Meu primeiro casamento indiano

Há cerca de um ano recebi por e-mail o convite de casamento da Rahela, uma das boas amigas indianas que fiz durante o mestrado na NYU: casamento marcado para o início da segunda quinzena de janeiro de 2013.

Fiquei empolgado e desde logo quis ir, mesmo que implicasse algum $acrifício. Um autêntico casamento indiano, na Índia, com a oportunidade de rever, além da própria noiva, outros amigos do mestrado (também convidados), não é algo que me aconteça muito frequentemente.

Fiquei empolgado, mas não planejei nada, porque a data parecia tão distante! Lá por setembro a Rahela pediu meu endereço postal para enviar o convite impresso. Por erro do correio indiano, o convite foi enviado ao Equador (?) e reenviado de lá a Porto Alegre.

Afinal, só no início de dezembro marquei férias, pedi (e consegui!) o visto indiano, comprei as passagens e reservei com um agente de viagem indiano recomendado pela Rahela um pacote pós-casamento – tudo para viajar em meados de janeiro!

Porto Alegre – São Paulo – Dubai – Mumbai… Quase 19h de voo depois, cheguei à Índia por volta das 8:30 da manhã no horário local, no dia 16 de janeiro. A Índia tem um meio fuso horário: se lá eram 8:30, no Brasil eram 7h30min mais cedo (1:30 da manhã).

Já na chegada ao aeroporto, ficou em evidência pela primeira vez a organização neurótica da noiva (é um elogio, porque eu amo organização neurótica!): um motorista me esperava para me levar ao Grand Hotel Bombay, em Ballard Estate, um simpático e muito bem localizado hotel onde a noiva tinha pré-reservado quartos de hotel para todos os convidados da NYU.

O trânsito do aeroporto ao hotel é uma história à parte. Foi um tratamento de choque para o turista recém-chegado. O trânsito na Índia é caótico. Levei mais de duas horas (no horário de pico!) para percorrer uma distância de uns 24 quilômetros. E o motorista não tinha muita certeza de onde ficava o hotel, porque “endereço”, na Índia – tipo rua e número, mesmo – não é lá algo muito comum. “Bairro tal, perto do posto do correio” é um endereço megapreciso para os padrões indianos que conheci.

Chegando ao quarto do hotel, mais uma surpresa: a noiva tinha pedido para deixarem na mesa de centro do meu quarto uma bandeja de madeira, pintada a mão por crianças envolvidas em um projeto social e coberta com guloseimas indianas, para lanches rápidos.

Sobre a minha cama, havia um pacote com uma calça pyjama bege e uma espetacularmente linda túnica kurta azul-petróleo com bordados, exatamente do meu tamanho – roupa em estilo indiano para eu usar no evento principal do casamento (porque houve vários!).

Enquanto fazia os planos de viagem, eu tinha comentado com a Rahela por e-mail que gostaria de usar roupas indianas e que nem levaria terno. Pedi a ela que me recomendasse lojas onde comprá-las em Mumbai e me indicasse alguma amiga ou amigo dela que pudesse me ajudar com isso, já que ela, como noiva, não teria tempo para isso.

Ela de pronto me respondeu que as sugestões de lojas e amigos estariam em uma folha de contatos no hotel, mas que eu só precisaria usá-los se quisesse comprar mais um conjunto de roupas indianas – porque um conjunto ela já tinha comprado para mim! Hospitalidade indiana é algo.

Depois de me instalar no hotel, almocei em um restaurante ali no entorno uma comida muito boa, mas apimentadíssima. Bem feito, porque na primeira refeição eu já me esqueci da recomendação da minha irmã Lu, que tinha ido à Índia uns seis meses antes de mim: pede sempre que preparem a comida o menos apimentada possível. Mas por mim tudo bem, porque acho que comer lacrimejando (em prantos, na verdade) e fungando deveria mesmo fazer parte da experiência.

À tarde eu dormi, porque estava exausto da viagem, e à noite saí para jantar com a Rahela e o Murtuza (o noivo), as irmãs da noiva e todo o pessoal da NYU. Fomos ao Leopold Café, na Colaba Causeway, que ficou (ainda mais) famoso em Mumbai por causa do ataque terrorista de 2008.

No próximo post, contarei sobre o piquenique à beira do lago!

Pensa num país com I

Em 2011, quando contei da minha viagem à Dinamarca, comentei que andava andava pensando nos países que já tinha visitado, em ordem alfabética:

  • A: Alemanha, Argentina
  • B: Brasil
  • C: Canadá
  • DDinamarca
  • E: Estados Unidos
  • F: França
  • G: Grã-Bretanha (Reino Unido da – forcei?)
  • H: Holanda… e por aí vai.

Em 2012 não saí do continente e pulei nessa lista para a letra U, de Uruguai: uma viagem expressa de um dia em fevereiro e, depois, miniférias em setembro, com visitas a MontevideoColonia del Sacramento.

Em 2013, tirei duas semanas de férias em janeiro e retomei a lista por causa de uma oportunidade única: o casamento de uma grande amiga minha, ex-colega de mestrado na NYU, num país com a letra I: a Índia. Nos próximos posts, vou contar um pouco e mostrar fotos dessa viagem.

P.S.: Querida Itália: sou um dos raríssimos viajantes que fica te preterindo, e o ápice disso é o fato de, sem ter te visitado, ter ido à Índia, mesmo sendo bem mais longe pra mim. Eu te asseguro que não foi de propósito. Não faltou oportunidade, mas faltou, sim, conveniência. Prometo resolver essa situação assim que puder!

Reclamar: vício ou virtude? (5) Não conclusão

Depois de quase cinco meses sem postar, venho aqui não concluir a série que comecei a escrever. Assumo a vergonha, mas me justifico (como é típico): inicialmente tive de suspender a série (por sei lá qual motivo) e depois simplesmente perdi o embalo. A estas alturas, não vale mais a pena vencer a inércia, porque as ideias que eu tinha para a série se perderam nos mistérios da sinapse ou passaram do prazo de validade. A série não tinha número pré-determinado de posts, mas vamos dizer, então, que teve quatro – ou cinco, contando esta não conclusão. E pronto.

Reclamar: vício ou virtude? (4) Ou ambos?

Uma de minhas mais trabalhosas e desafiantes atividades no escritório é aconselhar e auxiliar clientes estrangeiros na aquisição de imóveis rurais na Faixa de Fronteira – aquela faixa de 150 Km ao longo das fronteiras terrestres do Brasil. Antes de adquirir um imóvel na Faixa de Fronteira, o estrangeiro deve obter autorizações do Incra, do Conselho de Defesa Nacional e, em alguns casos, até do Congresso Nacional.

Os procedimentos para obter essas autorizações exigem um número significativo de documentos. Por exemplo, o estrangeiro precisa demonstrar que, com a aquisição dos imóveis, não se excederá o “limite de estrangeirização” do município onde se situam. A regra é que estrangeiros não podem ser donos de mais de 25% da área de um município; além disso, estrangeiros de mesma nacionalidade não podem ser donos de mais de 10% da área total do município.

Parece complicado, mas a mesma lei que criou essa regra passou a exigir dos Registros de Imóveis um “livro auxiliar” para registrar todas as aquisições de imóveis rurais por estrangeiros. Assim, o Registro tem condições de emitir certidão que indique a área rural total pertencente a estrangeiros naquele município e a discriminação dessa área por grupos de nacionalidade. Mais que isso, a requerimento de qualquer interessado, o Registro deve emitir essa certidão. É sua obrigação.

Em tese, tudo lógico, perfeito, funcional. Na prática… (Se todas as leis fossem cumpridas no Brasil, viveríamos num país muito melhor, sem necessidade de tantos advogados. Ou seja, num país melhor ainda.)

Na prática, há Registros de Imóveis que não mantêm atualizados os seus “livros auxiliares”, deixando de registrar neles as vendas de imóveis rurais a estrangeiros. Assim, as certidões que emitem com base nesses livros não corresondem à realidade.

Além disso, há o problema deixado pela onda de emancipações. Fica mais fácil explicar com um exemplo. Imagine o município hipotético de Budapeste, que em 1990 dividiu-se nos municípios de Buda e Peste. Apesar da divisão, subsistiu apenas um Registro de Imóveis em Buda, com abrangência sobre Buda e Peste. O Registro não atualizou seus livros (inclusive o “livro auxiliar”) após a divisão e não tem condições de informar quais áreas pertencentes a estrangeiros estão localizadas em Buda e quais estão localizadas em Peste. Tem o dever legal de informar, mas não informa. Para isso, o registrador deveria dar-se o trabalho de localizar quais áreas estão em Buda e quais estão em Peste.

Por um lado, as certidões emitidas por esses Registros de Imóveis quanto ao nível de estrangeirização do município são sabidamente incorretas. Por outro, as certidões têm fé pública – ou seja, o conteúdo delas presume-se verdadeiro.

Voltando aos procedimentos que conduzimos para os clientes, solicitamos em nome deles as certidões necessárias aos Registros. Sabemos que as certidões emitidas não correspondem à realidade. Os clientes também. Os registradores também. O Incra também – e reclamou. Solicitou que obtivéssemos certidões corretas.

Como solicitar aos Registros, “por favor, cumpram seu dever legal e emitam certidões que estejam atualizadas e cujo conteúdo corresponda à realidade”? Não sei, mas foi o que fizemos – polidamente solicitamos novamente aos Registros que fizessem de novo o que já tinham feito.

A resposta que esperamos é que os Registros atualizem seus “livros auxiliares” e emitam certidões corretas e atualizadas. Isso resolveria todos os nossos problemas – meus, do escritório, do cliente, do Incra. E todos se regozijariam.

Mas outra resposta plausível seria: “as certidões que emitimos estão atualizadas e correspondem à realidade”; ou seja, um carimbo de autenticidade em algo sabidamente falso. E o que fazer nesse caso?

Poderíamos argumentar ao Incra que, mesmo após nossa insistência, os Registros insistem no erro – mas isso não resolveria o problema, porque continuaríamos sem as certidões necessárias. Poderíamos reclamar à Corregedoria-Geral de Justiça gaúcha, para que compelisse o Registro a cumprir seu dever legal – e assim começaríamos uma bela inimizade com os registradores, de cujos serviços tanto necessitamos.

Nesse caso, reclamar é o correto e, ao mesmo tempo, um tiro no pé.

Advento branco

Acordei hoje de madrugada com muita sede. Fui à cozinha e, ao beber um copo d’água, espiei pela janela. Uma camada de branco sobre o parapeito me surpreendeu. Neve? Em Porto Alegre? Em dezembro?

Corri para pegar o celular para registrar em foto e enviar para toda a família e para os amigos e postar no Twitter e no blog para compartilhar com o mundo todo (e talvez ser o primeiro a fazê-lo) esse evento espetacular: neve em Porto Alegre em dezembro!

De celular na mão, voltei à cozinha e abri a janela para tirar a foto – ou, antes, para ver se me convencia de que aquilo não podia ser verdade. Mas ao abrir a janela confirmei que era mesmo neve o que eu tinha visto sobre o parapeito. Senti um vento gelado entrar no apartamento. E vi claramente que flocos brancos finíssimos ainda caíam do céu.

Nisso, acordei num susto, pulando da cama. Rápido! A câmera! Demorou uns instantinhos para acordar de verdade. É claro que não estava nevando em Porto Alegre em dezembro. Tinha sido um sonho.

Peguei o celular: 6h da manhã. E apareceu uma notificação de um e-mail enviado pela minha irmã Ca, na Alemanha, recém recebido. Começava assim: “Quando a persiana abriu, Isabel e Felipe [meus sobrinhos gêmeos, de 2 anos] apontaram e disseram: NEVE!”

Reclamar: vício ou virtude? Pausa na série

Quem prestou atenção nos últimos posts sabe que estou fazendo uma série de posts refletindo sobre reclamações. E quem já vinha prestando atenção antes disso também já sabia que eu viria ao Rio de Janeiro para um evento do Curso Alpha Brasil. E vim. A conferência foi ontem (domingo, 25/11/2012) e sigo aqui por uns dias.

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Sábado, 24/11/2012, no Leblon: aqui, sou albino

Embora breve, este tempo no Rio está sendo de reencontros e reflexões – não tanto sobre reclamações (tema da recente série), mas principalmente sobre meu church shopping, minhas escolhas e outras questões espirituais (tema deste post).

Agora vou mais é aproveitar (tanto quanto essa chuvinha permitir) o tempo por aqui, mas até o fim da semana, sem falta, retorno ao blog com meus relatos, reclamações e reflexões cariocas.

Reclamar: vício ou virtude? (3) O discurso de formatura

Recentemente assisti ao vídeo da minha formatura de Ensino Médio, que meu pai resolveu converter de VHS para DVD. Quase uma década depois, foi legal rever os colegas, de muitos dos quais tenho saudade, e também meu desempenho como orador da turma.

A íntegra do discurso está aqui.

Muitos colegas gostaram do discurso e disseram que foi pró-discente. Muitos professores gostaram e disseram que foi pró-docente. E eu, que pretendia apenas fazer um discurso decente, fiquei surpreso com essas reações, que parecem irreconciliáveis, presumindo-se algum nível de antagonismo entre professores grevistas e alunos que acabaram por formar-se meio ano após o previsto por causa das greves.

Talvez eu tenha tido sucesso em alcançar públicos diferentes com a mesma mensagem… pode até ser. Mas prefiro acreditar que o polêmico discurso de formatura que fiz é a mais contundente prova de que as pessoas ouvem o que querem. O emissor não tem controle algum sobre a interpretação da mensagem pelo receptor. Se o receptor estiver, por qualquer motivo, predisposto a interpretar a mensagem como uma ofensa, é o que fará – ainda que a intenção do emissor era de que fosse um elogio. E vice versa.

Simplesmente, acho que muitos, tanto professores quanto alunos, estavam predispostos a gostar do discurso. E por isso gostaram. Certamente houve também quem não tenha gostado, mas esses não tiveram a dignidade de me procurar na saída para reclamar.

E lembrando que o tema desta série de posts é reclamar, fato é que meu discurso (independentemente de ser pró-qualquer coisa) incluiu aspectos de reclamação. Não consistiu unicamente de reclamação, porque procurei fazer um retrato equilibrado da Escola à época, elogiando o que conviesse elogiar e reclamando do que conviesse reclamar. A reclamação (aliás, assim como o elogio) não era nem mal nem bem-intencionada: era apenas um retrato – subjetivo, é claro, porque o fotógrafo escolhe o ângulo, a lente, o filtro…

Outro fato é que o aspecto reclamação do discurso desencadeou outra reclamação. Ao assistir ao vídeo do discurso recentemente, revi o então Diretor da Escola, ao encerrar a cerimônia de formatura, resgatar no improviso o meu discurso e endossar os problemas dos quais eu tinha reclamado. Um discurso com um elemento de reclamação gerou outro com elementos de desabafo e apelo por mudança.

Difícil avaliar se a mudança aconteceu. Difícil avaliar se, tendo acontecido, teria acontecido em virtude de qualquer dos discursos – e em que proporção. Afinal, mudanças podem depender de muitos fatores além da percepção do problema e da necessidade de mudança. Mesmo assim, acho que o discurso (com elemento de reclamação) contribuiu para difundir essa percepção.

* * * * *

Este post começou com uma parte nitidamente “reclamar: virtude” e vai encerrar com uma parte deliberadamente “reclamar: vício”.

Como bom nerd, curto estatísticas. De todo tipo. Melhor nem listar para não me empolgar! Vou direto ao específico: curto particularmente as estatísticas de visitação de páginas do Blog do Guri, que o Blogger gera desde julho de 2008.

Por exemplo: estatísticas de ontem, 22/11/2012. O post novo do dia (Reclamar: vício ou virtude? (2)) foi visitado 15 vezes e o de anteontem (Reclamar: vício ou virtude? (1)), 07. Mas o mais visitado, com 25 visitas (mais que os outros dois posts somados!), foi um velho post de 08/05/2006: O polêmico discurso de formatura.

Estranho? A explicação que tenho é que, em novembro, com a época de formaturas chegando, os oradores e potenciais oradores andam procurando na Internet inspiração para seus discursos. Plausível?

Considerando os últimos 30 dias, o post mais visitado é Apenas uma escolha, de 20/11/2012, com 31 visitas. Isto é, esse é o segundo mais visitado, porque o mais visitado é O polêmico discurso de formatura, com nada menos que seis vezes mais visitas: 197.

Considerando o período total para o qual o Blogger gera estatísticas, O polêmico discurso de formatura vem em primeiro lugar, com 5.560 visitas. Em segundo lugar, bastante depois, vem o misterioso “Já estou melhor, obrigada”, com 368 comentários (menos de um décimo do número de visitas do mais visitado).

Isso me irrita profundamente, porque um post específico tem envenenado minhas queridas estatísticas. Há muito tenho pensado em reclamar (no blog) sobre isso.

Quando resolvi fazê-lo, aproveitando esta série de reclamações, percebi que essa reclamação é autoboicotante. Com esta reclamação sobre o discurso, comentando sobre ele, citando o post original com sua íntegra e incluindo as palavras-chave “discurso de formatura” no título do post, acabarei fazendo com que o blog atraia ainda mais visitas de oradores em busca (no Google) de inspiração.

O post de hoje servirá para testar estatisticamente a hipótese de que reclamar sobre um post cujos efeitos me dão vontade de reclamar só agravará a situação, dando-me vontade de reclamar ainda mais.

Reclamar: vício ou virtude? (2)

Saiu em uma edição do Diário Oficial da União uma publicação relevante quanto a um cliente do escritório. Tendo de apresentar a página dessa publicação à Junta Comercial gaúcha, fizemos o que normalmente se faz: imprimimos a página a partir do site da Imprensa Nacional. Cada página do Diário Oficial assim obtida vem com um código único, que permite a verificação da autenticidade.

Essa assinatura digital existe por força de lei (na verdade, da Medida Provisória, número 2.200-2 de 24/08/2001) e é amplamente usada e aceita. A Imprensa Nacional adverte: as publicações oficiais desde 1990 estão disponíveis no site, com certificação digital.

Porém, para nossa surpresa, a Junta Comercial inflexivelmente recusou o documento e exigiu original ou cópia autenticada do Diário Oficial impresso. “Queremos uma folha de papel jornal.” Solicitamos uma cópia autenticada da página relevante à Imprensa Nacional em Brasília: para nossa ainda maior surpresa (preconceito?!), foi fácil, ágil e barato.

Porém, para nossa enorme suspresa, a Imprensa Nacional nos enviou a mesma página que tínhamos imprimido originalmente a partir do site, mas com um simplório carimbo da Imprensa Nacional (“confere com o original”, ou algo assim) e a rubrica de um servidor público, sem reconhecimento de firma.

Esse carimbo e essa rubrica sem reconhecimento de firma pouco acrescentaram à autenticidade ou mesmo à aparência de autenticidade da (já suficientemente autêntica) página com autenticação digital. Mas era o tudo o que a Imprensa Nacional tinha a oferecer. “Não enviamos folha em papel jornal.” E foi o que apresentamos à Junta Comercial.

Porém, para nossa estapafurdiamente gigante surpresa (e com um tantinho de alegria pelo nosso cliente), a Junta Comercial aceitou aquilo que era uma folha impressa do site mais carimbo e rubrica.

Nessa história, talvez o mais irritante seja a recusa inicial da Junta em reconhecer autenticidade a um documento de autenticidade óbvia, legalmente exigível e amplamente aceita. Ou talvez seja o reconhecimento final, pela Junta, da autenticidade do segundo documento apresentado, pretensamente mais autêntico que o primeiro, mas, na verdade, igualmente autêntico. Ou talvez seja, simplesmente, a inconsistência e a arbitrariedade da Junta.

De qualquer forma, problema resolvido. Mas neste caso, desta vez. Sem termos manifestado nossa insatisfação com a recusa inicial indevida, não temos como garantir que a Junta se abstenha de repetir essa recusa indevida futuramente. Sem termos reclamado, só nos resta torcer que o absurdo não se repita.

Reclamar: vício ou virtude? (1)

Um dia desses, minha amiga gaúcho-candanga Carol Grassi reclamou em forma de pergunta antropológica: “Por que gaúcho gosta tanto de reclamar?” E eu reclamei da premissa dela: “Não sei se gaúcho gosta mesmo de reclamar.” Obviamente só o fiz porque, como bom gaúcho, tive de reclamar. É claro que gaúcho gosta de reclamar.

Outro dia desses, conversava com meus amigos Karina e Felipe Soares sobre as reclamações nossas de cada dia. (E eles são pessoas bem entendidas no assunto, não porque sejam reclamadores de primeira, mas porque, como servidores da Justiça do Trabalho, lidam direto com reclamantes, reclamadas, reclamatórias.)

Nesse contexto, o Felipe comentou sobre um atendimento ruim que recebeu recentemente e que, ao reclamar por escrito desse atendimento, inspirou-se em como eu me indignava com as coisas reclamáveis, e reclamava delas, já no início da faculdade de Direito. “Chutava o balde,” disse ele como diria eu então.

“Mas eu nem reclamava tanto assim no início da faculdade”, reclamei eu. “Capaz que não!”, ele reclamou. “E o artigo aquele sobre as avaliações inconsistentes, que escreveste já no primeiro ano?”

Bah. Faz nove anos. Nem me lembrava. Mas é mesmo: eu já reclamava bastante. Bem mais que hoje, aliás. Não que hoje tenha menos motivos. Na melhor das hipóteses, tenho dez vezes mais.

Por isso resolvi escrever uma série de posts reclamando sobre reflexões — quer dizer, refletindo sobre reclamações. Gaúchos ou não, servidores da Justiça do Trabalho ou não, estudantes do primeiro ano da faculdade ou não, todos temos as reclamações nossas de cada dia. Reclamar é vício ou virtude? Às vezes é melhor silenciar que reclamar, mas outras vezes reclamar pode até ser necessário.

Mas basta — não quero e não vou entregar já neste primeiro post nenhuma conclusão precipitada sobre um assunto que ainda nem desenvolvi nem exemplifiquei propriamente. Sem mais, o resto ficará para os próximos posts desta série. Não adianta reclamar.

Apenas uma escolha

Durante o último ano, visitei nove comunidades cristãs, considerando seriamente cada uma delas como candidata a tornar-se a comunidade cristã de que faço parte aqui em Porto Alegre.

* * * * *

Comecei por uma luterana (critério histórico-sentimental) perto de casa (critério geográfico). Ali, o fato de ser “luterano de berço” – nascido em família luterana, batizado e confirmado em igreja luterana – contou muito… talvez demais. Perguntaram de que comunidade eu era originalmente. Expliquei que era de uma comunidade de outra denominação luterana. “Ah, mas mas o que importa é ser luterano.”

Já torci o nariz. Eu achava que, numa igreja, não deveria importar ser de tal ou qual orientação. Além disso, se fosse isso mesmo o que importava, não fez sentido o pastor convidar os “membros desta comunidade ou de outra de nossa denominação” para a comunhão de mesa, abertamente excluindo outros cristãos (mesmo os luteranos).

Ainda assim, ao fim do culto, apresentei-me ao pastor, ao líder de jovens, a outros líderes. Pediram meus contatos; deixei telefone e e-mail. Mas ninguém me escreveu nem me telefonou.

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Nas outras igrejas luteranas que visitei, mesmo pertencentes à denominação da minha de origem, não me senti menos deslocado. Todas são bastante litúrgicas, tradicionais. Nenhum grave problema até aí – apenas prefiro cultos com mais espontaneidade.

Problema maior é ser um outlier na distribuição de frequência das idades. Nas luteranas que visitei, a grande maioria era de senhoras e senhores com idade para serem meus pais ou avós. Novamente, nenhum grave problema – apenas seria difícil encontrar nesses grupos interesses, atividades, assuntos e desafios comuns aos meus.

O grave problema foi mesmo a superficialidade das mensagens e, ainda mais inquietante, a menção a Deus Pai e Mãe. Ouvi isso pela primeira vez de uma pastora e, por isso, pensei que pudesse ser um esforço excessivo de equalização de gênero, por parte de uma teóloga-pastora feminista. Mas na segunda vez ouvi de um pastor e fiquei mais intrigado.

Entendo que o amor de Deus seja comparável tanto ao de uma mãe quanto ao de um pai. Também entendo que haja quem associe a figura paterna a uma imagem negativa, por ter sofrido agressão, abandono ou outros abusos de seu pai, e por isso preferem associar o amor de Deus ao que receberam de sua mãe.

Mas sigo não convencido de que exista fundamento bíblico para a existência de Deus Mãe. Equalização de gênero é uma coisa; outra bem diferente é a distorção, por pastores aqui e ali, do Credo Apostólico, adotado pela igreja luterana como expressão do conteúdo básico da fé cristã: Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra.

Essa distorção do credo denota uma falta de solidez e unicidade quanto ao que, afinal, a igreja professa. Por isso, tem afetado bastante minha a vontade de participar de uma igreja luterana.

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Também visitei quatro igrejas batistas.

Em duas delas não pude com a informalidade do culto. Para mim, a forma ideal de culto está num ponto difícil de localizar num continuum entre a liberdade total, sem qualquer ordem, e a total rigidez litúrgica, com repetição recitada de fórmulas prontas e sem espontaneidade. Essas duas batistas penderam muito para o primeiro extremo (assim como as luteranas que visitei penderam para o segundo).

Nas outras duas batistas, fiquei feliz com o que encontrei: igrejas vivas, acolhedoras, missionárias, musicais e com mensagens inteligentes, significativas e biblicamente fundadas.

Meu tema com as batistas é sempre o fato de elas serem batistas e eu, não. Fui batizado quando ainda criança. Para que pudesse me envolver plenamente na igreja, teria de ser batizado (do ponto de vista da igreja) ou rebatizado (do meu ponto de vista). Até que aceitasse isso, seria uma espécie de “membro de segunda classe” da igreja (por mais que tentem me convencer – e já tentaram – de que não seja bem assim).

Tenho reservas principiológicas quanto a ser rebatizado: sinto que seria como negar validade ao batismo e à confirmação de fé que tive na igreja luterana. Entendo que esse batismo enquanto criança e essa confirmação de fé apenas evidenciam que sou um cristão oriundo de uma igreja histórica – não me fazem menos cristão que um batista ou outro cristão batizado quando adulto.

Alguns se deixam rebatizar para poderem envolver-se em uma igreja batista. Talvez algum dia eu levante minhas reservas e faça o mesmo. Mas quando penso que uma igreja me obrigue a conflitos principiológicos por rejeitar a validade dos atos de fé que vivi por causa da origem da minha família, em vez de simplesmente me aceitar como cristão, perco a esperança de mudar de ideia quanto ao rebatismo – assim como a vontade de me envolver nessa igreja.

* * * * *

Não gostaria que meu alto padrão de exigência na busca de uma igreja fosse interpretado como arrogância. Sei que não sou perfeito e que as pessoas não são perfeitas e que as igrejas não são perfeitas. Ao mesmo tempo, não acho ilegítima minha busca por uma igreja que se compare àquelas de que já fiz parte e onde me senti acolhido e envolvido.

Um dia desses escrevi a um dos pastores de NYC sobre minhas frustrações nessa busca e confessei que sinto muita saudade da igreja de lá, a City Grace. (Também comentei sobre isso em a blog with an accent.) Ele respondeu que talvez eu não encontrasse por aqui algo como a City Grace, “solidamente reformada, jovem e contemporânea, mas também voltada ao evangélico e não legalista – uma combinação singular”. Ele acertou que seja difícil encontrar igrejas assim (confirmei isso nas minhas andanças por aqui!), mas errou quanto à singularidade dessa combinação. A Igreja São João, em Pelotas, onde cresci, pode ser descrita da mesma forma. E por que aqui em Porto Alegre tenho tido tanta dificuldade?

Enfim, o que mais o pastor escreveu me fez refletir decisivamente:

O importante é estar em comunidade cristã e poder crescer na fé. Dentre opções limitadas, só tens que fazer uma escolha, certo?

Tenho percebido que um dos motivos por que 2012 tem sido um ano aquém (“aquém”, assim genericamente) é essa interminável jornada de church shopping e a minha perda de crescimento por estar em várias igrejas e ao mesmo tempo em nenhuma. Preciso mesmo fazer uma escolha (de fé, de compromisso) dentre opções limitadas.

No próximo domingo, estarei no Rio de Janeiro, onde participarei de um evento do Curso Alpha. O Alpha tem sido um interessante conector entre as igrejas de que já participei. No Rio, encontrarei amigos cristãos tanto de Pelotas quanto de NYC. Espero que esse tempo lá me ajude a, no retorno a Porto Alegre, fazer uma escolha e enfim cessar o church shopping no primeiro domingo de Advento.