Enfim quebro o silêncio, addendum

Depois dos três pedidos de desculpas com que comecei o post anterior, o quarto: aos leitores que ficaram frustrados com “a publicação para dizer que vai ter uma publicação”. Totalmente justificável a frustração, mas não consegui me sentir à vontade para “do nada” publicar logo qualquer coisa, ignorando o elefante dos quatro meses mudos.

Amanhã, sem falta.

Enfim quebro o silêncio

Após quatro meses mudos, começo com o tradicional pedido de desculpas. Primeiro, aos leitores que eventualmente vêm aqui para se divertir (ou sofrer) comigo ou com os meus textos (ainda tem alguém aí?). Segundo, a esta entidade quase personificada que é o meu blog. Terceiro, ao meu eu dos últimos meses, pelo mal que me/lhe causei por não escrever.

“O silêncio, no meu blog como na Música, pode ser solene e significativo. Os intervalos silenciosos (normalmente seguidos de pedidos de desculpas aos leitores!) até resultaram, em alguns casos, de falta de tempo para escrever, mas, em regra, corresponderam aos meus momentos de maior ansiedade, num sentido bem autodestrutivo.”

Escrito no meu post de 15 de setembro de 2013 (há quase um ano, portanto), o trecho acima continua sendo muito verdadeiro. “Ansiedade” é um resumo adequado para o resultado de diversos micromotivos de silêncio, bons ou ruins ou ambíguos.

Um número pequeno de projetos grandes. Um número grande de projetos pequenos. Falta de assunto ou de inspiração ou de motivação ou de autoconfiança. Quebras de vínculos. Cansaço. Viagens longas. Visitas feitas ou recebidas. Doença na família. Hospitalização.

Ou, como em meus últimos quatro meses, tudo isso. Mas pronto: vivo; logo, escrevo. Por mais que seja minha inclinação natural, é autocorrosivo persistir em reflexões nostálgicas sobre o que perdi ou deixei de ganhar nesse tempo. O urgente é voltar a escrever.

Bach hoje em Porto Alegre

Hoje às 19h na Igreja da Reconciliação acontece o sexto concerto desta temporada do Projeto Vésperas, com obras de Johann Sebastian Bach, incluindo a Suíte Orquestral n. 3 (BWV 1068), uma seleção de corais da Paixão e o Osteroratorium (Oratório de Páscoa) (BWV 249). A entrada é franca! Novamente estarei lá, em meio aos baixos do Grupo Cantabile.

abril

Não desejo receber material publicitário, mas azar o meu

Ao escrever sobre a publicidade indesejada, resolvi afixar na minha caixa de correio um adesivo indicando que não desejo receber material publicitário. Por uma, duas, três semanas colhi o resultado da campanha. Provoquei panfleteadores e escrevi sobre sustentabilidade.

Diferentemente da pesquisa do IPEA sobre a tolerância dos brasileiros quanto ao estupro, o levantamento que fiz não teve rigor científico nenhum. Foi apenas uma campanha individual para verificar se o adesivo resolveria o problema.

Não resolveu: o adesivo resiste a chuva e sol, mas continuo recebendo panfletos. Desisti de divulgar os frustrantes resultados e de ter esperança na humanidade. Um em cada quatro panfleteadores deve achar que minha caixa de correio merece ser profanada…

Caminhada única em Limburg

Como comentei num dos últimos textos, em 2013 passei a Páscoa com a família na Alemanha. Antes que chegue a Páscoa de 2014 (faltam dois meses!), vou contar da última.

Não foram férias, propriamente. Férias, no meu caso, costumam ser aquele tempo que eu reservo, não para descansar, mas para me cansar ainda mais, fazendo caminhadas de 20 quilômetros por dia (como em Montevidéu) ou turismo intensivo (como na Índia).

O diferente da Páscoa na Alemanha foi que eu descansei. Fiquei em casa com meus pais, minha irmã, meu cunhado e, principalmente, meus sobrinhos (de então quase três anos; hoje, quase quatro). Brincamos de Lego e de carrinho e de boneca e de avião e de tanta coisa mais que nem me lembro — a imaginação deles está sempre a mil.

Houve um dia — um só dia, em duas semanas — em que não resisti ao turista inquieto que há em mim e fui caminhar pela cidade e fazer algumas fotos. Limburg an der Lahn é uma cidade pequena (cerca de 33.000 habitantes) e bastante antiga (as primeiras menções a ela datam do ano 800), às margens do rio Lahn. No centro antigo, a presença das construções em enxaimel é marcante.

Kornmarkt, ou Mercado de Cereais

Mais casas em enxaimel

Dizeres em letras góticas: “Esta casa está nas mãos de Deus…”

Alte Lahnbrücke, ou Antiga Ponte do Lahn, construída em 1306; por aqui passava a Via Publica, uma estrada que, na Idade Média, ligava importantes cidades, como Bruxelas (Bélgica), Colônia (Alemanha), Frankfurt (Alemanha) e Praga (Boêmia, República Tcheca) 

Parte interna do Limburger Schloss, o castelo de Limburg

A Catedral de São Jorge (Sankt-Georgs-Dom ou Georgsdom) fica bem no alto de uma rocha às margens do rio Lahn e domina a vista da cidade; foi inaugurada em 1235

Nave central da Catedral

Calçadão no centro da cidade, com destaque à Prefeitura (Rathaus), construída em 1899

Não desejo receber material publicitário: semana 3

Na terceira semana da minha campanha contra publicidade indesejada na caixa de correio, o número de materiais indesejados aumentou (de dois, da semana anterior, para três), mas o nível de abusividade do material recebido diminuiu.

Dois dos itens eram do tamanho de cartões de visita: um, de uma fábrica de persianas; o outro, de um prestador de serviço de instalação, manutenção e reparo de persianas. Talvez sejam concorrentes, mas me pareceram complementares. Não importa: não quero saber de consertar persianas — nem de receber publicidade na caixa de correio.

O material abusivo da semana ficou por conta de Lojas taQi, que fizeram depositar na minha caixa de correio um caderno de ofertas. A Leroy Merlin respondeu várias vezes e com cordialidade; o Nacional nem se dignou a responder. Vamos ver o que faz a taQi.

Panfletagem não é sustentável

Recebi a resposta final (ou pelo menos acho que foi final) da Leroy Merlin à questão de como conciliar sustentabilidade e panfletagem. A loja esclareceu que busca minimizar o impacto de suas operações comerciais, imprimindo os folhetos em papel certificado pela FSC e com tinta de soja e incentivando a reciclagem.

Claro que não me convenci (porque a resposta não foi convincente). E claro que respondi:

É meritória a intenção da Leroy Merlin de buscar minimizar o impacto ambiental de suas operações comerciais. Um passo ainda mais consistente nesse sentido, mais ousado que imprimir folhetos em papel certificado e com tinta de fontes renováveis e incentivar sua reciclagem, seria cortar o mal pela raiz. Deixando de produzir folhetos para distribuição nas ruas e caixas de correio, a Leroy Merlin seria ainda mais sustentável, porque economizaria os recursos e a energia necessários à produção dos folhetos e à sua reciclagem.

Meu argumento é simples: panfletagem não é sustentável. O fato de os panfletos serem produzidos de forma sustentável não tem o condão de torná-la sustentável.

Não desejo receber material publicitário: semana 2

Minha campanha contra publicidade indesejada está trazendo bons resultados! Além de todos os publicitários estarem ao meu lado, como irrefutavelmente demonstrado na absoluta integralidade da blogosfera, nesta segunda semana minha caixa de correio tinha apenas dois materiais indesejados, três a menos que na semana anterior. O adesivo “Não desejo receber material publicitário” está impondo algum respeito.

O primeiro transgressor da minha vontade como consumidor nesta semana foi a farmácia Popularmed, que deixou folhetos com anúncio de medicamentos e um ímã de geladeira envolto em uma desnecessária embalagem plástica.

E o outro transgressor, que sorteei para abordar tal como fiz com a Leroy Merlin, é ninguém menos que o Nacional, bandeira gaúcha do Walmart, maior rede varejista do mundo e recentemente encrencada de novo em sua terra de origem — não por publicidade indesejada, mas por alegadas violações trabalhistas.

O folheto do Nacional inclui um pedido interessante: “Denuncie se estiver recebendo mais de um folheto igual a este.” Por que denunciar? Talvez porque o Nacional queira coibir a prática do seu panfleteiro espertinho que, para se livrar mais rápido da pilha de folhetos a distribuir, deposita mais de um na caixa de correio da mesma vítima.

Resolvi usar o e-mail indicado no folheto (nacionalevoce[arroba]wal-mart.com) para denunciar que estou recebendo “mais de nenhum” folheto:

Em minha caixa de correio, tenho um adesivo que indica claramente: “Não desejo receber material publicitário.” Mesmo assim, contra minha vontade expressa, recebi um folheto impresso com ofertas do Nacional. Por favor, peço providências para garantir que isso não mais ocorra. Resido no Bairro Tal, em Porto Alegre.

Até o momento, sem resposta.

Excel? O que é Excel?

Dizem que a conversa foi exatamente assim:

“Pra isso, em fez de uma tabela no Word, melhor fazer uma planilha no Excel.”
“Excel? O que é Excel?”
“Capaz que tu nunca ouviu falar no Excel!”
“Não. Nunca.”
“Mas… É o Excel! Programa do Microsoft Office! Tem o Word, o PowerPoint, o Excel…”
“Ah, claro que ouvi falar! É o primo verde do Word!”

Entretenimento de semáforo

Vem o sinal vermelho e os carros param. Surge alguém que vai de carro em carro pedindo esmolas aos motoristas até vir o sinal verde. No próximo sinal vermelho, o ciclo se repete. Às vezes há uma etapa adicional: antes da mendicância, malabarismos.

A etapa dos malabarismos me confunde. Mendicância entristece; malabarismos deveriam entreter. As duas coisas não combinam. O paradoxo fica ainda mais acentuado porque em regra a tristeza do mendigo transparece. Mendigar já é degradante; mendigar fazendo malabarismos de má vontade é ainda mais degradante.

O que os malabarismos acrescentam ao ritual de mendicância? Duvido que, simplórios como costumam ser, sensibilizem mais motoristas a dar esmolas. Certamente não transformam as esmolas em remuneração por serviços de entretenimento. Primeiro, porque não entretêm ninguém. Segundo, porque são indesejados.

Já me apareceu um desses malabaristas no meio da noite, num cruzamento deserto. A situação me motivou antes a furar o sinal que a abrir os vidros e dar esmola. Outros fazem malabarismos com pedras grandes ou objetos em chamas — tudo o que ninguém quer perto de carros e combustível. São experiências de medo e nunca de diversão.