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Estilo importa

 

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma”, ressalta o Guri.

O trecho acima, além de expressar uma observação verdadeira minha, serve bem como ponto de partida para este post. As convenções de estilo que adotei no trecho são as que aprendi “com a vida” no Brasil e que uso consistentemente quando escrevo em português, inclusive aqui no blog. Nesse trecho não há nada de “estranho” para olhos brasileiros, né? Assim é porque estamos acostumados a ver o uso dessas convenções em jornais, revistas e livros de forma tão frequente e natural que as aceitamos e reproduzimos sem nem perceber.

Mas olha só como as convenções podem ser diferentes: pronto. Que tal? Acabei de fugir da convenção brasileira. Não dá pra ver? [Edit: Não dá mesmo pra ver: basta publicar no blog que a diferença desaparece! A autoformatação do blogger.com estragou meu texto.] É sutil: dois espaços após os dois pontos ou após o ponto final, convenção conhecida como double spacing, English spacing ou American typewriter spacing. (Sigo usando-a neste parágrafo.) Uma amiga canadense, eu acho, é que me disse para usar o double spacing em inglês, mas só comecei de fato a usá-lo quando fiz o estágio nas Nações Unidas: está no manual de estilo do secretariado. Desde então, comecei a observar que a convenção é bastante aplicada em documentos oficiais das Nações Unidas (em inglês). Mas nem sempre.

A mudança mais chocante, porém, foi quando vim para a NYU e entrei em contato com as convenções daqui, sejam elas específicas da área do direito ou gerais para a redação em inglês. (Parei de usar o espaço duplo. Aliás, bom começo: nos EUA não se usa [mais] o espaço duplo após os dois pontos ou após o ponto final. Até há quem ainda insista em usar, mas os manuais de estilo não recomendam.) Para tirar dúvidas que tenho de vez em quando, visito a versão online do Chicago Manual of Style (CMS). Algumas regras me agradam; outras, nem tanto.

O uso da vírgula serial (ou vírgula de Oxford) me agrada. Vírgula serial é a que separa o último elemento de uma lista. No trecho inicial deste post, eu citei como exemplos de convenções de estilo as relativas ao uso de aspas, travessões, e vírgulas. Essa última vírgula aí, entre “travessões” e “e vírgulas”, é a vírgula serial. Sim, é provável que tenhas ouvido da tua professora de português do ensino fundamental que “vírgula + e” era uma construção absolutamente inaceitável em português. Mas, pensando bem, talvez esse seja mais uma regra absoluta da professora de português do ensino fundamental que mereça (a regra!) ser flexibilizada, especialmente nos casos em que uma vírgula serial pode ajudar a evitar uma ambiguidade.

Clássico é o exemplo da Wikipédia. Imagina uma dedicatória de livro escrita assim: “Para meus pais, Amy Rand e Deus”. A quem o livro é dedicado? Talvez seja evidente: (1) aos pais de quem escreveu o livro, (2) a Amy Rand e (3) a Deus. Mesmo assim, não se pode negar que existe uma ambiguidade: “Amy Rand e Deus” pode ser um aposto explicativo, ou seja, uma explicação do termo anterior. No nosso exemplinho clássico, quem escreveu pode ter querido dizer: “Para meus pais, [que são] Amy Rand e Deus”. Ok, improvável. Mas possível. E a simples possibilidade de uma ambiguidade justifica o uso de uma vírgula serial, “só pra garantir”.

À primeira vista não gosto de regras absolutas: nem da regra absoluta da professora de português do ensino fundamental (“vírgula serial: nunca”) nem da regra absoluta do CMS (“vírgula serial: sempre”). Gosto mesmo é de abordagens flexíveis, como esta: “vírgula serial: quando evitar ambiguidade”. Afinal, uma vírgula serial em “aspas, travessões, e vírgulas” não me parece ter grande utilidade prática (e o que aparentemente não tem utilidade pode vir a causar problemas e talvez deva ser removido – um argumento que valeria tanto para o não-uso de vírgulas seriais quanto para cirurgias preventivas de remoção de apêndice…?). Por outro lado, também gosto de abordagens consistentes, algo que a abordagem flexível que acabo de apresentar não parece ser. Sendo assim, prefiro a regra absoluta do CMS. “Vírgula serial: sempre.” Se me condenarem pelo uso da vírgula serial à toa, sem haver ambiguidade a solucionar, posso me justificar: “bom, pelo menos fui consistente.”

Se a vírgula serial é o que eu gosto no CMS, há aspectos dos quais não sei se gosto muito. Um deles é o travessão (m-dash): ele é mais longo que o comumente usado em português (mais longo que o traço, “meia-risca”, que aparece no Word quando se coloca um hífen entre duas palavras – este!). Além de mais longo, o travessão em inglês não é separado das palavras adjacentes. Uma expressão parentética típica na convenção brasileira – como esta – torna-se bastante diferente—como esta—na convenção do CMS. Ahá! Acabo de violar – intencionalmente, é claro – uma convenção comum ao estilo brasileiro e ao do CMS: não se deve usar, em uma mesma frase, mais de uma expressão parentética com travessões. Se for mesmo preciso fazer mais de uma – o que (na minha modesta opinião) pode ser um forte indicativo de redação ruim –, usam-se parênteses (como acabo de fazer) ou vírgulas.

A última frase do parágrafo anterior me traz a uma das coisas de que não gosto no CMS: se uma vírgula normalmente seria necessária—mas se se resolve incluir uma expressão parentética com travessões, como esta—não se deve pôr vírgula após o segundo travessão. Dá pra sentir a falta da vírgula antes de “não se deve […] travessão”! A convenção brasileira me parece melhor nesse aspecto: se uma vírgula é necessária – ainda que se resolva incluir uma expressão parentética com travessões, como esta –, a vírgula deve aparecer (como acabou de aparecer!) após o travessão, ora. Ela é necessária e pronto. O travessão não a substitui.

E a última coisa (por hoje?) de que não gosto no CMS é que “vírgulas precedem as aspas,” assim como acabo de fazer, e também assim: “pontos finais precedem as aspas.” Não gosto. Prefiro “vírgulas fora das aspas”, bem como “pontos finais fora das aspas”. É mais lógico. O próprio CMS reconhece isso, mas diz que “usos tipográficos” ditam que pontos finais e vírgulas precedam as aspas.

O problema é mais profundo do que parece. Se eu escrever que, segundo o Guri, “é mais lógico que vírgulas e pontos finais fiquem fora das aspas,” incluindo a vírgula dentro das aspas, minha frase sugere que a opinião do Guri é que tem uma vírgula e que talvez continue depois dessa vírgula; porém, na verdade a vírgula pertence à minha frase a respeito da opinião do Guri. Enfim: se a vírgula é minha, é minha; se é do Guri, é do Guri, e só se for do Guri vou querer atribuí-la ao Guri, porque seria impreciso (e talvez desonesto) dizer que o Guri disse vírgulas que de fato não disse. Como aqui o Guri sou eu mesmo, não há risco, mas pode haver situações em que o risco de imprecisão e desonestidade seja alto.

Comecei com a convenção corrente no Brasil:

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma”, ressalta o Guri.

E termino com a convenção do Chicago Manual:

Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo—por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões, e vírgulas—embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma,” ressalta o Guri.

Esse “jogo dos sete erros” é irrelevante, “a distinction without a difference“? Quanto à mensagem, é claro que não há diferença. Mas a percepção de quem lê pode ser bem diferente. Nos EUA alguém pode estranhar um texto em língua inglesa usando estilo brasileiro, assim como no Brasil alguém pode estranhar um texto em língua portuguesa usando o estilo de Chicago. Esse “estranhar” da parte de quem lê pode variar entre, num extremo, um desconforto motivado pela aversão ao incomum e, no outro extremo, a sensação de que quem escreveu é incompetente. Para evitar esse segundo extremo, que é mais dramático, acho que vale aqui adotar uma abordagem flexibilidade–consistência: com flexibilidade, cuidar para usar em cada contexto o estilo apropriado e, com consistência, usar apenas um estilo em cada contexto.

Edwards v. McCloskey

Edwards v. McCloskey é o caso que estou estudando agora. Prometo que é interessante. Também garanto que não é falta de ética profissional minha revelar os detalhes.

O argumento de Edwards é o seguinte:

What the reader needs in [an] umbrella section is a road map of the organization to follow.” (Edwards, Legal Writing and Analysis, p. 113)

“O que o leitor precisa em uma seção guarda-chuva é um roteiro [literalmente: mapa do caminho] da organização que seguirá.” (Traduzi así nomás.)

Por sua vez, McCloskey argumenta:

The table-of-contents paragraph is an abomination to the Lord thy God. […] You will never see it in competent writing. Weak writers defend it as a ‘roadmap’.” (McCloskey, Economical Writing: An Executive Summary, p. 240)

“O parágrafo-sumário é uma abominação para o Senhor, teu Deus. Nunca o verás num texto escrito de forma competente. Escritores fracos o defendem como um roteiro [literalmente: mapa do caminho].” (Traduzi así nomás.)

No papel de observador externo (aqui sou estudante), sem obrigação de manter imparcialidade (aqui não sou juiz) nem de defender um ou outro ponto de vista (aqui não sou advogado), e além disso escrevendo um post no meu blog e não um texto acadêmico ou jurídico (ou seja, aqui sou praticamente um estudante de férias!), sinto-me com total liberdade para expressar minha preferência pessoal categoricamente: sou pró-McCloskey (e não é de hoje).

Outro dia, quem sabe (pra deixar bem claro: não é um compromisso!), tiro um tempinho para refletir e escrever mais aprofundadamente sobre a questão de fundo desse caso: é possível conciliar o aprendizado de técnicas americanas de escrita jurídica sem renegar princípios de redação mais abrangentes e aparentemente mais razoáveis?

P.S.: Fala sério, vou ter que fazer um disclaimer: o caso que menciono aqui é uma obra de ficção. Poderia dizer que não é ficção, porque o dilema é real, mas digo que é ficção, sim, porque eu é que tive a ideia de apresentar o dilema como se fosse uma disputa judicial. Enfim, deixo claro que meu caso fictício é mesmo fictício e nada tem a ver com o “caso da vida real” Edwards v. McCloskey Motors ou qualquer outro em litígio por aí afora…

Tabelionato, química, jardinagem

Ainda no post anterior comentei que uso o blog do Guri como memória auxiliar: às vezes revisito meu próprio blog pra relembrar coisas que aconteceram comigo. É assustador que se apaguem da minha memória situações que eu mesmo vivi. Também há momentos em que fico perplexo com a quantidade e a diversidade de informações que tenho na caixola e que nem sempre sei como ou por que foram parar lá.

Recentemente meu pai escreveu dizendo que precisava reconhecer minha firma num documento. Gelei: “nunca abri ficha pra reconhecer minha firma no Brasil”. No mesmo instante comecei a ver como fazer isso no consulado brasileiro aqui em Nova Iorque (e a sofrer por antecipação com toda a trabalheira que esse procedimento haveria de me dar). Mas respondi para o meu pai, “Só pra ter certeza, vai ao Primeiro Tabelionato de Pelotas; tenho a impressão de que minha firma possa estar lá. Se é que está em algum lugar, só pode ser lá”.

Lá foi ele e, pro meu alívio e pra minha surpresa, reconheceu minha firma. Inexplicável. Um belo dia, num passado que não pode ser tão distante assim (não sou tão velho, ora!), eu me abalei até o tabelionato na Anchieta, retirei ficha, esperei ser atendido, pedi para depositar firma, assinei um cartão-autógrafo, e fui embora. Como pode que não me lembro de absolutamente nada disso? Tampouco me lembro de por que fiz isso. Alguém já tinha precisado reconhecer minha firma? Eu mesmo, talvez? Não faço ideia. Mas taí. Se alguém precisar reconhecer minha firma, já sabe onde pode fazê-lo.

Mais dois casos chocantes aconteceram comigo ontem. Fui com um grupo de amigos da igreja a Jersey City (do lado de lá do Hudson, “ali no outro estado”!), para visitar duas outras amigas da City Grace que moram lá e que nos convidaram para uma noite de jogos. Na maior parte do tempo jogamos Cranium, um divertido jogo de tabuleiro à la “Imagem e Ação”. Só pra dar uma ideia melhor do jogo, os desafios estão divididos em quatro categorias:

  • Creative Cat: um dos jogadores do time tenta fazer o outro adivinhar uma palavra através de desenho, escultura, ou desenho de olhos fechados.
  • Data Head: perguntas de conhecimentos gerais, curiosidades.
  • Word Worm: os jogadores do time desembaralham palavras, soletram palavras (às vezes ao contrário, quer dizer, do fim pro início da palavra), adivinham definições, identificam palavras com letras omitidas.
  • Star Performer: um dos jogadores do time assobia ou “murmura” (bocca chiusa; canta fazendo mmm) uma canção, imita uma celebridade, ou faz mímica, e o outro adivinha.

Formei time com o Ryan. Fechou todas: o Ryan é ator (formado em teatro) e músico (pianista, cantor, líder de banda), então ficava com as coisas artísticas (Creative Cat e Star Performer); eu, o estudante nerd que gosta de palavras, ficava com as coisas de estudante nerd que gosta de palavras (Data Head e Word Worm).

Tivemos alguns lances de sorte: uma das músicas pra cantarolar de boca fechada era The Girl from Ipanema (Garota de Ipanema). Quando eu vi, minha reação só pôde ser, “dude, I’m so ready for this“. Mais tarde veio a definição de “illicit“, barbada pra advogado. Só não ganhamos o jogo por falta de sorte nos dados. ;)

Houve momentos bastante emocionantes no jogo (especialmente quando a competitividade aguda de alguns, nos quais me incluo, vinha à tona), mas me restrinjo a relatar os exemplos de perplexidade (própria e alheia) quanto à aleatoriedade de meus conhecimentos.

Uma das perguntas do Data Head foi: “Qual é o elemento químico mais comum na atmosfera terrestre?”. Nitrogênio. Certo. Tudo bem que eu até participei de olimpíada de química no ensino médio, mas devo ter estudado os elementos predominantes da atmosfera lá pela quinta ou sexta série do ensino fundamental, e depois não mais. Como é que eu ainda me lembro disso? Fico até triste por me lembrar. Prefiro ter livre esse espaço na memória pra guardar outras coisas!

Mas o mais chocante da noite foi um desafio de verdadeiro ou falso do Data Head. A afirmação era algo do tipo: “Figuras geométricas e simetria são características do estilo inglês de jardinagem ou paisagismo”. Ora, para alguém com o meu background (estudos em economia e direito; conhecimentos sobre mudança climática, música, idiomas… mas longe de saber algo sobre jardinagem), a reação mais natural a uma pergunta dessas não poderia ser senão: “hein?!”.

Eu, porém, comecei a pensar alto: “Verdadeiro… não, peraí. A tradição francesa de jardinagem, e não a inglesa, é que tem traços de formalismo, racionalidade e simetria, com figuras geométricas e organização mais ‘quadradinha’. Os jardins ingleses são mais naturais, românticos… A afirmação é falsa.” Nem precisava explicar nada; bastava dizer falso ou verdadeiro. Mas provei que não era chute.

Acertei. A afirmação era mesmo falsa. Pedi pra ler a explicação da resposta no verso do cartão, e a explicação era, embora obviamente não com as mesmas palavras, a mesma que eu tinha dado. Agora… não faço ideia de onde tirei essa explicação. Onde e quando e por que cargas d’água eu aprendi a diferença básica entre um jardim inglês e um jardim francês? É perturbador.

Retropostagem de Ano Novo 2010

Ok, blog atualizado! Deu trabalho, mas acabei de finalizar os seguintes posts, publicados retroativamente:

Tenho a impressão de que ninguém tem lido o blog, e que estão todos ocupadíssimos derretendo nas suas férias de verão no Brasil. :P Voltem, leitores! Aguardo comentários.

Sigo postando na medida do possível. Como uma vez disse minha irmã Lu, o blog do Guri é a minha memória auxiliar: às vezes eu venho aqui pra me lembrar de coisas que aconteceram comigo. (Sinais da idade.)

O blog do Guri continua, rumo ao seu quarto aniversário! :)

De volta a Gotham

Voltei para NYC dia 9. Desempacotar malas, arrumar o quarto, lavar roupa… Tarefinhas básicas e desmotivantes combinadas + aquele sentimento de coração apertado depois de me despedir da família = primeiro dia sem-graça. Domingo fui ao culto e almocei com os amigos, o que já ajudou um pouco.

E aí a NYU começou a me engolir. Comprinhas de livros para o próximo semestre, leituras (muitas leituras), paper do semestre passado por terminar. A primeira semana foi pesada. Além de me reacostumar com o ritmo (leituras, aulas, correrias acadêmicas), tive muitos eventos sociais. Ando requisitadíssimo, embora não “popular”, como quis dizer minha amiga Daniele. Festa de aniversário na segunda, recepção da turma de Direito Internacional na quarta, entrevista simulada e recepção na quinta, “Game Night” com amigos da igreja na sexta (jogamos Siedler / Settlers / Descobridores de Catan! yay!).

O bom desse semestre é fiquei com a sexta-feira livre (isto é, sem aulas, o que não quer dizer que não tenha nada pra fazer – e nem sempre sem aulas, porque alguns professores já marcaram aulas extras em sextas-feiras). De qualquer forma, será meu dia pra descansar, eventualmente viajar… ou recuperar os atrasados da fac. Outra vantagem é que uma das disciplinas que estou cursando é condensada na primeira metade do semestre. Mais trabalho inicialmente, mas mais liberdade posteriormente. :)

Este semestre estou cursando Climate Change Policy (Políticas contra Mudança Climática), International Human Rights (Direitos Humanos), Investment Disputes in International Law (Disputas de Investimentos em Direito Internacional), U.S. Legal Methodology (Metodologia Jurídica Americana), e WTO: Core Issues and Dispute Settlement (OMC: Questões Principais e Solução de Controvérsias). Já tive todas as disciplinas, e estou gostando de todas elas. A maioria delas exigirá bastante de mim ao longo do semestre (trabalhinhos e avaliações continuadas); por outro lado, tenho apenas uma prova final!

Além das novas disciplinas, ainda tenho que escrever um artigo deferido do semestre passado (Direito Internacional Ambiental). O tema está preparado e aprovado pelo professor; agora é só começar a trabalhar!

Extra-academicamente, vou estudar para o exame de ordem aqui nos EUA, continuar com os estudos teológicos (já me reuni uma vez para discussões com o pastor ano passado), participar do Downtown Community Group toda quarta-feira (a menos por motivos de força maior), reger o City Grace Easter Choir (projeto de reedição do City Grace Advent Choir!), nadar, patinar no gelo, e procurar emprego.

Ai, que cansaço. Quero férias.

O ponto a que chegamos

Em regra sou ligadinho, atento. Uma das exceções é que, quando decido ir nadar – por esporte e pra relaxar -, meu cérebro se empolga com a perspectiva de relaxamento iminente e acaba relaxando de mais: acabo esquecendo em casa equipamentos de natação de alguma importância. Obviamente, só me dou conta do que esqueci quando já estou no vestiário, ou seja, quando já é tarde de mais!

Uma e outra vez já me esqueci dos palmares. Nisso na real não há grande problema: simplesmente nado sem palmares, e pronto.

Já me esqueci da touca. Como o uso não é obrigatório no Coles Sports Center (pelo menos não para quem tem cabelo curto, como é meu caso), tudo bem, nado sem touca.

Também já me esqueci dos óculos de natação. Aí o problema é um pouco mais complicado, mas tampouco impossível de resolver: nado só costas, mas faço uma distância menor que normalmente, porque nadar sem óculos é incômodo mesmo nadando apenas costas.

Hoje cheguei ao ápice: me esqueci da sunga. Incontornável. Só me restou voltar pra casa (e, claro, uma vez em casa, descartei a possibilidade de ir nadar hoje… muita frustração).

Antes que daqui a uns dias me esqueça da toalha (o que também geraria um problema incontornável), vou dar um basta nessa história. Embora seja um pouco ridículo, terei de fazer uma checklist pra colar na porta e conferir sempre antes de sair pra natação.

  • Sunga
  • Óculos
  • Toalha
  • Touca
  • Palmares
  • [De outras coisas essenciais, como a carteirinha da NYU e a chave de casa, nunca cheguei a me esquecer, por isso vou deixá-las fora da lista. Pelo menos por enquanto. Mas a lista é flexível… vou deixar espaço em branco para ampliá-la se preciso.]

O ponto a que chegamos, quero dizer, nós, os cabeças-de-vento… Ficamos pensando na vida em Gotham City, nas leituras pras aulas do dia seguinte, nos desafios do Direito Internacional contemporâneo, na morte da bezerra ou da Inês de Castro… aiai.

CowGuri em San Antonio, Texas

Fiquei com parte da família em San Antonio, Texas, durante pouco mais de uma semana (primeiro a 9 de janeiro). Foi mais um tempo de férias intensivamente curtidas, matando saudade dos queridos e cometendo alguns excessos em termos de sono, entretenimento (passeios, Guitar Hero, seriados, e filmes), alimentação, e consumo de forma geral (em bom inglês, shopping!). Pra não me passar muito nos detalhes, que é uma tendência minha, faço um post-álbum resumo, com alguns dos melhores momentos.

Ainda no dia primeiro, caminhada em família pelo Riverwalk (Paseo del Río) à noite, para ver as decorações de Natal.

Mais do Riverwalk

Corte de Justiça do Condado de Béxar

Catedral San Fernando, na praça principal

San Antonio skyline, vista do alto do prédio de Lu & James

Vista do meu quarto… apartamento de visitas ou resort?

Experiências fotográficas durante a espera pelo jantar :)

Durante o passeio de barco pelo Riverwalk: prédio ou só fachada?

Ainda durante o passeio de barco

Passeio de barco…

Ainda do barco: árvore enraizada na parede

No museu do Álamo

Pôr-do-sol no Jardim Japonês

Riverwalk… depois de drenado para a limpeza anual!

A limpeza do Riverwalk :P

Escadaria do Riverwalk para a praça principal

Río amanzado…

Rio San Antonio e a cidade ao fundo.
Destaque para o Tower Life Building.
(“Mock Empire State”, que na verdade é mais antigo que o Empire State!)
Modestamente, uma das fotos mais bonitas que eu já tirei :)

Rio San Antonio, ares outonais.
Ao fundo, a Torre das Américas, uma torre de 229m de altura.
(No alto dela fica o restaurante onde jantamos – aquele da foto sépia acima.)

Hilli & Silvio, Lu & James, e os meus waffles!
Depois de Pelotas e Porto Alegre (Brasil) e Untershausen (Alemanha), ter feito waffles em San Antonio (EUA) me coloca na posição de waffleiro tetrapolítico (grego) ou quadriurbano (latim) e trinacional (grego, latim e francês, sei lá). (Felipe, revisa aí por favor as questões etimológicas.) Geeente, meus waffles com nozes ficaram muito bons.

Tapete e guardanapos combinantes no apartamento de Lu & James
(depois de um golinho de vinho, começa minha piração fotográfica)

Carpete do corredor do prédio, quase combinante com o tapete e os guardanapos (não falei que tinha começado a piração fotográfica?)

Nos restaurantes no Texas, para poderem vender bebidas alcoólicas, os garçons pedem para conferir o documento de identidade de qualquer pessoa que aparente ter 30 anos ou menos. Pedi uma margarita só pra testar, e o garçom NÃO me pediu documento. Decepção total. A idade pesa sobre os meus ombros. Foi-se (foice!) o vigor de minha juventude. Estou acabado e decadente. O sorriso da foto é cínico.

Casa Manos Alegres – “Casa Mãos Alegres”, claro,
mas a gente quis que fosse “Casa dos Manos Alegres”, e pronto.
Foto em homenagem à Ca, a “Mana Alegre” faltante.

Lu, nesta foto, colocou uma fantasia de cubinhos coloridos. (Detalhe: meus óculos escuros ainda estão por cima da aba do meu chapéu.)

Deixei o frio em NYC ao ir para o Texas? Não necessariamente: temperaturas negativas e um vento cortante. Lu desaparecendo no meio de um amontoado de roupas e casacos não quer dizer muito, mas eu de chapéu e luvas, isso sim, pode acreditar, é sinal de frio. (Detalhe: aí eu já estava sem meus óculos, que caíram e no chão e se fizeram em mil pedacinhos pouco depois de tirada a foto anterior.)

A história da propaganda no século XX através de anúncios de metrô

Algumas das propagandas legais (engraçadas, curiosas, interessantes…) que encontrei nos vagões de metrô antigos no New York Transit Museum (ver relatos sobre o museu e mais fotos no post anterior).


Poema em propaganda do sabonete facial Woodbury.
Acho que hoje não colaria muito… O
McDonald’s tentou.
Mas McDonald’s emplaca com qualquer coisa, mesmo. :P


“Como você deixa suas roupas tão brancas?”
“Ora, é fácil: eu uso Rinso!”
Rinso: economiza trabalho – – economiza tempo.
(Entendes agora o que a tua mãe/vó quer dizer com “brancura Rinso”?)


Sim, fermento Royal! Sim, na mesma embalagem!
Meus amigos americanos nunca tinham visto.


“Ajude a acabar com a tuberculose:
faça um raio-X do peito”


“Varra os comunistas pra fora do nosso governo:
eleja Dewey e Warren – vote nos Republicanos!”

New Year’s in the City

Continuando a viver intensamente meu recesso de inverno, dia 28 fui pela primeira vez ao Queens (o aeroporto JFK fica no Queens, mas isso não conta)! Fiquei sabendo de uma loja que vende produtos brasileiros em Astoria, Queens (US-Brazil Deli & Grocery). Fui lá com o objetivo específico de refazer meu estoque de mistura para pão de queijo Yoki (!), mas acabei voltando também com guaraná Antarctica (!!) e bolachinhas Bono de doce de leite (!!!).

Dia 30 fui com um grupo de amigos italianos (Daphne, Eugenia e Sarah) e japoneses (Misako e Naoki) patinar no gelo no Bryant Park. Quer dizer, pelo menos essa era a intenção. Quando chegamos lá, por volta de 11:30, ficamos sabendo que a pista estava fechada até as 13h por causa de um evento particular.

A vontade de patinar era grande, então resolvemos persistir. Para matar tempo, fomos à FAO Schwarz (uma loja de brinquedos da 5th Avenue que aparece no filme Big – o qual, por sua vez, não me lembro de ter visto!). O problema foi que matamos tempo de mais: acabamos chegando ao Bryant Park depois das 13h. A fila já dava voltas e voltas no parque!

A Misako tinha chegado um pouco mais cedo; estava um tanto mais à frente na fila. As italianas logo desistiram de esperar, até porque tinham outro compromisso logo em seguida. A fila estava andando, por isso o Naoki e eu decidimos esperar. A Misako entrou no rinque de patinação, e a fila continuava andando. Estávamos certos de que logo estaríamos lá também.

O rinque começou a superlotar, com muitos entrando e poucos saindo, e fila começou a ficar lenta, e mais lenta, até que estancou. Duas horas e quinze minutos depois de termos entrado, e ainda com muita gente à nossa frente (no ritmo que estávamos, passaríamos mais meia hora de fila, no mínimo), o tédio e o frio nos impeliram a sair. Além do mais, a Misako já estava de saco cheio de patinar (e de nos esperar!), e a ideia era patinarmos todos juntos… Foi um pouco difícil tomar a decisão de desistir, porque, depois de tanta espera, a tendência é virar “questão de honra”. Mas logo percebemos que era bobagem: já estávamos tão chateados com a fila que a vontade de patinar até tinha passado. Esperamos a Misako sair e fomos os três tomar café con leche no Juan Valdez Café da Times Square (café colombiano, muito bom e barato, mesmo sendo na Times Square).

A fila (à frente e depois dobrando à esquerda), pouco antes de sairmos

Fonte congelada no Bryant Park

Depois do café voltei pra casa, coloquei meu traje de gala, e fui à opera: Les Contes D’Hoffmann, de Offenbach, na Metropolitan (Met) Opera House do Lincoln Center! Foi uma experiência inenarrável, como diria o Sami. Raramente assisto a operas, mas normalmente gosto. Estou mais para “apreciador eventual minimamente instruído” que para “conhecedor aficionado”.

No último dia do ano, fui ao Brooklyn pela primeira vez (bom, eu já tinha ido ao Brooklyn Bridge Park, do lado de lá da ponte, mas isso também não conta!). Meu amigo Kyle e eu fomos pra lá na hora do almoço. Excelente ideia. Comida boa e muito, muito barata: cada um pagou $7 (com imposto e gorjeta) por uma porção generosa de “pad thai” mais chá gelado! Refeição completa por esse preço em Manhattan é coisa rara ou quase inexistente.

A Leslie nos encontrou no restaurante, e de lá fomos os três ao New York Transit Museum. É um museu da MTA (autoridade de trânsito metropolitana) que conta a história do sistema de metrô e ônibus de NYC, e mostra algumas peças antigas. Fica numa estação de metrô desativada (Court Street) num bairro muito simpático, o Brooklyn Heights. Tivemos só uma hora pra visitar o museu, mas foi muito divertido o passeio, especialmente na parte dos vagões antigos de metrô. (O meu registro fotográfico entitulado “A história da propaganda no século XX através de anúncios de metrô” vai ganhar um post específico a seguir!)


Brooklyn Borough Hall


Em frente ao Borough Hall


Injustiça arquitetônica: McDonald’s num prédio bonito


Ah, como eu queria me lembrar de que década era esse vagão…
Primeiro quartel do século XX, sem dúvida.
Um dos mais antigos do NY Transit Museum.


“Cuspir no chão deste vagão: multa de $500 dólares, um ano de prisão, ou ambos.” Ah, se o metrô de NYC fosse tão limpinho assim ainda hoje! Multa de $500 não é coisa pouca por uma cuspida, e detalhe: na época $500 valiam bem mais do que hoje (lembrete: inflação existe)! Na foto, pra quem não percebeu: eu, no papel de advogado (ou law enforcement officer), tentando prevenir que o Kyle cuspisse no chão. (Isso, claro, depois de muitas tentativas frustradas de tirar essa foto, tentando conter as risadas.) :D


Leslie, entre dois vagões, o que hoje, sim, pode dar multa!


Este, se não me engano, era um vagão de pouco antes da Segunda Guerra.

Vagão dos anos 1940/1950 (pós-guerra).


Leslie e Kyle no mesmo vagão da foto anterior.


Brooklyn Heights (um bairro simpático, não?)


Manhattan vista do Brooklyn Heights Promenade, o passeio à beira do East River. “I had been dreaming of a White Christmas”, mas no fim das contas o que foi branco foi o Ano Novo, e não o Natal!

A aventura de virada de ano continuou com uma janta com vários amigos da City Grace Church no Fetch Bar & Grill, um restaurante temático de cachorros muito engraçadinho no Upper East Side. (Nalatos, esse tava totalmente pra ti!) Em seguida, as gurias foram para uma festa para a qual nem todos estavam convidados, hehe, e a gurizada foi para um bar tomar cerveja (sim, eu, que não gosto de cerveja, tomei cerveja – até que não estava ruim, mas continuo não gostando, haha) e jogar dardos.

Mais tarde chegaram mais duas amigas da igreja, e fomos com elas para uma festa de amigas delas… Ou seja, terminei 2009 e comecei 2010 na companhia exclusiva de pessoas que conheci bem no início do segundo semestre de 2009 (amigas e amigos da igreja) e de pessoas que conheci bem no fim do segundo semestre de 2009 (amigas e amigos das minhas amigas da igreja). :P

Na hora da contagem regressiva, subimos para o telhado do prédio com nossos copinhos de plástico, cada um deles com um golinho de champanha, e brindamos! Não vimos a bola cair na Times Square, e estávamos muito felizes de não termos estado na Times Square desde as 2h da tarde só pra ver a bola cair.

Ao voltar pra casa, na rua e no metrô, não vi ninguém vestido de branco; só chapéus e acessórios multicoloridos e classificados em no mínimo uma das seguintes categorias: brilhantes, fiasquentos, ridículos.

Dia primeiro, cheguei ao Village às 3h, fui dormir às 4h, acordei às 8h. Reguei o Jacinto (a palmeira da Dori, minha amiga mexicana que viajou no recesso e me encarregou de baby sitter da planta), juntei meus brinquedinhos, e me fui pro aeroporto LaGuardia. Uma hora de metrô e ônibus.

No LaGuardia, o improvável aconteceu: encontrei a Flávia e o namorado dela. A Flávia é carioca, também faz Mestrado na NYU (embora não em Direito Internacional), foi minha colega na cadeira de Introdução ao Direito Americano, e é minha vizinha de andar aqui no D’Ag (nome carinhoso do prédio de dormitórios). A Flávia e eu éramos os únicos brasileiros que não tínhamos ido ao Brasil para as Festas! Enfim, ela e o namorado estavam indo para a Florida, e eu fui para San Antonio, Texas.

Minha conexão era via Chicago, um dos aeroportos mais arriscados de se fazer uma conexão nessa época, com riscos de atrasos e cancelamentos por causa de nevascas e outras condições meteorológicas desfavoráveis. Tudo pela passagem mais barata… Felizmente, tudo certo! Apesar do frio de -15 graus em Chicago, o céu estava de brigadeiro, e tudo correu bem.

No portão de embarque em Chicago, prontinho pra ir ao meu destino final, os funcionários da United anunciaram que tinha overbooking, e que eles talvez precisassem de cinco assentos. Pediram, então, por cinco voluntários que estivessem dispostos a abrir mão de seus assentos naquele voo; em troca, os voluntários receberiam, além de uma passagem no voo seguinte para San Antonio (três horas depois do original), uma voucher para uma viagem gratuita para qualquer lugar nos 48 estados contíguos dos EUA.

Claro que eu praticamente me atirei no balcão e me voluntariei. Uma espera de apenas três horas em troca da oportunidade de viajar de novo muito valeria a pena! Infelizmente a United acabou não precisando de nenhum dos cinco assentos, e pediu que eu e os demais voluntários embarcássemos no voo original. Mesmo assim, antes de embarcarmos, nos chamaram para o balcão e nos deram vouchers de $50. Posso não ter ganhado uma viagem extra inteira, mas já ganhei uma parte-de-viagem… e sem esforço.

À noite cheguei em San Antonio e fui efusivamente recebido por Hilli & Silvio e Lu & James, com direito a uma minifestinha aeroportuária incluindo língua-de-sogra, bolhinhas de sabão, e chocolates. Alguém se atreve a dizer que nasci na família errada?

Num próximo post, relatos das aventuras texanas do cowGuri!

Empire State natalino

Empire State com iluminação de Natal; vista da lavanderia aqui do prédio! Fica assim até dia 6, Dia de Reis, fim da temporada de Natal.