Cada um no seu círculo

Uso bem pouco o Google+, mas ele está sempre lá, integrado ao meu e-mail. De vez em quando, alguém me adiciona ao seu círculo. Ontem fui adicionado por alguém que se identificou como morador de Nova Iorque, formado (como eu) pela Faculdade de Direito da New York University e ex-empregado da mesma universidade. Mas não reconheci o nome e logo vi que não podíamos ser conhecidos. Mais: logo vi que seria alguém que eu não gostaria de conhecer. De qualquer forma, nem teria como, porque logo vi que o perfil era falso.

Bloqueei e relatei abuso: “este perfil não representa um indivíduo real”. Cada um no seu círculo.

O indivíduo não real que tentou me adicionar ao seu círculo tinha na sua página de perfil apenas links para um site chamado “Best Essay Cheap” (reluto até a mencionar o nome do site; tanto mais me recuso a colocar um link aqui), que vende trabalhos acadêmicos. Sou ingênuo, mas não a ponto de sequer desconfiar que esse tipo de site existisse. Apenas nunca tinha visitado um. Visitei.

É surpreendentemente bem-feito. Vende abertamente o produto. Aceita PayPal.

O texto de divulgação do site diz mais ou menos o seguinte (traduzo do inglês):

Nosso objetivo é prover aos estudantes trabalhos acadêmicos de qualidade todo o ano. Oferecemos ajuda para escrever [os mais diversos tipos de trabalhos acadêmicos, inclusive dissertações e teses]. O time de nossos escritores qualificados tem muita experiência no ramo de escrita de trabalhos acadêmicos. Todos os trabalhos são escritos a partir do zero, o que significa que você receberá um trabalho original, livre de plágio, dentro do prazo. Além disso, nossos preços são baixos.

Melhores que o texto de divulgação são os termos de uso do site. Seguem alguns trechos:

Você concorda com não distribuir, publicar, transmitir, modificar, apresentar ou criar trabalhos derivados, ou explorar os produtos ou conteúdos deste site, sem prévio e expressa autorização pela companhia.

Você não pode colocar seu nome no produto entregue. Todos os escritos entregues são somente para fins de pesquisa ou referência. Não apoiamos, encorajamos ou participamos conscientemente de plágio ou de quaisquer outros atos de fraude ou desonestidade acadêmica. Respeitamos os direitos autorais e não permitiremos conscientemente que nenhum consumidor cometa plágio ou viole direitos autorais.

Você concorda que os textos ou as ideias dos nossos materiais aos quais que você faça referência ou que de qualquer forma use em seus trabalhos acadêmicos devem ser devidamente citados.

E, claro, a esperada limitação de responsabilidade:

A companhia, suas afiliadas ou parceiras não serão responsáveis por qualquer uso antiético, inadequado, ilegal ou de outra forma ilícito dos materiais escritos recebidos de nosso site. Isso inclui plágio; ações judiciais; notas ou conceitos ruins; expulsão; recuperação ou exame; perda de bolsas estudantis, prêmios, títulos ou posições; repetência; suspensão; ou quaisquer outras ações disciplinares ou legais. Os compradores de material de nosso site são os exclusivos responsáveis por qualquer ação disciplinar resultante do uso impróprio, antiético ou ilegal do material.

Em suma: alegam que vendem textos para pesquisa, mas efetivamente vendem trabalhos acadêmicos prontos, que serão usados como tal. Sabem disso, mas fingem que não sabem. O problema não é só dos que compram os textos. Aqueles que os vendem, ainda que afirmem não encorajar a desonestidade acadêmica, deveriam saber que não só a encorajam, como de fato lucram com ela.  E o fazem de forma hipocritamente sonsa, eximindo-se de responsabilidades, usando o juridiquês (não o Direito, que não se presta para isso) a serviço da torpeza.

 

Muito prazer

Desde que mudei o blog para meu site estou por preparar uma página de autoapresentação. Definir-se é difícil, por isso estou atrasado na tarefa. Falta um pouco de coragem.

Um dia desses eu me lembrei que tive de escrever uma autoapresentação na disciplina de Linguística e Comunicação, que fiz no Curso de Jornalismo da UFRGS há quase dez anos. Resgatei o texto, escrito em 23/03/2004. Seguem alguns fragmentos atualizados e adaptados:

Algum tempo atrás fiz uma profunda interpretação etimológica a respeito do meu nome. Martin é um nome de origem latina, relacionado ao deus da guerra, Marte, e portanto tem algo a ver com guerra, guerreiro, belicoso. Dietrich é uma palavra em alemão usada para designar uma chave falsa em forma de gancho. E Brauch, enfim, é uma palavra também alemã que significa uso, costume, modo tradicional de uma determinada sociedade pensar, sentir e sobretudo agir. Não sei se “homem belicoso que usa uma chave falsa em forma de gancho para arrombar os costumes socialmente arraigados” seria uma definição adequada para mim. A verdade é que, em vez de tudo o que meu nome sugere, sou bem tranquilo.

Mas meu parto não foi lá muito tranquilo. Nasci quase enforcado no cordão umbilical. Não tive sequelas; conseguiram literalmente tirar-me da forca. Nasci no dia 4 de maio de 1985, às 20 horas e 30 minutos, em noite de Lua cheia e eclipse de Lua.

Cresci sobrelevado por exigências e autoexigências. Para meu pai, ter êxito como estudante era apenas uma obrigação minha. Acabei herdando essa concepção. Não pretendo atormentar meus filhos sobrinhos com ela, mas adoto essa exigência para comigo mesmo. Vivi um padrão de qualidade total nos estudos – e sigo vivendo no trabalho.

Meu foco foram os estudos (em Economia, Direito, Direito Ambiental, Direito Internacional). Mas já fiz umas coisas bem interessantes. Já participei de conferências da ONU sobre mudanças climáticas, de olimpíada de química e de concursos de redação. Já publiquei artigos no jornal e criei um jogo sobre meio ambiente. Já toquei em orquestra, cantei em coros e regi coros. Já viajei bastante (e pretendo viajar ainda mais). Gosto de ler, escrever e pensar em português e em línguas estrangeiras – inglês, espanhol, francês.

A mensagem secreta no voto não mais secreto

Não declaramos a perda do mandato de um parlamentar condenado à prisão. O Povo não gostou, achando que não votamos corretamente.

Mas estamos atentos aos clamores do Povo. Em resposta, desengavetamos uma proposta de Emenda Constitucional que acaba com o voto secreto no Legislativo, aprovando-a por unanimidade.

Fique tranquilo, Povo. Agora podemos até continuar votando incorretamente, mas o faremos de forma assumida, publicamente. Lembramos que a obrigação de votarmos abertamente não implica necessariamente em obrigação de deixarmos de ter cara de pau.

P.S.: Se a Emenda Constitucional não for aprovada, a culpa será da outra casa, a da bacia virada para baixo, essa instituição elitista, anacrônica e cheia de segredos. Se nada mudar, como de costume, lavaremos nossas mãos, como de costume, nessa grande bacia virada para cima onde nos reunimos.

Um celular deveria bastar

Primeiro comprei um número daquela azul dos 25 centavos por dia. Estava indo muito bem, até que comprei meu primeiro celular (todos até então tinham sido os antigos de pais, irmãs e cunhados). No novo aparelho, a conexão à Internet por aquela azul dos 25 centavos não funcionou, não sei por quê. Migrei meu número para aquela vermelha dos 21 centavos.

Só que eu já estava mal-acostumado a falar com muita gente por 25 centavos. Além disso, muita gente estava acostumada a falar comigo por 25 centavos e não conseguiu se acostumar com o fato de que meu número passou a ser da vermelha de 21 centavos. Causei confusão.

Então resolvi comprar mais um número da azul de 25 centavos, e usá-lo em um dos celulares antigos, herdados, sobressalentes. Anunciei o novo número ao pessoal da azul de 25 centavos. Continuei usando o número da vermelha de 21 centavos no telefone novo, principal, com Internet.

Ambos são pré-pagos. Gasto no máximo 40 reais por mês e me recuso a gastar mais com celular.

Confusão resolvida – para todos, menos pra mim. Tenho de andar por aí com dois aparelho. Às vezes me esqueço de levar ou de carregar um deles (o sem Internet, o secundário, só para chamadas da azul de 25 centavos). Ou perco chamadas de um ou de outro. Ou me esqueço de bloquear o teclado e faço ligações sem saber. Ou todas as anteriores incontrolavelmente.

Tenho uma colega que optou por não ter celular (mais ou menos como estou quase por optar por não ter carro). Acho admirável. É um fator de estresse a menos.

Pra mim, estresse seria ficar sem celular: não tanto pela telefonia (quase não uso), mas pela Internet. Não me imagino sem. A regra pra mim quanto ao número de celulares é a do “um é pouco, dois é bom, três é de mais”, mas menos um. Nenhum celular seria pouco. Um seria bom. Dois já são de mais.

O problema é que não se tem outra opção. Conheço muita gente que, para economizar, tem números de mais de uma operadora, aproveitando as vantagens de cada uma. Fora dos 21 ou 25 centavos nas chamadas para números da mesma operadora, as tarifas são altíssimas – quatro ou cinco vezes as promocionais. As prestadoras de serviço de telefonia móvel não competem: somente dividem, fidelizam, escravizam. E lucram, claro.

Enquanto isso, na Suíça, uma operadora oferece chamadas internacionais por 5 centavos por minuto. Nos EUA, por menos de 50 dólares tinha um pacote ilimitado em tudo: ligações para fixos e celulares em todo o país, SMS para celulares de todo o país e de qualquer operadora, Internet todos os dias sem limitação de volume de tráfego. Todas as operadoras ofereciam pacotes assim.

Um dia a telefonia no Brasil chega lá. Por enquanto, a dica pra quem quer ter telefone móvel sem gastar um absurdo é confundir os amigos tendo vários celulares pré-pagos, um de cada operadora disponível no mercado, para aproveitar as vantagens de cada uma delas.

E, pra carregar tudo isso, com muito estilo, uma pochete.

Repensando necessidades

Acostumar-se com um aumento no padrão de vida é tranquilo; difícil é aceitar uma diminuição. Desde os casos mais trágicos (perder bens por causa de uma enchente) aos tragicômicos (depois de ter banda larga, mudar-se para uma cidade onde não há portas de banda larga disponíveis e, por isso, ter de voltar à conexão discada), o padrão inferior incomoda e infelicita a vida.

Mas e se, em vez de acidental e súbita, a diminuição no padrão de vida for deliberada? E se for insignificante ou apenas aparente?

É o que tenho pensado ultimamente quanto a deixar de ter um carro. Na linha do último texto, andei conversando sobre o assunto com amigos e parentes no último final de semana. Cada vez fico mais convicto de que o custo de ter um carro não cobre a comodidade.*

Pelo menos para mim. Claro que isso é muito pessoal. Para um pai de família que mora no subúrbio (como a Zona Sul de Porto Alegre), ter carro é muito mais importante que para um solteiro que mora ao lado de dois shopping centers e pode chegar ao trabalho com um só ônibus.

As pessoas com quem tenho conversado parecem um pouco preocupadas: “pensa bem; não age impulsivamente”. Claro. Tenho pensado bastante.

Mas me parece que em parte a preocupação das pessoas (bem-intencionada, sim) se deve a pressupostos diferentes dos meus. Muitos pensam “por que não ter um carro, podendo ter um?” em vez de “por que ter um carro, não precisando de um?”. Talvez pensem mais que eu no status social. Talvez pensem que deliberadamente deixar de ter um carro seria um retrocesso: querer trocar banda larga de 10 Mbps por discada de 56 Kbps… ou por uma vida sem conexão à Internet!

Quando me sinto mais próximo de uma decisão, as dúvidas dos outros me contaminam, mas não num sentido ruim: é bom ter essas dúvidas, porque assim me resguardo de uma decisão impulsiva. Vou seguir brincando de não ter carro (já voltou do conserto, mas ainda não chegou minha carteira de habilitação renovada) e ver como me sinto nas próximas semanas. E aí decidirei.

* Cada vez fico mais convicto de que o custo de ter um carro não cobre a comodidade. Hoje estou aliterando como se não houvesse amanhã. E na verdade não há.

Encanto arranhado

Ontem, a caminho da parada de ônibus, fiquei sabendo que os ônibus não circulariam todo o dia. Paralisação. Poucos dias depois de ter ficado sem carteira nem carro e de ter escrito o seguinte:

[S]ou superpró-ônibus, desde que não esteja superlotado. É bem mais sustentável e bem menos estressante que enfrentar o trânsito sozinho. Leio, ouço música, até escrevo. Foi o que consegui fazer hoje. Vamos ver quanto tempo dura o encanto.

A paralisação me forçou a enfrentar uma corrida de táxi de 60 minutos e 33 reais para chegar ao trabalho. O encanto ficou um pouco arranhado depois dessa, mas não desistirei.

Primeiro, porque ir ao trabalho todos os dias de táxi seria impo$$ível.

Segundo, porque o problema não é o ônibus como meio de transporte – é a impossibilidade de depender exclusivamente do ônibus, por causa do descaso público quanto ao transporte público.

Terceiro, porque tenho uma dorzinha moral quando uso o transporte individual. Usar o carro pode até ser mais cômodo e econômico para mim, mas impõe custos sociais que eu poderia ajudar a evitar: o trânsito, a poluição (sonora, atmosférica) e a emissão de gases estufa, principalmente.

Aliás, tenho dúvidas se usar o carro é mais cômodo. Dirigindo, não posso ler nem escrever. Digo sem orgulho que escrevo, mesmo assim, mas cuidando para apenas digitar rapidamente no celular enquanto espero um sinal verde – e, mesmo com esse cuidado, assumo conscientemente o risco de uma multa. Dirigir na cidade é tempo improdutivo e estressante. Comodidade há, mas até ali.

Também tenho dúvidas se usar o carro é mais econômico: combustível, estacionamento, seguro (que não custa pouco para um carro modesto de um guri solteiro em uma capital cara e com alto índice de furtos e roubos), IPVA e outros tributos, manutenção, lavagens, consertos eventuais, o preço pago pelo próprio carro, a depreciação do carro e a economia necessária para a compra de outro quando o atual deixar de andar bem e tiver de ser trocado (senão antes). Se colocar tudo na ponta do lápis (leia-se “planilha”), o custo não cobre nem a (questionável) comodidade do carro.

A história da fotografia

Quem visita o blog regularmente deve ter observado que ontem comecei a usar o espaço oferecido pelo tema do WordPress para inserir uma imagem de cabeçalho.

(Quem visita regularmente o blog e não observou que agora há uma imagem onde antes não havia pode até andar visitando bastante o blog, mas certamente não anda visitando seu oftalmologista, porque uma imagem de 960 por 250 pixels não é de se ignorar. Se for teu caso, recomendo que pares de ler este post, consultes teu oftalmologista e, claro, retornes de óculos para continuar lendo o blog. Se não tiveres oftalmologista, posso recomendar uma prima minha.)

A cada visita ao site, aparece uma imagem, aleatoriamente. Comecei incluindo quatro imagens, mas aos poucos vou acrescentando mais. Todas são e serão recortes de fotografias minhas, protegidas por direitos autorais morais e patrimoniais.

Além disso, tive a ideia de criar uma categoria de posts: A história da fotografia. Observa que não é A História [ciência] da Fotografia [arte ou técnica ou estilo de vida ou… bah, Fotografia com inicial maiúscula pode ser muita coisa]. É A história (narração de fatos sobre as origens de algo) da fotografia (retrato específico). Nos cabeçalhos do site vou usar fotografias que tenham uma história legal para contar.

Seria injusto começar a categoria só explicando como vai ser. Começando pra valer, segue a primeira foto que deu origem a uma das imagens de cabeçalho do site, uma foto do lugar cuja lembrança foi a origem da própria ideia de usar imagens no cabeçalho do site:

The ceilings I'll bring home someday

The ceilings I’ll bring home someday – O teto que um dia levarei para casa

[Atenção: nostalgia adiante.] Essa foto eu tirei na manhã de 15 de junho de 2011, durante minha mais recente temporada em NYC. Tristemente inacreditável e inacreditavelmente triste que já se tenham passado dois anos! A foto é do meu teto favorito, que é o teto de um dos meus lugares favoritos, a Biblioteca Pública de Nova Iorque, NYPL, na minha cidade favorita. Na NYPL sempre faz frio (+), tem Wi-Fi grátis (++), o prédio é antigo, majestoso e lindo (+++), o cheiro de cultura é inebriante (++++) e o teto eu um dia levarei para casa (+++++).

No dia da foto, eu olhei pra cima e fui atingido por um golpe forte de beleza: o teto de madeira, a pintura celeste emoldurada pelo teto de madeira, a luz do sol refletindo através do arco da janela sobre a pintura celeste emoldurada pelo teto de madeira. É uma das minhas imagens favoritas, que tenho guardada, mais que em uma fotografia, firme na memória.

Visitando há poucos dias o blog de Bryan A. Garner, vi que nele foi usada como imagem de cabeçalho uma foto de uma das (para mim, inconfundíveis) salas de leitura da NYPL; a mesma sala, aliás, onde tirei a foto do teto que um dia levarei para casa. “Se o fotógrafo tivesse olhado para o alto, essa foto seria ainda mais bonita.” Assim foi que surgiram as ideias de usar a fotografia acima (e outras) no cabeçalho do site e de começar A história da fotografia.

Tipologia dos médicos no Brasil

No Brasil
temos médicos
de diferentes tipos:
bem e mal-equipados,
nacionais e importados,
capitalistas e socialistas,
preguiçosos e dedicados,
privilegiados e escravizados,
incompetentes e gabaritados,
com diploma revalidado ou não,
doutores por título e por convenção.

O mais interessante dessa lista de tipos
não é que cada linha fica maior que a anterior,
mas que os mesmos tipos existem noutras profissões,
ainda que dessas outras não se ouçam tantos protestos.

Observa com atenção que esta não é uma crítica aos médicos:
protestar é preciso, se as coisas não vão bem ou deveriam melhorar.

Apenas se deve lembrar que os tipos acima vão bem além da Medicina
e são parte integrante desse rico mosaico de diversidade que é nosso país.

A diversidade pode ser bonita (e é, nos tons de pele, nas ideias, na cultura popular),
mas também pode ser feia (como na coexistência de profissionais bons, medíocres e ruins).

Continuem protestando, médicos. Se me permitem sugerir, coloquem seu protesto no contexto:
o de um país em que meritocracia não é regra e em que prioridades e incentivos estão distorcidos.

O livro de agosto: Crossing

Em junho baixei um e-book gratuito disponibilizado pela University of Chicago Press no seu site de e-books gratuitos do mês. Comecei a ler o livro não logo que o baixei, mas há algum tempo (excessivo), e tinha me determinado a concluí-lo até o fim de agosto. Uma semana adiantado, terminei de ler Crossing: A Memoir, por Deirdre McCloskey (University of Chicago Press, 1999).

Por recomendação do grande Dr. Leo Monasterio, meu professor e orientador em dois ou três ou quase todos os projetos de pesquisa no curso de Economia, minha primeira leitura de McCloskey foi Economical Writing. O livro trata de forma prática sobre redação, estilo e retórica na academia. Enfatiza um pouco a escrita em Economia, em função da especialidade da autora, mas traz lições aplicáveis à escrita acadêmica em geral — aliás, sem exagero, à escrita em geral.

Foi contaminado com esse preconceito positivo que resolvi ler Crossing, da mesma autora, mas com um tema bem diferente: memórias de como ela atravessou a barreira do gênero e se tornou Deirdre, depois de 53 anos vivendo como Donald, casado por 30 anos, pai de dois filhos.

Confesso que inicialmente fiquei um pouco frustrado com a leitura. Tendo como parâmetro de comparação Economical Writing, um texto persuasivo e sucinto que mudou minha vida (sério, mesmo!), achei que Crossing parecia interminável. Em trechos, a autora divaga e conta detalhes irrelevantes para o fio condutor da narrativa, a ponto de me pôr em dúvida sobre continuar lendo.

Li até o fim, em parte porque sou avesso a desistências e em parte pela esperança de que o aparentemente irrelevante teria, afinal, alguma importância. Em regra, minha esperança foi em vão: confirmei que a maioria dos detalhes era mesmo irrelevante.

Mea culpa: tive expectativas equivocadas. Enfeitiçado pela densidade de Economical Writing, esperei o mesmo de Crossing, sem dar atenção a um detalhe tão básico, no subtítulo do livro: A Memoir. Tolinho, eu, esperando objetividade em um livro de memórias, uma obra autobiográfica.

Valeu a pena ler o livro até o fim? Sem dúvida. O jeito, para o leitor impaciente como eu, é nadar mais rápido até a margem do rio de irrelevância e correr para as montanhas onde está o ouro.

É fascinante a história, em termos gerais. Donald, professor universitário estabelecido, aos 53 anos resolve mudar de gênero e, assim, colocar em risco sua vida profissional (que Deirdre mantém com sucesso), suas amizades (que Deirdre mantém, em grande parte) e familiar (que Deirdre perde quase por completo). Independentemente de crítica, não é uma história que se leia com frequência. Vale a pena só por isso.

É surpreendente a firmeza de Deirdre em afirmar que a troca de gênero pela qual passou é uma questão de identidade, e não de sexualidade. Quanto ao assunto transexualidade, eu tinha em mente aquela visão estereotipada, “mulher presa em corpo de homem, ou homem, em corpo de mulher”. A leitura do livro me indicou que não tem de ser assim. Donald viveu bem e feliz e realizado como Donald. Não era efeminado nem se sentia atraído por outros homens. Decidiu tornar-se mulher porque, depois de uma epifania (explicada, mas não muito bem, nas páginas 49 a 51), percebeu que tinha identidade feminina e queria e podia tornar-se mulher.

É eletrizante a saga de Deirdre na luta contra os hospitais psiquiátricos e contra a própria irmã, que tentou interditá-la civilmente. A descrição amarga de Deirdre sobre sua percepção exagerada quanto aos protocolos de tratamento no processo de interdição é bastante marcante (traduzo livremente da página 98):

A vítima [o interditando] não tem direitos civis, especialmente se for pobre e não puder contratar um bom advogado; nada que ela diga terá crédito; as pessoas que dão início ao processo de interdição não estão sujeitas a nenhuma punição de perjúrio ou responsabilidade civil nem mesmo custas judiciais se o seu testemunho for enfim considerado falso; e os psiquiatras fazem todo o possível para evitar a responsabilidade de devolver a liberdade às vítimas, são covardes quanto a assumir a responsabilidade de fazer isso e, com efeito, ficam isentos de responsabilidade pelas consequências de uma detenção irrazoável do interditando.

É comovente o relato de Deirdre sobre o abandono que sofreu da maior parte da família após a decisão de trocar de gênero (mesmo antes de decidir ir até o fim e fazer a operação de troca de sexo). Tudo bem que a família tenha dificuldade em aceitar e leve tempo para aceitar, mas, depois de fato consumado, não faz sentido não aceitar. A esposa perdeu o marido (homem) e os filhos perderam o pai (homem), mas a pessoa que eles amavam como marido ou pai continuou existindo. No caso de Deirdre, não importou: sua ex-mulher e seus filhos cortaram relações com ela. A reflexão é inevitável. Natural? Radical? Faríamos o mesmo se acontecesse com alguém de nossa família? Quais são os limites do amor?

Por fim, é interessante como a autora demonstra que muitas das diferenças entre mulheres e homens são culturais (e não genéticas). Foi por isso que ela conseguiu tornar-se muito mais feminina que se poderia supor que sua genética masculina permitiria.

Ao mesmo tempo, é provocante e irritante como, ao mesmo tempo, ela reforça estereótipos. De forma feminista, enaltece as virtudes do Clube da Luluzinha e menospreza os vícios do Clube do Bolinha: homem “eu”, mulher “nós”; homem emocionalmente burro, mulher empática e sentimental; homem monotarefa, mulher multitarefa; homem agressivo, mulher sensível.

Esse tipo de estereótipo me cansa. O fato de um Donald pode se tornar uma Deirdre com bastante sucesso (aceitação social como mulher) demonstra não só que o determinismo genético sobre as características de gênero é um mito, mas também que as condicionantes socioculturais também podem ser vencidas e que, portanto, os estereótipos devem ser desconstruídos.

Barbeiragens

Estou legalmente proibido de dirigir automóveis de passeio em todo o território nacional da República Federativa do Brasil, porque fiz a maior barbeiragem dos últimos dez anos, desde que tenho carteira de habilitação: deixei-a vencer.

Felizmente, vencida a carteira de habilitação, ainda se pode circular por trinta dias portando a vencida, enquanto se providencia a renovação. Felizmente, mas não para mim, porque ironicamente só no trigésimo dia após o vencimento percebi que a carteira tinha vencido.

Até que não poder dirigir por um tempo foi conveniente, de certa forma. Levei (digo: deixei meu pai levar, porque não posso dirigir) o carro para o conserto de outra grande barbeiragem que fiz: estacionei o carro na rua, onde um barbeiro pior que eu bateu no meu carro. Estacionado.

Sem carteira de habilitação nem carro. Foi assim que ontem, uma linda segunda-feira de inverno, dessas em que parece chover de baixo para cima, fui de ônibus ao trabalho, e de lá a pé para o centro de formação de condutores, encaminhar a renovação da carteira, e de lá a pé ao trabalho.

Classe média sofre.

Sem nojinho, a verdade é que sou superpró-ônibus, desde que não esteja superlotado. É bem mais sustentável e bem menos estressante que enfrentar o trânsito sozinho. Leio, ouço música, até escrevo. Foi o que consegui fazer hoje. Vamos ver quanto tempo dura o encanto.