Arquivo da tag: Estados Unidos

Primavera e Páscoa

É primavera. Assim, de uma hora pra outra. Incrível. Os dias estão cada vez mais quentes. As ruas estão cada vez mais cheias das mais vivas cores (de flores) e dos mais intrigantes cheiros (de flores, também). E pensar que um dos últimos posts tem fotos de nevasca… Em breve, fotos da nova estação.

Tanta coisa aconteceu na última semana: viagem a Washington, visita da Lígia, diversas correrias acadêmicas (três papers importantes y más). Infelizmente me falta tempo pra fazer relatórios detalhados. Algumas fotos desse período já coloquei no picasaweb do guri.

Na Sexta-feira Santa e no Domingo de Páscoa tivemos cultos muito lindos e emocionantes na City Grace. No total, sete amigas e amigos da NYU aceitaram meu convite e foram a pelo menos um dos cultos – fiquei bem feliz! Também foram as apresentações do City Grace Choir. Felizmente, desta vez temos vídeo! (Tem que clicar pra ver o vídeo, que vai abrir em nova janela ou aba. O vídeo está em widescreen e “não cabe” direito no layout do blog!) Só pra esclarecer: o guri de costas e vestindo camisas elegantes sou eu. As músicas, na ordem:

Sexta-feira Santa

  • O Sacred Head Now Wounded
  • Were You There

Domingo de Páscoa

  • Early In The Morning On Easter Day
  • The Irish Blessing

Após o culto de Páscoa, passei um tempo agradável com alguns amigos da igreja, primeiro no almoço comunitário, depois lagarteando (!) no Washington Square Park (eles no sol, eu na sombra, haha), e finalmente jogando frisbee no Central Park. “Coisa de guri de apartamento”, disse a Lucila – pode até ser, Lu, mas são os raros momentos de escape do mundo jurídico. (Na volta, passei boa parte da madrugada escrevendo um reaction paper sobre direitos humanos!)

Metrô e nostalgia II

Como disse no primeiro post Metrô e nostalgia I:

Agora, a entrada/saída [de metrô] de que mais gosto é, sem dúvida, a da estação42nd Street – Bryant Park. Mas não qualquer entrada/saída: a da esquina sudeste da 42nd St com 6th Ave. Aliás, só a saída, mesmo – a entrada não tem nada de especial. O motivo é simples. A primeira coisa que se vê ao subir a escada é o Chrysler Building (que pode ter sido superado pelo Empire State em altura, mas não em beleza). É muito lindo sair da estação, pisar na calçada do Bryant Park e dar de cara com o Chrysler… Ainda preciso tirar uma foto naquela saída de metrô. É uma imagem de que não quero esquecer.

Pra não esquecer a imagem: aí está a foto, pois. Nem o dia chuvoso conseguiu estragá-la!

The Guritles

Ri, chorei, me atirei no chão. Estarrecedoramente divertido.

Valeu, André, pelo link! :D

(Postagem 300 do blog do Guri!)

J.S. Bach, 325 anos

Se Bach fosse vivo, hoje teria completado 325 anos. (!) Agora falando sério: hoje é o aniversário de 325 anos do nascimento de Johann Sebastian Bach. Embora 300 anos (e algumas semanas) mais novo, sou um grande fã. Contei no post do último sábado que venho ensaiando na flauta-doce várias composições dele. Hoje perdi (ou melhor: propositalmente troquei por sono extra) meu inspirador tempo de flauta-doce na sala de música da City Grace, mas comemorei os 325 anos no ensaio do City Grace Choir, regendo uma peça arranjada por Bach (é uma das músicas para o culto de Good Friday, Sexta-Feira Santa – sim, estou fazendo mistério sobre a música por enquanto).

No mais, pra mim foi um domingo de um bom humor surpreendente (tanto que até alguém comentou). Uma amiga da faculdade foi comigo ao culto na City Grace pela primeira vez – sempre é legal quando alguém aceita um convite para à igreja! Depois, no ensaio do coro, coisinhas audaciosas: fiz exercícios de aquecimento e extensão até notas agudas até então desconhecidas pelo City Grace Choir (hehe), subi o tom de uma música pra preparar as sopranos a alcançarem as notas agudas (valeu pela dica, Marcelo: they made it!), e comecei a ensaiar uma música nova a apenas duas semanas da Sexta-Feira Santa. (Sim,
vai dar tempo!)

Depois do coro, almocei com amigos da igreja. No caminho de volta pra casa, um ataque de flashback básico: caminhando na MacDougal, estava quente e barulhento e sujo e abarrotado de gente nas calçadas – exatamente como quando cheguei aqui em agosto do ano passado. (A primavera mal começou a dar os seus sinais e parece que Gotham, ou pelo menos o Village, já quer sair da hibernação. Olha, devo dizer que eu gostava da hibernação. Isso aqui vira uma bagunça no verão… haha.) Preparei um trabalho da faculdade, fui ao súper (!), e lavei todo o apartamento (enfim!). O banheiro está tão cheiroso e branco e brilhoso e lindo e (sobretudo) limpo que eu até estou pensando em me mudar pra lá (bah, mentira… quer dizer, a parte da mudança é mentira). O motivo para tamanho esforço? Visita brazuca amanhã: Lígia chegando em Gotham City! :D

Metrô e nostalgia

Morando na frente da NYU Law, acabo usando o metrô bem menos que o nova-iorquino médio. Mesmo assim, já andei bastante de metrô por aí e tenho uma boa noção da rede (depois de meio ano aqui, é o mínimo!). Não sei se posso dizer que tenho uma estação preferida, ou uma que menos goste – primeiro que é difícil se apaixonar pelas estações de metrô daqui, e segundo porque acho que não conheço tantas assim pra poder fazer um julgamento bem-informado! –, mas posso contar com segurança sobre as “entradas/saídas de estação de metrô” de que menos/mais gosto.

Hoje fui com uma amiga a uma exibição de fotografia na Park Avenue Armory, no Upper East Side. Em vez de caminhar um pouco mais aqui no Village pra pegar o trem 6 e chegar pertinho do destino, resolvi caminhar menos aqui (uma quadra até a estação West Fourth – Washington Square), pegar o F, descer na estação Lexington Avenue – 63rd Street e caminhar um pouco mais até o destino. Péssima ideia. (Pelo menos posso culpar o google maps pela sugestão furada.) Não foi a primeira vez que desci na estação Lex–63rd, mas acabei esquecendo que a plataforma fica mais perto do centro do planeta que da superfície terrestre… Sem brincadeira. Fica nas mais cavernosas profundezas do soterramento. A Wikipédia não me deixa mentir: diz que “leva bastante tempo para ir do nível da rua até a plataforma”. E um site sobre o metrô diz que a plataforma inferior fica a 100 pés da superfície – 30 metros, ou cerca de dez andares. Pronto: entrada/saída de que menos gosto.

Agora, a entrada/saída de que mais gosto é, sem dúvida, a da estação 42nd Street – Bryant Park. Mas não qualquer entrada/saída: a da esquina sudeste da 42nd St com 6th Ave. Aliás, só a saída, mesmo – a entrada não tem nada de especial. O motivo é simples. A primeira coisa que se vê ao subir a escada é o Chrysler Building (que pode ter sido superado pelo Empire State em altura, mas não em beleza). É muito lindo sair da estação, pisar na calçada do Bryant Park e dar de cara com o Chrysler… Ainda preciso tirar uma foto naquela saída de metrô. É uma imagem de que não quero esquecer.

Ainda mais lindo é seguir caminhando na 42nd. A Biblioteca Pública fica alguns metros adiante, na 42nd St com 5th Ave. E a Grand Central – a maior estação de trem do mundo – umas quadras adiante, na 42nd St com Park Ave. E ainda mais umas quadras adiante, à beira do East River, a sede das Nações Unidas, na 42nd St com 1st Ave. (Comecei com metrô e terminei com nostalgia… os mistérios da sinapse!)

Outro sábado 20

Um mês – um longo e intenso mês – sem postar. É verdade que estou em jejum de facebook, orkut e twitter durante a Quaresma – mas o blog nunca esteve incluído nessa idéia. Pois então basta de jejum de blog. Hoje vou pôr as coisas em dia por aqui: resumir um mês em um post. Minha capacidade de síntese não é lá grande coisa, e nem estou muito seguro de que deveria mesmo me aventurar nesse tipo de exercício, mas é o único jeito. Não consigo deixar lacunas (especialmente num mês em que tanta coisa aconteceu). Preciso voltar a postar – e pra voltar a postar preciso vencer a inércia. Porém, neste post retroativo vou deixar um pouco de lado o meu “clássico” formato cronológico e organizar tudo em tópicos. (Ou seja: será um post menos tipicamente meu, mas nem por isso menos neurótico.)

NYU Law e Direito Internacional

Claro que não podia começar por outro tópico. O último mês foi menos produtivo academicamente do que deveria ter sido (não, não estou exigindo de mais de mim mesmo!); ainda assim, não foi pouca coisa! Nesse período terminou minha cadeira sobre a Organização Mundial de Comércio, com uma petição escrita e um painel simulado. No seminário de Política de Mudança Climática, escrevi uma redação como “iniciador” da discussão e, num outro dia, fui o “comentarista” sobre a redação de um colega. Mas o ponto alto das últimas semanas, sem dúvida – sem deixar a modéstia de lado –, foi a nota máxima no memorandum que escrevi para Metodologia Jurídica. Muito mais que o reconhecimento por um trabalho que deu mesmo bastante trabalho, aquele “A” melhorou bastante minha autoestima! Um dos melhores eventos do último ano, desde que fui aceito na NYU. Sério.

Pensando no futuro

Agora conto da parte frio na espinha das últimas semanas. Depois de consultas com “conselheiras profissionais” aqui da NYU e também com a ajuda de uma amiga editora, preparei uma carta de apresentação bem sólida, fiz os últimos ajustes no currículo, e passei a me envolver mais ativamente na busca por empregos e estágios. Semana que vem vou a Washington, DC, para a reunião anual da Sociedade Americana de Direito Internacional (da qual sou membro), para fazer contatos na minha área. Também enviei o pedido de prorrogação do meu visto por um ano e de autorização de trabalho. Mais frio na espinha.

Vida em Gotham

Nos últimos tempos tenho levado mais seriamente – embora não perfeitamente seriamente – meu “tempo sabático semanal”: 24 horas para não pensar em Direito, estar na igreja e na presença de Deus, passar tempo com amigos, descansar. Tem funcionado bem na maioria das vezes. Começo sábado à tardinha e vou até domingo à tardinha. No sábado à noite eu descanso, no domingo de manhã toco flauta na sala de música da City Grace, em seguida vou ao culto e lidero o ensaio do City Grace Choir, aí almoço com amigos da igreja, e por fim passo mais um tempinho descansando em casa.

Na parte musical, as últimas semanas foram muito boas. Assisti à Orquestra da NYU um dia desses com uma colega. O City Grace Choir anda a mil com os preparativos para a Semana Santa. Mais, os “tempos sabáticos” que passo na sala de música da igreja aos domingos de manhã têm me proporcionado alguns dos “momentos flauta-doce” mais inspirados da minha vida. Muito Bach nesta hora. Ainda não consigo tocar a Partita em Lá menor (BWV 1013) perfeitamente (é o eterno desafio da minha vida musical?), mas melhorei bastante. Comecei a ensaiar – e aprontei, na verdade – a Sonata em Dó (BWV 1033):

 

Com o Kyle, um amigo da City Grace, estou ensaiando o Trio em Fá (BWV 1040) de uma forma bem alternativa. Primeiro porque é um trio e estamos ensaiando apenas em duas partes (já fui criticado por isso – ok, admito que precisamos conseguir um terceiro aficionado por Bach…). Segundo porque o Kyle faz a parte do violino no mandolim e eu, a parte do oboé na flauta-doce. Está ficando interessante.

 

Por fim, o último mês foi um tempo de transições. Teve mais uma tempestade de neve (que rendeu boas fotos – a seguir – e mais um snow day, embora numa sexta-feira, quando eu igual não teria aula). Também teve chuvaradas terríveis, dias nublados, escuros, tenebrosos. E ainda teve dias ensolarados e quentes. Gotham já entrou no horário de verão e já rompeu a barreira dos 70 graus Fahrenheit (ou dos 20 graus Celsius, digamos). Primavera chegando, tanto que estou no fim do dito “spring break” (um interessante mix de recesso, procrastinação e trabalho).

No Washington Square Park, últimas fotos de neve da temporada… :(

From NYC winter 2010

Duas páginas em dois dias?

Num dos textos que li pro mestrado esta semana apareceu uma referência a um episódio que aconteceu com o escritor Mark Twain – uma troca de telegramas muito interessante. Tive que achar o original. (Ah, adivinha onde achei? “Deu no New York Times!” O artigo, aliás, é bem legal; tem uns quantos exemplos de telegramas históricos.)

Um belo dia Twain recebeu de um editor o seguinte telegrama:

NEED 2-PAGE SHORT STORY TWO DAYS.
(PRECISO CONTO 2 PÁGINAS DOIS DIAS.)

Twain respondeu ao editor:

NO CAN DO 2 PAGES TWO DAYS. CAN DO 30 PAGES 2 DAYS. NEED 30 DAYS TO DO 2 PAGES.
(NAO POSSO 2 PAGINAS DOIS DIAS. POSSO 30 PAGINAS 2 DIAS. PRECISO 30 DIAS PARA 2 PAGINAS.)

Genial. De acordo. Escrever de forma concisa leva tempo e exige esforço. Tem tudo a ver com uma lição de McCloskey que citei aqui no blog alguns anos (!) atrás: redação fácil, leitura difícil. Sonho com o dia em que todos os habitantes do mundo das letras jurídicas aprendam que concisão é uma virtude e que verborragia não é sinônimo de produtividade nem de raciocínio apurado.

Irresistível

A semana será mais curta que o normal. Mas não é por causa do carnaval, que aqui não há; é que hoje foi feriado nacional de Presidents Day. Semana mais curta, porém, não significa semana menos intensa: dois trabalhos para quinta-feira, muita leitura, aula extra na sexta-feira (que era pra ser meu “dia livre” de aulas… nem sempre funciona). Apesar de tudo o que me espera, e mesmo sem muito tempo, simplesmente não posso deixar de postar sobre a semana que passou. Muitos acontecimentos importantes – postagem irresistível.

Segunda-feira, dia 8, escrevi meu primeiro reaction paper para a disciplina de Direitos Humanos (reaction paper é uma reflexão pessoal em resposta às leituras da semana – preciso escrever quatro ao todo; cada um vale 25% da nota do semestre). Também terminei um memorandum para a disciplina de Metodologia – nada menos que 50% da nota do semestre. São dois “pesos acadêmicos” científicos que tirei das minhas costas.

Terça-feira, dia 9, fui doar sangue. A parte boa foi saber que minha pressão estava normalíssima em 11 por 7 (“pressão de criança”, segundo o Sam, o enfermeiro que me atendeu), bem diferente do que aconteceu na última vez que doei. A parte ruim foi que quase não me deixaram doar. Quando eu disse que sou brasileiro e que morei no Brasil até menos de um ano atrás, o Sam olhou seu manualzinho e disse que não ia rolar doação de sangue pra mim – porque no Brasil tem risco de malária. Eu expliquei que no Rio Grande do Sul, onde morei a vida inteira, esse risco não existe. Mesmo assim, o Sam complicou; chamou um superior, que queria saber por onde eu andei no Brasil…

Aiai, que cansaço. “Bom, mas em nenhuma das regiões onde estive existe risco de malária. Mesmo que eu não tenha viajado tanto assim pelo Brasil, fica difícil explicar… Se tiveres um mapa aí, posso te mostrar.” E não é que ele tinha mesmo um atlas? Lá fui eu, dar aula de geografia pro rapaz. “Aqui é o meu estado, também já fui pra esse outro estado aqui, a São Paulo, ao Rio de Janeiro, mas não mais ao norte que o Rio.” Então o chefe do Sam pegou o telefone e ligou para o seu chefe pra verificar se eu podia doar ou não. Finalmente ele disse que sim.

Claro que tive que perguntar pros dois carinhas, só por curiosidade, o que dizia no manual deles. Fiz a seguinte comparação pra eles entenderem: é como se eu morasse a vida inteira em Seattle (que fica bem no noroeste aqui dos EUA) e eles não me deixassem doar sangue por causa de uma doença que só tem na Flórida (no sudeste dos EUA). Expliquei que o Brasil era um país bem grandinho. (Talvez ele ficasse chocado se eu dissesse que o Brasil é maior que a parte contígua dos EUA – ou seja, 48 estados mais o Distrito de Colúmbia, ou “área total menos Alasca e Havaí”.) Por isso, tratar o país como “uma coisa só”, tanto no caso do Brasil quanto no dos EUA, não fazia sentido.

Aí ele até me alcançou o manual, para eu mesmo consultá-lo. E estava lá a lista de todos os estados do Brasil onde há risco de malária – sendo que todos eles são estados onde eu jamais estive. No fim das contas, todo o rolo foi por falta de preparação deles (em receber doações de estrangeiros!), e não por uma falha do manual. Olha, considerando as experiências desagradáveis que já tive ao doar sangue (vide histórico do blog!), fica cada vez mais difícil entender por que persisto como doador. Se não é por altruísmo, só pode ser por teimosia!

Quando voltei pra casa, vi que tinha e-mail da NYU, oferecendo a alunos do meu programa (International Legal Studies) a oportunidade de observar a reunião do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, durante a segunda semana de março, na sede das Nações Unidas aqui em Nova Iorque. Apenas os vinte primeiros interessados teriam a oportunidade. Pensei que nem teria mais chance, porque o e-mail tinha chegado uma hora antes, mas resolvi tentar mesmo assim – e consegui! Tô dentro.

Na terça-feira à noite fui ao Carnegie Hall para o último concerto do meu pacote estudantil para a temporada. O concerto com a Orquestra Sinfônica de Pittsburgh foi, na minha opinião, o melhor dos três a que assisti (os outros foram com as orquestras da Juilliard e de Houston). A primeira parte do programa foi o Concerto para Violino de Brahms (Op. 77), com a violinista Anne-Sophie Mutter. Apenas o máximo. Só para deixar um gostinho do que foi o concerto: encontrei esta gravação do Allegro giocoso, ma non troppo vivace – Poco più presto (terceiro e último movimento) com a mesma violinista.

E quarta-feira nevou. O dia inteiro. Muito. Uns 30 centímetros. A nevasca foi forte a ponto de a NYU declarar snow day e fechar as portas – coisa que, segundo disseram por aqui, acontece muito raramente. Na quinta-feira, assim que me liberei da última aula, fui tirar fotos do Central Park coberto de neve.

 

 

Sábado fui de novo ao Carnegie Hall, dessa vez com meu ingresso baratinho de estudante para a Filarmônica de Nova Iorque. A primeira peça (e acho que minha preferida da noite) foi a ouverture de Rienzi (a gravação aqui não é da NY Phil), de Wagner. A orquestra, claro, é espetacular, mas o maestro – Alan Gilbert – faz o seu próprio show. Ele rege energicamente como se fosse ter um ataque cardíaco a qualquer momento.

Muito inspirador para mim: domingo de manhã voltei a ensaiar o City Grace Choir! Vamos preparar uma música para Sexta-Feira Santa e duas para a Páscoa. Acho que, além do coro, vamos organizar um quarteto só de guris. Ah, e talvez cantemos uma música em português… veremos! Depois do culto, mais um ensaio do coral (sim, um antes e outro depois do culto), almoço às 15h, passeio na Strand (uma biblioteca de usados enorme na Broadway).

Pra terminar o dia, fui ao Empire Hotel Rooftop com uma amiga – que vai permanecer anônima pra ninguém ficar me incomodando! – em comemoração ao Valentine’s Day, dia dos namorados aqui. Não, não foi um encontro romântico – foi um encontro de amigos solteiros, hehe! Mas com direito a chocolate e cartão (de amizade…). :)

A hermenêutica das fotos dançantes

O comentário do Felipe ao post “Estilo importa” motivou uma resposta. Ia responder por e-mail, mas acabou que a mensagem virou um quase-post, que, com algumas adaptações, virou post. Voici.

Fico tão feliz quando “as pessoas” (tanto mais quando são grandes amigos e leitores qualificados!) comentam sobre e gostam do que escrevo. Afinal de contas, escrever dá trabalho, blogar dá trabalho… Ter um reconhecimento de vez em quando é bom e me motiva a continuar. :)

Imagina: ter o meu texto dissecado num vestibular seria uma honra enorme! Um dia, quem sabe. Outro dia, talvez, vou publicar um artigo no American Journal of International Law. Um dia, quem sabe, alguém vai me pedir uma carta de recomendação! Deve ser muito legal estar “do lado de lá”. (Aspas, ponto.) Um dia, espero.

Embora não seja professor, gostei do exercício de hermenêutica proposto pelo Felipe:

“Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura”.

(Aspas, ponto. Se a frase do Felipe terminasse com “na minha formatura”, poderia muito bem ser: “Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura.” Ou seja: ponto, aspas. E sem ponto depois das aspas.)

Abstraindo do contexto, consigo pensar nas seguintes interpretações para a frase (claro que apenas a primeira é séria):

  • Martin dançou na formatura de Felipe. Esse momento tragicômico foi registrado em fotos. Karina e Felipe viram essas fotos recentemente.
  • Martin tirou fotos durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (sei lá, num telão) essas fotos.
  • Martin aparece em fotos tiradas durante a formatura de Felipe. Um dia desses, Karina e Felipe dançavam, enquanto viam (num telão, de novo?) essas fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas foram exibidas (num bom e velho telão) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam durante a formatura, viram essas fotos.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas foram exibidas (onde? que tal num telão?) durante a formatura de Felipe. Karina e Felipe, enquanto dançavam na formatura, viram essas fotos.
  • Martin tirou fotos durante a formatura do Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando por aí. Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em fotos tiradas na formatura de Felipe. Um dia desses, essas fotos estavam dançando. Karina e Felipe foram testemunhas oculares da dança das fotos.
  • Martin tirou certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.
  • Martin aparece em certas fotos. Elas dançaram na formatura de Felipe. Na ocasião, Karina e Felipe viram as fotos dançantes.

Tudo bem, admito que me puxei um pouco. Mas me justifico: enquanto escrevo este post-resposta, percebo que meu colega de apartamento está ouvindo valsas vienenses. Não tenho bem certeza, mas acho que é Johann Strauss.

(O autor das valsas vienenses, não o meu colega de apartamento! Mais: o autor das valsas e o meu colega de apartamento não são a mesma pessoa! Bah, bem que eu gostaria que fossem, mas ele está morto. [Quem morreu foi Strauss, faz mais de um século. Meu colega de apartamento está vivo e ouvindo Strauss. {Meu colega de apartamento está ouvindo músicas que Strauss compôs; não está ouvindo o próprio Strauss.}])

Divagações à parte: ouvindo a música, fiquei imaginando fotos que dançam ao som de valsas vienenses. Neste momento, Vir (minha mamá greco-argentina) perguntaria: “¿fumaste cosas raras?

(Ponto de interrogação, aspas. A interrogação faz parte do que Vir perguntaria. E não há necessidade de ponto final depois das aspas: o ponto final faz o serviço.)

Aparentemente não consigo mais não divagar nos meus posts.

(Prova disso é que aqui me obrigo a fazer mais um comentário parentético metadiscursivo: o que acabo de dizer, “não consigo mais não divagar”, é algo que a minha professora de escrita jurídica desaconselhou um dia desses – dupla negação.)

Divagações à parte, segunda tentativa: não, não fumei cosas raras. Nunca fumei. É tudo efeito das valsas vienenses.

Paro por aqui. Preciso dançar.

555

Alguns affairs hoje em Midtown. Na ida para o Carnegie Hall (ingresso de estudante para a New York Philharmonic!), uma foto na esquina 555.


5th Ave & 55th St
The St. Regis & The Peninsula