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Casamento indiano: Grand finale

Uma festa para 2.500 convidados. Um casamento de duas semanas tinha de ter um encerramento à altura! Cheguei ao local da festa (ao ar livre, no jóquei clube de Mumbai) logo do início, com os amigos da NYU. Entramos na área da festa pelo corredor iluminado um pouco antes da entrada oficial dos noivos com suas famílias. Todos estavam ainda mais espetacularmente elegantes que nos outros eventos!

Chegada da família após a passagem pelo corredor iluminado
Noiva posando para fotos com a família e o noivo

Claro que nem todos os 2.500 convidados estavam todos, ao mesmo tempo, no local da festa: algum fluxo certamente houve. Mesmo assim, para comportar tantos convidados, o local tinha de de ser enorme. Havia três longos buffets (vegetariano, não vegetariano e de sobremesas), um coffee bar, estação de chás (que na Índia não poderia faltar!), uma área com sofás para conversar e relaxar, uma área com as mesas de jantar.

Visão geral do lado de cá
Visão geral do lado de lá
Coffee Bar

A área central da festa tinha uma árvore iluminada e decorada com flores e colares, no mesmo estilo do corredor da entrada. Ali os noivos receberam cada um dos convidados e tiraram fotos. Foram para ali logo depois de entrarem na festa, lá pelas 19:30. Até pouco depois da meia-noite (quando os colegas da NYU e eu voltamos para o hotel), os noivos ainda não tinham jantado… Uma maratona de cumprimentos e fotos. Cãibra nas bochechas de tanto sorrir. (Sempre me dói um pouco quando os noivos ficam tanto em função do protocolo que não conseguem aproveitar adequadamente a festa de casamento!)

Já os convidados aproveitaram a festa e foram muito bem servidos com diversos tipos de coquetéis de frutas (todos não alcoólicos), petiscos… e uma refeição fabulosa em tamanho e sabor. Mais uma vez, contei com a ajuda do amigo indiano (e hindu e vegetariano) Atul, da NYU, que me deu todas as dicas sobre os pratos a provar (e, de novo, provei de tudo e me deliciei com tudo!). Achei excelente a ideia de uma área de sofás, que eu nunca tinha visto (talvez porque nunca tivesse ido a uma festa com tantos convidados que tivesse espaço para uma área de sofás!). Passei um tempão ali com o pessoal da NYU e outros amigos que fiz ao longo dos eventos do casamento.

Convidados curtindo a festa
Foto quase oficial da reunion NYU LL.M. 2010 (com a roupa que ganhei da noiva!)

O dia seguinte ao casamento foi de correria: madrugadão para finalizar as malas e ir ao aeroporto, de onde voei a Jodhpur, para começar o passeio turístico pós-casamento. Minha aventura indiana estava apenas começando… e continuará aqui nos próximos posts!

Elephanta Island e Prince of Wales Museum: últimos passeios em Mumbai

E chegou o último dia das festividades de casamento na Índia (sábado, 19 de janeiro). Porém, como a festa de casamento seria só à noite, aproveitei meu último dia de passeio em Mumbai.

O Remy, colega de Singapura da NYU com quem dividi o quarto no hotel, topou acordar cedo para pegarmos o primeiro ferry até Elephanta Island (ou Gharapuri Island) uma ilha a cerca de 10 quilômetros a sudeste de Mumbai onde há as impressionantes Elephanta Caves, cavernas hindus e budistas esculpidas em rocha basáltica entre os séculos V e VIII d.C. As Elephanta Caves e o Chhatrapati Shivaji Terminus (Victoria Terminus) são os dois locais da região de Mumbai que estão inscritos na lista do Patrimônio Mundial da Humanidade da UNESCO.

No barco, saindo para Elephanta Island
Taj Mahal Palace e Gateway of India
Rumo a Elephanta Island
Chegada em Elephanta Island: macacos, não me mordam!
Entrada da caverna principal, templo de Shiva, o principal deus hindu.
Painel de Bhairava (Shiva) matando Andhaka
Painel Trimurti (ou Trimurti Sadashiva ou Maheshmurti),
representando Brahma (criador), Vishnu (preservador) e Shiva (destruidor)
Painel Ardhanarishvara, representando a união entre
Shiva e sua esposa Parvati
Painel que retrata o casamento de Shiva e Parvati

Na volta de Elephanta Island, uma aventura de táxi (porque tudo o que envolva trânsito em Mumbai pode ser considerado aventura, ainda mais se também envolver táxi) até o restaurante Britannia & Co., uma joia persa pertinho do hotel. No restaurante, veio conversar conosco o Sr. Boman Kohinoor, filho do fundador do estabelecimento. Simpático saudosista da era britânica, ele veio nos mostrar a carta (plastificada) que lhe enviou a Rainha Elizabeth II, em que agradece a ele a correspondência gentil e a lealdade.

A experiência de andar de táxi em Mumbai
Britannia & Co.: restaurante de culinária persa próximo ao Grand Hotel Bombay
Com o Remy, saboreando um Berry Pulav no Britannia

Durante a tarde (sozinho, porque os amigos foram descansar para a cerimônia do casamento, mas eu me neguei, obviamente), fui dar umas últimas voltas por Mumbai. Passei pela Estação Churchgate e fiquei umas horinhas no Museu de Mumbai (mapa). Num lindo exemplo de arquitetura indo-sarracênica fica um vasto acervo de diversas obras de arte da Índia, do Nepal e do Tibet, com destaque para esculturas em pedra, pintura em miniatura, artes decorativas (em pedra, madeira, marfim, metais, têxteis), porcelana, armaduras…

Prédio antigo da Churchgate Station
Museu Chhatrapati Shivaki Maharaj Vastu Sangrahalaya;
antes, Prince of Wales Museum of Western India
Hall de entrada do museu
(antes de me dizerem que não podia fotografar, nem sem flash!)

Mumbai

Com as intensas programações do casamento, tive de aproveitar os curtos intervalos para passear um pouco em Mumbai. Após o Mosallah, saí com alguns amigos da NYU para caminhar e fotografar alguns pontos turísticos mais óbvios (com meu foco involuntário na arquitetura gótica), expandindo o passeio já realizado pelas redondezas do hotel.

General Post Office (mapa aqui), o Escritório Geral dos Correios,
um dos exemplos de arquitetura indo-gótica
Pombos no telhado, em casa na frente do General Post Office

A Estação Chhatrapati Shivaji (nome original em inglês: Victoria Terminus, em homenagem à Rainha Vitória, do Reino Unido) é um dos edifícios neogóticos mais impressionantes. Foi designado Patrimônio Mundial pela Unesco em 2004. Até hoje em funcionamento, por ali passam três milhões de pessoas por dia.

Chegando ao Victoria Terminus
Pátio interno da parte administrativa do Victoria Terminus
Torre principal do Victoria Terminus
Entrada principal do Victoria Terminus; à esquerda, o pavilhão dos trens
À esquerda, a entrada principal; à direita, a parte administrativa
O decadente saguão dos trens no Victoria Terminus,
não condizente com a majestade externa do edifício

O prédio da sede da Brihanmumbai Municipal Corporation (BMC), a Corporação Municipal da Grande Mumbai, é outro exemplo da arquitetura gótica de Mumbai. O edifício fica bem em frente à Victoria Terminus. A BMC é responsável, em Mumbai, por serviços públicos como os de saúde e hospitais, iluminação, manutenção de parques, tratamento de esgotos e segurança.

Sede da BMC, vista da Victoria Terminus
Destaque para a torre principal da sede da BMC
Detalhe da sede da BMC
Outro edifício de inspiração gótica

A Flora Fountain (Fonte de Flora) é um chafariz-escultura do século XIX que retrata a deusa romana Flora. Fica na Hutatma Chowk (Praça do Mártir).

Flora Fountain
Detalhe da Flora Fountain
Detalhe da Flora Fountain

Outra exemplo imperdível da arquitetura gótica de Mumbai é a Bombay High Court, a Alta Corte de Mumbai. Com 75 juízes, têm jurisdição originária e de apelação. Suas decisões só podem ser apeladas à Suprema Corte da Índia.

Bombay High Court
Bombay High Court

Por hoje, o último exemplo da arquitetura gótica e veneziana de Mumbai é a Rajabai Clock Tower (Torre de Relógio Rajabai), com 85 metros de altura. Está localizada no campus da Universidade de Mumbai, inspirada no Big Ben e construída entre 1869 e 1878.

Rajabai Tower

Casamento indiano: Mosallah

De roupa nova, fui ao meu primeiro almoço tradicional indiano e vestido tradicionalmente como indiano. Foi o Mosallah, uma festa-almoço organizada pelo tio materno da noiva, realizada em um dos salões do Princess Victoria and Mary Gymkhana, um centenário clube de Mumbai. O evento começou com uma cerimônia em que os noivos ganharam diversos presentes pequenos da família da noiva.

Os noivos e a família da noiva, em parte da cerimônia que antecedeu o almoço
De pyjama e kurta,
rindo da situação de ser “modelo fotográfico indiano”
para três amigos ao mesmo tempo

Infelizmente não vou me lembrar dos nomes (eu deveria ter anotado tudo!), mas do “fluxo” da refeição eu me lembro bem! Sete pessoas sentam no chão ao redor de um prato metálico comum, bem grande. Em regra, não menos nem mais que sete poderiam sentar ao redor de cada prato, mas essa regra foi flexibilizada para que todos os estrangeiros pudessem participar também (sob instruções dos indianos).

Nesse prato grande são servidos os diferentes pratos da refeição: um prato salgado e outro doce, de forma alternada. Não se deve começar o segundo prato antes de que o primeiro tenha sido consumido – e assim sucessivamente até o enésimo… foram muitos e muito bons!

Sou vegetariano, então não tive problemas com a maioria das refeições que fiz na Índia – esta foi a exceção. Alguns pratos tinham carnes, mas a família insistiu que eu participasse da refeição, como experiência. Para isso, quando um prato não vegetariano era servido no prato-mesa comum, algum familiar da noiva me trazia um prato vegetariano. Afinal de contas, acho que nessa refeição fui tão paparicado quanto os noivos. O cuidado dos noivos e das suas famílias em bem receber todos os convidados (evidenciado, aliás, em todos os eventos do casamento) chegou a ser enternecedor.

Encerro com algumas fotos. No próximo post, conto dos passeios que fiz após o Mosallah.

Tive a honra de sentar ao redor do prato-mesa dos noivos
“Vista aérea” da refeição. Neste momento,
eu estava deliciando separadamente
um prato vegetariano que me trouxeram,
enquanto os demais comiam o prato não vegetariano.
Aqui fui flagrado pelo amigo Apostolos secando a boca da lata de refrigerante (ha!)
Lavando as mãos ao final da refeição (foto também do Apostolos)

Casamento indiano: passeio e roupa nova

O dress code para o almoço do meu segundo dia de casamento indiano era roupa formal indiana. Para não usar a roupa que ganhei e ter de repeti-la na festa principal, resolvi ir às compras! (Repetir roupa nem seria tão grave assim, eu acho, mas, num contexto de tanta elegância, não tive coragem.)

Como a loja recomendada pela noiva só abriria às 10h, aproveitei para passear um pouco pelas redondezas do Grand Hotel Bombay. (Lembro que, para quem costuma caminhar dezenas de quilômetros nos lugares que visita — vide NYC, Boston, Philly e Montevideo, apenas como exemplos —, “redondezas” pode ser um conceito mais amplo que o usual!) As redondezas do hotel apresentam características arquitetônicas que evidenciam a influência inglesa durante o Raj Britânico, de 1858 até a independência da Índia, em 1947.

Mumbai — ou Paris — ou Londres
Elphinstone College
Cricket
Biblioteca David Sassoon e um desfile imprevisto de saris
Um toque da bagunça urbana indiana; torre da universidade ao fundo (Rajabai Clock Tower)
Mais um prédio que me chamou muito a atenção: a Majestic House

Terminei o breve passeio no Gateway of India, arco concebido para dar boas-vindas ao Rei George V e à Rainha Mary, da Inglaterra, quando visitaram a Índia em 1911, mas concluído somente em 1924. Perto do arco, chama a atenção o Taj Mahal Palace Hotel, palco do atentado terrorista de 2008.

Gateway of India
Taj Mahal Palace Hotel ao fundo

Depois do passeio, fui à Fabindia (mapa aqui), a loja recomendada pela noiva, e comprei meu traje indiano número dois (além de uns chás orgânicos que encontrei no caminho!). Tinha combinado de encontrar as amigas da NYU Pam e Sarah na mesma loja. Voltei com elas ao hotel, para nos prepararmos para o almoço. Mas sobre o meu primeiro almoço indiano vestido como indiano eu conto no meu próximo post!

Meu primeiro casamento indiano

Há cerca de um ano recebi por e-mail o convite de casamento da Rahela, uma das boas amigas indianas que fiz durante o mestrado na NYU: casamento marcado para o início da segunda quinzena de janeiro de 2013.

Fiquei empolgado e desde logo quis ir, mesmo que implicasse algum $acrifício. Um autêntico casamento indiano, na Índia, com a oportunidade de rever, além da própria noiva, outros amigos do mestrado (também convidados), não é algo que me aconteça muito frequentemente.

Fiquei empolgado, mas não planejei nada, porque a data parecia tão distante! Lá por setembro a Rahela pediu meu endereço postal para enviar o convite impresso. Por erro do correio indiano, o convite foi enviado ao Equador (?) e reenviado de lá a Porto Alegre.

Afinal, só no início de dezembro marquei férias, pedi (e consegui!) o visto indiano, comprei as passagens e reservei com um agente de viagem indiano recomendado pela Rahela um pacote pós-casamento – tudo para viajar em meados de janeiro!

Porto Alegre – São Paulo – Dubai – Mumbai… Quase 19h de voo depois, cheguei à Índia por volta das 8:30 da manhã no horário local, no dia 16 de janeiro. A Índia tem um meio fuso horário: se lá eram 8:30, no Brasil eram 7h30min mais cedo (1:30 da manhã).

Já na chegada ao aeroporto, ficou em evidência pela primeira vez a organização neurótica da noiva (é um elogio, porque eu amo organização neurótica!): um motorista me esperava para me levar ao Grand Hotel Bombay, em Ballard Estate, um simpático e muito bem localizado hotel onde a noiva tinha pré-reservado quartos de hotel para todos os convidados da NYU.

O trânsito do aeroporto ao hotel é uma história à parte. Foi um tratamento de choque para o turista recém-chegado. O trânsito na Índia é caótico. Levei mais de duas horas (no horário de pico!) para percorrer uma distância de uns 24 quilômetros. E o motorista não tinha muita certeza de onde ficava o hotel, porque “endereço”, na Índia – tipo rua e número, mesmo – não é lá algo muito comum. “Bairro tal, perto do posto do correio” é um endereço megapreciso para os padrões indianos que conheci.

Chegando ao quarto do hotel, mais uma surpresa: a noiva tinha pedido para deixarem na mesa de centro do meu quarto uma bandeja de madeira, pintada a mão por crianças envolvidas em um projeto social e coberta com guloseimas indianas, para lanches rápidos.

Sobre a minha cama, havia um pacote com uma calça pyjama bege e uma espetacularmente linda túnica kurta azul-petróleo com bordados, exatamente do meu tamanho – roupa em estilo indiano para eu usar no evento principal do casamento (porque houve vários!).

Enquanto fazia os planos de viagem, eu tinha comentado com a Rahela por e-mail que gostaria de usar roupas indianas e que nem levaria terno. Pedi a ela que me recomendasse lojas onde comprá-las em Mumbai e me indicasse alguma amiga ou amigo dela que pudesse me ajudar com isso, já que ela, como noiva, não teria tempo para isso.

Ela de pronto me respondeu que as sugestões de lojas e amigos estariam em uma folha de contatos no hotel, mas que eu só precisaria usá-los se quisesse comprar mais um conjunto de roupas indianas – porque um conjunto ela já tinha comprado para mim! Hospitalidade indiana é algo.

Depois de me instalar no hotel, almocei em um restaurante ali no entorno uma comida muito boa, mas apimentadíssima. Bem feito, porque na primeira refeição eu já me esqueci da recomendação da minha irmã Lu, que tinha ido à Índia uns seis meses antes de mim: pede sempre que preparem a comida o menos apimentada possível. Mas por mim tudo bem, porque acho que comer lacrimejando (em prantos, na verdade) e fungando deveria mesmo fazer parte da experiência.

À tarde eu dormi, porque estava exausto da viagem, e à noite saí para jantar com a Rahela e o Murtuza (o noivo), as irmãs da noiva e todo o pessoal da NYU. Fomos ao Leopold Café, na Colaba Causeway, que ficou (ainda mais) famoso em Mumbai por causa do ataque terrorista de 2008.

No próximo post, contarei sobre o piquenique à beira do lago!