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Rezita Juris

Convidei uma querida amiga para visitar meu blog (que ultimamente anda inspirado… imperdivelmente inspirado). Ela egocentricamente recusou: “o blog fala em mim? não? então não vou ler!”

Pois bem, Rezita: este post fala em ti. Agora podes ler o blog.

P.S.: Por favor, amigos leitores: não sejam igualmente egocêntricos. Vai me dar muito trabalho ter que escrever um post para cada um de vocês. Não que eu não faria isso por amigos leitores (prova: acabo de fazer), mas sério… não prefiro. :)

Buzina

Alguém buzinou pra mim enquanto eu caminhava pelo Village, da estação de metrô à biblioteca, arrastando minha mala (literalmente: é uma pequena mala, dessas de levar de bagagem de mão) com os livros para meus estudos. Às 8h da manhã, com o Village quase deserto, dá pra ter certeza: a buzina era pra mim. Não foi uma buzina-xingamento; foi antes uma buzina rápida e simpática.

Em Pelotas, buzina rápida e simpática normalmente significa que um conhecido te viu na rua e quis te cumprimentar. Aqui, porém, a chance de isso acontecer é nula: ninguém que eu conheça tem carro. Mas mesmo assim eu olho, como há pouco olhei, pra ver quem era. Claro, sou de Pelotas. Vai que seja algum conhecido? Santa ingenuidade.

Outra vez que isso aconteceu (em pleno domingo de manhã, na caminhada de uma quadra entre a igreja e o prédio onde eu morava), baixaram o vidro do carro e cumprimentaram meus atributos físicos, de uma forma tão particularmente nova-iorquina que prefiro não transcrever aqui. Nada de mais, e nem teria sido incômodo, não fosse por um detalhe: era um cara (!). Não sei por que eu insisto em olhar… Ignorar e seguir caminhando (o que em Pelotas é grosseria) aqui é sempre a opção certa.

Hoje, de novo, não resisti e olhei. Obviamente não era nenhum conhecido. Era um taxista. O táxi estava reduzindo a velocidade e pouco a pouco se aproximando do meio-fio. Aí que me dou conta (sabe como é, de manhã o raciocínio é um pouquinho mais lento): como me viu puxando uma mala, talvez o taxista tenha suposto que eu gostaria de pegar um táxi. Estranho, de qualquer forma, porque conseguir um táxi em Manhattan é a coisa mais trivial; se eu realmente quisesse um, estaria dentro de um, não caminhando na calçada. Aí por aqueles segundinhos incômodos ficou o taxista a me olhar, meio que indagando se eu queria um táxi. Quando me dei conta, claro, fiz o que deveria ter feito desde o início (ignorar e seguir caminhando), pra ver se o taxista seguia seu rumo. E foi o que ele fez.

Já é a segunda vez que tenho esse tipo de interação com taxistas. Vai ver que os taxistas de NYC estão ficando sem serviço e estão correndo atrás da demanda? Impossível. Vai ver, então, que estão se tornando mais simpáticos? Duvido ainda mais. Acho que isso só acontece para eu ter aleatoriedades matinais para postar no blog.

Grammy

Her Morning Elegance é um dos vídeos mais lindos que já vi. Está concorrendo ao Grammy. Coldplay também está no páreo, com Life In Technicolor ii.

Astronomia

(Na verdade esta é mais uma aleatoriedade, em complementação ao post anterior, tanto que merece os cinco asteriscos. Aí vamos.)

* * * * *

Nas minhas aventuras fotográficas de longa exposição, tirei esta foto:

Lua minguante deslumbrante, certo? Foi o que pensei. Porém, no dia seguinte, observei que a Lua estava mais perto de cheia, e não de nova. No dia seguinte, ainda mais cheia.

Para tudo. Tem coisa errada. Lá nos meus tempos de antigamente (quando
“ensino fundamental” ainda era “primeiro grau”) me ensinaram que a parte iluminada da Lua faz um “C” quando a fase é crescente e um “D” quando é minguante. Era tão fácil de lembrar, aliás: “C” de Crescente, “D” de… “Decrescente”. Então como é que a Lua em D estava (e ainda está) crescente, cada vez mais cheia? Poderia ser mais uma das estranhices de Nova Iorque. Não me surpreenderia.

Durante a semana não tive tempo de investigar. Mas hoje finalmente liguei pra Lu, minha irmã e assessora para assuntos aleatórios, e perguntei se andaram mudando aí alguma dessas leis astronômicas. “Não que eu saiba.” Eu disse, “não pode ser que no hemisfério sul se veja a Lua de um jeito e, no norte, de cabeça pra baixo, né?” E ela disse, “claro, é assim mesmo.” E eu, “sério?” E ela, “não, né, tchê!”

Pois bem. Mesmo sendo domingo, cometi um terrível sacrilégio: depois do clássico almoço com o pessoal da igreja, entrei na biblioteca do Direito. NÃO, não pra estudar! Por favor! Eu tenho todo o resto da semana pra fazer isso (de forma inescapável). Entrei na biblioteca pra (1) blogar (o post anterior) e (2) corrigir essa história de Lua invertida:

Pronto: com uma inversão básica, a Lua crescente ficou em C na minha foto. “Ufa, bem melhor.” Isso me acalmou um pouco inicialmente. Mas continuei incomodado por ver Manhattan toda ao contrário, como se vista de um espelho. Consertei a Astronomia e estraguei a Geografia.

Então, aproveitando que estava mesmo na biblioteca, resolvi (3) googlar o mistério da fase lunar invertida. E descobri que a minha suspeita aquela estava certa: vista do hemisfério norte, a Lua faz um “D” na fase crescente e um “C” na fase minguante.

Meu mundo virou de cabeça pra baixo. (Bom, na verdade minha Lua virou de cabeça pra baixo.) Mais: essa coisa de ficar de cabeça pra baixo fez com que caíssem do meu bolso todos os butiá. Tenho que voltar ao Instituto (hoje: Instituto Estadual) de Educação Assis Brasil e achar minha professora de Geografia de sei-lá-que-série pra ter com ela uma conversa séria: “Me falaram da história do Cruzeiro do Sul e da Estrela Polar, mas como é que ninguém me disse que essa regra do ‘C de crescente’ não era universal?” Absurdo. Me sinto traído e enganado.

Aleatório

Acho que virei um blogueiro domingueiro! Durante a semana não sobra tempo para postar; só me resta o meu agradável tempo sabático dos domingos. O problema é que, quando o assunto vai acumulando ao longo da semana, o resultado tende a ser um post domingueiro altamente aleatório (como este).

* * * * *

Um dia desses um amigo meu tinha a seguinte frase como status no Google Talk: “Woman to me on the subway: ‘if you touch me, I’m gonna f*** you up!'” (Lamento, mas isso é intraduzível aqui no blog.) Bom, claro que eu tive que chamá-lo pra perguntar, “quê?”

Pois foi bem isto: uma mulher, do nada, começou a vociferar insultos pra tudo que é lado dentro do metrô, e acabou sobrando pro meu amigo (que não tinha nada a ver com o pastel, obviamente, e que não tinha sequer encostado nela). Disse ele que ela estava visivelmente drogada ou embriagada (ou ambos), empurrando as pessoas e causando tumulto dentro do vagão de metrô.

Mais tarde, ao sair da biblioteca para almoçar, sou testemunha de outro desses momentos malucos (embora de um nível de agressividade um pouco inferior). Alguém atravessava a rua, na faixa de segurança, mas quando o sinal de pedestres estava fechando ou começando a fechar.

Até aí, nada de extraordinário. Aqui todo o mundo faz isso. Respeitar o sinal de pedestre? Usar a faixa de segurança? Nunca atravessar a rua em diagonal? São regras. Mas todas opcionais em Nova Iorque. (Pra esclarecer: o pedestre transgressor não era eu. Só não nego que poderia ter sido!)

O extraordinário só aconteceu quando um carro parou diante da faixa de segurança onde o pedestre atravessava a rua. O homem que estava sentado no banco do passageiro abriu a janela, esticou a cabeça pra fora (de uma forma tão cômica que só vendo), e começou a berrar, a plenos pulmões: “Hey… HEY! NO! Don’t cross! It says don’t cross! Don’t cross!”

Eu não consegui conter o riso. Nessas horas, não há o que dizer senão o que eu já disse por aqui outra vez: “It’s New York City…” O negócio é relevar e seguir andando, fingindo que tudo é normal.

* * * * *

Meu novo passaporte mercossulino ficou pronto na segunda-feira. É bonito.

Frustração número 1: diz que foi emitido no C.G. (Consulado Geral) de Nova York. Não: nada contra que meu passaporte tenha sido emitido aqui. É que o purista (napoleônico) dentro de mim continua achando que é ou “Nova Iorque” ou “New York”. Esse purista fica quieto na maior parte das vezes, mas de tempos em tempos ele aparece. Fiquei um pouco chateado de ver uma grafia controversa em um documento oficial. Mas tudo bem.

Frustração número 2: enquanto o passaporte antigo mostrava todo o nome, sem subdivisões, o novo mostra “prenomes” e “sobrenomes” separadamente. Tudo muito lindo para os hermanos. No caso do “Fulano Hernández García”, o prenome é Fulano, o sobrenome do pai é Hernández, e o sobrenome da mãe é García. Então, no passaporte vai constar que os sobrenomes são “Hernández García”, vão chamá-lo de “Mr. Hernández” ou “Señor Hernández”, e tudo bem. Para os nomes de formação portuguesa, porém, vai dar confusão. No caso do “Beltrano Pereira Ribeiro”, o prenome é Beltrano, o sobrenome da mãe é Pereira, e o sobrenome do pai é Ribeiro. No passaporte, os sobrenomes serão “Pereira Ribeiro” e, como a maioria das gentes fora de Brasil e Portugal não sabe da diferença (e a organização dos nomes no passaporte não ajuda em nada a esclarecê-la), em vez de “Sr. Ribeiro”, vão chamá-lo de “Sr. Pereira”, ou seja, “Sr. Filho-da-Mãe”. Não acho que haja problema em ser “Sr. Filho-da-Mãe”… é só uma questão de se acostumar.

* * * * *

Outro dia, no térreo da Biblioteca Bobst, entrei num dos elevadores para subir ao décimo. Entrou também uma moça, desconhecida, que ia descer no terceiro. Em algum ponto entre o térreo e o terceiro, o elevador começou a oscilar e trepidar com força e simplesmente estancou. Na próxima fração de segundo, vi (e foi a única coisa que vi) poeirinhas voando diante dos meus olhos. Na próxima fração de segundo, em coro, a moça e eu murmuramos, “Oh, my God!” Na próxima fração de segundo, o elevador continuou parado, e a moça completou, “ainda estamos vivos?” Na próxima fração de segundo, eu comecei a rir. Então o elevador subiu ao terceiro andar. A moça saiu do elevador e me desejou boa sorte. Então o elevador subiu ao décimo e eu saí. Vivo.

Empire State Brazil

Terminei a semana de estudos com uma noite muito feliz fotograficamente (modéstia à parte). Tá certo que me atrasei para a golden hour, mas fiquei satisfeito com minhas brincadeiras de longa exposição. Foi uma noite particularmente interessante para experiências fotográficas nova-iorquinas, porque o ESB estava vestido de Brasil! O motivo do azul-verde-amarelo nestes dias é a “Semana do Caribe”, segundo o site oficial do ESB, mas eu acho que no fundo eles querem dizer que torcem pelo Brasil na Copa do Mundo. ;)

Cena clássica do Washington Square Park

Washington Arch

Judson Memorial Church, Furman Hall ao fundo

Vista de Roosevelt Island (quase em casa!)
Queensborough Bridge e três dos arranha-céus mais altos de NYC:
Chrysler (terceiro), Empire State (primeiro), Citigroup Center (sétimo)

The Bobst Mysteries

Tô aqui na Bobst, pra variar; estudando, pra variar. Saio da sala por cinco minutos (para um intervalinho de barra de cereal) e já me destraio com um mistério.

Saboreando minha barra de cereal e caminhando de um lado pro outro no corredor, me deparo com um pedaço de papel com a frase: “We are PEOPLE not PROFIT.” = “Somos PESSOAS, não LUCRO.” Ok: alguma espécie de protesto (vai saber contra quem? a universidade, talvez?). O que me intriga, porém, é como o pedacinho de papel foi parar ali.

Pra quem não conhece a Bobst, talvez valha a pena descrever um pouco o lugar, porque a foto (tirada com o celular, através de um vidro e de um ângulo complicado!) não é lá muito clara. A parte central da Biblioteca Bobst é “oca” (uma palavra que eu cuidadosamente selecionei no meu imenso vocabulário técnico de arquitetura). Tirei a foto olhando do corredor-galeria do décimo andar para baixo. (O padrão em preto, branco e cinza que predomina na foto é o piso do térreo; os semicírculos pretos são bancos estofados no saguão central.) Em cada andar, há um vidro de mais de dois metros de altura na beirada da galeria, como medida de segurança. Além disso, do lado “de fora” do vidro há uma grade de um metro de altura. O pedaço de papel que vi está entre o vidro e a grade! Como? Intrigante.

Segundo fator intrigante: que lugar mais estranho para um protesto, não? Fico me perguntando quantas poucas pessoas já tiveram a feliz ideia de, durante um intervalinho de barra de cereal, perambular pelo corredor do décimo andar observando o espaço estreito entre o vidro e a grade pra ver se encontram algum pedaço de papel com um recadinho de significado obscuro.

Terceiro fator intrigante: as hastes das grades de proteção em formato de cruz. Por incrível que pareça, há quem consiga não se sentir suficientemente encorajado pelo vidro de mais de dois metros de altura e pelas grades a ficar com os pés firmes no corredor-galeria e a desistir da ideia de aprender a voar. (Infelizmente, é isso mesmo. Já aconteceu algumas vezes. Uma delas, em novembro do ano passado.) Seria coincidência o formato das hastes das grades?

Se eu fosse inventar de colocar um recado entre o vidro de dois metros de altura e as grades do corredor-galeria do décimo andar da Bobst (e soubesse uma forma segura de fazer isso!), minha mensagem seria diferente; algo mais no estilo: “Think twice. Jesus loves you.” = “Pensa bem. Jesus te ama.” Acho que é isso que um bom protestante (!) faria.

Bom dia, Roosevelt Island

Vista do meu quarto, 3 de junho, neblina de manhã cedo

Dia de Camões

10 de junho de 2010: 430 anos da morte de Luís de Camões. (Feriado nacional português!) Na adolescência eu sabia de cor vários sonetos de Camões. Infelizmente, minha memória aos 25 não é mais a que era aos 15: não me lembro de nenhum…

Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

(Luís de Camões – outros sonetos aqui)