Ri, chorei, me atirei no chão. Estarrecedoramente divertido.
Valeu, André, pelo link! :D
(Postagem 300 do blog do Guri!)
Ri, chorei, me atirei no chão. Estarrecedoramente divertido.
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Se Bach fosse vivo, hoje teria completado 325 anos. (!) Agora falando sério: hoje é o aniversário de 325 anos do nascimento de Johann Sebastian Bach. Embora 300 anos (e algumas semanas) mais novo, sou um grande fã. Contei no post do último sábado que venho ensaiando na flauta-doce várias composições dele. Hoje perdi (ou melhor: propositalmente troquei por sono extra) meu inspirador tempo de flauta-doce na sala de música da City Grace, mas comemorei os 325 anos no ensaio do City Grace Choir, regendo uma peça arranjada por Bach (é uma das músicas para o culto de Good Friday, Sexta-Feira Santa – sim, estou fazendo mistério sobre a música por enquanto).
No mais, pra mim foi um domingo de um bom humor surpreendente (tanto que até alguém comentou). Uma amiga da faculdade foi comigo ao culto na City Grace pela primeira vez – sempre é legal quando alguém aceita um convite para à igreja! Depois, no ensaio do coro, coisinhas audaciosas: fiz exercícios de aquecimento e extensão até notas agudas até então desconhecidas pelo City Grace Choir (hehe), subi o tom de uma música pra preparar as sopranos a alcançarem as notas agudas (valeu pela dica, Marcelo: they made it!), e comecei a ensaiar uma música nova a apenas duas semanas da Sexta-Feira Santa. (Sim,
vai dar tempo!)
Depois do coro, almocei com amigos da igreja. No caminho de volta pra casa, um ataque de flashback básico: caminhando na MacDougal, estava quente e barulhento e sujo e abarrotado de gente nas calçadas – exatamente como quando cheguei aqui em agosto do ano passado. (A primavera mal começou a dar os seus sinais e parece que Gotham, ou pelo menos o Village, já quer sair da hibernação. Olha, devo dizer que eu gostava da hibernação. Isso aqui vira uma bagunça no verão… haha.) Preparei um trabalho da faculdade, fui ao súper (!), e lavei todo o apartamento (enfim!). O banheiro está tão cheiroso e branco e brilhoso e lindo e (sobretudo) limpo que eu até estou pensando em me mudar pra lá (bah, mentira… quer dizer, a parte da mudança é mentira). O motivo para tamanho esforço? Visita brazuca amanhã: Lígia chegando em Gotham City! :D
Morando na frente da NYU Law, acabo usando o metrô bem menos que o nova-iorquino médio. Mesmo assim, já andei bastante de metrô por aí e tenho uma boa noção da rede (depois de meio ano aqui, é o mínimo!). Não sei se posso dizer que tenho uma estação preferida, ou uma que menos goste – primeiro que é difícil se apaixonar pelas estações de metrô daqui, e segundo porque acho que não conheço tantas assim pra poder fazer um julgamento bem-informado! –, mas posso contar com segurança sobre as “entradas/saídas de estação de metrô” de que menos/mais gosto.
Hoje fui com uma amiga a uma exibição de fotografia na Park Avenue Armory, no Upper East Side. Em vez de caminhar um pouco mais aqui no Village pra pegar o trem 6 e chegar pertinho do destino, resolvi caminhar menos aqui (uma quadra até a estação West Fourth – Washington Square), pegar o F, descer na estação Lexington Avenue – 63rd Street e caminhar um pouco mais até o destino. Péssima ideia. (Pelo menos posso culpar o google maps pela sugestão furada.) Não foi a primeira vez que desci na estação Lex–63rd, mas acabei esquecendo que a plataforma fica mais perto do centro do planeta que da superfície terrestre… Sem brincadeira. Fica nas mais cavernosas profundezas do soterramento. A Wikipédia não me deixa mentir: diz que “leva bastante tempo para ir do nível da rua até a plataforma”. E um site sobre o metrô diz que a plataforma inferior fica a 100 pés da superfície – 30 metros, ou cerca de dez andares. Pronto: entrada/saída de que menos gosto.
Agora, a entrada/saída de que mais gosto é, sem dúvida, a da estação 42nd Street – Bryant Park. Mas não qualquer entrada/saída: a da esquina sudeste da 42nd St com 6th Ave. Aliás, só a saída, mesmo – a entrada não tem nada de especial. O motivo é simples. A primeira coisa que se vê ao subir a escada é o Chrysler Building (que pode ter sido superado pelo Empire State em altura, mas não em beleza). É muito lindo sair da estação, pisar na calçada do Bryant Park e dar de cara com o Chrysler… Ainda preciso tirar uma foto naquela saída de metrô. É uma imagem de que não quero esquecer.
Ainda mais lindo é seguir caminhando na 42nd. A Biblioteca Pública fica alguns metros adiante, na 42nd St com 5th Ave. E a Grand Central – a maior estação de trem do mundo – umas quadras adiante, na 42nd St com Park Ave. E ainda mais umas quadras adiante, à beira do East River, a sede das Nações Unidas, na 42nd St com 1st Ave. (Comecei com metrô e terminei com nostalgia… os mistérios da sinapse!)
Um mês – um longo e intenso mês – sem postar. É verdade que estou em jejum de facebook, orkut e twitter durante a Quaresma – mas o blog nunca esteve incluído nessa idéia. Pois então basta de jejum de blog. Hoje vou pôr as coisas em dia por aqui: resumir um mês em um post. Minha capacidade de síntese não é lá grande coisa, e nem estou muito seguro de que deveria mesmo me aventurar nesse tipo de exercício, mas é o único jeito. Não consigo deixar lacunas (especialmente num mês em que tanta coisa aconteceu). Preciso voltar a postar – e pra voltar a postar preciso vencer a inércia. Porém, neste post retroativo vou deixar um pouco de lado o meu “clássico” formato cronológico e organizar tudo em tópicos. (Ou seja: será um post menos tipicamente meu, mas nem por isso menos neurótico.)
NYU Law e Direito Internacional
Claro que não podia começar por outro tópico. O último mês foi menos produtivo academicamente do que deveria ter sido (não, não estou exigindo de mais de mim mesmo!); ainda assim, não foi pouca coisa! Nesse período terminou minha cadeira sobre a Organização Mundial de Comércio, com uma petição escrita e um painel simulado. No seminário de Política de Mudança Climática, escrevi uma redação como “iniciador” da discussão e, num outro dia, fui o “comentarista” sobre a redação de um colega. Mas o ponto alto das últimas semanas, sem dúvida – sem deixar a modéstia de lado –, foi a nota máxima no memorandum que escrevi para Metodologia Jurídica. Muito mais que o reconhecimento por um trabalho que deu mesmo bastante trabalho, aquele “A” melhorou bastante minha autoestima! Um dos melhores eventos do último ano, desde que fui aceito na NYU. Sério.
Pensando no futuro
Agora conto da parte frio na espinha das últimas semanas. Depois de consultas com “conselheiras profissionais” aqui da NYU e também com a ajuda de uma amiga editora, preparei uma carta de apresentação bem sólida, fiz os últimos ajustes no currículo, e passei a me envolver mais ativamente na busca por empregos e estágios. Semana que vem vou a Washington, DC, para a reunião anual da Sociedade Americana de Direito Internacional (da qual sou membro), para fazer contatos na minha área. Também enviei o pedido de prorrogação do meu visto por um ano e de autorização de trabalho. Mais frio na espinha.
Vida em Gotham
Nos últimos tempos tenho levado mais seriamente – embora não perfeitamente seriamente – meu “tempo sabático semanal”: 24 horas para não pensar em Direito, estar na igreja e na presença de Deus, passar tempo com amigos, descansar. Tem funcionado bem na maioria das vezes. Começo sábado à tardinha e vou até domingo à tardinha. No sábado à noite eu descanso, no domingo de manhã toco flauta na sala de música da City Grace, em seguida vou ao culto e lidero o ensaio do City Grace Choir, aí almoço com amigos da igreja, e por fim passo mais um tempinho descansando em casa.
Na parte musical, as últimas semanas foram muito boas. Assisti à Orquestra da NYU um dia desses com uma colega. O City Grace Choir anda a mil com os preparativos para a Semana Santa. Mais, os “tempos sabáticos” que passo na sala de música da igreja aos domingos de manhã têm me proporcionado alguns dos “momentos flauta-doce” mais inspirados da minha vida. Muito Bach nesta hora. Ainda não consigo tocar a Partita em Lá menor (BWV 1013) perfeitamente (é o eterno desafio da minha vida musical?), mas melhorei bastante. Comecei a ensaiar – e aprontei, na verdade – a Sonata em Dó (BWV 1033):
Com o Kyle, um amigo da City Grace, estou ensaiando o Trio em Fá (BWV 1040) de uma forma bem alternativa. Primeiro porque é um trio e estamos ensaiando apenas em duas partes (já fui criticado por isso – ok, admito que precisamos conseguir um terceiro aficionado por Bach…). Segundo porque o Kyle faz a parte do violino no mandolim e eu, a parte do oboé na flauta-doce. Está ficando interessante.
Por fim, o último mês foi um tempo de transições. Teve mais uma tempestade de neve (que rendeu boas fotos – a seguir – e mais um snow day, embora numa sexta-feira, quando eu igual não teria aula). Também teve chuvaradas terríveis, dias nublados, escuros, tenebrosos. E ainda teve dias ensolarados e quentes. Gotham já entrou no horário de verão e já rompeu a barreira dos 70 graus Fahrenheit (ou dos 20 graus Celsius, digamos). Primavera chegando, tanto que estou no fim do dito “spring break” (um interessante mix de recesso, procrastinação e trabalho).
No Washington Square Park, últimas fotos de neve da temporada… :(
| From NYC winter 2010 |
Num dos textos que li pro mestrado esta semana apareceu uma referência a um episódio que aconteceu com o escritor Mark Twain – uma troca de telegramas muito interessante. Tive que achar o original. (Ah, adivinha onde achei? “Deu no New York Times!” O artigo, aliás, é bem legal; tem uns quantos exemplos de telegramas históricos.)
Um belo dia Twain recebeu de um editor o seguinte telegrama:
NEED 2-PAGE SHORT STORY TWO DAYS.
(PRECISO CONTO 2 PÁGINAS DOIS DIAS.)
Twain respondeu ao editor:
NO CAN DO 2 PAGES TWO DAYS. CAN DO 30 PAGES 2 DAYS. NEED 30 DAYS TO DO 2 PAGES.
(NAO POSSO 2 PAGINAS DOIS DIAS. POSSO 30 PAGINAS 2 DIAS. PRECISO 30 DIAS PARA 2 PAGINAS.)
Genial. De acordo. Escrever de forma concisa leva tempo e exige esforço. Tem tudo a ver com uma lição de McCloskey que citei aqui no blog alguns anos (!) atrás: redação fácil, leitura difícil. Sonho com o dia em que todos os habitantes do mundo das letras jurídicas aprendam que concisão é uma virtude e que verborragia não é sinônimo de produtividade nem de raciocínio apurado.
A semana será mais curta que o normal. Mas não é por causa do carnaval, que aqui não há; é que hoje foi feriado nacional de Presidents Day. Semana mais curta, porém, não significa semana menos intensa: dois trabalhos para quinta-feira, muita leitura, aula extra na sexta-feira (que era pra ser meu “dia livre” de aulas… nem sempre funciona). Apesar de tudo o que me espera, e mesmo sem muito tempo, simplesmente não posso deixar de postar sobre a semana que passou. Muitos acontecimentos importantes – postagem irresistível.
Segunda-feira, dia 8, escrevi meu primeiro reaction paper para a disciplina de Direitos Humanos (reaction paper é uma reflexão pessoal em resposta às leituras da semana – preciso escrever quatro ao todo; cada um vale 25% da nota do semestre). Também terminei um memorandum para a disciplina de Metodologia – nada menos que 50% da nota do semestre. São dois “pesos acadêmicos” científicos que tirei das minhas costas.
Terça-feira, dia 9, fui doar sangue. A parte boa foi saber que minha pressão estava normalíssima em 11 por 7 (“pressão de criança”, segundo o Sam, o enfermeiro que me atendeu), bem diferente do que aconteceu na última vez que doei. A parte ruim foi que quase não me deixaram doar. Quando eu disse que sou brasileiro e que morei no Brasil até menos de um ano atrás, o Sam olhou seu manualzinho e disse que não ia rolar doação de sangue pra mim – porque no Brasil tem risco de malária. Eu expliquei que no Rio Grande do Sul, onde morei a vida inteira, esse risco não existe. Mesmo assim, o Sam complicou; chamou um superior, que queria saber por onde eu andei no Brasil…
Aiai, que cansaço. “Bom, mas em nenhuma das regiões onde estive existe risco de malária. Mesmo que eu não tenha viajado tanto assim pelo Brasil, fica difícil explicar… Se tiveres um mapa aí, posso te mostrar.” E não é que ele tinha mesmo um atlas? Lá fui eu, dar aula de geografia pro rapaz. “Aqui é o meu estado, também já fui pra esse outro estado aqui, a São Paulo, ao Rio de Janeiro, mas não mais ao norte que o Rio.” Então o chefe do Sam pegou o telefone e ligou para o seu chefe pra verificar se eu podia doar ou não. Finalmente ele disse que sim.
Claro que tive que perguntar pros dois carinhas, só por curiosidade, o que dizia no manual deles. Fiz a seguinte comparação pra eles entenderem: é como se eu morasse a vida inteira em Seattle (que fica bem no noroeste aqui dos EUA) e eles não me deixassem doar sangue por causa de uma doença que só tem na Flórida (no sudeste dos EUA). Expliquei que o Brasil era um país bem grandinho. (Talvez ele ficasse chocado se eu dissesse que o Brasil é maior que a parte contígua dos EUA – ou seja, 48 estados mais o Distrito de Colúmbia, ou “área total menos Alasca e Havaí”.) Por isso, tratar o país como “uma coisa só”, tanto no caso do Brasil quanto no dos EUA, não fazia sentido.
Aí ele até me alcançou o manual, para eu mesmo consultá-lo. E estava lá a lista de todos os estados do Brasil onde há risco de malária – sendo que todos eles são estados onde eu jamais estive. No fim das contas, todo o rolo foi por falta de preparação deles (em receber doações de estrangeiros!), e não por uma falha do manual. Olha, considerando as experiências desagradáveis que já tive ao doar sangue (vide histórico do blog!), fica cada vez mais difícil entender por que persisto como doador. Se não é por altruísmo, só pode ser por teimosia!
Quando voltei pra casa, vi que tinha e-mail da NYU, oferecendo a alunos do meu programa (International Legal Studies) a oportunidade de observar a reunião do Comitê de Direitos Humanos das Nações Unidas, durante a segunda semana de março, na sede das Nações Unidas aqui em Nova Iorque. Apenas os vinte primeiros interessados teriam a oportunidade. Pensei que nem teria mais chance, porque o e-mail tinha chegado uma hora antes, mas resolvi tentar mesmo assim – e consegui! Tô dentro.
Na terça-feira à noite fui ao Carnegie Hall para o último concerto do meu pacote estudantil para a temporada. O concerto com a Orquestra Sinfônica de Pittsburgh foi, na minha opinião, o melhor dos três a que assisti (os outros foram com as orquestras da Juilliard e de Houston). A primeira parte do programa foi o Concerto para Violino de Brahms (Op. 77), com a violinista Anne-Sophie Mutter. Apenas o máximo. Só para deixar um gostinho do que foi o concerto: encontrei esta gravação do Allegro giocoso, ma non troppo vivace – Poco più presto (terceiro e último movimento) com a mesma violinista.
E quarta-feira nevou. O dia inteiro. Muito. Uns 30 centímetros. A nevasca foi forte a ponto de a NYU declarar snow day e fechar as portas – coisa que, segundo disseram por aqui, acontece muito raramente. Na quinta-feira, assim que me liberei da última aula, fui tirar fotos do Central Park coberto de neve.
Sábado fui de novo ao Carnegie Hall, dessa vez com meu ingresso baratinho de estudante para a Filarmônica de Nova Iorque. A primeira peça (e acho que minha preferida da noite) foi a ouverture de Rienzi (a gravação aqui não é da NY Phil), de Wagner. A orquestra, claro, é espetacular, mas o maestro – Alan Gilbert – faz o seu próprio show. Ele rege energicamente como se fosse ter um ataque cardíaco a qualquer momento.
Muito inspirador para mim: domingo de manhã voltei a ensaiar o City Grace Choir! Vamos preparar uma música para Sexta-Feira Santa e duas para a Páscoa. Acho que, além do coro, vamos organizar um quarteto só de guris. Ah, e talvez cantemos uma música em português… veremos! Depois do culto, mais um ensaio do coral (sim, um antes e outro depois do culto), almoço às 15h, passeio na Strand (uma biblioteca de usados enorme na Broadway).
Pra terminar o dia, fui ao Empire Hotel Rooftop com uma amiga – que vai permanecer anônima pra ninguém ficar me incomodando! – em comemoração ao Valentine’s Day, dia dos namorados aqui. Não, não foi um encontro romântico – foi um encontro de amigos solteiros, hehe! Mas com direito a chocolate e cartão (de amizade…). :)
O comentário do Felipe ao post “Estilo importa” motivou uma resposta. Ia responder por e-mail, mas acabou que a mensagem virou um quase-post, que, com algumas adaptações, virou post. Voici.
Fico tão feliz quando “as pessoas” (tanto mais quando são grandes amigos e leitores qualificados!) comentam sobre e gostam do que escrevo. Afinal de contas, escrever dá trabalho, blogar dá trabalho… Ter um reconhecimento de vez em quando é bom e me motiva a continuar. :)
Imagina: ter o meu texto dissecado num vestibular seria uma honra enorme! Um dia, quem sabe. Outro dia, talvez, vou publicar um artigo no American Journal of International Law. Um dia, quem sabe, alguém vai me pedir uma carta de recomendação! Deve ser muito legal estar “do lado de lá”. (Aspas, ponto.) Um dia, espero.
Embora não seja professor, gostei do exercício de hermenêutica proposto pelo Felipe:
“Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura”.
(Aspas, ponto. Se a frase do Felipe terminasse com “na minha formatura”, poderia muito bem ser: “Vimos fotos tuas dançando […] na minha formatura.” Ou seja: ponto, aspas. E sem ponto depois das aspas.)
Abstraindo do contexto, consigo pensar nas seguintes interpretações para a frase (claro que apenas a primeira é séria):
Tudo bem, admito que me puxei um pouco. Mas me justifico: enquanto escrevo este post-resposta, percebo que meu colega de apartamento está ouvindo valsas vienenses. Não tenho bem certeza, mas acho que é Johann Strauss.
(O autor das valsas vienenses, não o meu colega de apartamento! Mais: o autor das valsas e o meu colega de apartamento não são a mesma pessoa! Bah, bem que eu gostaria que fossem, mas ele está morto. [Quem morreu foi Strauss, faz mais de um século. Meu colega de apartamento está vivo e ouvindo Strauss. {Meu colega de apartamento está ouvindo músicas que Strauss compôs; não está ouvindo o próprio Strauss.}])
Divagações à parte: ouvindo a música, fiquei imaginando fotos que dançam ao som de valsas vienenses. Neste momento, Vir (minha mamá greco-argentina) perguntaria: “¿fumaste cosas raras?“
(Ponto de interrogação, aspas. A interrogação faz parte do que Vir perguntaria. E não há necessidade de ponto final depois das aspas: o ponto final faz o serviço.)
Aparentemente não consigo mais não divagar nos meus posts.
(Prova disso é que aqui me obrigo a fazer mais um comentário parentético metadiscursivo: o que acabo de dizer, “não consigo mais não divagar”, é algo que a minha professora de escrita jurídica desaconselhou um dia desses – dupla negação.)
Divagações à parte, segunda tentativa: não, não fumei cosas raras. Nunca fumei. É tudo efeito das valsas vienenses.
Paro por aqui. Preciso dançar.
Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma”, ressalta o Guri.
O trecho acima, além de expressar uma observação verdadeira minha, serve bem como ponto de partida para este post. As convenções de estilo que adotei no trecho são as que aprendi “com a vida” no Brasil e que uso consistentemente quando escrevo em português, inclusive aqui no blog. Nesse trecho não há nada de “estranho” para olhos brasileiros, né? Assim é porque estamos acostumados a ver o uso dessas convenções em jornais, revistas e livros de forma tão frequente e natural que as aceitamos e reproduzimos sem nem perceber.
Mas olha só como as convenções podem ser diferentes: pronto. Que tal? Acabei de fugir da convenção brasileira. Não dá pra ver? [Edit: Não dá mesmo pra ver: basta publicar no blog que a diferença desaparece! A autoformatação do blogger.com estragou meu texto.] É sutil: dois espaços após os dois pontos ou após o ponto final, convenção conhecida como double spacing, English spacing ou American typewriter spacing. (Sigo usando-a neste parágrafo.) Uma amiga canadense, eu acho, é que me disse para usar o double spacing em inglês, mas só comecei de fato a usá-lo quando fiz o estágio nas Nações Unidas: está no manual de estilo do secretariado. Desde então, comecei a observar que a convenção é bastante aplicada em documentos oficiais das Nações Unidas (em inglês). Mas nem sempre.
A mudança mais chocante, porém, foi quando vim para a NYU e entrei em contato com as convenções daqui, sejam elas específicas da área do direito ou gerais para a redação em inglês. (Parei de usar o espaço duplo. Aliás, bom começo: nos EUA não se usa [mais] o espaço duplo após os dois pontos ou após o ponto final. Até há quem ainda insista em usar, mas os manuais de estilo não recomendam.) Para tirar dúvidas que tenho de vez em quando, visito a versão online do Chicago Manual of Style (CMS). Algumas regras me agradam; outras, nem tanto.
O uso da vírgula serial (ou vírgula de Oxford) me agrada. Vírgula serial é a que separa o último elemento de uma lista. No trecho inicial deste post, eu citei como exemplos de convenções de estilo as relativas ao uso de aspas, travessões, e vírgulas. Essa última vírgula aí, entre “travessões” e “e vírgulas”, é a vírgula serial. Sim, é provável que tenhas ouvido da tua professora de português do ensino fundamental que “vírgula + e” era uma construção absolutamente inaceitável em português. Mas, pensando bem, talvez esse seja mais uma regra absoluta da professora de português do ensino fundamental que mereça (a regra!) ser flexibilizada, especialmente nos casos em que uma vírgula serial pode ajudar a evitar uma ambiguidade.
Clássico é o exemplo da Wikipédia. Imagina uma dedicatória de livro escrita assim: “Para meus pais, Amy Rand e Deus”. A quem o livro é dedicado? Talvez seja evidente: (1) aos pais de quem escreveu o livro, (2) a Amy Rand e (3) a Deus. Mesmo assim, não se pode negar que existe uma ambiguidade: “Amy Rand e Deus” pode ser um aposto explicativo, ou seja, uma explicação do termo anterior. No nosso exemplinho clássico, quem escreveu pode ter querido dizer: “Para meus pais, [que são] Amy Rand e Deus”. Ok, improvável. Mas possível. E a simples possibilidade de uma ambiguidade justifica o uso de uma vírgula serial, “só pra garantir”.
À primeira vista não gosto de regras absolutas: nem da regra absoluta da professora de português do ensino fundamental (“vírgula serial: nunca”) nem da regra absoluta do CMS (“vírgula serial: sempre”). Gosto mesmo é de abordagens flexíveis, como esta: “vírgula serial: quando evitar ambiguidade”. Afinal, uma vírgula serial em “aspas, travessões, e vírgulas” não me parece ter grande utilidade prática (e o que aparentemente não tem utilidade pode vir a causar problemas e talvez deva ser removido – um argumento que valeria tanto para o não-uso de vírgulas seriais quanto para cirurgias preventivas de remoção de apêndice…?). Por outro lado, também gosto de abordagens consistentes, algo que a abordagem flexível que acabo de apresentar não parece ser. Sendo assim, prefiro a regra absoluta do CMS. “Vírgula serial: sempre.” Se me condenarem pelo uso da vírgula serial à toa, sem haver ambiguidade a solucionar, posso me justificar: “bom, pelo menos fui consistente.”
Se a vírgula serial é o que eu gosto no CMS, há aspectos dos quais não sei se gosto muito. Um deles é o travessão (m-dash): ele é mais longo que o comumente usado em português (mais longo que o traço, “meia-risca”, que aparece no Word quando se coloca um hífen entre duas palavras – este!). Além de mais longo, o travessão em inglês não é separado das palavras adjacentes. Uma expressão parentética típica na convenção brasileira – como esta – torna-se bastante diferente—como esta—na convenção do CMS. Ahá! Acabo de violar – intencionalmente, é claro – uma convenção comum ao estilo brasileiro e ao do CMS: não se deve usar, em uma mesma frase, mais de uma expressão parentética com travessões. Se for mesmo preciso fazer mais de uma – o que (na minha modesta opinião) pode ser um forte indicativo de redação ruim –, usam-se parênteses (como acabo de fazer) ou vírgulas.
A última frase do parágrafo anterior me traz a uma das coisas de que não gosto no CMS: se uma vírgula normalmente seria necessária—mas se se resolve incluir uma expressão parentética com travessões, como esta—não se deve pôr vírgula após o segundo travessão. Dá pra sentir a falta da vírgula antes de “não se deve […] travessão”! A convenção brasileira me parece melhor nesse aspecto: se uma vírgula é necessária – ainda que se resolva incluir uma expressão parentética com travessões, como esta –, a vírgula deve aparecer (como acabou de aparecer!) após o travessão, ora. Ela é necessária e pronto. O travessão não a substitui.
E a última coisa (por hoje?) de que não gosto no CMS é que “vírgulas precedem as aspas,” assim como acabo de fazer, e também assim: “pontos finais precedem as aspas.” Não gosto. Prefiro “vírgulas fora das aspas”, bem como “pontos finais fora das aspas”. É mais lógico. O próprio CMS reconhece isso, mas diz que “usos tipográficos” ditam que pontos finais e vírgulas precedam as aspas.
O problema é mais profundo do que parece. Se eu escrever que, segundo o Guri, “é mais lógico que vírgulas e pontos finais fiquem fora das aspas,” incluindo a vírgula dentro das aspas, minha frase sugere que a opinião do Guri é que tem uma vírgula e que talvez continue depois dessa vírgula; porém, na verdade a vírgula pertence à minha frase a respeito da opinião do Guri. Enfim: se a vírgula é minha, é minha; se é do Guri, é do Guri, e só se for do Guri vou querer atribuí-la ao Guri, porque seria impreciso (e talvez desonesto) dizer que o Guri disse vírgulas que de fato não disse. Como aqui o Guri sou eu mesmo, não há risco, mas pode haver situações em que o risco de imprecisão e desonestidade seja alto.
Comecei com a convenção corrente no Brasil:
Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo – por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões e vírgulas –, embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma”, ressalta o Guri.
E termino com a convenção do Chicago Manual:
Na redação formalmente correta, nem tudo é gramática: certas convenções de estilo—por exemplo, quanto ao uso de aspas, travessões, e vírgulas—embora não sejam propriamente normas gramaticais, merecem a atenção de quem escreve. “Essas convenções variam tanto de um idioma para outro quanto entre diferentes manuais de estilo e redação de um mesmo idioma,” ressalta o Guri.
Esse “jogo dos sete erros” é irrelevante, “a distinction without a difference“? Quanto à mensagem, é claro que não há diferença. Mas a percepção de quem lê pode ser bem diferente. Nos EUA alguém pode estranhar um texto em língua inglesa usando estilo brasileiro, assim como no Brasil alguém pode estranhar um texto em língua portuguesa usando o estilo de Chicago. Esse “estranhar” da parte de quem lê pode variar entre, num extremo, um desconforto motivado pela aversão ao incomum e, no outro extremo, a sensação de que quem escreveu é incompetente. Para evitar esse segundo extremo, que é mais dramático, acho que vale aqui adotar uma abordagem flexibilidade–consistência: com flexibilidade, cuidar para usar em cada contexto o estilo apropriado e, com consistência, usar apenas um estilo em cada contexto.
Edwards v. McCloskey é o caso que estou estudando agora. Prometo que é interessante. Também garanto que não é falta de ética profissional minha revelar os detalhes.
O argumento de Edwards é o seguinte:
“What the reader needs in [an] umbrella section is a road map of the organization to follow.” (Edwards, Legal Writing and Analysis, p. 113)
“O que o leitor precisa em uma seção guarda-chuva é um roteiro [literalmente: mapa do caminho] da organização que seguirá.” (Traduzi así nomás.)
Por sua vez, McCloskey argumenta:
“The table-of-contents paragraph is an abomination to the Lord thy God. […] You will never see it in competent writing. Weak writers defend it as a ‘roadmap’.” (McCloskey, Economical Writing: An Executive Summary, p. 240)
“O parágrafo-sumário é uma abominação para o Senhor, teu Deus. Nunca o verás num texto escrito de forma competente. Escritores fracos o defendem como um roteiro [literalmente: mapa do caminho].” (Traduzi así nomás.)
No papel de observador externo (aqui sou estudante), sem obrigação de manter imparcialidade (aqui não sou juiz) nem de defender um ou outro ponto de vista (aqui não sou advogado), e além disso escrevendo um post no meu blog e não um texto acadêmico ou jurídico (ou seja, aqui sou praticamente um estudante de férias!), sinto-me com total liberdade para expressar minha preferência pessoal categoricamente: sou pró-McCloskey (e não é de hoje).
Outro dia, quem sabe (pra deixar bem claro: não é um compromisso!), tiro um tempinho para refletir e escrever mais aprofundadamente sobre a questão de fundo desse caso: é possível conciliar o aprendizado de técnicas americanas de escrita jurídica sem renegar princípios de redação mais abrangentes e aparentemente mais razoáveis?
P.S.: Fala sério, vou ter que fazer um disclaimer: o caso que menciono aqui é uma obra de ficção. Poderia dizer que não é ficção, porque o dilema é real, mas digo que é ficção, sim, porque eu é que tive a ideia de apresentar o dilema como se fosse uma disputa judicial. Enfim, deixo claro que meu caso fictício é mesmo fictício e nada tem a ver com o “caso da vida real” Edwards v. McCloskey Motors ou qualquer outro em litígio por aí afora…