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Gringo pode cantar em português

O texto de ontem e o contexto de um coro no Brasil aprendendo a cantar em inglês arcaico me fizeram lembrar, nostalgicamente, da experiência inversa que tive ao ensinar um coro nos Estados Unidos a cantar em português corrente.

O domingo 19 de setembro de 2010 foi um dia de despedidas difíceis em uma semana de despedidas difíceis, logo no início da minha transição de NYC para Genebra. No meu último culto na City Grace Church naquela temporada, como contei neste detalhado post,

Os pastores anunciaram que eu estava indo embora para Genebra, contaram histórias sobre minha participação na comunidade no último ano, e oraram por mim. Ganhei um CD especial de fotos, um bolo de despedida e agradecimento, e uma quantidade atipicamente grande (mas de forma alguma inapropriada) de abraços.

O que eu não contei foi que, no mesmo culto, um quinteto formado pelos amigos Dana (soprano), Christine (alto), Kyle e Ryan (tenores) e Naoki (baixo) apresentou, acompanhado pelo amigo Lee (piano) e por mim (flauta-doce), duas músicas que preparamos: Em Memória de Mim e Pescador. Em português. Detalhe: ninguém do quinteto sequer fala português.

Os três ensaios (só três!) que antecederam essa apresentação foram divertidíssimos.
Em Memória de Mim virou “Aim may-MAW-ree_ah gee MEEM“; Pescador virou “Pays-cah-DOOR“.
Acho que orientei meus amigos bastante bem quanto à pronúncia — mas o mérito maior, sem dúvida, foi deles, que foram muito dedicados e desempenharam muito bem.


Em memória de mim
Buryl Red

Em memória de mim, comei
Em memória de mim, bebei
Em memória de mim, orai
Que seja feita a vontade de Deus

Em memória de mim, sarai
Em memória de mim, reparti
Em memória de mim, abri
A porta para o irmão entrar, ele entrar

Pão, nele vos consolai
Vinho, lembrai-vos também
Que este é meu corpo e meu sangue
Que dei por vós, dei por vós

Em memória de mim, pelejai
Em memória de mim, sempre amai
Em memória de mim, buscai a Deus
No coração, não no céu,
No coração, buscai
Sempre em memória de mim

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(Des)aprendendo a pronúncia em inglês

Preciso admitir (com vergonha) que tenho sido um coralista ausente. Faltei a dois dos últimos quatro ensaios do Grupo Cantabile. Estou sujeito a puxões de orelha do regente, da preparadora vocal, dos colegas. Preciso estudar as partituras e correr atrás do prejuízo.

Feito esse necessário mea culpa, vou adiante.

Entrando no clima de final de ano, o coro está preparando trechos do Messias de Händel. Num dos últimos ensaios, percebi que em vários versos do Messias as terminações “-ed” da letra em inglês foram musicadas para serem pronunciadas como sílabas independentes.

Por exemplo, a palavra “revealed” em “And the glory of the Lord” deve ser pronunciada
re-vea-LED“, em vez de “re-VEAL’D“, como se pronuncia no inglês corrente. Achei estranho.

Pesquisando um pouco, encontrei um artigo acadêmico que trata especificamente sobre a pronúncia das terminações “-ed” no Messias de Händel. (Viva a Academia! Viva o Google!)

O artigo esclarece que a pronúncia “re-vea-LED” já era obsoleta cinquenta anos antes de Händel nascer. Quando ele compôs seu famoso oratório Messias, a pronúncia corrente já era “re-veal’d“, como ainda é atualmente.

Mas por que, então, Händel teria usado uma pronúncia obsoleta? A hipótese do autor do artigo é que tenha sido uma estratégia do compositor para imprimir mais solenidade e reverência aos textos bíblicos usados no seu oratório.

Falando argentino

No Brasil muita gente insiste em dizer que fala brasileiro em vez de português brasileiro. E isso até se justifica, já que idioma é um conceito bastante arbitrário. O que se fala no Brasil, a meu ver (a meu ouvir?), está mais próximo do espanhol do que do português falado na terrinha dos nossos tataravôs Joaquim e Maria.

Se isso não é verdade quanto a todas as variedades lingüísticas brasileiras, pelo menos o é quanto à das cidades do sul do Rio Grande. Outra possibilidade é meu ouvido seja muito burro, mas a verdade é que me soa muito mais fácil de compreender o espanhol do que o português chiado e quase desprovido de vogais que se pode escutar na RTP, ora pois.

Voltando ao meu argumento: se o português brasileiro na sua modalidade gaudéria (1) está mais distante do português europeu (2) do que do espanhol argentino (3), por exemplo, por que (1) e (2) formam um idioma, e não (1) e (3)?

Porque o critério é arbitrário. Exagero meu, porque não se trata de pura e simples arbitrariedade: deve ser cultural ou histórico ou algo do estilo. Pois bem: por esse critério, todos nós – brasileiros, argentinos, italianos, franco-canadenses e romenos, para citar apenas alguns – deveríamos falar diferentes dialetos de latim.

Toda essa digressão boba sobre lingüística (e para quem estudou tão pouco de lingüística, melhor era ter ficado quieto, mas quis brincar um pouco!) era para dizer que, se existisse o idioma brasileiro, talvez também pudesse existir o argentino. De um lado, temos o latim; de outro, o idioma brasileiro, o argentino, o canadense… Onde fica o meio termo?

De qualquer forma, o idioma argentino certamente teria suas peculiaridades. Ao longo de meus primeiros dias aqui, já assimilei algumas delas, e sigo aprendendo. Vejamos…

  • não existe na Argentina. Aqui se usa o voseo – tratamento por vos em situações informais. Nas formais, usa-se o Usted. Então temos: yo, vos, él/Usted, nosotros, ellos/Ustedes. Aqui tampouco existe o vosotros: seja formal ou informalmente, o tratamento no plural é Ustedes.
  • A letra ll (que em espanhol é uma letra só) e a letra y, quando seguidas de vogal, são pronunciadas como algo entre j do espanhol e o x do português. Yo me llamo Yolanda se pronuncia como algo do tipo xô me xamo Xolanda. Um quadrinho.
  • Um aspecto que achei muito interessante é o do s em fim de sílabas ou palavras, que às vezes se pronuncia como um h aspirado: ¿cómo estás? = ¿cómo ehtah?
  • A distinção entre b e v não é muito clara. Para mim soam iguais; não como b nem como v, mas como um som intermediário.
  • Também notei que muitas pessoas dizem “esteee…” no meio do nada. E não é que encontrei na internet? Trata-se de uma muletilla coloquial, assim como temos, no português: assim… tipo assim… então…

Uma de minhas irmãs (como sei que ela vai ler isto, vou ter que dizer: não me refiro a minha irmã que mora na Alemanha, mas À OUTRA) queria que eu falasse espanhol… direito: tú, vosotros etc. E vim pra cá com essa intenção. Mas desisti rápido. É como pedir que eu fale português em vez de brasileiro; não faz sentido! Aqui, não falo espanhol – falo argentino!

Ostinato

A maratona de estudos desta semana não me impediu de ouvir online, uma hora ou outra, a Rádio Canadá Internacional. Como estou estudando francês (ouvir rádio em francês é útil), e como morro de saudades do Canadá (ouvir rádio em francês é agradável), ouvir rádio em francês une útil e agradável.

Só que uma música acabou tirando minha concentração: a Valse d’Amélie, da trilha sonora do prestigiado filme francês O Fabuloso Destino de Amélie Poulain (2001). O filme, quem já viu sabe, é a coisa mais querida; mais do que isso, um alívio para os cansados da previsibilidade hollywoodiana. Uma fuga da rotina.

A trilha sonora, por sua vez, tem a delicadeza da própria Amélie. A orquestração (três instrumentos, basicamente: acordeon, piano, violão) e as melodias são simples, o que não quer dizer que sejam simplórias. Nessa simplicidade, aliás, é que está a riqueza da arte. O mérito do gênio (dependente, claro, do exercício de sua técnica) está não na realização do inimaginável e do complexo, mas na expressão do básico e do óbvio, de forma original, antes que qualquer outro o faça.

O francês (homenagem aux Bleus?) Yann Tiersen é o compositor de todas as músicas da trilha sonora de Amélie, bem como da de outro belo filme, o alemão Good Bye Lenin! (2003). Escutando mais de sua apaixonante obra, observei o uso recorrente do ostinato. Essa palavra vem do italiano (homenagem à Azurra?) e significa teimoso, obstinado.

Na música, ostinato é a repetição de motivo ou frase musical. De forma bastante peculiar na música de Tiersen, o ostinato produz um ritmo viciante (não vicioso!), marcado, impositivo; parece até que dita o pulso da vida. Conjugado a esse efeito, o jogo que o compositor faz com os mesmos acordes dá ao conjunto da obra um ar de “variações sobre um mesmo tema”. Nada mais adequado para traduzir em música a rotina de funcionamento do próprio mundo.

Também, nada mais adequado para traduzir a minha rotina (não só nos últimos dias): frenética e invariável. Obstinada, como Yann Tiersen – ou pelo menos como a sua música. Aliás, a própria trilha sonora que escolhi para este blog (Unwritten, de Natasha Bedingfield) tem um ostinato; persiste do início ao fim, com um violão que repete insistentemente a mesma linha melódica.

Felizmente, obstinação ou ostinato não implicam em chatice ou monotonia – nem na música (vide exemplos de Yann Tiersen e Natasha Bedingfield) nem na minha rotina. Basta viver com gosto pelo previsível, sem, porém, fechar-se ao inusitado, que sempre encontra suas oportunidades.

Agora que passou a parte dura da maratona de fim de semestre, minha rotina não se interrompeu (ainda tenho aulas, trabalhos, provas…), mas me abriu um espaço para o não-usual: eu vou compor. Não sou um compositor genial aos olhos do mundo – talvez apenas na minha própria concepção de genialidade, que expus acima! Ainda assim, será minha pequena transgressão à rotina. Não se descarte, entretanto, a possibilidade de que a composição contenha um ostinato.

Je me souviens

Acabo de voltar da minha palestra na Faculdade de Letras da UFPEL: Je me souviens : un séjour au Québec (“Eu me lembro: uma estada no Quebec). Falei das minhas experiências na melhor viagem da minha vida, na oportunidade em que me apaixonei profundamente pelo Canadá. Falei sobre as razões por que fui ao Canadá, as minhas atividades lá, os lugares que visitei.

Que cara de pau! Eu, ministrando uma palestra na universidade, em francês, na presença de professoras… Eu, que estudo francês (formalmente) há menos de um ano… Haja coragem! Mas, falando em uma língua que amo sobre uma vivência incrível, tratando de um assunto (mudanças climáticas) que tanto me interessa, eu me senti tão bem! Até me esqueci do nervosismo e das dúvidas e da desenvoltura incerta. Acho que só agora, chegando em casa, é que me dei conta da loucura que acabei de fazer.

E, para acabar com o meu encanto, tenho o firme auxílio de uma boa dose de realidade: preciso estudar para uma prova de Direito Civil. Direitos de vizinhança. Condomínio. Castração da própria alma. O Direito é, por vezes, o incansável perseguidor da minha poesia. Parece que se esforça por silenciar aquela musiquinha que não pára de cantar aqui dentro de mim. 

Mas quem vai vencer sou eu.