Silêncio pode ser perigoso

Silêncio aqui no blog geralmente é sinal de preguiça; às vezes, porém, pode ser um alerta de perigo!

Desta vez, eu estava de fato tramando algo. Convidado pelo professor Shikida (blog De Gustibus Non Est Disputandum), entrei como co-autor no novo e-book que ele organizou. O livrinho traz, segundo o próprio organizador, de uma “reflexão verdadeiramente plural sobre o significado da Lei Seca e os impactos da mesma sobre a sociedade brasileira”

Minha contribuição ao e-book é o artigo O poste não é de borracha, que está no post ali abaixo. Mas é claro que o melhor mesmo é ler tudo. O e-book completo, A quem (realmente) servem os bafômetros, está disponível aqui.

O poste não é de borracha

Maldito por isso em alguns círculos de discussão de Economia e em outros de Ecologia, eu tenho esse hábito lamentável de me dedicar a abordagens econômicas sobre problemas ambientais. A mais tradicional delas, sem aqui entrar nas críticas, é a da externalidade negativa, segundo a qual a degradação do meio ambiente aconteceria porque os agentes econômicos pensam apenas nos benefícios e custos privados e desconsideram os benefícios e custos (principalmente os custos) externos, que são aqueles causados por suas escolhas a outros agentes ou à sociedade como um todo.

Nessa boa e velha inspiração, o trânsito é tido como terreno fértil para a produção de externalidades negativas. Por exemplo, na opção pelo uso individual do automóvel (em oposição ao transporte coletivo e aos esquemas de caronas alternadas), os agentes econômicos descuidam dos efeitos negativos que sua opção traz ao meio ambiente, por causa da poluição atmosférica, e ao próprio fluxo de trânsito, por causa dos congestionamentos.

A fatal combinação de bebida alcoólica e trânsito pode muito bem ser interpretada como um terceiro caso de externalidade negativa. Num mundo ideal sem intervenção do Estado (e não que um mundo sem intervenção do Estado seja “perfeito”…), quem bebe antes de dirigir leva em conta apenas os custos privados de sua atitude, como o preço da bebida e o risco de sofrer danos físicos ou patrimoniais em caso de acidente. Seria preciso que fosse levado a pensar também nos custos externos, como o de causar esses danos a outras pessoas ou de pelo menos impor à sociedade o risco de causá-los. E foi isso que a Lei Seca fez.

(“O consumo de bebidas alcoólicas por motoristas, em economia, é um exemplo clássico de geração de externalidades negativas” – essa idéia já foi levantada na própria Câmara dos Deputados. Foi usada como argumento no substitutivo ao Projeto de Lei 2.997/2004, cujo objetivo era proibir a comercialização de bebidas alcoólicas em lojas de conveniência situadas em postos de gasolina.)

A bem da verdade, trata-se de uma externalidade que já era internalizada em certo grau na legislação brasileira. O Código de Trânsito Brasileiro já oferecia incentivos (sanções administrativas e penais) para que o motorista considerasse os efeitos externos de sua decisão de beber. O que a Lei Seca fez foi dar mais uma internalizadinha: tolerância zero ao ato de dirigir alcoolizado. Isso também veio com um aumento na fiscalização e na repressão. É punição exemplar; serve pra que o agente econômico perceba que o negócio não é brincadeira (“bah, multa de mil pila!”) e mude pra valer a sua conduta.

A nova lei vem ao encontro das conclusões de alguns economistas no tratamento das externalidades. Em alguns casos extremos, não há muito que se possa fazer para resolver o problema. Por exemplo, ninguém vai sugerir que o Estado se meta a tentar resolver o problema da perda de bem-estar social devida ao bafo etílico e às conversas de bêbado da gurizada. No outro extremo, há casos em que não resta alternativa à sociedade a não ser simplesmente proibir uma conduta. Talvez o caso da bebida no volante seja assim. Talvez tivesse bastado um simples aumento em todo o país no rigor da fiscalização, mesmo sob a lei antiga. Vai saber?

O certo é que a lei tem produzido efeitos positivos (e há de continuar a produzir, contanto que continue sendo cumprida). Existe pelo menos uma sensação de que os acidentes de trânsito diminuíram. Estatísticas oriundas dos hospitais de pronto socorro parecem sugerir que o primeiro mês da lei já foi um sucesso. Eu particularmente acho cedo pra esse tipo de conclusão. Seria preciso uma série mais longa para uma análise mais precisa.

Parte do efeito positivo é o espaço que se abre à criatividade dos agentes econômicos. Tomar todas e tomar um táxi de volta pra casa não é exatamente uma delas, porque já estava faz tempo na lista de soluções dos mais conscientes. Esquemas de rodízio entre as parcerias – do tipo “hoje eu não bebo pra poder dirigir, mas amanhã é tu” – são um pouco mais criativos (embora talvez um pouco enfadonhos pro abstinente da vez).

Alguns bares e restaurantes entraram na brincadeira e oficializaram o rodízio, colocando uma pulseira naquele que vai levar a galera pra casa, como forma de sinalizar ao garçom que não lhe sirva bebidas alcoólicas. Legal também a iniciativa de alguns estabelecimentos de oferecer condução para os clientes, pra que possam beber, e a criação de oportunidades econômicas como a dos motoristas de bêbado – o cara vem, pega teu carro e te dirige de volta pra tua casa. (Não quero dizer necessariamente tu, leitora ou leitor.)

“Legal coisa nenhuma,” podes estar pensando (agora sim: tu, leitora ou leitor), “porque tudo isso se reflete no preço da refeição no restaurante, da bebida no bar e do serviço do taxista ou do motorista de bêbado”. Sim, só que essa era justamente a idéia. Afinal, não existe nada mais devidamente internalizante que uma dorzinha no bolso.

É bem por isso que sou favorável à Lei Seca (e, como já disse e repito, ao seu fiel cumprimento). Uma hora ou outra e de uma forma ou outra seria preciso fazer o motorista assumir o custo externo associado aos riscos de dirigir bêbado. Em outras palavras, cai na real: o poste não é de borracha – FAZ DODÓI!

Como (não) escrever um artigo científico

Durante um chat com GabrielaZ, a mais nova webjornalista (agora oficial) do pedaço, sobre o rigor acadêmico (?) de certas publicações na área do Direito, recomendei a ela o livro Economical Writing, que já comentei aqui e que trata muito bem (na minha modesta opinião) sobre escrita de artigos para a academia. Nesse belo intercâmbio, a Gabi mandou o link para este “artigo científico” aqui – uma abordagem bem-humorada sobre tudo o que o Economical Writing combate, mas que infelizmente acontece direto no mundo editorial acadêmico. Vale a pena conferir!

Obra Pública

You know what really grinds my gears? Hahaha… Agora, sim, é pra valer: o primeiro post da coluna What really grinds my gears!

Fazia mais ou menos uma semana que estavam trabalhando na rua aqui na frente de casa. Hoje (parece que) terminaram. Pra ser bem franco, não sei o que fizeram: só sei que abriram e fecharam dois buracos no calçamento… e que tudo poderia ter sido feito em bem menos tempo, ou com menor número de trabalhadores – em suma, com mais eficiência, produtividade!

Sempre que parava pra observar o andamento (ou travamento?) da obra pela janela, eu via um dos homens trabalhando (“em passos de formiga e sem vontade”, como diria Lulu) e outro cinco ou seis conversando. Era tão deprimente que chegava a ser ridículo. Chegou uma hora em que não mais me contive e resolvi registrar esse momento mágico antes que (finalmente!!!) terminasse.

O último recesso

Como é fácil ficar sem postar… muito mais fácil que manter a postância, sem dúvida! Agora, vamos e venhamos: nos últimos dias a coisa não foi mole, então estou plenamente justificado (eu sempre aceito minhas próprias justificativas, porque são sempre tão convincentes!). Tive três provas semana passada e a última ontem, pra hoje finalmente entrar no tão-esperado recesso de inverno, tanto no Direito quanto na pós em Direito Ambiental. É hora de dizer basta, pelo menos até o fim do mês, e pelo menos quanto a aulas, provas e seminários. No mais, pouco muda: monografias por traduzir ou finalizar, artigos por escrever, livros por ler e estudar. E ¡viva la vida!

O interessante é que desde o último post se completaram muitos marcos do ano. Já se passaram três meses do fim do meu estágio nas Nações Unidas, que também durou três meses – ou seja, a distância a que estou dessas minhas (últimas) memórias (mais felizes) é tão grande quanto a própria duração dessas memórias, o que é gravíssimo, mesmo sem eu saber explicar direito por quê. Além disso, terminou o primeiro semestre, tanto no calendário civil quanto no acadêmico, e o grande estouro de 2008 ainda não aconteceu pra mim – ou pode ser que se tenha realizado durante os três meses que ficaram pra trás dos três últimos meses e que mesmo assim eu não queira admitir que nada de muito mais vai acontecer ainda em 2008. (Sempre há uma interpretação alternativa!)

Nesse falecido semestre de 2008/1, o mais matado da minha vida acadêmica (mês de março = 25% de ausência no semestre), passei deslizando por tudo sem dificuldade. Ainda que o ano passado tenha sido o quinto dos infernos, infelizmente não dá pra dizer que o último ano da faculdade de Direito seja o paraíso; não por excesso de trabalho… antes o inverso! Nas disciplinas, mais perda de tempo que exigência. De outro lado, enquanto alguns colegas andam às voltas com a elaboração de suas monografias de conclusão, a minha vai muito bem, obrigado: faltam apenas ajustes finais sugeridos pelo orientador. (Bom, é a minha terceira monografia em um ano e meio… eu tinha mesmo que ter aprendido alguma coisa nessa trajetória, né?)

O que mais me alegra nesse recesso de inverno, e até ameniza o fato de que essa época não tá com cara de inverno, é que finalmente tenho não “tempo livre” de verdade (acho que isso não existe), mas sim um pouco de liberdade na alocação do tempo. Não ter de freqüentar aulas tem seu lado maravilhoso. Posso me dedicar mais aos dilemas da vida – ao tratamento do fenômeno 7+2=9, por exemplo. Posso até ir à faculdade, mas pra coisas mais produtivas, como ler, pesquisar e escrever na biblioteca…

Não adianta, mesmo: não consigo ficar muito longe da vida acadêmica. Contei um pouco desses meus planos pro recesso a uma prima que está no início do curso de Direito. Ela me respondeu, não sem um pouquinho de indignação: “ISSO SÃO FÉRIAS?! Eu não quero chegar no fim da faculdade, heeein…“. Mas é assim – pelo menos pra mim é. Depois de quase onze anos de universidade, como costumo brincar (4 na Economia, 5,5 no Direito e 1 em Direito Ambiental!), estudar é o que eu melhor sei fazer, no fim das contas… Meio patético, até.

Ordem na casa

You know what really grinds my gears? Não, este não será o primeiro post da série!

Há muito tempo estava incomodado, então resolvi que não passava de hoje: vasculhei os arquivos do BdG em busca de erros de formatação. Acontece que, quando troquei o layout do blog há um tempinho, alguns dos posts mais antigos acabaram ficando num parágrafo só. Finalmente corrigi a maioria deles; confiram nos arquivos do blog! (Aliás, confiram mesmo, porque eu posso ter pulado algum detalhe!) E pra tentar evitar a reincidência desses problemas de formatação do blogger.com (ou talvez: meus problemas com o blogger.com quanto à formatação!), resolvi fazer a tentativa de postar a partir do Microsoft Word 2007. Vejamos se funciona bem a partir de hoje.

Também reorganizei os numerosos marcadores (labels) de forma a torná-los mais úteis à navegação aqui no BdG. Por exemplo: há um marcador para todas as viagens e um específico para cada uma das que têm um número significativo de postsArgentina 2007, UK Tour 2007 e Bonn 2008 (os das viagens a Portugal, Suíça e Viena estão resumidos no marcador Europa 2008, que não inclui os de Bonn!). Aos poucos vou aperfeiçoando mais e mais esse sistema (que, diga-se de passagem, é mais novo que o blog!).

Há quem diga que tudo isso é “neurose” ou “TOC”; eu prefiro chamar de “ordem na casa”, um pressuposto básico pra tornar o BdG um lugar mais habitável, sistemático, visitável, sei lá. Posts substantivos devem vir nos próximos dias. Isso não é um compromisso.

What really grinds my gears

Tenho mantido meu sarcasmo sob controle ao longo dos últimos anos, porque dizem que acidez demais não faz bem à saúde. Preciso admitir, porém, que tenho uma tendência a ficar com o pH abaixo de 7! Desde que estou de volta à terra brasilis pelotensis, o que mais ou menos coincidiu com meu afastamento do BdG, tive de resistir muitas vezes a escrever posts sobre as coisas da vida que me irritam. Não queria trazer acidez pro BdG.

Até que resolvi não mais resistir. Por que ser tolerante com um mundo intolerante e por vezes até irracional? Por isso, hoje estou lançando aqui no BdG minha coluna (ou: etiqueta de blog) What really grinds my gears. Pra quem não viu o filmeStewie Griffin: The Untold Story (mais uma de minhas recomendações de cinema!), explico: trata-se uma expressão usada para indicar irritação; algo do tipo: “as coisas que me dão nos nervos”. Não vou começar hoje, porque domingo não é dia pra falar de coisas que dão nos nervos… mas quem sabe um dia desses?

7 + 2 = 9

Os leitores que costumam (costumavam?) visitar o blog mesmo durante os períodos de postância nula podem ter entendido, com base no último post, que eu teria de fato desistido dos estudos de Direito para seguir uma carreira de músico. Mas não: infelizmente não foi isso.

Aliás, se é que foi alguma coisa, foi justamente o contrário disso. Digamos que, “de volta ao Brasil e à minha rotina universitária sem-graça”, fracassei no meu desafio, descrito neste post aqui (À propos, ¡disculpame, Vir!).

Se serve de consolo, estou vivo. Será mesmo? Depende da concepção de vida de cada um. No momento, minha vida anda um pouco em descompasso com o que eu gostaria de fazer dela, ou com o que eu gostaria que ela fosse, ou com o que eu acho que ela deveria (idealmente) ser.

Tudo é culpa do fenômeno 7+2=9. Não se trata de nenhuma fórmula matemática mágica: é só um esqueminha pra decorar que dia sete (7) de fevereiro (2) de 2009 (9) é a data da minha formatura em Direito.

E o fenômeno esse é culpado pelo meu estado descompassado porque se trata de um daqueles momentos que definem a história: a.F. e d.F., se é que me entendem. Muitas decisões importantes precisam ser tomadas até lá, ainda durante a pré-história, porque, quando começar a história, pode ser tarde.

Até aí, tudo bem. É natural que transição demande decisão. O problema é que a pré-história anda passando rápido demais e o que eu menos tenho é tempo para tomar essas decisões. Aliás, seria bom se tivesse pelo menos tempo para pensar a respeito delas! E a cada vez que sinto o tempo (escasso passar), tenho a impressão de que desperdicei a pré-história.

(Pra completar, ainda inventaram de dizer por aí que eu fiquei mais velho. Uma injúria, diga-se de passagem. Ou seria difamação?)

E era isso: postei. Voltei a postar? Sei lá. O dia de amanhã (ou depois de amanhã, enfim) é que o dirá. Até lá, sigo vivendo. Ou não?

Sete de abril: dia de Telemann

A expressão “Sete de Abril”, pra um pelotense como eu, é sinônimo de cultura: lembra o mais célebre teatro da cidade. Construído quando ainda se escrevia theatro (1831) e tombado pelo patrimônio histórico nacional (1972), é hoje o mais antigo teatro brasileiro em funcionamento (e todo pelotense, em regra bairrista, enche a boca pra dizer isso).

Mas não foi pra lá que fui ontem, Sete de Abril de 2008: foi pra Catedral Anglicana do Redentor, onde se realizou um concerto de música instrumental alemã do século XVIII. O Grupo Instrumentarium, com talentosos músicos brasileiros e argentinos, executou músicas do compositor Georg Philipp Telemann.

Quem? Pois se trata de um dos meus compositores barrocos preferidos! Ele compôs várias peças para flauta-doce, e muitas delas eu já estudei. Sim, eu toco flauta-doce – deveria reservar mais tempo para praticar! Telemann teve a coragem que eu não tenho: abandonou os estudos de Direito para seguir uma carreira de músico. Acabou tornando-se um dos compositores mais ativos da história. Inspirador, não?