negar que existe uma ambiguidade: “Amy Rand e Deus” pode ser um aposto explicativo, ou seja, uma explicação do termo anterior. No nosso exemplinho clássico, quem escreveu pode ter querido dizer: “Para meus pais, [que são] Amy Rand e Deus”. Ok, improvável. Mas possível. E a simples possibilidade de uma ambiguidade justifica o uso de uma vírgula serial, “só pra garantir”.

À primeira vista não gosto de regras absolutas: nem da regra absoluta da professora de português do ensino fundamental (“vírgula serial: nunca”) nem da regra absoluta do CMS (“vírgula serial: sempre”). Gosto mesmo é de abordagens flexíveis, como esta: “vírgula serial: quando evitar ambiguidade”. Afinal, uma vírgula serial em “aspas, travessões, e vírgulas” não me parece ter grande utilidade prática (e o que aparentemente não tem utilidade pode vir a causar problemas e talvez deva ser removido – um argumento que valeria tanto para o não-uso de vírgulas seriais quanto para cirurgias preventivas de remoção de apêndice…?). Por outro lado, também gosto de abordagens consistentes, algo que a abordagem flexível que acabo de apresentar não parece ser. Sendo assim, prefiro a regra absoluta do CMS. “Vírgula serial: sempre.” Se me condenarem pelo uso da vírgula serial à toa, sem haver ambiguidade a solucionar, posso me justificar: “bom, pelo menos fui consistente.”

Se a vírgula serial é o que eu gosto no CMS, há aspectos dos quais não sei se gosto muito. Um deles é o travessão (m-dash): ele é mais longo que o comumente usado em português (mais longo que o traço, “meia-risca”, que aparece no Word quando se coloca um hífen entre duas palavras – este!). Além de mais longo, o travessão em inglês não é separado das palavras adjacentes. Uma expressão parentética típica na convenção brasileira – como esta – torna-se bastante diferente—como esta—na convenção do CMS. Ahá! Acabo de violar – intencionalmente, é claro – uma convenção comum ao estilo brasileiro e ao do CMS: não se deve usar, em uma mesma frase, mais de uma expressão parentética com travessões. Se for mesmo preciso fazer mais de uma – o que (na minha modesta opinião) pode ser um forte indicativo de redação ruim –, usam-se parênteses (como acabo de fazer) ou vírgulas.

A última frase do parágrafo anterior me traz a uma das coisas de que não gosto no CMS: se uma vírgula normalmente seria necessária—mas se se resolve incluir uma expressão parentética com travessões, como esta—não se deve pôr vírgula após o segundo travessão. Dá pra sentir a falta da vírgula antes de “não se deve […] travessão”! A convenção brasileira me parece melhor nesse aspecto: se uma vírgula é necessária – ainda que se resolva incluir uma expressão parentética com travessões, como esta –, a vírgula deve aparecer (como acabou de aparecer!) após o travessão, ora. Ela é necessária e pronto. O travessão não a substitui.

E a última coisa (por hoje?) de que não gosto no CMS é que “vírgulas precedem as aspas,” assim como acabo de fazer, e também assim: “pontos finais precedem as aspas.” Não gosto. Prefiro “vírgulas fora das aspas”, bem como “pontos finais fora das aspas”. É mais lógico. O próprio CMS reconhece isso, mas diz que “usos tipográficos” ditam que pontos finais e vírgulas precedam as aspas.

O problema é mais profundo do que parece. Se eu escrever que, segundo o Guri, “é mais lógico que vírgulas e pontos finais fiquem fora das aspas,” incluindo a vírgula dentro das aspas, minha frase sugere que a opinião do Guri é que tem uma vírgula e que talvez continue depois dessa vírgula; porém, na verdade a vírgula pertence à minha frase a respeito da opinião do Guri. Enfim: se a vírgula é minha, é minha; se é do Guri, é do Guri, e só se for do Guri vou querer atribuí-la ao Guri, porque seria impreciso (e talvez desonesto) dizer que o Guri disse vírgulas que de fato não disse. Como aqui o Guri sou eu mesmo, não há risco, mas pode haver situações em que o risco de imprecisão e desonestidade seja alto.

Comecei com a convenção corrente no Brasil:

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma”, ressalta o Guri.

E termino com a convenção do Chicago Manual:

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo—por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões, e vírgulas—embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma,” ressalta o Guri.

Esse “jogo dos sete erros” é irrelevante, “a distinction without a difference“? Quanto à mensagem, é claro que não há diferença. Mas a percepção de quem lê pode ser bem diferente. Nos EUA alguém pode estranhar um texto em língua inglesa usando estilo brasileiro, assim como no Brasil alguém pode estranhar um texto em língua portuguesa usando o estilo de Chicago. Esse “estranhar” da parte de quem lê pode variar entre, num extremo, um desconforto motivado pela aversão ao incomum e, no outro extremo, a sensação de que quem escreveu é incompetente. Para evitar esse segundo extremo, que é mais dramático, acho que vale aqui adotar uma abordagem flexibilidade–consistência: com flexibilidade, cuidar para usar em cada contexto o estilo apropriado e, com consistência, usar apenas um estilo em cada contexto.