Hannah Arendt (2012)

A convite dos amigos Karina e Felipe (que eu espero que voltem a ler meu blog regularmente, agora que eu voltei a escrever nele regularmente!), fui assistir ao filme Hannah Arendt (2012), em cartaz no Espaço Itaú de Cinema. (A partir daqui, pode haver spoilers!)

O filme trata da parte da vida de Arendt em que ela, já radicada em Nova York, vai a Israel em 1961 como correspondente da revista The New Yorker para acompanhar e relatar o julgamento de Adolf Eichmann, ex-oficial da polícia secreta alemã envolvido diretamente no Holocausto. Ela viu nele não um ser monstruoso e cruel, mas um exemplo de mediocridade: ele teria agido como um simples cumpridor de ordens de seus superiores, sem reflexão crítica. Nesse sentido e com base em sua descrição de Eichmann foi que Arendt cunhou a expressão “banalidade do mal”.

Seus cinco artigos publicados após o julgamento em The New Yorker escandalizaram muitos, tanto no público em geral, que já havia condenado Eichmann desde antes mesmo do julgamento, quanto nas comunidades acadêmica e judaica, das quais ela fazia parte. Os artigos deram origem ao livro Eichmann em Jerusalém: Um relato sobre a banalidade do mal (título original: Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil), publicado pela primeira vez em 1963. O filme é um convite à leitura do livro, que já foi para minha (infindável) lista de leituras.

 

 

A ambiguidade que é linda

Como os textos dos últimos dias foram bem densos, hoje vou pegar mais leve. Ao escrever o texto de ontem, sobre e contra a não conjunção “e/ou”, passei rapidamente por Machado de Assis, para tratar não de “e/ou”, mas de ambiguidade:

A ambiguidade, quando intencional, pode ser linda. É recurso literário. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho com Escobar? Não há como saber. Ainda bem.

Se não sabes a que livro faço referência, visita este link e só volta a ler este post depois de ler todo o texto do link. Aliás, só volta a fazer qualquer outra coisa depois de ler todo o texto do link. Por favor.

Quem já leu Dom Casmurro ou outras obras de Machado de Assis está dispensado de clicar no link acima e pode continuar lendo este post (eu deixo), porque já foi convidado a conhecer a beleza da ambiguidade na Literatura e sabe o que eu quero dizer.

Li uma entrevista muito interessante com o professor Berthold Zilly, que fez uma versão em alemão de Memorial de Aires. Ele falou sobre o estilo de Machado de Assis e as dificuldades que impõem ao trabalho do tradutor:

A ambiguidade, a falta de definição […,] é um princípio tanto da visão do mundo como da visão do homem, bem como do estilo, do manejo das palavras e da construção da sintaxe de Machado de Assis. Uma certa falta consciente de definição e clareza. Tudo é um pouco dúbio e vago. Também em termos morais. É difícil saber o que é bom e mau, real e ficção e qual o sentido exato das palavras e frases. […] Traduzir é sempre complicado, e Machado de Assis em especial.

Recomendo a leitura do texto integral da entrevista.

E, claro, também recomendo a leitura de Machado de Assis.

Manifesto contra o “e/ou”

Normalmente se explica o uso de “e/ou” com base na necessidade de expressar que algo pode ser só uma coisa, ou só outra coisa, ou ambas ao coisas simultaneamente. Um bom exemplo é o texto que a Wikipédia inclui nas páginas marcadas para revisão:

Esta página foi marcada para revisão, devido a inconsistências e/ou dados de confiabilidade duvidosa.

A página pode ter sido marcada para revisão só por causa da existência de inconsistências, ou só por causa da existência de dados de confiabilidade duvidosa, ou por causa da existência simultânea de inconsistências e de dados de confiabilidade duvidosa. Com o objetivo de prever todas essas possibilidades, a Wikipédia usou a expressão “e/ou”.

Esse argumento pode até explicar o uso de “e/ou”, mas não o justifica. “E/ou” tem um aspecto trágico que torna seu uso reprovável: pode gerar ambiguidade não intencional, uma dificuldade ou mesmo impossibilidade de interpretação.

A ambiguidade, quando intencional, pode ser linda. É recurso literário. Afinal, Capitu traiu ou não traiu Bentinho com Escobar? Não há como saber. Ainda bem.

O problema é a ambiguidade não intencional e fora do contexto literário. No texto jurídico, por exemplo, ambiguidade não pode ter lugar.

Vamos supor que, ao redigir um contrato, as partes estabeleçam que a obrigação é “uma e/ou outra”. Se houver discussão judicial desse contrato, o credor argumentará que é a obrigação é “uma e outra”; o devedor, que é “uma ou outra”. O juiz, coitado, terá de decidir ou em favor de um ou de outro, porque as interpretações deles são logicamente irreconciliáveis. Não importa o que o juiz decida, nunca haverá certeza de qual seria a obrigação que as partes realmente pretenderam estabelecer. E isso só aconteceu porque não souberam redigi-la.

Ainda pior que a ambiguidade gerada pelo “e/ou” é sua falta de justificativa lógica e gramatical.

Meu dia será feliz se e somente se eu comer queijo doce de leite no café-da-manhã. Preciso comer queijo e doce de leite no café-da-manhã para ter um dia feliz. Se comer só queijo, ou se comer só doce de leite, não terei um dia feliz. O “e” exprime bem essa ideia de adição. A gramática lhe deu o nome feio de conjunção coordenativa copulativa.

Meu dia será feliz se e somente se eu comer ou queijo ou doce de leite no café-da-manhã. Aqui, a felicidade do meu dia fica condicionada ao consumo de um só desses itens no café-da-manhã. Se consumir queijo doce de leite, ponho tudo a perder (digamos, porque minha dieta vai para o espaço). O “ou… ou”, que é o responsável por indicar claramente que as alternativas são mutuamente exclusivas, recebe o nome feio de conjunção coordenativa disjuntiva exclusiva.

Meu dia será feliz se e somente se eu comer queijo ou doce de leite no café-da-manhãSe comer só queijo no café-da-manhã, serei feliz; se só doce de leite, também. E se comer os dois? De acordo com a lógica (dos matemáticos e dos gulosos), também. O “ou” usado na frase tem essa propriedade mágica de fazer com que as alternativas não se excluam mutuamente. Mesmo sendo mágico, esse “ou” foi punido com o nome feio de conjunção coordenativa disjuntiva inclusiva.

É nesse último caso que tende a surgir em alguns a tentação de usar “e/ou”. Como comentei logo no início do texto, o “e/ou” normalmente é empregado em situações em que pode ser uma coisa, ou outra coisa, ou ambas. Agora, por que usar “e/ou” se um simples “ou” exprime a mesma ideia, sem causar risco de ambiguidade?

“Mas um ‘ou’ não me parece suficiente para deixar claro que a felicidade do meu dia está garantida se no café-da-manhã eu comer só queijo ou só doce-de-leite, bem como se eu comer ambos”, diz o meu amigo excessivamente zeloso, e continua: “Nesse caso, não caberia usar um ‘e/ou’?” Minha resposta é, categoricamente, não, pelo risco de ambiguidade. Se o excesso de zelo requerer, sugiro o seguinte: Meu dia será feliz se e somente se eu comer queijo ou doce de leite, ou ambos, no café-da-manhãAplaquei a necessidade de ser zeloso, mas, francamente, não melhorei em nada a frase com o acréscimo desse “ou ambos”. O “ou”, sozinho, bastava.

Mas o vício do “e/ou” é difundido e chega a produzir absurdos — “e/ous” usados para conectar ideias mutuamente exclusivas. Basta googlar por “responsabilidade solidária e/ou subsidiária” e perceber que há resultados, quando não deveria haver. No Direito, a responsabilidade pode ser ou solidária ou subsidiária; não pode ser solidária subsidiária ao mesmo tempo.

Lógica, gramática e glutonaria à parte, concluo com mais alguns argumentos contra o “e/ou” (todos começando com a letra “e”, só porque me deu na telha):

  • Estética ou estilo: “E/ou” é deselegante. “Essa é a tua opinião”, diz meu amigo que leva tudo para o lado pessoal. Pode ser, mas não estou sozinho. Um número significativo de manuais de estilo e redação desaconselha o uso do “e/ou” justamente por ser deselegante e confuso.
  • Economia: Se em vez de cada “e/ou” que escrevi neste texto até aqui eu tivesse usado apenas “ou” (o que, conforme demonstrei, teria sido suficiente), teria economizado minha energia de digitar 30 caracteres e tua energia de ler 30 caracteres. A economia é significativa. E isso que só tratei de economia de energia.
  • Esmero na escrita: Se usei “e/ou”, é provável que tenha sido por ficar em dúvida entre “e” e “ou”, seja por não saber exatamente a ideia que queria expressar, seja por não querer parar para pensar sobre qual conjunção usar. Ora, se não sabia o que queria escrever, ou se tive preguiça de pensar antes de escrever, provavelmente não deveria ter escrito nada.

Concordando (ou não) com Ruy Barbosa

Por causa do texto de ontem e do sentimento que me inspirou a escrevê-lo, hoje pensei em Ruy Barbosa. Importante jurista brasileiro na transição do século XIX para o XX, em diversas oportunidades ele escreveu sobre a importância do advogado e do exercício da advocacia conforme princípios éticos. Por exemplo:

A profissão de advogado tem, aos nossos olhos, uma dignidade quase sacerdotal. Toda a vez que a exercemos com a nossa consciência, consideramos desempenhada a nossa responsabilidade.

Lendo um pouco sobre o autor da frase, percebi que ele e eu temos um tanto em comum além da formação jurídica e da defesa da ética na advocacia. Ele acreditava no poder da escrita. Gostava de línguas estrangeiras. Defendia o Direito Internacional. Era metódico, obstinado, perfeccionista, detalhista, revisor compulsivo. E por muitos contemporâneos seus era tido como um mala.

Também percebi outro tanto de diferenças entre ele e mim. A primeira e mais evidente é que Ruy Barbosa foi uma figura de importância histórica inegável e de inteligência admirável, enquanto eu não passo de um guri. Envolvia-se ativamente na vida política do país e tinha influência. Ele também era um grande patriota, até ufanista, o que eu não conseguiria ser nem se quisesse.

Ele ainda era prolixo e pedante. Eu, se tenho esses defeitos, tenho as defesas de que já fui pior (“estou melhorando”) e de que pelo menos tento melhorar, deliberadamente. Já ele era prolixo e pedante sem medo de ser feliz. E isso não é uma crítica. Talvez fosse apenas o estilo de redação e oratória do mundo em que ele viveu, mas que não cabe no mundo em que vivo.

Voltando ao discurso ético de Ruy Barbosa, tenho uma história de infância para contar sobre uma das mais célebres frases dele:

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Meu pai costumava ter um poster com essa frase em seu escritório. Por isso, conheço-a desde meus primeiros anos escolares. Quando ainda não tinha condições de entendê-la, tinha a impressão de ser longa e desnecessariamente complicada, porque poderia ser expressa de forma mais simples e sucinta. Depois que passei a entendê-la, minha impressão tornou-se certeza.

Hoje, mesmo discordando do estilo de argumentação, compreendo o argumento e o sentimento que o motiva. Porém, mesmo tendo essa compreensão, não concordo com o argumento nem compartilho do sentimento que o motiva.

Quanto mais nulidades eu vejo triunfar, quanto mais vejo prosperar a desonra, quanto mais vejo crescer a injustiça, quanto mais vejo agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, mais sede eu tenho de virtude, honra e honestidade. Se por causa dessas situações eu desanimasse da virtude ou me risse da honra ou tivesse vergonha de ser honesto, não seria um homem, como Ruy Barbosa parece sugerir — eu seria um rato.

(A Revista Época publicou um especial sobre Ruy Barbosa. Vale a leitura.)

Advogado antiético: a exceção que envergonha a regra

Num dos últimos cultos a que fui, durante a mensagem, o pastor ironizou a ética dos advogados. Não me lembro exatamente do que disse. Foi algum comentário generalizador, no sentido de que todo advogado seria antiético, dito num tom de pressuposto lógico. Não nas seguintes palavras, mas no seguinte espírito: “é óbvio que todo advogado é antiético e que todos vocês sabem disso e concordam com isso; portanto, vocês concordarão com tudo o eu disser a seguir”.

Mais lamentável que o próprio uso de sarcasmo como ferramenta para validar o discurso e ganhar a cumplicidade e dos ouvintes, especialmente inapropriado no contexto de um culto cristão, foi o fato de a artimanha ter permitido ao pastor alcançar o resultado pretendido. Os ouvintes riram risos abafados, com cumplicidade. “É bem isso, mesmo: todo advogado é antiético. Vamos ouvir e concordar com o que ele disser a seguir.”

Mesmo correndo o risco de aprofundar minha notória ingenuidade, acho que pode não ter sido um comentário mal-intencionado por parte do pastor. Afinal, a intenção dele não foi criar nem reforçar um preconceito contra os advogados: foi apenas beneficiar-se de um preconceito já existente. Ao mesmo tempo que não foi mal-intencionado, tampouco foi bem-intencionado: não ajudou a amenizar esse preconceito, que, como todo preconceito, não tem fundamento.

Ser fiel à verdade, agir com lealdade e de boa-fé nas relações profissionais, merecer a confiança do cliente e da sociedade pelos atributos intelectuais e pela probidade pessoal — mais que obrigações, esses são princípios formadores da consciência profissional do advogado, e não poderia ser diferente: confiança é essencial. Infelizmente, uma minoria de profissionais antiéticos cria uma névoa de desconfiança que a maioria se ocupa de dissipar. Novamente correndo (sem medo) o risco de ser acusado de ingênuo ou romântico, refuto absolutamente o preconceito, não só porque eu mesmo sou advogado e ajo rigorosamente conforme princípios éticos, mas também porque conheço muitos outros advogados que fazem o mesmo. Somos a maioria.

A vida após a Índia

Faz quase um terço de ano que assumi o desafio de um emprego novo. Para minha surpresa, um dia desses um casal de amigos próximos ainda achava que eu continuava no trabalho anterior.

Engano perfeitamente compreensível. Foi uma transição inesperada, rápida e discreta.

Na mesma semana em que voltei da Índia, no fim de janeiro, o RH de um grupo de mídia (jornal, rádio, TV e online) encontrou meu perfil no LinkedIn e manifestou interesse em me entrevistar. Eu não tinha muito interesse inicialmente, porque estava em linhas gerais bem satisfeito no meu trabalho e não estava pensando em buscar outras oportunidades. Depois de um pouco de insistência, concordei em participar de uma entrevista, que acabou levando a outras quatro e, no início de março, a uma proposta de emprego que eu não podia deixar de considerar.

Fico impressionado com minha propensão a me encontrar em dilemas que não procurei. Trabalhando por um ano e meio como advogado associado na área contratual de um escritório de advocacia respeitado de Porto Alegre, sentia que vinha crescendo bastante na prática transacional e consultiva. Gostava do trabalho, do clima de trabalho, do chefe, da equipe, das outras equipes. Nada era perfeito (porque nada é), mas eu não estava procurando alternativas. Eis que surgiu uma, e então eu tinha de decidir.

Avaliei cuidadosamente a proposta. Achei que valia investir na mudança (de escritório de advocacia de porte médio a departamento jurídico de sociedade empresária grande), pela experiência de trabalho sob um ângulo inédito, pelas perspectivas de carreira, pelo prazer de trabalhar com comunicação. Fui transparente quanto à proposta a meu chefe à época. Por fim, resolvi sair do escritório — em muito bons termos com o chefe e os demais sócios — e aceitar a proposta.

Impossível saber se foi a melhor decisão, em termos absolutos, e acho que nem cabe tentar chegar a uma conclusão sobre isso. As certezas que tenho hoje são de ter tomado a melhor decisão que poderia tomar naquele momento, de gostar do que faço tanto quanto gostava do que fazia, de continuar crescendo profissionalmente e trabalhando com ética e dedicação.

A importância de Chico Pedreiro

Embora de uma forma bem diferente da que eu imaginava na minha adolescência (mas o que eu imaginava não é o assunto deste post!), vivo da palavra. Como advogado consultivo, a palavra é meu principal instrumento de trabalho para interpretar o Direito, aconselhar clientes, redigir contratos e revisar (ou reescrever, em casos extremos) contratos preparados por outros.

Há poucos dias, conversando sobre redação com uma colega que pensa bastante como eu quanto ao assunto (ambos adotamos a definição de “escrever” como “a arte de cortar palavras“), chegamos à discussão sobre “certo” e “errado” na escrita. Nesse contexto foi que me me lembrei do texto do post anterior, que escrevi para uma disciplina de Linguística e Comunicação no Curso de Jornalismo da UFRGS, em 2003 (longínqua época em que Linguística ainda se escrevia com trema). Em homenagem ao décimo aniversário do texto, resolvi publicá-lo aqui no blog.

Normalmente não gosto do que escrevo, mas esse texto quase podia ser uma exceção. Observa que não chega a ser exatamente isso. Gosto do texto, pela ideia, pela mensagem, pela nostalgia. Hoje a nostalgia é dupla, porque diz respeito tanto ao tempo em que “desimportante não existia” quanto ao tempo em que, um dia por semana, eu viajava três horas e meia na ida de Pelotas a Porto Alegre e mais três horas e meia na volta, só para estudar Linguística na Úrguis.

Ao mesmo tempo, o texto me envergonha pelo pedantismo de primeiranista de Bacharelado em Direito, aquele pedantismo que muitos colegas juristas parecem levar consigo deliberadamente não só até o fim do curso, mas até o túmulo, para a desgraça das profissões jurídicas e, com um pouco de exagero aceitável, da humanidade. O texto me faz perceber o quanto minha redação hoje é menos metida a besta e mais concisa. Nesse sentido, gosto dele até porque não gosto dele; ele me provoca, como Camões talvez colocasse, um contentamento descontente.

Chico Pedreiro: uma pessoa muito importante

Ok. Um gesto simples para o estudante universitário diante do computador, mas intenso para a afirmação lingüística do jovem de dezoito anos. Pode parecer ridículo – e é, até certo ponto –, mas o que tem a dizer o corretor ortográfico do Word importa, sim. Afinal, é nele que tomo referência para retificar deslizes de digitação e grafia de meus trabalhos acadêmicos e de todos os meus escritos que, por absoluta falta de paciência e romantismo, não faço a mão. É o momento: estou em êxtase. Sem mais delongas, passo a digitar, pleno de expectativas. A palavra parece envolta ainda em névoa. Aí está ela, enfim, nítida: desimportante.

Pronto, passou. Contudo, para minha profunda decepção, ali está a agressiva linha serrilhada, nesse vermelho berrante que me faz doer os olhos e a alma, abaixo da palavra desimportante, que meu dicionário eletrônico desconhece. Até tu, Brutus?

Calma, leitor afoito. Não estou sob efeito de quaisquer entorpecentes. A tua indignação ante este texto igualmente indignado bem que se justifica, uma vez que não conheces minha história.

Precisamente no dia 10 de abril de 1997, eu fazia uma prova de língua portuguesa, na sexta série primária. Chico Pedreiro foi uma pessoa muito importante. Essa afirmação bem simples e particularmente imbecil eu tinha de reescrever, substituindo a palavra importante por outra de significado contrário. Chico Pedreiro foi uma pessoa muito desimportante, escrevi, na minha letrinha tosca de guri de onze anos.

Um X bem grande pra mim: questão errada. O léxico internalizado de minha cara professora (a quem eu não deixei de estimar, apesar da intolerância que teve para com minhas intuições lingüísticas) não reconhecia a palavra desimportante. Resposta certa e viável seria insignificante. Chico Pedreiro foi uma pessoa muito insignificante. O meu colega e amigo Hugo tinha acertado. Que inveja – claro, como se eu não conhecesse a palavra! Uma bobagem minha…

Mas eu ainda lembro. Não concordei assim, sem reservas ou contestações. Em casa, procurei no meu Aurelinho, mas ele não registrava o desimportante. Procurei no Luftinho de uma de minhas irmãs, mas ele também não registrava o desimportante. Nenhum dos dicionaristas em meu alcance deu a mínima importância ao desimportante. Também pudera: dicionaristas têm mais o que fazer do que dar importância ao desimportante, digo, ao insignificante (dizia a professora: desimportante não existe). E eu, que na hora do aperto da prova me sentira tão feliz com a minha construção vocabular por prefixação, depois do resultado, senti-me desimportante (sic). Sic, assim mesmo, tão mínimo e insignificante que não chegava sequer a existir, naquele momento: era uma coisa desimportante.

Superei a situação. No fim das contas, aquilo era, de fato, desimportante, ou melhor, insignificante. Tirei nove-e-seis – além dos dois décimos descontados por conta do desimportante, havia na prova outro erro insignificante – e não mais me preocupei com questões como aquela, de pouca importância (para não dizer outra coisa).

Isso até hoje, 3 de julho de 2003. O mundo deu 2.274 voltas em torno de si e eu vim parar numa aula de Lingüística e Comunicação, na Fabico, um ambiente que tem algo de superior à escola primária em que estudei – sem querer tirar das escolas públicas estaduais sua relevância, digo, significância, ops… ah, entenda-se! E hoje a professora de Lingüística me transportou sem querer aos meus longínquos-mas-nem-tanto anos pueris, fazendo retumbar em meus ouvidos um sonoro desimportante.

O tema da aula, por segundos, perdeu a… ahm… importância. Tudo parecia um déjà vu daqueles de rachar a cabeça. Cinco horas depois, chego em casa (acontece que moro um pouco longe da faculdade) e não tenho dúvida: consulto meu dicionário, que hoje é um Aurelião Século XXI. Coisa de doido, mas lá estava, inabalável, inatingível, irrevogável, escrito na História e, sobretudo, mais importante do que nunca, o meu, o meu desimportante: adjetivo que significa de nenhuma ou pouca importância. Yes! Olho para a negra noite de inverno. Uma luz se abre dos céus sobre mim e me regozijo: os lexicógrafos ouviram enfim as minhas preces! E ouço um canto divino, angelical.

Agora, porém, acabo de cair em tristeza. O meu corretor ortográfico não reconhece a importância do meu desimportante. Além dele, estão lá na minha estante, ainda ignorantes, o Aurelinho e o Luftinho – e tantos outros, em bibliotecas pelo Brasil afora. E, pior, talvez alguma professora esteja por aí, censurando guris que se atrevam a lançar mão de palavrinhas que fogem ao seu restrito universo; digo, palavrinhas que fogem não ao universo do aluno, mas ao da professora. E talvez os guris se creiam usuários incompetentes da língua portuguesa – talvez se achem uns desimportantes. Queria poder dizer a todos que não desanimem: a redenção, embora tardia, veio a mim, e um dia virá também a eles.

Délhi: último destino do tour pela Índia

Após visitar Mumbai, Jaisalmer, Jodhpur, Jaipur e Agra, terminei a viagem pela Índia na capital, Délhi. Lá fui muito bem recebido pela amiga Ranjitha, ex-colega de mestrado.

Por uma feliz coincidência, cheguei à capital indiana em um feriado nacional: o Dia da República, quando se comemora o aniversário da promulgação da Constituição da Índia (26 de janeiro de 1950). Depois de passear um pouco com a Ranjitha na vizinhança onde ela mora, visitando um templo hindu e provando doces indianos na doçaria Nathu’s, fomos ao centro de Nova Délhi, ver a iluminação dos edifícios do governo em comemoração ao Dia da República. (Ao tradicional desfile militar que ocorre na tarde do dia 26 de janeiro eu não tive a oportunidade de assistir.)

Rashtrapati Bhavan, complexo palaciano presidencial da Índia, iluminado para o dia nacional.

Detalhe do Rashtrapati Bhavan, decorado com luzes e a bandeira indiana.

Caminhando do palácio até o restaurante onde jantamos, passamos pelo India Gate, um monumento nacional em homenagem aos soldados indianos que lutaram na I Guerra Mundial e nas Guerras Anglo-Afegãs de meados do século XIX até as primeiras décadas do século XX. O monumento, como o palácio, estava decorado para a festa.

Índia Gate, iluminado com as cores da Índia

No dia seguinte, a Ranjitha voltou à advocacia — e eu voltei à minha intensa rotina de passeios com guia turístico! Logo de manhã cedo, a primeira parada foi em Old Delhi, a cidade antiga. O principal destaque foi a Jama Masjid, a maior e mais conhecida mesquita da Índia, construída em arenito e mármore em meados do século XVII, por ordem do imperador mogul Shah Jahan (o mesmo que determinou a construção do Taj Mahal para sua falecida esposa). Também fiz um passeio de rickshaw pelas ruas estreitas da cidade antiga.

Panorâmica de Jama Masjid

Jama Masjid

As próximas paradas foram o Raj Ghat, jardim memorial onde Mahatma Gandhi foi cremado, e o Mausoléu de Humayun. O túmulo foi construído em 1565 para o segundo imperador mogul e tem diversos elementos de inspiração para muitos outros edifícios de arquitetura mogul (inclusive o Taj Mahal): a simetria perfeita, a cúpula de mármore, as jalis (telas de treliça de pedra).

Chegando ao Mausoléu de Humayun

Também fui ao Parque Arqueológico Mehrauli, que se destaca pelo Qutb Minar, a mais alta torre isolada da Índia, de arenito e mármore. O minar de cinco andares começou a ser construído no ano 1192 como símbolo de poder do primeiro reino muçulmano (sultanato) no Norte indiano. Tem 379 degraus e 72,5 metros de altura, com diâmetro de 14,3 metros na base e 2,7 metros no topo.

Qutb Minar

Ao fim do dia intenso de passeios, jantei na companhia da Ranjitha e da Ruchira, também amiga indiana e ex-colega de mestrado, no Oh! Calcutta, restaurante com pratos da região de Bengala.

No dia seguinte, parece que comecei a sutil transição do mundo do turismo e da História para o mundo do trabalho e do Direito: assisti, por convite do pai da Ranjitha, a alguns minutos de uma sustentação oral na câmara do Tribunal de Délhi especializada em Direito da Energia. Pode parecer uma quebra de clima, balde de água fria nas férias, mas foi uma experiência muito legal!

Os julgadores eram um juiz-jurista e um juiz-engenheiro. Mesmo em poucos minutos, já pude começar a entender do assunto de que estavam tratando (embora, naturalmente, não conhecesse as normas indianas aplicáveis ao caso). Mas o que nunca me sairá da cabeça daquele dia, sobretudo pela insistência da advogada de defesa em repeti-la, é a expressão “Your Lordship“, correspondente ao “[Vossa] Excelência” usado no Judiciário brasileiro.

Ainda sobrou um tempinho para um passeio nos jardins Lodi, onde há túmulos construídos nos séculos XV e XVI — hoje, um parque amplo e bem-cuidado.

Sheesh Gumbad, um dos túmulos nos jardins Lodi.

Por fim, almoço, malas e aeroporto de Délhi, para começar a longa jornada de volta: primeiro a Mumbai, depois a Dubai, depois a São Paulo, e enfim a Porto Alegre. Uma longa viagem com direito a virose (nos últimos dias, parece que uma das temidas bactérias da água indiana enfim me encontrou!), mas essa parte vamos deixar pra lá.

Deixei a Índia com os olhos repletos de belas imagens, apesar dos fortes contrastes entre partes deslumbrantes e partes de extrema desesperança. Durante a viagem, reforcei minhas impressões positivas sobre o povo indiano e sobre a riqueza histórico-cultural do país. Espero ter a oportunidade de voltar lá um dia, para conhecer o Leste e o Sul.

Agra (4/4): Aurora no Taj Mahal

A ideia de uma visita ao Taj Mahal logo após o nascer do Sol foi uma das melhores da agência de viagem. A experiência é muito favorecida pela iluminação natural do alvorecer, com seus tons suaves de azul e rosa, e pela quantidade relativamente baixa de turistas (é um dos monumentos mais visitados do mundo, então sempre há um número significativo de turistas).

Depois da longa fila no ar gelado da manhã, avistar o Taj Mahal de longe já foi compensador.

Outra vantagem de visitar o Taj Mahal pela manhã é que, bem cedo, os jatos do espelho d’água ainda não foram ligados. Só assim (e num dia sem vento, como no da minha visita) é que se conseguem reflexos límpidos do mausoléu sobre o espelho d’água.

Olhando para trás, o portão de entrada e seu reflexo sobre o espelho d’água.

Turística foto, sentado no mesmo banco onde a Princesa Diana foi fotografada 21 anos antes, em 1992, quando viajou à Índia com o Príncipe Charles. Além da ironia de Diana ser fotografada sozinha em frente a um dos mais significativos monumentos ao amor, é irônico que tenha sido naquele mesmo ano, meses depois, que ela e Charles se separaram.

Fofocas da realeza à parte, sigo com as fotografias do meu passeio!

Impressiona a riqueza de detalhes do Taj Mahal, mesmo nas partes mais altas.

No detalhe, decorações florais e passagens do Alcorão, o livro sagrado do Islamismo. Essas textos também foram feitos com a técnica de pietre dure, com mármore preto incrustado no branco.

Nas paredes da entrada do mausoléu (dentro do qual a fotografia é proibida), há entalhes florais em placas de mármore, com uma moldura de padrões florais em pietre dure.

Vale ressaltar a dificuldade técnica desses entalhes. Enquanto outros tipos de mármore (como o de Carrara, muito usado para esculturas na Europa) são considerados mais macios, a dureza do mármore de Makrana torna-o mais propício à construção de estruturas, como o próprio Taj Mahal.

Detalhe dos arcos que há em cada corte dos vértices do mausoléu. Tudo perfeitamente simétrico.

A mesquita do Taj Mahal, ao Norte do mausoléu.

Uma foto do lado Sul do mausoléu, sem os minaretes. Resta pouco da iluminação do alvorecer.

Última foto: o Taj Mahal, inteiro e plenamente iluminado, no seu lado Sul.