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Concertos e múmias na Basílica de Santo Estêvão

Um dos objetivos da Expedição 2015 a Budapeste foi aproveitar ao máximo a cena musical da cidade. Por exemplo, num dos últimos posts, já contei sobre Fausto e a visita guiada à Ópera do Estado Húngaro. Mas os primeiros ingressos comprados foram para o Concerto de Gala – com direito a órgão de tubos, orquestra sinfônica e coro – na Basílica de Santo Estêvão (Szent István Bazilika), já nos primeiros dias em Budapeste.

A Basílica (site em inglês) foi construída de 1851 a 1905 e dedicada ao Rei Estêvão (canonizado pela Igreja Católica como Santo Estêvão), fundador do Estado Húngaro. O primeiro arquiteto da Basílica, József Hild, faleceu durante a construção, que foi continuada por Miklós Ybl (o arquiteto da Ópera de Budapeste) e József Kauser. A cúpula original, do projeto de Hild, colapsou em 1868 devido a problemas de construção. Ybl teve de alterar o projeto original, Clássico, para o atual, Neo-Renascentista. Durante a Segunda Guerra, as torres e as paredes externas foram danificadas; toda a estrutura do telhado teve de ser substituída. Somente em 2003 a restauração foi concluída.

A praça em frente à Basílica é um agradável espaço de convivência, com diversos restaurantes e cafés (e turistas sempre circulando). O espaço aberto ressalta o caráter imponente do edifício. Segue um trio de vistas da Basílica – em dia nublado, à noite e em dia ensolarado.

Esperando para entrar pela primeira vez na Basílica, para assistir ao Concerto de Gala (8 de maio, às 20h), minha irmã Lucila e eu ficamos observando os detalhes externos.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” João 14:6

Quase entrando

O programa do Concerto de Gala, regido por András Virágh, consistiu em obras conhecidas:

  1. Tocata e Fuga em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach (BWV 565), com o organista András Gábor Virágh; e
  2. Requiem em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart (K 626), com o Coro Jovem de Budapeste, o Coro Paroquial, a Orquestra Sinfônica Monarchia e solistas da Ópera do Estado Húngaro (soprano Ildikó Szakács, contralto Kornélia Bakos, tenor László Kálmán e baixo Lóránt Najbauer)

Assistimos à primeira récita, em 8 de maio – e ainda haverá mais duas, em 28 de agosto e 25 de setembro. A divulgação está no site www.organconcert.hu, onde é possível adquirir ingressos; os preços variam de 16 a 28 Euros.

Como o programa incluía parte com orquestra, coro e solistas (no altar) e parte com órgão de tubos (no coro, atrás), a Basílica virou uma grande sala de espetáculos com dois palcos.

Músicos no altar, durante a execução do Requiem

O grandioso órgão de tubos

Não só por causa dos dois palcos, mas fica difícil olhar para um lugar só, considerando a riqueza de detalhes da decoração interna da igreja, com muitas pinturas e esculturas.

Nas colunas centrais da Basílica, imagens de Math, Marc, Lvc e Joan, os escritores dos quatro Evangelhos

Também chama atenção a grandiosa cúpula no centro da Basílica, que atinge a altura de 96 metros. É uma referência a 896, o ano em que as tribos magiares (ou húngaras) vieram da região dos Montes Urais e assentaram-se na Bacia dos Cárpatos, para posteriormente dar origem ao Estado Húngaro. O Parlamento Húngaro (que será assunto de outro post!) tem uma cúpula de mesma altura, dando a ideia de que Igreja e Estado não se devem sobrepor um ao outro. Hoje, o plano diretor de Budapeste não permite a construção de edifícios mais altos que 96 metros, garantindo que a Basílica e o Parlamento continuem sendo os mais altos.

Por um valor acessível, é possível subir ao observatório da cúpula, de onde se têm vistas panorâmicas de Budapeste. Não chegamos a subir… mas deve valer a pena!

A cúpula da Basílica

Dias depois, arrastei comigo meu cunhado James para o concerto de órgão na Basílica, que acontece regularmente às segundas-feiras; o site www.organconcert.hu traz os horários e programas. No concerto a que fomos, dia 11 de maio, o organista András Gábor Virágh e a soprano ldikó Szakács apresentaram Albinoni (Adagio), Mozart (Aleluia), Bach (Prelúdio e Fuga, Ária, Tocata e Fuga – algumas delas, repetição do Concerto de Gala), Bizet (Agnus Dei), Liszt (Coral) e Gounod (Ave Maria).

 

Por fim, desde 1931, a Basílica guarda uma relíquia especialmente importante para os católicos húngaros: a Santa Destra – uma mão direita mumificada, que seria a do Rei Santo Estêvão e que teria poderes milagrosos (aqui, mais sobre a história da relíquia). Milhares de fiéis na Hungria fazem procissões no Dia de Santo Estêvão, anualmente em 20 de agosto, dia da morte do rei.

A urna onde é mantida, preservada, a Santa Destra

O café mais lindo do mundo

Um dos muitos encantos da localização de nossa morada em Budapeste era que bastava dobrar uma esquina para chegar ao New York Palota, ou Palácio Nova York. Foi construído entre 1890 e 1894 pelo arquiteto húngaro Alajos Hauszmann para sediar a New York Insurance Company. O estilo é eclético, mas inspirado principalmente pelo Barroco italiano.

Vista da fachada principal do New York Palota

A fachada é decorada por diversos sátiros (mitologia grega) ou faunos (mitologia romana) – divindades de corpo parte humano, parte equino – que seguram luminárias.

Reflexos e um sátiro em uma das laterais do edifício

O New York Palota hoje abriga o elegante hotel 5 estrelas Boscolo Budapest. Mas a grande preciosidade do edifício é o New York Kávéház, ou New York Café, situado no térreo, com entrada pela esquina. Foi aberto no final do século XIX, auge da popularidade dos cafés de Budapeste para a cena intelectual da cidade. Diz a lenda que o escritor húngaro Ferenc Molnár, no dia da inauguração, jogou no Danúbio as chaves do café, para que nunca mais fechasse.

Não era apenas “mais um café”: era o café mais lindo do mundo.

New York Café: The most beautiful café in the world

Anno 1894, ano da conclusão da construção do edifício

Simplesmente passar pela soleira da porta do New York Café provoca um poderoso efeito uau. Basta entrar para sentir uma rajada de esplendor e o luxo da Belle Époque, por todos os lados. Tudo ao redor – candelabros, colunas de mármore, ornamentos dourados pelas paredes – é precioso. No teto há afrescos de Gusztav Mannheimer e Ferenc Eisenhut. Os lustres venezianos são espetaculares.

Interior do café a partir da nossa mesa

Um dos diversos afrescos do teto

A riqueza de detalhes parece interminável

A maioria dos turistas vai ao New York Café pela atmosfera deslumbrante, claro. Mesmo assim, a comida e os cafés também são excelentes (embora, como se poderia esperar, mais caros que a média de Budapeste). Minha forte recomendação vai para os omeletes – com queijos, pimentões (típicos na Hungria) e mais.

Um arco de madeira sobre colunas de mármore em espiral dá acesso ao nível inferior do restaurante, onde estava montado o bufê para os hóspedes do hotel.

O arco e a área do bufê

Visão geral da área do bufê

Visão geral da área do bufê

A área do bufê, vista do outro extremo

O arco, visto de outro ângulo

Nas galerias ao lado da área do bufê, há um espaço para música ao vivo. Numa das visitas ao New York Café, havia um pianista, e em outra, uma harpista.

A área dos músicos

Durante a Segunda Guerra Mundial, o prédio foi danificado. Chegou a servir de loja e até de depósito – era o depósito mais lindo do mundo. Apesar de restaurado em 1954, durante a era comunista o prédio nunca retomou seu esplendor. Depois da redemocratização, ficou vazio por uma década, até ser restaurado pelo grupo Boscolo. Foi reinaugurado em 2006.

Ao lado do café, o jardim interno do Boscolo

Vista noturna do New York Palota, com destaque à esquina da entrada do New York Café

Sinagoga Ortodoxa de Budapeste

Morando no Erzsébetváros, tradicionalmente o distrito judeu de Budapeste, não poderíamos deixar de visitar as sinagogas. Já na primeira caminhada pela vizinhança, a primeira que vimos — com sua bela e imponente fachada Art Nouveau, espremida na estreita Kazinczy utca — foi a Sinagoga Ortodoxa, cuja construção foi finalizada em 1913.

Fachada principal da Sinagoga Ortodoxa da rua Kazinczy

Detalhes da fachada da sinagoga

Tábuas da Lei na fachada da sinagoga

Foi minha primeira visita a uma sinagoga. Achei a decoração do interior deslumbrante e rica em detalhes, dos candelabros até os vitrais do teto e os símbolos judaicos pintados nas paredes. A sinagoga da rua Kazinczy é chamada de Ortodoxa porque foi construída por uma comunidade judaica dessa vertente do Judaísmo, mais voltada a interpretações tradicionais.

Teto, luminárias, galerias

Relógio em hebraico e símbolos judaicos nas paredes

Já que minha amiga Silvia pediu que eu postasse “figurinhas” em que eu aparecesse também (o que eu em geral evito fazer!), aí vai uma — de costas! — pra mostrar que eu estava apropriadamente usando o quipá, o chapéu utilizado pelos judeus como sinal de temor a Deus. Nesta foto, à direta, também se vê um pouco da bimá, o pódio usado para a leitura da Torá.

Contemplando…

O véu vermelho, com bordados de escritos em hebraico e das Tábuas da Lei, é o Parokhet, que cobre a porta que separa o templo da arca onde ficam guardados os rolos da Torá. Ele simboliza a cortina que, no Tabernáculo, cobria a Arca da Aliança, conforme descrito no Êxodo.

Detalhe do Parokhet

Rumo à saída da sinagoga, chama a atenção o vitral colorido sobre a porta principal. Por fim, nosso guia ainda nos mostrou uma página de jornal de 1944, mostrando o interior da sinagoga em ruínas, destruída pela ocupação nazista.

Vitral colorido que fica sobre a porta principal do templo

“A Sinagoga da Rua Kazinczy está em ruínas… Vamos reconstruí-la!”