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Ao som dos bandolins barrocos de Bach

Uma das minhas rádios nostalgicamente preferidas é a WQXR, uma rádio pública de música erudita de New York. Para minha agradável surpresa, um dos CDs da semana na rádio é o primeiro volume de Bach: Sonatas e Partitas, lançado na semana passada. Nele, o bandolinista Chris Thile interpreta obras do compositor barroco (e luterano) Johann Sebastian Bach.

Chris Thile é um bandolinista virtuoso, mais famoso por outros estilos que pela música barroca. De minhas outras experiências com a obra musical dele eu conto um pouco mais amanhã. Por hoje, digo apenas que nem de longe esse cara de trinta e poucos anos é um músico erudito careta.

O CD recém-lançado está à venda na Amazon e no iTunes. É um investimento musical de retorno certo (digo isso por experiência, não por publicidade, porque o Chris Thile não me paga). Pra quem precisa de uma provinha antes de comprar, aí vai: 


* Lembrando que clássica é a música erudita do período clássico (fim do século XVIII, início do século XIX): Haydn, Mozart, Beethoven. No século XX, outro exemplo: The Beatles.

Três meses e pouco, em síntese (de novo!)

Passou tanto tempo e aconteceu tanta coisa que nem sei por onde começo – até porque mal me lembro de onde parei! Então vou adotar uma estratégia nada trivial, considerando minha inclinação natural às narrativas organizadas de forma neurótica, linear, cronológica: vou começar pelo fim.

Estou em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, trabalhando como advogado na área contratual de um escritório de advocacia daqui. Assim que voltei de NYC, em meados de agosto, comecei a procurar trabalho como advogado, enquanto terminava a consultoria para o IISD. A proposta de trabalho surgiu em menos de um mês, no início de setembro, e comecei a trabalhar em 15 de setembro.

Resumindo assim, parece até que foi rápido e fácil… Na verdade, foi uma busca de trabalho que começou durante meu mestrado, ainda em 2009. Em 2010, uma vez mestre, veio o bar exam em NY; depois do bar, veio o estágio no IISD na Suíça; em seguida do estágio, veio a consultoria. Durante a consultoria, fui a NY para fazer o juramento na Suprema Corte em NY e para continuar a busca de trabalho (período, aliás, que eu relatei aqui, em inglês). Por fim, mais um mês de busca de trabalho no Brasil. Toda essa andação (EUA, Suíça) para me trazer de volta à Capital do meu estado natal.

Moro agora no apartamento que pertence aos meus pais, mas nesse meio tempo já fiz umas quantas mudanças e já morei em uns quantos lugares – e, curiosamente, o número de mudanças e de moradas não coincide, já explico por quê! Recapitulando…

  • Em janeiro, morava em Genebra, Suíça.
  • Em fevereiro, fui para a Alemanha, com minha família.
  • De março a junho, estive em São Lourenço, morando sozinho na casa dos meus pais, trabalhando como consultor do IISD.
  • Depois de 40 dias em NYC e 20 dias na Califórnia, …
  • … voltei para São Lourenço em agosto, sendo que quase não parei em casa, …
  • … por causa das viagens a Porto Alegre e São Paulo, na busca por trabalho.
  • Em setembro, quando comecei a trabalhar aqui, meio que morei e meio que me hospedei por dois meses com minha roomie publicitária, designer, professora, genial e sem roupa.
  • Finalmente, em 11/11/11, o inquilino saiu do apartamento dos meus pais (depois de uma enrolação sem tamanho que eu quero mais é esquecer), onde passei então a morar, …
  • … ao mesmo tempo em que ajudei minha roomie (porque ex-roomie é feio) a fazer a sua mudança para outro apartamento.

Em resumo: desde o início de 2011, eu me mudei sete vezes; em média, uma morada diferente a cada 40 dias. Não que eu esteja imune a novas mudanças, pro resto da vida, mas posso dizer com bastante segurança que, em 2011, não me mudo mais. Estou bem instalado no apartamento. Estou amando a ideia de ter um armário – em vez de malas-fazendo-as-vezes-de-armário.

O trabalho tem andado bem e estou gostando muito – de certa forma, para minha própria surpresa! Nunca imaginei que trabalharia em Porto Alegre, nem na área contratual. Tampouco imaginei que teria de escrever, trabalhando em Porto Alegre, memorandos e contratos e análises contratuais em inglês, muito menos que me comunicaria com clientes em espanhol e francês. Estou aplicando o que aprendi (de Direito, de idiomas, de relações interpessoais, de mundo) nas experiências que tive aqui e ali – e aprendendo outro tanto!

Estou crescendo. Ou “estou ficando velho”, outra forma legítima de interpretar a situação.

São muitas novidades, acontecimentos até então inéditos em minha vida. Tenho um trabalho fixo (não freelance), com horário fixo (pouco flexível) e um salário fixo (não por hora). Comprei (tive de comprar) móveis e eletrodomésticos. Ou seja: meus pertences nesta Terra não cabem mais em duas malas de 32 Kg (!). Pior ainda: não cabem nem mesmo no automóvel que comprei (tive de comprar).

“Estás estabelecido em Porto Alegre, então?”

Alguém me perguntou um dia e eu quase entrei em choque. Vamos com calma. Eu amo Porto Alegre – e a vida que tenho aqui e mesmo a perspectiva de continuar aqui por algum tempo ou muito tempo ou quem sabe todo o tempo que me resta de vida. Mas “estabelecido” é uma palavra forte, primeiro porque este ano foi de nomadismo, e segundo porque eu ainda sou apenas um Guri. Não faz três meses que estou em Porto Alegre e no trabalho atual. Então, por favor, ninguém me venha com essa de “estabelecido”. Depois que eu tiver 30 (ainda demora uns aninhos), se eu ainda estiver aqui (quem sabe?), reavalio.

“Mas e NYC?”

Essa é a pergunta mais difícil. Um grande pedaço do meu coração continua lá, mas o momento é de estar aqui. Sei disso mesmo sem entender bem como nem porquê.

“E o que será do blog do Guri?”

Existe, ora, e deverá continuar a existir. (De novo: depois que eu tiver 30 e se começar a ficar forçado ter um blog “do Guri”, reavalio.) O certo é que o blog vai mudar um pouco. Antevejo bem menos aventuras para os próximos dois ou três anos que nos últimos dois ou três. Infelizmente, relatos de viagens deverão ficar menos frequentes, mas não desaparecerão. Afinal, eu gosto mais de viagens que de luxos residenciais. “Um teto eu tenho, mas ainda não conheço a Itália.” Acho que essa frase diz muito sobre minhas prioridades!

“E agora?”

Bah, mas só me vêm com pergunta difícil. E agora… sei lá. Uma das coisas a fazer é terminar de mobiliar o apartamento, com calma, simplicidade, conforto e estilo – mas sem torrar grana em luxos. Outra das coisas é que quero voltar a estudar alemão. E talvez a mais urgente de todas: church shopping, para encontrar uma igreja onde me sinta acolhido e envolvido. Não será fácil, depois da City Grace (onde há a maior concentração dos amigos cristãos que tenho!), mas tampouco impossível. Amanhã, quem sabe? Segundo domingo de Advento – vou visitar uma igreja pela primeira vez.

Eu, Eu Mesmo & Irene

Vendo as notícias sobre o terremoto sentido em Nova Iorque esta semana e o furacão e finalmente tempestade tropical Irene, que atingiu NYC esta manhã, muitos ficaram com a dúvida, por isso esclareço: não, não é culpa minha. Saí de Nova Iorque há mais de duas semanas.

Quando estava na Alemanha em fevereiro, houve um terremoto a poucos quilômetros de onde eu estava. No mesmíssimo dia em que retornei ao Brasil, em março, a manchete principal era que o crescimento do PIB do Brasil em 2010 (o único ano da minha vida que passei inteirinho fora do Brasil) foi de 7,5%, a mais alta desde meus tempos de bebê. Dias depois, recém chegado a São Lourenço do Sul, aconteceu a enxurrada histórica que inundou metade da cidade. E foi assim que começou o papo de eu ser agoureiro.

Tem fundamento? Não sei. Mas com a Irene não tenho nada a ver.

Falando muito sério agora: apesar dos ventos e chuvas e inundações e inconvenientes correlatos, felizmente NYC escapou do pior. Meus pensamentos e orações seguem com meus amigos de lá – muitos dos quais tiveram de ser evacuados de suas casas – e com os atingidos pelo furacão em toda a costa leste dos EUA.

Três meses e pouco, em síntese

Em março voltei ao Brasil para morar em São Lourenço do Sul (cinco dias antes da enchente). Fiz meu juramento na OAB/RS e tornei-me oficialmente advogado, mas segui trabalhando em home office como consultor para o IISD Genebra e como tradutor freelance.

Essa flexibilidade laboral me permitiu visitar todos (!) os meus tios e primos, bem como muitos dos meus amigos, em Pelotas, São Lourenço, Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo, São Paulo e Brasília. Essa intensa atividade explica (sem justificar) o abandono temporário do blog.

Depois de 14 meses nos EUA, 4 na Suíça, 1 na Alemanha e 3 no Brasil, estou de volta aos EUA por dois meses: 40 dias em NYC (motivo principal: fazer o juramento de advogado no Estado de NY) e 20 dias em San Diego, Califórnia (motivo principal: visitar Lu e James).

E depois? Brasil. E aí? Boa pergunta. Deus sabe e é o que me importa. Além disso, se eu tivesse todas as respostas, que graça teria a vida?

Com esse postinho deixo atualizado o blog e exibo minha poderosa capacidade de síntese. Sim, eu a tenho! Só não a uso muito no blog por causa da minha paixão (obsessão?) por detalhes.

Claro que aconteceram muito mais coisas que eu poderia contar, mas infelizmente não consegui contá-las à medida que aconteciam, e a minha vocação é antes para jornalista que para historiador. Portanto, só uma breve retrospectiva antes de voltar às atualidades.

Café du Soleil, o retorno

Hoje foi a festa de Natal do IISD Genebra. Conversas descontraídas (não sobre trabalho, na maior parte do tempo!) e uma deliciosa fondue no tradicional Café du Soleil.

Curiosa coincidência e momento nostalgia: o restaurante tem exatamente o mesmo nome daquele onde a amiga Leslie e eu tivemos brunch no dia de Natal em 2009, em Nova Iorque.

Da coincidência quanto ao nome do restaurante eu logo me dei conta, mas olha só! Revendo o post do brunch no Café du Soleil de NYC, vi que pedi profiteroles de sobremesa… E não é que pedi profiteroles hoje também, no Café du Soleil de Genebra?!

Encontros e despedidas

Com um tantinho de tristeza, devo dizer que este é o último post da série NYC 2009-2010. Agora que estou (geograficamente, pelo menos) distante da minha realidade nova-iorquina dos últimos 14 meses, tenho uma perspectiva mais ampla da minha mais recente saga – resolver minha vida em Nova Iorque e vir para a Europa em menos de uma semana. Neste post, convido o leitor a acompanhar a versão sem cortes dessa história, que é um dos mais belos exemplos do quanto Deus me tem abençoado por toda a minha vida. Escrevo este texto para os amigos que, de uma forma ou de outra (com ajuda prática ou em oração), fizeram parte desta saga, bem como para mim mesmo – minha memória já é fraca e algum dia eu acabaria esquecendo os detalhes se não os escrevesse.

Se tivesse que escolher uma data, eu diria que o complicado e doloroso processo de dizer adeus a Nova Iorque iniciou-se no final de semana de 18 e 19 de setembro. Passei o sábado com a sogra da minha irmã, que chegou do norte do estado de Nova Iorque para visitar o Zoológico do Bronx e também para ver Roosevelt Island, onde morei por mais ou menos cinco meses. No domingo, foi o aniversário da minha Confirmação – sempre me lembro da data, e este ano teve um quê a mais de significado, porque foi num domingo, como há 11 anos. Fui ao culto na City Grace Church, como fiz quase todo domingo por mais de um ano, mas sem dúvida foi diferente do típico domingo de 2009‒2010, não só por causa do aniversário. Os pastores anunciaram que eu estava indo embora para Genebra, contaram histórias sobre minha participação na comunidade no último ano, e oraram por mim. Ganhei um CD especial de fotos, um bolo de despedida e agradecimento, e uma quantidade atipicamente grande (mas de forma alguma inapropriada) de abraços. À noite, minhas duas boas amigas Dana e Natasha fizeram uma janta de despedida, à qual muitos outros amigos foram. Cada um deles compartilhou uma lembrança curta mas cheia de sentimento sobre mim, e eu dei um discurso de despedida (prolixo e sem inspiração).

Então fui pra casa e suspirei profundamente – por que eu tinha dito a todos que aquele era muito provavelmente o meu último domingo em Nova Iorque? Sim, meu estágio em Genebra deveria começar em duas semanas, e aquele domingo devia de fato ser meu último domingo em Nova Iorque antes de ir a Genebra via Frankfurt. Ainda assim, não conseguia me imaginar partindo. Embora minha ONG na Suíça tivesse solicitado meu visto com permissão de trabalho havia bastante tempo, ela ainda não tinha recebido a carta final de aprovação do governo suíço. Eu teria de levar essa carta ao Consulado-Geral da Suíça em Nova Iorque, onde carimbariam o visto em meu passaporte. Poderia levar ainda um mês para a carta chegar – ou poderia ser que a carta nem viesse. Isso trancava tudo. Como eu não tinha visto, não podia fazer planos. Não queria comprar passagens aéreas sem saber por certo quando (ou mesmo se) o visto chegaria, e portanto nenhuma motivação de fazer as malas (empacotar a vida). O que era ainda pior para um control freak como eu, não tinha nenhum jeito de tornar mais rápido o processo do visto, e era difícil até acompanhar esse processo.

Felizmente, aprendi algumas lições sobre vistos. Já tinha tido problemas com processos de solicitação de visto enervantemente demorados – em 2008, quando solicitei um visto alemão, e em julho de 2010, quando estava esperando pela extensão do meu visto americano de estudante. Primeira lição: surtar não ajuda nem um pouco. Embora isso seja bastante óbvio, infelizmente não é tão fácil evitar um surto. Segunda lição: se é que há qualquer coisa que ajude, só pode ser acompanhar de perto o processo de solicitação de visto junto à organização solicitante e, na medida do possível, junto ao governo estrangeiro ao qual se pede o visto.

Além disso, através de experiências relacionadas ou não à obtenção de vistos, aprendi muitas lições sobre o meu Deus. Uma lição importante é: Ele nunca me deixa na mão. Mesmo em situações quando inicialmente pensava que Ele o tinha feito (por exemplo, quando algo que eu queria muito e por que tinha orado não acontecia nunca), cedo ou tarde eu acabava percebendo que Ele não tinha me deixado na mão – em vez disso, Ele tinha me dado algo que eu nem tinha pensado que poderia ter e que era muito melhor que o originalmente almejado. De certa forma, acho que posso dizer que sou mimado de verdade por Ele.

Como qualquer control freak, preciso ter um plano, mas tentei ser uma criatura melhor, tornando essas três lições o núcleo do meu plano, assim:

  1. Não surtarei por causa desse processo de pedido de visto.
  2. Acompanharei insistentemente o processo junto à organização solicitante e ao consulado.
  3. Para atingir (1) e além de realizar (2), confiarei essa questão do visto a Deus.

(3) + (2) = Agostinho: “Ora como se tudo dependesse de Deus. (= 3) Trabalha como se tudo dependesse de ti. (= 2)”

Por favor, não pense que eu sou um herói. Sou bastante novo nessa determinação e ainda tenho que lutar contra minhas neuroses para poder pensar assim. Não é um superpoder inato.

De acordo com meu plano, fui ao Consulado-Geral da Suíça em Nova Iorque na segunda-feira, 20 de setembro (e viva o Rio Grande!). A ideia era perguntar como eu poderia acompanhar o processo do visto junto ao governo suíço, por que estava demorando tanto para minha organização solicitante receber a carta final de Berna, quais eram minhas opções se eu não recebesse a carta e o visto antes que vencesse meu visto americano (o que aconteceria logo, em outubro). Não vou entrar nos detalhes de quão mal eu fui tratado inicialmente; vou dizer apenas que, em algum momento durante um intrincado diálogo com a oficial consular, ela disse, “seu nome está em nosso sistema e estamos autorizados a dar-lhe o visto”. Fiquei surpreso. Não fazia nenhum sentido – eu não tinha que trazer a carta que a organização solicitante receberia de Berna? Era um milagre inesperado que meu nome estivesse no sistema deles. Fui ao consulado novamente na terça-feira para deixar meu passaporte e ainda uma vez na quarta-feira para buscá-lo – com um visto suíço!

A notícia de que eu teria meu visto na quarta-feira desencadeou intensos preparativos para partir imediatamente. Na terça-feira, encontrei uma passagem aérea com preço decente para ir de Nova Iorque a Frankfurt no sábado. Depois de terminar um trabalho de tradução cujo prazo terminava na quarta-feira à tarde, comecei a fazer as malas, uma tarefa que eu só concluiria na sexta-feira à tarde. Após vender, doar, enviar pelo correio, ou jogar fora muitas de minhas coisas, consegui encher duas malas para despachar. Cada uma delas pesava o máximo que a companhia aérea aceitaria levar, mesmo pagando excesso de bagagem (o que eu teria de fazer, inevitavelmente). Minha bagagem de mão tinha o dobro do peso permitido. Então olhei à minha volta… e para o meu pavor ainda tinha um monte de coisa pra levar! Decidi simplesmente jogar tudo dentro das duas malas grandes e torcer que a companhia aérea não fosse muito rigorosa.

No meio da loucura de fazer malas, ainda tive a oportunidade de dar adeus individualmente a muitos amigos, inclusive alguns que não tinham ido à festa de despedida. Na terça-feira, tive um almoço italiano com a Maurizia da NYU, sobremesa-tardia (e uma sobremesa maravilhosa) com a gourmet Christine da City Grace, e um jantar memorável em um restaurante chique (para o qual eu tinha ganhado um vale-presente de $100!) com as irmãs Leslie e Stephanie da City Grace. Na quarta-feira, almoço e sorvete e conversa maravilhosa (como sempre) com o Kyle da City Grace. Na quinta-feira, a Isabela da NYU me ofereceu hospitalidade e comida típicas da Bahia, e mais tarde encontrei novamente a Leslie e a Stephanie em um evento beneficente que a Leslie ajudou a organizar. Na sexta-feira à tarde, a Natasha veio de Nova Jersey me visitar, o que foi um grande incentivo para eu terminar de empacotar (incluindo café, de que eu realmente precisava àquelas alturas). Na sexta-feira à noite, minha última noite em Nova Iorque, fui à festa de inauguração do loft de Kyle, Lee e Ryan, onde vi ainda uma vez muitos dos bons amigos que acabo de mencionar, bem como muitos outros (que não vou citar aqui, porque seria uma longa lista). Foi a forma perfeita de terminar um ano maravilhoso em Nova Iorque.

Em todos os momentos, mas especialmente quando as coisas não pareciam ir muito bem nos meus preparativos, era evidente que eu permanecia sob o cuidado de Deus.

  • Nunca tinha tido problemas para chegar a Roosevelt Island com o metrô F – exceto, é claro, no meu penúltimo dia em Nova Iorque, quando perdi algumas horas por causa de atrasos, acidentes e mudanças de rota inesperadas. Mas nem a MTA (Metropolitan Transit Authority, empresa de transporte público de Nova Iorque) podia me deter: apesar da perda de tempo, ainda consegui me aprontar em tempo.
  • No sábado, o táxi que deveria me levar de Roosevelt Island até a parada do ônibus expresso entre Midtown e o aeroporto de Newark não consegui chegar bem até a parada, por causa de ruas interrompidas em Manhattan. Felizmente, Deus enviou-me um dos Seus anjos, meu amigo Naoki, que me ajudou a carregar as malas até a parada de ônibus.
  • Quando cheguei ao aeroporto de Newark, fiquei em choque quando o ônibus parou e me largou na área de desembarque, não de embarque. Tão frustrante! Tinha que dar um passo adiante com uma das malas, então voltar para pegar as outras duas malas e trazê-las junto à primeira – e assim por diante. Era humanamente impossível carregá-las todas ao mesmo tempo e não havia carrinhos por perto. Aí, do nada, um funcionário do aeroporto se aproximou e me trouxe um carrinho!
  • Então, fui ao balcão da companhia aérea, fazer check-in. Ambas as malas grandes passaram – miraculosamente, até, porque eu sabia que ambas pesavam mais que o máximo permitido. Além disso, não só a moça nem me pediu pra pesar minha mala de mão, mas também ofereceu para despachá-la sem custos adicionais. Inacreditável! Finalmente, ela me ofereceu um assento de corredor (meu tipo preferido) na fila de uma saída de emergência (o espaço para minhas pernas era tão enorme que eu podia dançar valsa ali). E nem precisei pedir.

Tudo parecia estar preparado pra mim. Só Deus poderia ter feito isso dessa maneira. Ele cuidou de detalhes em que eu nem pensei.

Quando desembarquei em Frankfurt, Alemanha, meus pais já estavam esperando por mim no portão. Contei a eles toda esta saga enquanto dirigíamos a Limburg, bem a tempo do culto na igreja evangélica de que minha irmã e meu cunhado participam. À medida que eu me acalmava, sentado na igreja, finalmente percebia que tinha chegado. No domingo anterior, meu aniversário de Confirmação, estava eu em Nova Iorque, dizendo adeus à minha comunidade e aos meus amigos, mas não tinha nem ideia de que receberia o visto e partiria tão rápido. Apenas uma semana depois, estava eu na Europa, com meus pais. Minha irmã e meu cunhado, que eu estava tão feliz de poder ver de novo depois de um ano, em breve chegaria com minha sobrinha e meu sobrinho, que eu estava tão feliz de poder ver pela primeiríssima vez! Eu me sentia realizado, embora exausto da viagem. Não tinha conseguido dormir nada no voo. Além disso, tinha que conciliar a euforia de encontros e desencontros com a tristeza de deixar para trás uma realidade que eu verdadeiramente amava – não estava mais morando em Nova Iorque, aquela igreja não era a City Grace Church, e nenhum dos meus amigos estava ali.

Meu nível de alemão é iniciante (não estou sendo modesto), definitivamente não suficiente para entender um culto inteiro em alemão. Pego umas palavras aqui e ali, infiro algumas a partir do contexto, e isso me permite chegar a um entendimento de uns 65% do que está sendo dito. E não faço ideia de daonde tirei esses 65%, porque é provavelmente bem menos que isso. Ainda assim, por alguma razão divina, eu entendi bem claramente quando o pastor disse que o versículo bíblico da semana era I João 5:4:

“…porque tudo o que é nascido de Deus vence o mundo. E esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé.”

Fiquei paralisado. Imediatamente interpretei o versículo à luz dos eventos recentes na minha vida – vencer desafios terrenos através da fé e da confiança em Deus. Mas isso era apenas a ponta de um iceberg de significado. Lágrimas começaram a correr dos meus olhos no momento em que ouvi o versículo. Só consegui me virar para o meu pai, que estava sentado ao meu lado – “Pai, tu te lembras? É o meu versículo de Confirmação!”

Eu já tinha derramado algumas lágrimas em três ocasiões no processo de partida de Nova Iorque e já tinha falhado na minha determinação de chorar somente quando estivesse no avião para a Europa. Primeira vez: quando voltei a Roosevelt Island depois da festa de inauguração do apartamento dos meus amigos, minha última noite em Nova Iorque. Segunda vez: quando entrava no túnel Holland, saindo de Manhattan a caminho de Newark. Terceira vez: durante o voo, especialmente quando li os cartões de despedida que o Naoki e a Stephanie escreveram (bem, o Naoki intencionalmente escreveu o seu como um “auxílio para chorar”, para o caso de eu ter me esquecido de levar uma cebola para cortar, como ele mesmo colocou, e a Stephanie disse que o dela era muito “emotional and crap” [difícil traduzir!], nas palavras dela mesma, então não é surpresa que eles me fizeram chorar). Mas aqueles momentos foram diferentes. Eu tinha a situação sob controle e não deixei ninguém ver. Desta vez, em Limburg, eu simplesmente não conseguia parar. Acho que só consegui quando lembrei que conheceria logo minha sobrinha e meu sobrinho de dois meses de idade, e quando percebi que eles teriam se comportado melhor durante o culto do que o seu tio de 25 anos.

Falando bem sério, não sei exatamente por que eu estava chorando – talvez porque estivesse tão aliviado de ter chegado com segurança depois da minha saga, ou porque estivesse triste por sair de Nova Iorque, ou porque estivesse feliz de estar na Europa e de ver minha família de novo, ou por causa de um mix de todas essas razões. Sempre se pode racionalizar e pensar que eu estava exausto e particularmente sensível e sei-lá-o-quê, mas outra possibilidade é que eu tivesse sido movido pelo Espírito. É difícil explicar ou descrever. Foi muito intenso. Minha ousadia em compartilhar essa história só se explica pela minha imensa gratidão a Deus.

Pra deixar o blog perfeitamente atualizado, não bastam estas 2.500 palavras; faltam ainda algumas. Escrevi o post (até o parágrafo anterior) originalmente em inglês, para dar notícias aos amigos em Nova Iorque, mas resolvi traduzir porque os amigos brazucas também merecem a atenção e um relatório completo. Aliás, ainda mais completo, escrito à medida que a história acontece. Do domingo 26 de setembro até hoje (sábado 2 de outubro), fiquei com minha família na região do Westerwald, na Alemanha, babando um pouco nos sobrinhos Isabel e Felipe.

Hoje, às 9h da manhã, tomei um trem rumo a Genebra via Frankfurt e Basileia. Chego em Genebra por volta das 18h. Na estação, vai me esperar o senhor em cuja casa vou alugar um quarto durante esse meu período aqui (até meados ou fins de janeiro do ano que vem). Fica em Troinex, a sudeste de Genebra.

Escrevo durante a viagem de trem. Escrevendo, contemplando, ouvindo música. Destaques da minha playlist de viagem:

  • Empire State of Mind, do Jay-Z (porque sair do “empire state of mind” é uma tarefa difícil)
  • Sonatas de violino de Beethoven (porque achei apropriado para o trecho alemão da viagem)
  • Songs In and For Curious Times (uma coletânea – presente de despedida do amigo Kyle)
  • Zooropa (porque U2 é U2, ora; não precisa de justificativas)
  • Encontros e Despedidas, com Maria Rita (porque achei apropriado para o contexto ferroviário)

Agora que estou no último trecho (Basileia–Genebra), já em território suíço, posso fazer alguns comentários sobre as primeiras impressões da chegada. E só algumas, porque quero parar de escrever logo pra curtir a paisagem! Na Alemanha estava chuvoso, mas desde que entramos na Suíça tem feito um dia lindo de sol, que só faz destacar a beleza natural do lugar. O trem faz curvas por entre os morros e entra em longos túneis e passa por pequenas cidades encantadoras. O que se vê ao redor são morros cobertos de florestas já com sinais de outono, o lago cercado de villas simpáticas e pontilhado de veleiros, as montanhas brancas dos Alpes à distância… é deslumbrante. Tô chegando…

Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim chegar e partir
São só dois lados da mesma viagem

(Encontros e Despedidas)

East River à noite

Hoje caminhei do Empire State até o East River pela 34th St, e depois ao longo do rio até o Battery Park pelo East River Greenway.

Manhattan Bridge

Manhattan Bridge

FDR Drive e Manhattan Bridge

Brooklyn Bridge (Manhattan Bridge ao fundo)

Queensboro Bridge e Manhattan skyline; vista de Roosevelt Island