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Eu não disse que altruísmo existia?

Faz meses que meu orientador deixou comigo um livro, para eu ler e, em seguida, deixar como doação à Biblioteca do ICH: é o Freakonomics, que apresenta “as revelações de um economista original e politicamente incorreto”. Faz meses, mas só ontem comecei a ler (pra valer) o livro. E estou certo de que não me demoro em lê-lo, porque até agora só posso dizer que é surpreendente, contundente, excelente. Ainda nem terminei de ler, mas já recomendo a compra ou, no mínimo, a visita ao blog dos autores.

Deixando de lado a propaganda literária gratuita: fui surpreendido, no meio da minha leitura, com uma referência ao altruísmo nas doações de sangue – tema de recente post no Blog do Guri. E basta de explicações, porque melhor mesmo é ler o texto direto:

Nos anos 70, alguns pesquisadores conduziram um estudo que […] pôs em confronto um incentivo econômico e um incentivo moral. Neste caso, procurava-se aprender mais a respeito da motivação por trás das doações de sangue. O resultado mostrou que quando as pessoas recebem uma pequena remuneração para fazer a doação, em lugar de serem apenas elogiadas por seu altruísmo, a tendência é diminuirem as doações. A remuneração transformou um ato de caridade em um meio doloroso de ganhar alguns trocados, fazendo com que ele deixasse de valer a pena. E se aos doadores tivesse sido oferecido um incentivo de $50, $500 ou $5 mil? Certamente o número de doações teria aumentado drasticamente. Mas outra coisa também sofreria uma mudança drástica, pois todo incentivo tem seu lado negativo. Se um litro de sangue passasse a valer $5 mil, muita gente tomaria nota disso e talvez procurasse obtê-lo na ponta da faca. É possível que alguns tentassem fazer passar por seu o sangue de animais. utros talvez falsificassem a própria identidade para doar acima dos limites permitidos. Seja qual for o incentivo, seja qual for a situação, gente desonesta sempre tentará obter vantagens através dos meios. Ou, como disse W. C. Fields: algo valioso o bastante para ser desejado vale a pena ser roubado.

(DUBNER, Stephen; LEVITT, Steven. Freakonomics: o lado oculto e inesperado de tudo que nos afeta. Trad.: Regina Lyra. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005, p. 24-25)

Cristianismo, capitalismo, comunismo: dois “case studies” bíblicos

Eu sou capitalista. Isso não significa que eu seja materialista ou consumista. Meus anseios de consumo são, aliás, bastante modestos. Contudo, não me consigo imaginar vivendo sob outro sistema econômico. Por mais injusto que seja, o capitalismo ainda parece ser o sistema que mais responde às inclinações naturais do homem.

Talvez eu pense assim por não ter nenhuma experiência de vida senão a capitalista. Talvez, alternativamente, não pudesse ser diferente – afinal, eu estudo Economia, e nesse meio raros são os casos de quem simpatiza com outro sistema. Uma terceira e última hipótese que explicaria meu posicionamento é a própria observação da realidade. Mesmo o comunista mais ferrenho deve admitir que, por mais nobre que seja o ideal comunista, ele nunca se verificou – ou, se se verificou, não se afigurou tão nobre quanto a encomenda.

Estando ou não convencido por meus próprios argumentos pró-capitalismo, a verdade é que os relAtos (engraçadinho isso: os relatos do livro bíblico de Atos) sempre me causavam certo desconforto. Nesse livro, sobretudo em seus primeiros capítulos, conta-se que os primeiros cristãos “tinham tudo em comum. Vendendo suas propriedades e bens, distribuíam a cada um conforme a sua necessidade” (Atos 2:44-45). Eis o retrato do comunismo cristão. A pergunta é: cristianismo (puríssimo) pressupõe comunismo? Ou, em outras palavras: é possível ser cristão e capitalista? A prior, eu diria que não. Porém, depois de refletir um pocuo, é interessante organizar as idéias e sintetizar conclusões.

Pesquisando na Bíblia, cheguei à seleção de dois casos. O primeiro deles é de sucesso. Em Lucas 19, Zaqueu, chefe dos cobradores de impostos, humilha-se para ver Jesus e recebe-O em sua casa e também em seu coração. Acaba resolvendo doar a metade de seus bens aos pobres e devolver o quádruplo do dinheiro que tinha cobrado indevidamente. (Isso porque naquela época havia corrupção na cobrança de impostos!)

O segundo caso é de fracasso absoluto. Em Atos 5, o casal Ananias e Safira vendem uma propriedade e, em vez de entregarem o dinheiro todo aos apóstolos, retêm parte para si. Mas essa atitude foi percebida pelo apóstolo Pedro. Tanto Ananias quanto Safira, ao serem desmascarados, caíram mortos. Uma cena inimaginável, a não ser em filme de terror – mas na Bíblia é mesmo essa a forma com que os fatos são descritos: “[Pedro diz a Ananias]: ‘Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus’. Ouvindo isso, Ananias caiu morto.” (Atos 5:4-5).

Ora, a diferença é clara. Zaqueu devia ser muito rico – era não só cobrador de impostos, mas chefe deles; talvez um dos homens mais abastados e importantes (e odiados) da cidade. Ao converter-se a Cristo, decidiu doar apenas metade dos bens. Mesmo depois disso e da restituição em quatro vezes do dinheiro extorquido, é provável que tenha continuado a ser bastante rico. Ananias e Safira, por sua vez, não deviam ser tão ricos quanto Zaqueu. Enquanto este pôde abrir mão do muito que possuía com magnanimidade, aqueles não tiveram verdadeira liberalidade nem mesmo para se desfazer do pouco de que dispunham. É claro que, além disso, tentaram ludibriar os apóstolos e o próprio Deus – o que, convenhamos, nunca é uma jogada muito esperta.

A posteriori, desconstruo minha impressão inicial e concluo que… ser capitalista (ou próspero) não é pecado. Ser avarento, ganancioso, mesquinho, sim – a Bíblia está cheia de advertências a respeito disso (Mateus 6:19-24, Marcos 10:17-23, Lucas 12:13-21). A vida é deve ser uma constante busca por Deus, e não por riqueza material. Nossas fortunas pessoais – das enormes às irrisórias – pertencem a Ele e, por isso, estão também a serviço do próximo, quando somos generosos. Afinal, o que os dois case studies demonstram é que, para Deus, não importa tanto o sistema econômico quanto os reais desígnios do coração humano.

Um beijo, um queijo, um abraço e um presunto

Essa história de dar beijinhos é uma das convenções sociais que eu preferiria que não existissem. Pra começar, ninguém sabe ao certo quantos são – um, dois ou três? Ficar aquém das expectativas (por exemplo: dar dois beijinhos quando a pessoa espera por três) pode parecer grosseria, ou gerar aquela clássica e odiosa reação: “três pra casar”. Da mesma forma, ir além das expectativas também pode ser constrangedor.

O beijo é um fenômeno cultural por excelência, o que complica ainda mais a situação. No Brasil, em contextos informais, é muito comum dar beijo no rosto, mesmo de quem mal se conhece ou nem se conhece. Isso se aplica entre homem e mulher e entre mulheres, mas nunca entre homens – o que já não ocorre na Rússia, na Argentina, na Itália. Homem beijar homem é normal por lá. Aqui, é indicativo de homossexualismo – excetuando-se talvez apenas o beijo entre pai e filho.

No outro extremo há os países em que beijar só se restringe ao círculo familiar, sendo inadmissível fora dele. Em algumas familias alemãs, é costume os familiares trocarem selinhos – sim, na boca, mesmo. Tenho um cunhado alemão, e o pai dele (igualmente alemão) já me deu um selinho. Fiquei escandalizado, é claro. Ele, o alemão-frieza-distância-formalismo me deu um selinho. Eu, o brasileiro-descontração-samba-carnaval fiquei escandalizado.

Mesmo o lado do rosto que primeiro se oferece para beijar (sejam um, dois ou três beijinhos) é uma convenção cultural. No Quebec, é culturalmente aceitável dar beijinhos em certas situações, como no Brasil. Aconteceu comigo, porém, que alguém ofereceu a outra face. A cena foi ridícula: um encontro de narizes e bochechas, um quase-beijo nos lábios, um vai-e-volta de cabeças indecisas. Dificilmente isso ocorreria no Brasil, porque o brasileiro oferece sempre o mesmo lado.

O beijo era uma saudação usual já nos tempos da Bíblia, em meio ao povo de Israel. Porém, mostrou sua ambigüidade naquele que veio a ser o beijo mais importante da História: o sinal de Judas ao trair Jesus (relatos em Mateus 26:48-49, Marcos 14:44-46 e Lucas 22:47-48). Judas não teria conseguido trair seu Mestre com um abraço, porque é muito mais verdadeiro. Prova disso é que é emocionalmente fácil dar beijinhos em qualquer um – agora, tenta abraçar uma pessoa com quem as coisas não vão bem…

Pelo argumento cultural, recomendo o simples aperto de mão. Embora possa parecer frio, é bem mais seguro. Pelo argumento emocional, recomendo um abraço. É bem mais sincero e significativo; vale mais. Quanto a mim, vou ver se extirpo o “beijo” e o “bjs” do meu vocabulário. Chega: quero dar abraços. Pra ti, meu leitor… aquele abraço!

Altruísmo existe

Doar sangue faz bem, dizem. Pouco importa: dôo do meu sangue não pelo bem que eventualmente isso me faça, mas pelo bem que proporciona ao anônimo donatário. Meu sangue é tipo O+, podendo em tese ser aproveitado por todos os que têm fator Rh positivo – ou seja, é bastante útil. Para mim, essa é uma das provas de que ações totalmente motivadas pelo altruísmo existem, sim, ao contrário do que se afirma por aí.

Alguém poderia contra-argumentar que, doando sangue com a consciência de que faço bem e de que sou útil a outrem, faço bem a mim mesmo. E, se minha ação é motivada por um benefício próprio, não há nela altruísmo puro. Desse modo, pelo menos de forma mediata, não haveria como fugir do egoísmo – mesmo no caso da doação de sangue.

Mas então eu replicaria (isso está parecendo até diálogo de Platão) que muitas são as desvantagens da doação de sangue. Já passei por experiências bastante desagradáveis (traumáticas, talvez) e, apesar disso, persisto como doador.

A primeira delas foi quando a enfermeira não conseguiu achar minha veia. (E não quero ressaltar a incompetência da profissional, mas quem me conhece sabe que eu sou todo veia…) Então ela tentou, tentou e tentou no braço esquerdo – e nada. Aí foi para o braço direito e conseguiu direto. E disse: “na próxima vez que doares, diz que a tua ‘veia boa’ é a do braço direito”. E eu pensei: “bobagem”. Eu já tinha tirado sangue do braço esquerdo – prefiro, já que sou destro – e não fora nada difícil achar minha veia.

O problema, na verdade, nem foi esse. O problema foi que todas essas tentativas me deixaram com hematomas enormes – nos dois braços. O do braço direito tinha, sem exagero, uns dez centímetros. Um horror. Até que não doía muito. Incomodava apenas o fato de que na academia deviam pensar (por um mês, até que desaparecesse o roxão) que eu fosse drogadito – daqueles que não vivem longe de uma seringa.

O segundo e ainda mais vergonhoso incidente foi em uma daquelas entrevistas de praxe, feitas antes da doação. Não me importo com as perguntas pessoais. Afinal, é preciso saber se o potencial doador se inclui ou não nos comportamentos de risco, como usuários de drogas, homossexuais, heterossexuais de vida sexual muito ativa (eufemismo para “pessoas promíscuas”) etc.

Não, eu não sou nada disso. O que me irrita são os questionários mal-elaborados. “Você tem parceira sexual fixa?”. Ora, se eu dissesse que não, além de ficar chato (a entrevistadora tinha visto minha então namorada na sala de espera), não ficaria verdadeiro o questionário, porque nunca tive vida sexual ativa (eufemismo para uma palavra bem piegas que não me digno a publicar). E se dissesse que sim, estaria admitindo ter uma vida sexual ativa que não tenho, e a resposta ficaria igualmente problemática.

O que eu fiz foi dizer nem sim nem não, mas simplesmente: “sou virgem”. (Pronto, tive de publicar a palavra piegas aquela.) Para o meu espanto, a entrevistadora perguntou: “tudo bem, mas você tem ou não tem parceira sexual fixa?”. Pára o mundo que eu quero descer! Pombas, já estava totalmente vermelho – e a mulher não ajudava! Ora, se sou virgem, não tenho parceira sexual fixa – mas dizer isso talvez me desqualificasse, digo, desqualificasse o meu sangue, porque eu poderia ser tido como “promíscuo” (chega de eufemismos!). Então eu fui disse: “olha, se eu não tenho relações sexuais, acho até que dá pra dizer que tenho parceira fixa, né?”. E pensei: “sim, parceira fixa: ninguém”.

Outra situação desagradável aconteceu recentemente. Na mesma (maldita) entrevista de praxe, a entrevistadora perguntou se eu tinha estado recentemente no exterior. Sim, eu tinha estado no Canadá, e por causa de vaca louca, gripe aviária e não-sei-mais-o-quê deveria esperar três meses para poder doar sangue. Não adiantou dizer que eu nem sequer cheguei perto de uma fazenda no Canadá. Tampouco adiantou dizer que eu sou vegetariano… Voltei pra casa com o mesmo sangue (?) com que tinha entrado no hospital.

Nada disso foi suficiente para me fazer desistir e, no início desta semana, com todo o frio que fazia (e aquela seringa gelada!), doei sangue.

Quem se atreve a dizer que doar sangue não é uma atitude puramente altruísta?

Ver o mundo é preciso

Tenho planejado viajar para a casa de praia dos meus pais, em São Lourenço. Mesmo quando não é temporada de praia, é o lugar ideal para descansar. Aliás, no inverno talvez seja até melhor: solidão, quietude e aquele vento gelado da lagoa que eu amo. Ambigüidade propositalíssima: amo a solidão e a quietude e o vento gelado e a lagoa!

A idéia era ir para lá com amigos e visitar amigos que moram lá. Fazer programações entre amigos é a melhor coisa… quando efetivamente se consegue chegar a uma combinação satisfatória para todos. Não encontramos data conveniente e a viagem não aconteceu – pelo menos por enquanto.

Mas eu precisava de um pouco de ar que não fosse o pelotense. Resolvi aproveitar o último dia de férias e ir para Arroio Grande, para visitar uma grande amiga e conhecer a cidade. Acordei muito cedo e saí de casa às sete horas da fria manhã de domingo.

O frio não nos impediu de caminhar até a exaustão por toda a cidade. De óculos escuros e câmera fotográfica a tiracolo, eu era o turista do dia (do mês? do ano?) em Arroio Grande. A praça central rodeada de prefeitura, igreja, casarões. O arroio. A ponte. A estação rodoviária. A Santa Casa. A esquina da sinaleira. Elementos essenciais a muitas pequenas cidades de interior, mas com charmosas particularidades arroio-grandenses.

Já fui a tantos lugares tão distantes… Quase caí Grand Canyon abaixo, mas nem cheguei perto do Itaimbezinho. Conheci Montreal, mas Montevidéu, não. Já entrei em catedrais góticas, mas nunca estive nas ruínas das Missões Jesuíticas… Se ver o mundo é preciso, também é preciso aprender a apreciar o que está próximo.

É óbvio que não me arrependo de ter visto o que vi, longe daqui. Só me arrependo de não ter visto o que eu não vi, perto daqui. Mas ainda há tempo. Comecei por Arroio Grande.

(Depois de muito tentar, desisto – por ora – de mandar fotos do passeio. Não quero maldizer a casa que gentil e gratuitamente cede meu cantinho na blogosfera, mas é tudo culpa da Blogger!)

E a crise chega ao fim

Chega de blogofobia. Chega de grafofobia! Obrigado aos comentaristas pelas mensagens de apoio, ou, melhor dito, de pressão. Estou voltando a postar, depois de mais uma semana conturbada.

De início, dias melancólicos. Ao olhar para as azaléias florescendo, minha revolta com a falta de inverno atingiu o auge. Isso passou, porque o inverno chegou hoje. Está fazendo 8 graus. Posso ouvir as rajadas fortes do minuano. O vento bate nas janelas e entra gelado pelas frestas do meu quarto. Aqui dentro, 11 graus. Viva!

No meio, crise espetacular (como nunca antes aconteceu!) com a minha Internet. Mas consegui resolver sozinho, sem gastar com assistência técnica. Download mais rápido – yay! Mais uma vez, o homem a serviço da tecnologia.

Por fim, estudos para a última prova de História Econômica. Acabou o sexto semestre da Economia. Felizmente. Depois da experiência do quinto semestre (isto é: o quinto dos infernos), com suas cadeiras superdifíceis e os preparativos da minha viagem ao Canadá, achei que não me importaria em ter um semestre mais folgado. Que nada. O sexto foi o período mais desestimulante do curso, ressalvadas as aulas de História Econômica. Quero mais é apagar esse semestre dos meus registros de memória…

Então, fiz a prova quinta-feira e entrei em férias ontem. Amanhã elas terminam: segunda-feira, às 8h, de volta ao Direito. C’est la vie. It’s just like the way it is. And I like it the way it is! (Uma superdosagem de chavões multilíngües – desculpem por isso! E não é overdose, não, porque overdose é anglicismo – então me deixem dizer superdosagem!)

Meu quase-livro? Estou muito feliz com seus dois primeiros e pequenos quase-capítulos. Virão muitos outros. Estou reaprendendo a escrever e, talvez, a gostar de escrever. Depois de tantos anos longe da prática dessa minha atividade-paixão, é difícil vencer a inércia. Afinal, como tudo, escrever é x% inspiração e (100 – x)% transpiração (as proporções eu nunca vou conseguir definir!).

Eu até tinha inspiração e assunto, mas andava com nojo de transpirar. Ficar suado, eca. Mas estou voltando a mim mesmo. Pouco a pouco, desaparece o bloqueio mental – a crise chega ao fim.

Tout le monde en parle!

(Todo o mundo fala disso!)

Esses dias reconheci a (evidente) superioridade do futebol de Zidane. Mas não dá mesmo pra elogiar. Não se retire todo o mérito dele por causa de um (único) erro (grave). Contudo, é forçoso reconhecer que seu gesto com a delicadeza digna de um touro (olé!) foi, em vários sentidos, uma cabeçada. Diante das ofensas de Materazzi, o francês perdeu a razão – e perdeu a razão. Um péssimo final para quem tinha de tudo para sair de campo deixando ao mundo apenas boas recordações. No fim das contas, não merecia o título de melhor jogador da Copa, na minha opinião.

Mas afinal, o que foi mesmo que o zagueiro italiano disse?

Corrente A: teria dito que Zidane é terrorista.

Corrente B: teria dito que a irmã de Zidane é prostituta.

Pois bem: terrorismo e prostituição são reprováveis. Terrorismo, ao menos no Brasil, é crime. Por outro lado, prostituição não é ilegal. No máximo, é imoral. Ainda. Veja-se este link, com uma descrição pormenorizada daquela que é tida como a mais antiga das profissões. Está no site do Ministério do Trabalho e Emprego. Não se culpem os economistas (?) que fizeram tal classificação de ocupações; trata-se de uma profissão que existe e que não pode ser ignorada.

Será que o blog de repente se tornou “impróprio para menores”? Não foi minha intenção!

Estou inquieto. Odeio terminar o post com uma pergunta, mas… será que a prostituição vai um dia deixar (tristemente) de ser tida como imoral? Ou já deixou de ser e não me contaram – nem a mim nem a Zizou?

O mundo pára e a bola gira

Meu apetite postador de hoje está tal que chego a me aventurar a escrever sobre um assunto inesperado. No meu manual de instruções (Compreenda Martin em treze lições simples), esse tema figura na seção “Assuntos pouco prováveis em uma conversa”. Chega a ser um exemplo de livro-texto, quase caricato, daquilo que não tem absolutamente nada a ver comigo e a respeito de que não tenho qualificação alguma para discorrer. Para quem me conhece minimamente já deve estar óbvio que me refiro a futebol.

Eu nunca joguei muito bem – por isso, talvez, acabei virando goleiro (preconceito?). Agora, pelo menos isso: era um bom goleiro. Jogava de quando em quando com a gurizada da vizinhança, mas nunca fui um grande apaixonado. Torcedor, até que fui, mas só nominal – como todo o mundo, me dizia torcedor de um time de Porto Alegre e outro de Pelotas.

O futebol só virou trauma de infância quando meus pais me forçaram a jogar na escolinha que passou a funcionar na associação do bairro, perto de casa. “Eu sei que eu preciso fazer um esporte, mas quero jogar basquete!”. Que dúvida: sendo eu absolutamente incapaz para a prática de atos da vida civil, meus pais me colocaram na tal escolinha, e pronto. Não eram tão sofridos os treinos (até que me divertia), mas eu realmente não tinha talento algum. Eu era mesmo perna-de-pau. Também, não queriam que eu fosse goleiro…

Deve fazer seis anos (explosão!) que não chego perto de uma bola de futebol, tudo por causa do trauma. Assisti a um jogo em um estádio uma só vez – um BraPel, o clássico da cidade de Pelotas. Não teve, aliás, importância alguma na minha vida. Na televisão (eu sou ou não sou o sonho de qualquer namorada?) eu só assisto jogo de futebol quando é da Seleção Brasileira, e numa situação bem específica: Copa do Mundo.

OBS.: Quanto a eu ser ou não ser o sonho de qualquer namorada, não pensem que é presunção minha. Nada disso. Como diz um amigo, é justamente o contrário. Nesta situação de baixa auto-estima, eu preciso mesmo desse tipo de auto-incentivo.

Agora vem a confissão: hoje foi o primeiro jogo da Copa de 2006 que assisti (ou consegui assistir) do início* ao fim. Nos outros jogos, eu tentei, mas não deu certo – sofro demais. Hoje, consegui, mas continuo sofrendo. Ah, e pensar que ainda temos até três jogos pela frente nessa Copa… Eu sofro! E me irrito quando o desempenho dos jogadores não me agrada. E me irrito ainda mais por não ter esse direito – quem sou eu pra criticar qualquer jogador de futebol? Até os guris de oito anos aqui da rua me dão um show de bola.

E sofro mais: amo o Brasil e o futebol do Brasil, mas não me conformo com injustiça. Fico indignado com o fato de que os árbitros não podem usar a tecnologia disponível. No jogo de hoje (contra Gana, oitavas de final), aquele segundo gol do Brasil, feito em situação de impedimento que era evidente aos telespectadores, valeu só porque o juiz não era eu. (E eu nunca seria juiz, porque não passaria nem em concurso pra gandula). Quanto ao resultado do jogo, já dizia aquele velho ditado árabe: mais vale uma vitória justa por 2 x 0 do que uma vitória esmagadora de 3 x 0 com uma pulga atrás da orelha.

* * * * * *

Pra terminar, conto a experiência prévia ao jogo de hoje… Fiz uma prova das dez horas ao meio-dia – horário do fim da prova, horário do início do jogo (por isso é que assisti o jogo “do início* ao fim”). Peguei o ônibus para voltar pra casa. Nunca vi o ônibus deslizar tão rapidamente pela rua. A cidade estava totalmente deserta. Podia contar nos dedos o número de pessoas que vi na rua. As lojas estavam quase todas fechadas… parecia até domingo! O país simplesmente pára.

Quer saber? Que pare. (Já recebi críticas por isso: “Quê? Tu, um guri esclarecido, defendendo o pão-e-circo?”) O mundo poderia, é verdade, parar em prol dos direitos humanos, da qualidade de vida, da paz mundial e outros motivos nobres. Mas o esporte também é motivo nobre. Além do mais, já existe muita desilusão e tristeza nesse Brasil. A gente precisa de um motivo de patriotismo.

Parem tudo e vistam-se de verde-e-amarelo e azul-e-branco e estrelinhas e faixas de Ordem e Progresso! E que ninguém me venha com ingenuidade: não é mero acaso que a Copa caia em ano de eleição presidencial… é um presente divino!

O homem a serviço da tecnologia

Computadores foram criados para facilitar (em tese) a vida das pessoas. E se pode mesmo dizer que facilitam – pelo menos até que resolvam, sem aviso prévio, parar de funcionar. É o que os técnicos da informática costumam diagnosticar, com muita propriedade e rigorismo científico, com a seguinte frase: deu pau.

Os micros que a minha família teve ao longo da última década já deram pau tantas vezes que, uns anos atrás, cheguei a ficar amigo dos guris da assistência técnica e a fazer um “estágio” (não-remunerado) na loja onde eles trabalhavam. Aprendi bastante sobre instalação de hardware e software. Ao fim do período do “estágio” (nem me lembro se foi um semestre ou um ano), passei a ter uma boa independência, para resolver por mim mesmo os paus do PC aqui de casa.

Isso, como tudo, tem pontos positivos e também negativos. Por um lado, economizam-se os 50 reais da visita técnica que um especialista cobraria – muitas vezes para dizer que o problema não tem solução e que o HD terá de ser reformatado… De outro lado, perde-se um bom tempo tentando descobrir e resolver um problema, quando qualquer técnico habilitado poderia fazer isso muito mais rapidamente (em tese!!!).

No último sábado, numa bela hora da tarde, meu computador congelou e não mais se reiniciou. Entrei em pânico, chorei de raiva pelos meus dados potencialmente perdidos e já estava até pensando em argumentos para uma ação de indenização por perdas e danos contra o fabricante. (Invocadinho, eu?)

Fui teclar com minha irmã pelo computador dos meus pais para ver se ela ou meu cunhado pensavam em alguma solução… quando também o computador dos meus pais congelou e não mais se reiniciou. Foi meu dia de Midas invertido: parecia que tudo em que tocava virava um latão vagabundo.

Passei um bom tempo trabalhando para trazer as máquinas de volta à vida. Eu sou incrivelmente seguro e não admito (pelo menos no que diz respeito à informática) que outra pessoa me cobre o que eu posso muito bem fazer. É claro que o meu conhecimento é limitado nesse campo, mas a minha persistência manda tentar tudo o que eu sei antes de chamar alguém que saiba mais.

A história teve final feliz: os dois voltaram a funcionar. Perdi tempo, mas economizei (em dobro, talvez!) – valeu a pena. Eles que se comportem, agora. Eles é que estão aí para me servir, e não o contrário…

Desgastes e desgostos da socialização universitária

Fiquei tão feliz comigo mesmo depois do meu último post, em que finalmente consegui publicar algo a respeito de um assunto totalmente aleatório – mas a minha alegria se esvai hoje, porque não posso mais resistir à inquietação que tenho desde ontem por escrever sobre um assunto conexo ao do último post. Não adianta, eu sou mesmo uma pessoa temática. E o meu blog segue meu padrão. A verdade é que uma coisa leva a outra: escrevo sobre um assunto e, por isso mesmo, acabo refletindo mais profundamente sobre assuntos afins. Ficou para outro dia a façanha de publicar neste blog posts solo, sem cada vez dar início a uma seqüência ou novela.

Sábado eu fui a uma festa de aniversário de uma colega da Economia. Ela é uma guria muito querida, e tal, e os colegas também são muito legais, e tal. Fui convidado e não pude deixar de ir. Mas foi aos moldes dos churrascos da turma. E os churrascos da turma (tanto no Direito quanto na Economia) têm moldes que me irritam.

Não é porque não sei dançar pagode (!) nem porque não gosto de cerveja (!) nem porque não vou a festas pra caçar ou ficar (!) nem porque sou vegetariano (explosão!). Estaria muito feliz em uma festa, sem dançar nem beber nem caçar nem me alimentar – pra mim vale por si só a socialização. Eu sou uma pessoa socializante. O problema está no contexto. Não é meu tipo de diversão, nem de socialização. Prefiro muito mais jogar conversa fora com colegas e amigos – ou jogar algum jogo de tabuleiro – ou jogar boliche – ou ver um filme – ou sair pra comer uma pizza ou um queijo-quente do Sanata (essa é só pra pelotenses!). O que me importa é que todos estejam sóbrios. Taí um grande problema meu: sou um dos poucos que se colocam contra a ebriedade em um meio de pessoas que não estão nem aí e que acham que o bom, mesmo, é ficar bêbado, borracho, pra lá de Marraqueche.

Um tempo atrás eu desisti: simplesmente deixei de ir a churrascos de turma. Assumi que a coisa não faz minha cabeça. Mas existe a insistência… Tem vezes que não resisto à pressão e vou – e fico lá, perdido. É tudo muito vazio de sentido, superficial, alucinado. Chega a ser um mundo paralelo cheio de vazio. Não se encaixa na minha lógica. No fim das contas eu acabo voltando, desgastado, aos meus desgostos.