Grand Canyon

Já fui a tantos lugares tão distantes… Quase caí Grand Canyon abaixo, mas nem cheguei perto do Itaimbezinho. Conheci Montreal, mas Montevidéu, não. Já entrei em catedrais góticas, mas nunca estive nas ruínas das Missões Jesuíticas… Se ver o mundo é preciso, também é preciso aprender a apreciar o que está próximo.

Foi o que escrevi por aqui em 2006. Continuo tendo a mesma percepção e o mesmo gosto por ver o mundo e viajar, para perto ou para longe. Poderia dizer que nos últimos sete anos aumentei um tanto a lista de lugares visitados (como evidencia a categoria viagens) – mas prefiro dizer, sob outra perspectiva, que risquei mais alguns nomes da lista dos lugares a visitar.

Há um ano, fui a Montevidéu, como contei aqui (com fotos aqui). Ao Itaimbezinho fui há três meses. Ainda não contei dessa viagem aqui, mas devo fazer isso em breve! Antes disso, pensava em contar da ida ao Grand Canyon em 2005 (antes de existirem blog do Guri e martinbrauch.com).

Ontem uma colega retornou de férias. Esteve no Grand Canyon, contou suas impressões, falou que se lembrou de mim (porque eu tinha comentado com ela sobre minhas impressões) e me deixou nostálgico. Era o gatilho que faltava para mostrar fotos e escrever sobre o Grand Canyon.

Começo pelas fotos, para dar uma ideia inicial da coisa. Um buraco bem grande. Nada mais. Será?

Como diria minha irmã, “se for pra cair, te atira”
(Créditos desta foto para minha irmã Lucila;
quanto às outras, não sei mais se são minhas ou dela)

Inverno no canyon: gelo pelas beiradas

Uma vista geral do canyon num bom momento do céu

Outra vista geral do canyon, céu ainda colaborando

Os rasgos do leito do Rio Colorado

Não resisti e recuperei meus e-mails de 2005 (viva o Gmail!) para ver o que escrevi a amigos por aqueles dias. A um, escrevi: “GRAND CANYON: em maiúsculas porque é muito GRAND mesmo; é incrível!”. E a outro: “É maravilhoso, fenomenal, indescritível. Parece que Deus o fez só pra ficarmos babando.” Ontem, por coincidência, minha colega que esteve por lá também falou em Deus: “Se eu tivesse dúvidas de que Ele existe, depois de ver o Grand Canyon não teria mais.”

Cheguei a lacrimejar de emoção ao ver o filme sobre o Grand Canyon no IMAX do próprio Grand Canyon. Disse isso à minha namorada à época e ela não entendeu; achou que era bobagem, exagero. Incompreensão total. (Depois dizem que homens são insensíveis. Beh.)

Depois da visita ao Grand Canyon, minha irmã e eu voltamos a San Diego, onde ela e o marido moravam. Lembro que reli o Evangelho de João (o mais poético) praticamente numa sentada. Minha irmã comentou comigo que meu cunhado tinha chegado a dizer a ela, todo preocupado, “acho que teu irmão está entediado”. Não consigo evitar o riso quando me lembro da história.

Nem exagero nem tédio. O esplendor da natureza do Grand Canyon não me fez pensar em erosão (!): me fez pensar em Deus. Nenhum outro lugar me fez sentir tão pequeno e tão dependente dEle. Foi uma experiência ou lição de humildade (a humbling experience) diante do divino.

O editor de texto é teu amigo

Estejas escrevendo uma minuta de contrato a partir de uma folha em branco ou revisando uma preparada pela pessoa com quem vais contratar, um aspecto é essencial: precisas conhecer bem teu editor de texto e usar as ferramentas que ele disponibiliza:

  • Se estiveres na pele de revisor, usa controle de alterações. Assim, sinalizas tua intenção de negociar de boa-fé e com transparência, sem alterar sorrateiramente a minuta para passar o outro contratante para trás. Lembrete básico: sem um mínimo de confiança não há contrato.
  • Se te couber preparar a primeira minuta, pede ao outro contratante que, ao revisá-la, use controle de alterações. Se ele não o fizer (por não saber ou, cuidado!, por não querer ser transparente), podes fazer isso por ele: quando te devolver a minuta alterada, usa a comparação de documentos para compará-la com a minuta inicial.
  • Usa comentários para esclarecimentos ou questionamentos sobre pontos específicos da minuta (palavras, expressões, cláusulas). Inserir esses esclarecimentos ou questionamentos ao longo do texto – por exemplo, EM LETRAS TODAS MAIÚSCULAS, ou em fonte de outra cor, ou em negrito, itálico e sublinhado – é confuso, trabalhoso e um pouco histérico. Se há uma ferramenta específica e automática para comentários, por que não usá-la?
  • Forma é importante: não é perfumaria. É preciso pensar em legibilidade, para viabilizar a leitura fluida do contrato. Para isso, usa fontes não muito heterodoxas, como Arial e Times New Roman, que são de fácil leitura e certamente estarão no computador do outro contratante. Usa tamanhos de fonte razoáveis, entre 10 e 12 pontos, para o texto (se for um contrato regido pelo Direito do Consumidor, não há opção: precisa ter 12 pontos!). Pensa num espaçamento entre linhas que te pareça confortável: para mim, espaço simples é pouco, mas duplo é muito. As margens da página também devem ser razoáveis (não muito grandes nem muito pequenas) e equilibradas; melhor se todas (superior, inferior, direita e esquerda) forem iguais (2 cm, 1 polegada = 2,54 cm, ou 3 cm).
  • Forma é importante, mas conteúdo é muito mais, certo? Por isso, automatiza tanto quanto possível a formatação da minuta, para ter mais tempo de pensar no conteúdo. Uma forma interessante de fazer isso é criar um modelo com estilos diferentes para títulos de cláusulas, textos de cláusulas, textos de subcláusulas etc.
  • Uma cláusula com título “CLÁUSULA VINTE E CINCO – DA MULTA” tem exatamente o mesmo valor jurídico de uma com título “25 [tabulação] MULTA“. Há quem diga que a primeira forma é mais clássica e, por isso, mais bonita. Eu, que sou superclássico em muito ou quase tudo, discordo: recomendo a segunda, por ser mais objetiva, legível e funcional. Imagina se algum dos contratantes inventa, em algum momento da negociação, de incluir uma cláusula antes dessa: a Cláusula Vinte e Cinco passará a ser Cláusula Vinte e Seis; a Cláusula Vinte e Seis passará a ser Cláusula Vinte e Sete… Quem tem tempo para ficar redigitando tudo isso?
  • Mais que objetividade nos títulos, recomendo numeração automática de cláusulas. Fez bem mais sentido usar um sistema numérico em níveis, como “11.1 1.1.1“, que um clássico “Cláusula Primeira ( = 1), Parágrafo Primeiro ( = 1.1), Alínea Primeira ( = 1.1.1)”. A numeração automática, além de ser mais objetiva e legível, é mais funcional: permite o uso dos itens numerados como indicadores, aos quais se podem fazer referências cruzadas. Essas ferramentas serão muito úteis em contratos longos, para garantir que referências como “nos termos da Cláusula 25” sejam automaticamente corrigidas para “nos termos da Cláusula 26” se uma cláusula for acrescentada antes da Cláusula 25, fazendo com que ela se torne 26.

Felizmente se foi a época em que contratos precisavam ser escritos à mão ou numa máquina de escrever. Editores de texto podem não ser tudo de bom, mas sem dúvida permitem tornar bem mais eficientes a negociação, revisão e redação de contratos. Não aproveitar esse ganho de eficiência é ser [relativamente] ineficiente. Desconhecimento das ferramentas não é desculpa, principalmente para o advogado: no mínimo, gera uma obrigação de aprender a usá-las – ou de retirar do currículo aquela linhazinha que diz “domínio de programas da suíte MS Office”.

Meu blog, minha vida

Criei a página martinbrauch.com no facebook, por onde vou canalizar os textos que publico aqui. Também atualizei a versão do WordPress do site. Reorganizei as categorias, como se pode ver na lista à direita. E enfim concluí e incluí as informações do autor e de contato – o menu “SOBRE”.

À medida que realizei essas tarefas ao longo do final de semana, revi (ainda que superficialmente, em alguns casos) cada um dos mais de 400 textos publicados neste site. Em dois dias, revivi os últimos sete anos. Relendo os textos, eu me senti exatamente como me sentia quando os escrevi. A experiência foi, ao mesmo tempo, emocionante e assustadora (eu não esperava por ela).

A alegria e a expectativa após ser aprovado para o Mestrado na NYU. A angústia de não conseguir uma bolsa de estudos. As delícias de viajar e conhecer outros mundos. Minhas características constantes: a busca pelo artístico (a Fotografia, a Música), a reflexão, a crítica, a nostalgia.

Todos os registros escritos confirmam quem sou. Eu agora sou essencialmente o mesmo que sempre fui; agora apenas conheço melhor a minha essência (e agora mais) (e agora ainda mais). E reconheço no exercício de manter um blog uma ferramenta útil para o autoconhecimento.

Sim, os textos que escrevi e publiquei contam a respeito de quem sou e de meus sentimentos em tempos específicos. Mas há também um aspecto não tão trivial: os textos que não escrevi também contam sobre mim e sobre o que vivi. O silêncio, no meu blog como na Música, pode ser solene e significativo. Os intervalos silenciosos (normalmente seguidos de pedidos de desculpas aos leitores!) até resultaram, em alguns casos, de falta de tempo para escrever, mas, em regra, corresponderam aos meus momentos de maior ansiedade, num sentido bem autodestrutivo.

Por fim, rever os 400 posts e reviver os sete anos também me fez lembrar da minha motivação primeira para começar um blog: escrever pelo gosto de escrever. Comunicar “porque sim“, nos termos do primeiro post publicado. Hoje eu também poderia dizer: escrever simplesmente pelo bem de produzir conteúdo original, num mundo cada vez mais (mal-)acostumado a não produzir, mas apenas replicar, em suas diversas formas: encaminhar, retweetar, compartilhar.

Não só de pão, mas também de café

(Quase) todos precisamos trabalhar. “Do suor do teu rosto comerás o teu pão”, diz o Gênesis. Ora, se é pra suar tanto, que se tenha ao lado pelo menos uma toalhinha ou uma água gelada.

Ou um café. Para os envolvidos com trabalhos acadêmicos ou intelectuais, desses que não requerem muito mais infraestrutura que um notebook e uma conexão à Internet, tem sido muito comum a procura por cafés como locais de trabalho – muito além do aproveitamento mais tradicional dos cafés como lugares de encontro com amigos, à la Central Perk.

Nos últimos dois anos, tenho trabalhado em “escritórios” no conceito tradicional da palavra, mas por um tempinho antes disso fui consultor jurídico e tradutor freelance. Nesse período de mais flexibilidade para escolher (e variar) meu local de trabalho, saindo às vezes do home office e de bibliotecas, segui a tendência e tentei alguns cafés. Encontrei uns onde foi muito bom trabalhar.

Em NYC

Minha frequência a cafés certamente começou em NYC, onde eu aprendi a apreciar café, a bebida, e os cafés, os lugares. Nos arredores de Greenwich Village, essa vila cosmopolita onde cursei Mestrado (e morei e fiz amigos e participei de uma igreja e fiz natação e – enfim, onde vivi intensamente!), não faltavam opções de cafés.

Começo, claro, pelos da rede Starbucks. Há quem não goste. “Enlatado.” Nunca tive problemas com a Starbucks. Penso nostalgicamente nos sabores natalinos: o Gingerbread Latte, o Peppermint Mocha. Perto da NYU tinha a loja mais óbvia, a da Washington Square, que eu não frequentava muito, até porque era muito estudantil para o meu gosto. Gostava de blogar na da Astor Place e me lembro de ter feito uma tradução na da Broadway com Bond.

Mesmo não tendo problema com a rede, reconheço: o encanto maior está nos cafés menores, os que não são de rede ou pertencem a redes pequenas, locais.

Um deles era o VBar&Café, na Sullivan Street, ao lado de onde funcionava a igreja (que se mudou, mas o VBar continua). Algumas vezes fui lá para estudar – tanto para o Mestrado quanto para um experimento de estudos e discussões de Teologia que comecei com o pastor Ben.

Outro era o Think Coffee, na Mercer Street. Esse também era bastante lotado de estudantes, mas tinha um café ótimo e uma ênfase bem legal em sustentabilidade.

Um longínquo era a Hungarian Pastry Shop, na Amsterdam Avenue, quase em frente à Catedral de St. John the Divine e perto daquela outra universidade que fica mais no Norte de Manhattan. Valia a pena percorrer a distância até lá, o que fiz algumas vezes. É uma confeitaria que se enquadra perfeitamente no conceito de “café” usado neste texto. Também se enquadra no conceito de fazer a pessoa comer coisas gostosas até estourar, porque os doces e os cafés húngaros são tão divinos quanto o São João da Catedral em frente.

Uma das minhas últimas experiências em cafés de NYC, quando estava trabalhando em projetos de consultoria e procurando outras oportunidades, foi no Café Grumpy de Greenpoint, que está na lista do Zagat de melhores cafés de NYC. Ambiente descontraído, ótimo atendimento.

Em POA

Porto Alegre também anda aderindo à tendência de transformar cafés em escritório. Antes de começar a trabalhar em escritórios tradicionais – ou mesmo depois, para colocar os e-mails em dia num lugar que não fosse a poltrona e ao sabor de um café que não fosse o que eu mesmo tinha de passar –, testei alguns por aqui também.

Como não moro perto do bairro Moinhos, a maioria dos sugeridos na matéria do link acima não são muito pra mim. Um de que gosto bastante, sugerido pelo meu primo Fer, é o Fran’s Café, na Nilo, que me ganhou pelo conforto, pela seleção de cafés saborosos e, num dia em particular, pelo Sinatra como música ambiente.

Tem também a Confraria do Café ali no Bourbon Country. O segredo é o mezanino, onde há um pouco mais de sossego que no piso principal do shopping. A desvantagem (ou outra vantagem, dependendo do ponto de vista) é que às vezes os atendentes te esquecem ali.

Outros cafés de Porto Alegre eu visitei na qualidade de mero bebedor de café, não como prospector de escritório. O Press Café é conveniente para quem visita o Iberê Camargo, Melhor se for no fim da tarde, claro, para aproveitar também o pôr-do-sol sobre o Guaíba.

Um tempo atrás fui com a Rezita (aquela amiga ingrata que não lê meu blog) ao ZCafé, não para trabalhar, mas porque me cansei de acompanhar o desfile da Rezita pela Padre Chagas e disse a ela que precisava de café para continuar a viver. Não cheguei a pensar se o ambiente era bom para trabalhar. Só me lembro de que estava exausto e de que o café foi bom.

O último que conheci, a convite da amiga Fah Heinrich, foi o Baden Cafés Especiais, na Jerônimo de Ornelas. Mesmo que a intenção da visita tenha sido puramente social e gastronômica e nada laboral, aprovei o lugar também para trabalhar. Os papéis de parede estampados se mordem um pouco (e depois se juntam como velhos amigos para morder meu senso estético), mas tudo bem: mesmo nisso se reconhece a intenção de deixar o ambiente aconchegante.

Pretendo continuar indo a cafés, aqui e ali, e coletando minhas impressões. Se for para trabalhar (o que inclui organizar as ideias e colocar os e-mails em dia), ótimo. Ainda melhor se for só para saborear um bom café – sem precisar derramar uma gota de suor.

Quem nunca assinou um contrato?

Depois de seis anos (regulares) de Bacharelado em Direito, dois de Especialização em Direito e um semestre de Mestrado em Direito, foi, acredita se quiseres, no segundo semestre do Mestrado que redigi pela primeira vez um contrato, avaliado por um professor, num contexto acadêmico.

É um pequeno ressentimento que tenho quanto à formação jurídica que tive na UFPEL. Lá fui bastante bem capacitado e avaliado quanto ao conhecimento teórico sobre o Direito. Porém, as aulas de prática jurídica enfatizavam apenas uma das competências necessárias ao advogado na área contenciosa: redigir peças processuais. A prática jurídica que tive lá abrangeu bem a prática processual, mas não a contratual, nem a societária, nem a consultiva.

A UFPEL não me ensinou a escrever um contrato, mas felizmente supri essa deficiência no Mestrado. Na NYU, fiz a disciplina de U.S. Legal Methodology (“Metodologia Jurídica dos EUA”, digamos assim), que abordou técnicas de mediação, de negociação e de redação de contratos e memorandos (para advogados ou clientes). Foi essencial para completar minha formação.

Há quase dois anos (16 de setembro de 2011) comecei a trabalhar na área contratual de um escritório de advocacia. Desde então, negociação, redação e revisão contratual fazem parte do meu cotidiano profissional. Não sou um veterano, claro. Mesmo assim, graças a essa experiência de dois anos e à minha formação acadêmica sólida, tenho senioridade (“ai, minhas juntas…”) suficiente para dar diversas dicas sobre contratos.

Acho que minhas dicas podem valer tanto para o advogado, esse (n)(p)obre profissional que faz contratos escritos sob encomenda, quanto para qualquer pessoa. Afinal, cada um de nós inevitavelmente se colocará em algum momento na pele de contratante, tendo de assinar um contrato de trabalho, de locação, de promessa de compra e venda, de prestação de serviço…

Por isso, vou publicar uma série de textos sobre negociação, revisão e redação de contratos.

Começando pela colocação mais básica possível, sem querer insultar a inteligência do leitor, “contrato” significa, em linhas bem gerais, “acordo de vontades”; normalmente se chega a esse acordo após a negociação de uma “minuta”, que é um rascunho inicial. Prometo que a frase anterior será a mais acadêmica desta série de textos: a partir do próximo, só considerações práticas sobre cuidados importantes na negociação, revisão e redação de um contrato.

Se não saio do cortiço, o cortiço sai daqui

Surgiu um cartazinho afixado no meio da porta de entrada do edifício onde moro. Mas agora, diferentemente da outra vez em que isso aconteceu, não chego a pensar em arrancá-lo.

Esteticamente, o anterior era horrendo, mas o atual até passa. O uso de caixa alta é agressivo, mas perdoável. Um pouquinho mais perdoável porque o redator cuidou de usar versalete, pelo menos no título e na última frase; só se descuidou na primeira frase – perdoável.

Socialmente, o anterior era grosseiro, principalmente por ser sarcástico, mas também pela sua forma tosca. O atual transmite uma mensagem importante, não necessariamente óbvia aos moradores. Apesar de um pouco pedante (“vimos por meio deste” foi um pouco excessivo), é simpático: mérito das palavras “solicitar” e “colaboração”, que são simpáticas.

Administrativamente, o anterior era inútil; como eu havia dito, dificilmente algum fumante se sentiria incentivado a tomar uma atitude por causa do cartazinho. Prova disso é que, depois da publicação do cartazinho petulante, eu mesmo vi pessoas fumando e descartando cinzas nos jardins. (Pausa para embasbacamento.) Quase colei um cartazinho na testa dos transgressores.

O cartazinho atual, porém, pode ser bastante eficaz. No meu apartamento já foi instalada a “chapinha para furo do gás”; não fosse o caso, o cartazinho me serviria de lembrete.

Gramaticalmente, o cartazinho petulante anterior era um absurdo. O atual não chega a ser um absurdo gramatical; apenas contém uns absurdinhos gramaticais:

  • “Vimos por meio deste, solicitar…”: “Por meio deste” deveria estar entre vírgulas (“Vimos, por meio deste, solicitar…”) ou, para os mais permissivos (nem todos concordariam), deveria não estar entre vírgulas (“vimos por meio deste solicitar…”). Ou seja, faltou ou sobrou vírgula. Mesmo assim, perdoável, em consideração ao acerto do “vimos”: muita gente teria escrito “viemos”, que é passado, em vez de “vimos”, que é presente e, neste caso, mais adequado.
  • “[S]olicitar que deve ser agendado […] a colocação”: “Solicitar que deve” é uma expressão que não faz muito sentido, não? Ficaria melhor dizer “solicitar que seja agendado“, já aproveitando para usar o subjuntivo, que aqui cabe melhor. E ficaria ainda melhor livrar-se dessa voz passiva, “ser agendado”, e dizer “solicitar que agendem”, já que o pedido é aos condôminos (“solicitar que [os Srs. Condôminos] agendem”). Com isso, já se resolveria também o problema de concordância do “agendado […] a colocação”: a colocação é agendada, claro, não agendado. Enfim: “solicitar que agendem […] a colocação”. De novo, perdoável, compensando com o aposto devidamente colocado entre vírgulas (“Sr. Antônio”).
  • “[A] colocação da chapinha para furo do gás, que é obrigatório por lei e será vistoriado pelos bombeiros no próximo PPCI”: O que é obrigatório por lei e será vistoriado pelos Bombeiros (aliás, com maiúscula, porque se refere ao Corpo de Bombeiros)? Temos duas palavras masculinas: “furo” e “gás”. O furo ou o gás são obrigatórios e serão vistoriados? Não. A colocação da chapinha! Usar o feminino, “que é obrigatória por lei”, causaria ambiguidade: obrigatória é e vistoriada será a “colocação” ou a “chapinha”? Eu resolveria com um ponto e repetiria “colocação”: “A colocação da chapinha é obrigatória e será vistoriada…” ou “Essa colocação é obrigatória e será vistoriada…”. Pronto. De qualquer forma, também perdoável, em homenagem à frase final, tão educada. “Cooperação”, sua linda.

Considerando as críticas gramaticais acima, não se pode dizer que eu esteja mais tolerante (!), mas perdoo com mais facilidade quando reconheço a melhoria de qualidade geral que houve do cartazinho petulante para o atualmente afixado. Ou então só estou mais cômodo quanto ao cartazinho atual porque o que me incomodava no anterior não era a gramática, mas o sarcasmo, a forma tosca, o mau gosto, a grosseria. Não encontrei esses pontos de incômodo no novo cartaz.

Se não saio do cortiço, aos poucos o cortiço vai saindo daqui. A administração do condomínio ganhou um pouquinho mais do meu respeito. (Será que a síndica lê meu blog? #not)

Onde estavas em 11 de setembro de 2001?

Tenho lembrança fotográfica (cinematográfica?) do momento em que soube do ataque às torres gêmeas do World Trade Center. Eu estudava no CEFET-RS (hoje IFSUL), que estava em greve de professores. Por isso, estava em casa numa terça-feira de manhã.

Na cozinha da casa onde morava com minha família em Pelotas, a TV de tubo que marcou minha infância (TV em caixa de madeira, o último lançamento da moda, tesouro dos anos 1970) estava ligada com volume baixo, quase mudo. As imagens das torres e da fumaça chamaram minha atenção. “Filme na TV, numa terça-feira de manhã? E a propósito, que filme horrendo é esse?”

Não demorei a perceber, com tristeza, que não era filme, apesar de ser mesmo horrendo. Nos próximos minutos e dias e meses e anos, as consequências. Esforços de resgate com poucos resultados. Cenário de guerra em pleno Distrito Financeiro de NYC. Segurança antiterrorismo intensificada em aeroportos pelo mundo. No Afeganistão, uma guerra sangrenta e aparentemente interminável contra um inimigo invisível – o Terrorismo. Quase uma década depois, no Paquistão, o anúncio do assassinato do assassino. E muitas outras consequências, percebidas ou não, interpretadas ou não. Por tudo isso, acho difícil esquecer aquela manhã de terça-feira.

E tu, onde estavas em 11 de setembro de 2001?

Fato: nuvens são de algodão

Um dos motivos por que gosto de voar longas distâncias é que, durante o dia, por mais carregado que esteja o tempo, quando se perfura a camada de nuvens densas sempre se encontra um sol forte e um céu azul. Depois, o voo até parece seguir mais tranquilo enquanto o avião bate suas asas ligeiramente acima daquela cama fofa de algodão. Dá vontade de pular, mas logo se muda de ideia quando se lembra de que a temperatura externa é negativa.

Salvo em voos, só me lembro de ter visto as nuvens de cima em duas ocasiões. A primeira delas foi num passeio em família, acho que pela Serra do Rio do Rastro. Não sei ao certo quando foi, mas a imagem tenho na memória. Talvez meus pais tenham fotos; sem dúvida foi antes de minha família conhecer fotografia digital. A outra delas foi há inacreditáveis cinco anos, quase seis, numa caminhada de 12 Km com o amigo Shaun no morro de Ingleborough, nos Yorkshire Dales.

Uma das fotos que fiz nessa segunda ocasião virou foto para A história da fotografia:

Outras fotos daquele passeio não servem tão bem no cabeçalho do site, mas retratam ainda melhor a impressão de estar no nível acima das nuvens, como num voo:

Pra quem quiser saber mais: contei a história completa da caminhada por Ingleborough aqui, no contexto do tour que fiz com o Shaun na Inglaterra em 2007.

Life As He Says It’s Supposed To Be

Having concluded that life as they say it’s supposed to be is high-maintenance, let me take a brief look at what’s wrong with it, reflecting on life as He says it’s supposed to be.

The first big difference is that He says you’re supposed to seek first His kingdom and His righteousness. [1] You’re supposed to love Him with all your heart, soul, strength, and mind. [2] This changes everything, because it changes your priorities and your perspectives.

Just like them, He, too, says that you must work hard: you’re supposed to do whatever you do with all your heart—but as working for Him, your Lord. Not for your human boss or a company. [3] Not for money, either. You’re not supposed to serve money, because He’s supposed to be your only boss, or love money, which He finds detestable. [4] Instead of storing up life-long, earthly treasures, which perish, you’re supposed to store up eternity-long, heavenly treasures, which don’t. [5]

The second big difference is that He says you’re supposed to love your neighbors as yourself. [6] “Neighbors” include your family and friends, of course, but remember even family and friends are capable of betrayal. [7] “Neighbors” are everyone. You’re supposed to be generous to those in need, and invite them to your banquets. [89] You’re supposed to love even your enemies. [10]

Regarding romantic relationships, He says: if you’re single, you’re supposed to stay single, unless you need to marry; if you’re married, you’re supposed to stay married. [11] Simple as that.

And as for all the rest, He says not to worry. You’re not supposed to worry about your life, body, food, or clothing. [12] Instead of worrying about something that’s missing, you’re supposed to ask Him that it will be given to you, and seek to find it, and knock so that doors are opened to you. [13]

It all makes so much more sense and is clearly much simpler and less high-maintenance than a life that is self-involved, career-centered, money-oriented. Isn’t it puzzling that we insist in living a life as they say it’s supposed to be rather than a life as He says it’s supposed to be?

Life As They Say It’s Supposed To Be

They say you’re supposed to study hard so that you get a good job. Once you get it, you’re supposed to work hard, to earn a good amount of money, or at least to get work experience that will eventually help you get a better job with better pay. After all, you’re supposed to own and consume all sorts of goods and services, and for that you’ll need a good amount of money.

But money isn’t all you’re supposed to seek. You’re also supposed to hang out with family and friends, cultivate relationships, including romantic ones. You’re supposed to get married eventually, and have kids at some point. By then, of course, you’ll need to be working even harder to be able to provide for your spouse and kids, and to help others in need, your obligation as a human being.

At the same time, remember you’re supposed to keep growing intellectually, to be constantly up-to-date on what’s going on in the world, and to have opinions. That, in turn, will require of you quite a bit of exposure to the news, and to literature and cinema and music and the arts, generally.

But don’t forget to take good care of your health and appearance. Not only that: you’re supposed to work out regularly and have some sense of style and fashion, because you’re supposed to look good. Oh, and you’re supposed to have some sort of hobby, as a pastime, because, although you may feel ovewhelmed, you’re supposed to have some amount of time to pass.

If you think you’ve been managing to do all of the above, you may even want to feel accomplished, but don’t flatter yourself: you’ve merely done what you were supposed to.

Life as they say it’s supposed to be is so high-maintenance.