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Eu não disse que altruísmo existia?

Faz meses que meu orientador deixou comigo um livro, para eu ler e, em seguida, deixar como doação à Biblioteca do ICH: é o Freakonomics, que apresenta “as revelações de um economista original e politicamente incorreto”. Faz meses, mas só ontem comecei a ler (pra valer) o livro. E estou certo de que não me demoro em lê-lo, porque até agora só posso dizer que é surpreendente, contundente, excelente. Ainda nem terminei de ler, mas já recomendo a compra ou, no mínimo, a visita ao blog dos autores.

Deixando de lado a propaganda literária gratuita: fui surpreendido, no meio da minha leitura, com uma referência ao altruísmo nas doações de sangue – tema de recente post no Blog do Guri. E basta de explicações, porque melhor mesmo é ler o texto direto:

Nos anos 70, alguns pesquisadores conduziram um estudo que […] pôs em confronto um incentivo econômico e um incentivo moral. Neste caso, procurava-se aprender mais a respeito da motivação por trás das doações de sangue. O resultado mostrou que quando as pessoas recebem uma pequena remuneração para fazer a doação, em lugar de serem apenas elogiadas por seu altruísmo, a tendência é diminuirem as doações. A remuneração transformou um ato de caridade em um meio doloroso de ganhar alguns trocados, fazendo com que ele deixasse de valer a pena. E se aos doadores tivesse sido oferecido um incentivo de $50, $500 ou $5 mil? Certamente o número de doações teria aumentado drasticamente. Mas outra coisa também sofreria uma mudança drástica, pois todo incentivo tem seu lado negativo. Se um litro de sangue passasse a valer $5 mil, muita gente tomaria nota disso e talvez procurasse obtê-lo na ponta da faca. É possível que alguns tentassem fazer passar por seu o sangue de animais. utros talvez falsificassem a própria identidade para doar acima dos limites permitidos. Seja qual for o incentivo, seja qual for a situação, gente desonesta sempre tentará obter vantagens através dos meios. Ou, como disse W. C. Fields: algo valioso o bastante para ser desejado vale a pena ser roubado.

(DUBNER, Stephen; LEVITT, Steven. Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta. Trad.: Regina Lyra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, p. 24-25)

Cristianismo, capitalismo, comunismo: dois “case studies” bíblicos

Eu sou capitalista. Isso não significa que eu seja materialista ou consumista. Meus anseios de consumo são, aliás, bastante modestos. Contudo, não me consigo imaginar vivendo sob outro sistema econômico. Por mais injusto que seja, o capitalismo ainda parece ser o sistema que mais responde às inclinações naturais do homem.

Talvez eu pense assim por não ter nenhuma experiência de vida senão a capitalista. Talvez, alternativamente, não pudesse ser diferente – afinal, eu estudo Economia, e nesse meio raros são os casos de quem simpatiza com outro sistema. Uma terceira e última hipótese que explicaria meu posicionamento é a própria observação da realidade. Mesmo o comunista mais ferrenho deve admitir que, por mais nobre que seja o ideal comunista, ele nunca se verificou – ou, se se verificou, não se afigurou tão nobre quanto a encomenda.

Estando ou não convencido por meus próprios argumentos pró-capitalismo, a verdade é que os relAtos (engraçadinho isso: os relatos do livro bíblico de Atos) sempre me causavam certo desconforto. Nesse livro, sobretudo em seus primeiros capítulos, conta-se que os primeiros cristãos “tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade” (Atos 2:44-45). Eis o retrato do comunismo cristão. A pergunta é: cristianismo (puríssimo) pressupõe comunismo? Ou, em outras palavras: é possível ser cristão e capitalista? A prior, eu diria que não. Porém, depois de refletir um pocuo, é interessante organizar as idéias e sintetizar conclusões.

Pesquisando na Bíblia, cheguei à seleção de dois casos. O primeiro deles é de sucesso. Em Lucas 19, Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, humilha-se para ver Jesus e recebe-O em sua casa e também em seu coração. Acaba resolvendo doar a metade de seus bens aos pobres e devolver o quádruplo do dinheiro que tinha cobrado indevidamente. (Isso porque naquela época havia corrupção na cobrança de impostos!)

O segundo caso é de fracasso absoluto. Em Atos 5, o casal Ananias e Safira vendem uma propriedade e, em vez de entregarem o dinheiro todo aos apóstolos, retêm parte para si. Mas essa atitude foi percebida pelo apóstolo Pedro. Tanto Ananias quanto Safira, ao serem desmascarados, caíram mortos. Uma cena inimaginável, a não ser em filme de terror – mas na Bíblia é mesmo essa a forma com que os fatos são descritos: “[Pedro diz a Ananias]: ‘Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus’. Ouvindo isso, Ananias caiu morto.” (Atos 5:4-5).

Ora, a diferença é clara. Zaqueu devia ser muito rico – era não só cobrador de impostos, mas chefe deles; talvez um dos homens mais abastados e importantes (e odiados) da cidade. Ao converter-se a Cristo, decidiu doar apenas metade dos bens. Mesmo depois disso e da restituição em quatro vezes do dinheiro extorquido, é provável que tenha continuado a ser bastante rico. Ananias e Safira, por sua vez, não deviam ser tão ricos quanto Zaqueu. Enquanto este pôde abrir mão do muito que possuía com magnanimidade, aqueles não tiveram verdadeira liberalidade nem mesmo para se desfazer do pouco de que dispunham. É claro que, além disso, tentaram ludibriar os apóstolos e o próprio Deus – o que, convenhamos, nunca é uma jogada muito esperta.

A posteriori, desconstruo minha impressão inicial e concluo que… ser capitalista (ou próspero) não é pecado. Ser avarento, ganancioso, mesquinho, sim – a Bíblia está cheia de advertências a respeito disso (Mateus 6:19-24, Marcos 10:17-23, Lucas 12:13-21). A vida é deve ser uma constante busca por Deus, e não por riqueza material. Nossas fortunas pessoais – das enormes às irrisórias – pertencem a Ele e, por isso, estão também a serviço do próximo, quando somos generosos. Afinal, o que os dois case studies demonstram é que, para Deus, não importa tanto o sistema econômico quanto os reais desígnios do coração humano.

O homem a serviço da tecnologia

Computadores foram criados para facilitar (em tese) a vida das pessoas. E se pode mesmo dizer que facilitam – pelo menos até que resolvam, sem aviso prévio, parar de funcionar. É o que os técnicos da informática costumam diagnosticar, com muita propriedade e rigorismo científico, com a seguinte frase: deu pau.

Os micros que a minha família teve ao longo da última década já deram pau tantas vezes que, uns anos atrás, cheguei a ficar amigo dos guris da assistência técnica e a fazer um “estágio” (não-remunerado) na loja onde eles trabalhavam. Aprendi bastante sobre instalação de hardware e software. Ao fim do período do “estágio” (nem me lembro se foi um semestre ou um ano), passei a ter uma boa independência, para resolver por mim mesmo os paus do PC aqui de casa.

Isso, como tudo, tem pontos positivos e também negativos. Por um lado, economizam-se os 50 reais da visita técnica que um especialista cobraria – muitas vezes para dizer que o problema não tem solução e que o HD terá de ser reformatado… De outro lado, perde-se um bom tempo tentando descobrir e resolver um problema, quando qualquer técnico habilitado poderia fazer isso muito mais rapidamente (em tese!!!).

No último sábado, numa bela hora da tarde, meu computador congelou e não mais se reiniciou. Entrei em pânico, chorei de raiva pelos meus dados potencialmente perdidos e já estava até pensando em argumentos para uma ação de indenização por perdas e danos contra o fabricante. (Invocadinho, eu?)

Fui teclar com minha irmã pelo computador dos meus pais para ver se ela ou meu cunhado pensavam em alguma solução… quando também o computador dos meus pais congelou e não mais se reiniciou. Foi meu dia de Midas invertido: parecia que tudo em que tocava virava um latão vagabundo.

Passei um bom tempo trabalhando para trazer as máquinas de volta à vida. Eu sou incrivelmente seguro e não admito (pelo menos no que diz respeito à informática) que outra pessoa me cobre o que eu posso muito bem fazer. É claro que o meu conhecimento é limitado nesse campo, mas a minha persistência manda tentar tudo o que eu sei antes de chamar alguém que saiba mais.

A história teve final feliz: os dois voltaram a funcionar. Perdi tempo, mas economizei (em dobro, talvez!) – valeu a pena. Eles que se comportem, agora. Eles é que estão aí para me servir, e não o contrário…

Formatura e dilemas

Na manhã de ontem foi marcada a data: 23 de janeiro de 2009 (!!!) será minha formatura no curso de Direito. [A propósito, estão todos convidados!] Faz pouco que se iniciou a segunda metade do curso, mas até se pode dizer que a data não foi marcada tão cedo assim. Em geral, a primeira coisa que os bixos do Direito fazem é preparar as fotos para o quadro de formatura…

Brincadeiras (com sua boa dose de crítica) à parte, a discussão sobre a data e sobre o reajuste na mensalidade da associação da turma me deu até nó na garganta. Eu já fui, aliás, secretário da associação – felizmente hoje estou livre disso e consciente de nunca mais assumir esse tipo de obrigação! O que acontece hoje é que estou muito mais inclinado a uma formatura de gabinete do que a um megaevento do trinômio colação-recepção-baile.

Surpreendentemente, não estou muito disposto hoje a uma argumentação longa. Os argumentos são tão patentes que parece redundante apontá-los, mas vamos lá, de forma breve. Em primeiro lugar, não será minha única nem primeira formatura (a Economia vem antes). E por derradeiro lugar (aliás, só este argumento já basta!), juntar cerca de mil reais (em não-tão-suaves prestações mensais pagas à associação da turma), para gastar em uma só noite, é quase um absurdo sob o ponto de vista pessoal. Aliás, não só pessoal – também distributivo ou social. Eu preferiria empregar os sessenta mil reais (R$ 60.000,00, pra visualizar melhor) que a turma como um todo vai juntar para fazer o espetáculo na compra de uma casa para quem realmente precisa – ou qualquer outra coisa que não me pareça tão fútil e efêmero.

Por que as formaturas precisam ser megaeventos? Por que não fazer cerimônias mais modestas? Tudo bem, é ótimo para as produtoras e, por isso mesmo, para a economia. E é evidente que esse é um momento especial na vida das pessoas – na minha vida também será, por óbvio. Mas será inesquecível de qualquer forma… Todo esse circo vale a pena?

Mas por que os sinos dobram?

Eu sou meio surdo – é só conviver um pouco comigo para perceber. Por outro lado, tenho uma curiosa hipersensibilidade a sons distantes. De onde moro, no Areal, comumente (e sem esforço algum) ouço a buzina do trem, que passa no Porto ou mais para as bandas do Fragata ou do Capão do Leão. Um conhecimento básico da geografia de Pelotas ajuda na compreensão do que isso significa, mas basta entender que o trem passa no outro lado da cidade. E eu ouço a buzina.

O que aconteceu ontem, no entanto, chegou a ser assustador. Estava em uma aula do curso de Economia, no ICH, que fica na região do Porto. O professor parou de falar e estava formulando o que dizer a seguir. A turma ficou sem fazer um mínimo ruído. Era um daqueles instantes raros e brevíssimos, quando aconteceu: ouvi os sinos da Igreja São João.

Eu não podia acreditar. A sala onde estudo é muito isolada, tanto que não pega nem celular (!) lá dentro. Não dá pra ouvir nem os carros que passam na rua. A Igreja, por sua vez, fica a uns dois quilômetros do ICH. E há mais o seguinte detalhe: entre os dois lugares está nada menos do que todo o centro da cidade de Pelotas – isto é, prédios, trânsito…

Queria ouvir um pouco mais, só pra ter certeza, mas não pude: acabou aquela fração de segundo de silêncio. No tempo, aquele instante foi um nada, mas pareceu que tinha se passado uma hora, de tão nitidamente que pude ouvir o som dos sinos. Olhei para os lados, tentando achar algum olhar de cumplicidade, mas não encontrei o que procurava. Tive certeza de ter sido o único a ouvir aquele som. Peguei o celular (que, mesmo sem sinal, serve de relógio): eram vinte horas. Só então me lembrei – quinta-feira é dia de culto na São João. Às vinte horas.

De casa, muitas vezes já ouvira os sinos da São João. A distância é um pouco menor: um quilômetro, talvez mais meio. Não que isso queira dizer muito, porque eu nunca ouvi os sinos da Catedral, que fica pertinho dali. A verdade é que os sinos da São João são, para mim, inconfundíveis; têm o badalar mais lindo que já ouvi. (Como bom pelotense, sou bairrista – ora, é a igreja onde fui criado e de que participo até hoje.)

É bom lembrar que o sino já foi muito importante, na história da sociedade ocidental. Era por meio do toque dos sinos que se anunciavam eventos festivos das comunidades, como nascimentos e casamentos, e também de pesar, como as mortes e os alarmes de guerra. Como ainda não havia relógio, as badaladas dos sinos é que marcavam as horas, regulando o despertar e a hora de se recolher. Já serviam para sua função que ainda hoje é marcante: anunciar os momentos de culto nas igrejas cristãs.

Hoje todos temos relógios de pulso – ou celulares – ou ainda olhamos para aqueles relógios-termômetros – ou, no último dos casos, perguntamos as horas para outra pessoa. Além disso, é mais fácil ouvir o ruído do stress do trânsito – motores, arrancadas, freadas… – e até mesmo as buzinas dos trens. Também é mais fácil ouvir a música em alto volume que um dos vizinhos deixou tocando, sem a menor consideração (vale lembrar que cada um de nós pode ser um desses vizinhos!). Pior ainda, pode ser que o som mais fácil de ouvir seja o de um tiroteio não muito distante de nós.

E, por essas e por outras, ninguém mais dá atenção aos sinos. Mas eles continuam por aí, nas igrejas, cumprindo sua função. Eles nos lembram de que podemos deixar nas mãos de Deus todos os nossos problemas quotidianos: a corrida atrás do tempo, o trânsito caótico, as dificuldades nos relacionamentos humanos, a assombrosa criminalidade… Que privilégio é ouvir, nesses dias conturbados, o chamado de Deus através dos sinos… Ouve!

Revisão e previsão

Desde o início deste blog, a história que conto aqui tem sido a mesma, ressalvados eventuais desvios: o meu caso com a escrita. É uma história que se desenrola até hoje, confundindo-se, de certa forma, com a minha própria história de vida. Concursos de redação, interesse por mudanças climáticas e Direito Internacional, três (ou seriam 2,0784?) cursos universitários… O meu caso com a escrita, conforme procurei explicitar nos posts ao longo do último mês, é peça-chave para explicar o trajeto que me trouxe para as bandas onde ora me encontro.

Isso não significa, no entanto, que a explicação esteja completa. Feita essa breve revisão mensal (parabéns ao blog pelo seu primeiro mês de existência!), à previsão. Faltam ainda posts essenciais. Uma série deles, a ser escrita oportunamente, diz respeito ao meu caso com a música, que infelizmente anda um pouco apagado, mas que não por isso deixa de ser importante. Outra série de posts diz respeito a outro caso, no sentido mais estrito da palavra: meu caso de amor. Sim, único. Renderia um blog inteiro (um livro, quem sabe?), mas, sendo assunto concluso, vai levar só alguns posts. É disso, pois, que me ocuparei em seguida.

Só mais uma coisinha:

Um professor pode marcar muito a vida de uma pessoa. Comigo, isso aconteceu várias vezes; uma delas, aliás, já relatei por aqui.

Outro caso de professor marcante foi o de Direito e Economia, no primeiro ano do curso de Direito. Suas aulas me despertaram ainda mais o interesse pela Economia, para entender melhor o mundo. Foi então que comecei a cogitar a possibilidade de fazer algumas cadeiras de Economia em curso dois (ou três: já estava fazendo Jornalismo!).

Eu e meus meios pouco convencionais para a consecução dos fins pretendidos: em vez de fazer matrícula em uma ou outra cadeira do curso de Economia, resolvi fazer vestibular de inverno, meio ano depois da loteria vocacional. E passei. Comecei a fazer o curso, sem muita intenção de concluí-lo, na mesma idéia de ampliar horizontes, complementando a formação jurídica.

Só que não esperava gostar tanto. Então, só mais uma coisinha: Direito, uma pitada de Jornalismo e… Economia. Agora faltam apenas dois semestres para minha formatura. Vou acabar sendo economista antes que possa sonhar com a formatura em Direito, e muito antes de uma eventual (embora improvável) formatura em Jornalismo… Considero até me aprofundar em Desenvolvimento Econômico (Sustentável!) e trabalhar no ramo.

Não sei como cheguei a essa situação. Se algum tempo atrás alguém me dissesse que me formaria em Economia, minha reação mínima seria uma gostosa gargalhada. Poderia pensar em fazer Direito, Jornalismo, Letras, Música. Nunca estivera a Economia nessa lista de opções. Meus planos estavam em Direito Internacional Ambiental, Diplomacia Ambiental, Comunicação.

Daí se conclui que planejar demais não leva a nada, porque (1) today is where your book begins – the rest is still unwritten, mas principalmente porque (2) Quem está no comando da minha vida é meu Deus. Resulta inevitável lembrar, em face disso, que “muitos são os planos no coração do homem, mas o que prevalece é o propósito do Senhor” (Provérbios 19:21). Ainda bem!