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Reclamar: vício ou virtude? (2)

Saiu em uma edição do Diário Oficial da União uma publicação relevante quanto a um cliente do escritório. Tendo de apresentar a página dessa publicação à Junta Comercial gaúcha, fizemos o que normalmente se faz: imprimimos a página a partir do site da Imprensa Nacional. Cada página do Diário Oficial assim obtida vem com um código único, que permite a verificação da autenticidade.

Essa assinatura digital existe por força de lei (na verdade, da Medida Provisória, número 2.200-2 de 24/08/2001) e é amplamente usada e aceita. A Imprensa Nacional adverte: as publicações oficiais desde 1990 estão disponíveis no site, com certificação digital.

Porém, para nossa surpresa, a Junta Comercial inflexivelmente recusou o documento e exigiu original ou cópia autenticada do Diário Oficial impresso. “Queremos uma folha de papel jornal.” Solicitamos uma cópia autenticada da página relevante à Imprensa Nacional em Brasília: para nossa ainda maior surpresa (preconceito?!), foi fácil, ágil e barato.

Porém, para nossa enorme suspresa, a Imprensa Nacional nos enviou a mesma página que tínhamos imprimido originalmente a partir do site, mas com um simplório carimbo da Imprensa Nacional (“confere com o original”, ou algo assim) e a rubrica de um servidor público, sem reconhecimento de firma.

Esse carimbo e essa rubrica sem reconhecimento de firma pouco acrescentaram à autenticidade ou mesmo à aparência de autenticidade da (já suficientemente autêntica) página com autenticação digital. Mas era o tudo o que a Imprensa Nacional tinha a oferecer. “Não enviamos folha em papel jornal.” E foi o que apresentamos à Junta Comercial.

Porém, para nossa estapafurdiamente gigante surpresa (e com um tantinho de alegria pelo nosso cliente), a Junta Comercial aceitou aquilo que era uma folha impressa do site mais carimbo e rubrica.

Nessa história, talvez o mais irritante seja a recusa inicial da Junta em reconhecer autenticidade a um documento de autenticidade óbvia, legalmente exigível e amplamente aceita. Ou talvez seja o reconhecimento final, pela Junta, da autenticidade do segundo documento apresentado, pretensamente mais autêntico que o primeiro, mas, na verdade, igualmente autêntico. Ou talvez seja, simplesmente, a inconsistência e a arbitrariedade da Junta.

De qualquer forma, problema resolvido. Mas neste caso, desta vez. Sem termos manifestado nossa insatisfação com a recusa inicial indevida, não temos como garantir que a Junta se abstenha de repetir essa recusa indevida futuramente. Sem termos reclamado, só nos resta torcer que o absurdo não se repita.

Reclamar: vício ou virtude? (1)

Um dia desses, minha amiga gaúcho-candanga Carol Grassi reclamou em forma de pergunta antropológica: “Por que gaúcho gosta tanto de reclamar?” E eu reclamei da premissa dela: “Não sei se gaúcho gosta mesmo de reclamar.” Obviamente só o fiz porque, como bom gaúcho, tive de reclamar. É claro que gaúcho gosta de reclamar.

Outro dia desses, conversava com meus amigos Karina e Felipe Soares sobre as reclamações nossas de cada dia. (E eles são pessoas bem entendidas no assunto, não porque sejam reclamadores de primeira, mas porque, como servidores da Justiça do Trabalho, lidam direto com reclamantes, reclamadas, reclamatórias.)

Nesse contexto, o Felipe comentou sobre um atendimento ruim que recebeu recentemente e que, ao reclamar por escrito desse atendimento, inspirou-se em como eu me indignava com as coisas reclamáveis, e reclamava delas, já no início da faculdade de Direito. “Chutava o balde,” disse ele como diria eu então.

“Mas eu nem reclamava tanto assim no início da faculdade”, reclamei eu. “Capaz que não!”, ele reclamou. “E o artigo aquele sobre as avaliações inconsistentes, que escreveste já no primeiro ano?”

Bah. Faz nove anos. Nem me lembrava. Mas é mesmo: eu já reclamava bastante. Bem mais que hoje, aliás. Não que hoje tenha menos motivos. Na melhor das hipóteses, tenho dez vezes mais.

Por isso resolvi escrever uma série de posts reclamando sobre reflexões — quer dizer, refletindo sobre reclamações. Gaúchos ou não, servidores da Justiça do Trabalho ou não, estudantes do primeiro ano da faculdade ou não, todos temos as reclamações nossas de cada dia. Reclamar é vício ou virtude? Às vezes é melhor silenciar que reclamar, mas outras vezes reclamar pode até ser necessário.

Mas basta — não quero e não vou entregar já neste primeiro post nenhuma conclusão precipitada sobre um assunto que ainda nem desenvolvi nem exemplifiquei propriamente. Sem mais, o resto ficará para os próximos posts desta série. Não adianta reclamar.

Apenas uma escolha

Durante o último ano, visitei nove comunidades cristãs, considerando seriamente cada uma delas como candidata a tornar-se a comunidade cristã de que faço parte aqui em Porto Alegre.

* * * * *

Comecei por uma luterana (critério histórico-sentimental) perto de casa (critério geográfico). Ali, o fato de ser “luterano de berço” – nascido em família luterana, batizado e confirmado em igreja luterana – contou muito… talvez demais. Perguntaram de que comunidade eu era originalmente. Expliquei que era de uma comunidade de outra denominação luterana. “Ah, mas mas o que importa é ser luterano.”

Já torci o nariz. Eu achava que, numa igreja, não deveria importar ser de tal ou qual orientação. Além disso, se fosse isso mesmo o que importava, não fez sentido o pastor convidar os “membros desta comunidade ou de outra de nossa denominação” para a comunhão de mesa, abertamente excluindo outros cristãos (mesmo os luteranos).

Ainda assim, ao fim do culto, apresentei-me ao pastor, ao líder de jovens, a outros líderes. Pediram meus contatos; deixei telefone e e-mail. Mas ninguém me escreveu nem me telefonou.

* * * * *

Nas outras igrejas luteranas que visitei, mesmo pertencentes à denominação da minha de origem, não me senti menos deslocado. Todas são bastante litúrgicas, tradicionais. Nenhum grave problema até aí – apenas prefiro cultos com mais espontaneidade.

Problema maior é ser um outlier na distribuição de frequência das idades. Nas luteranas que visitei, a grande maioria era de senhoras e senhores com idade para serem meus pais ou avós. Novamente, nenhum grave problema – apenas seria difícil encontrar nesses grupos interesses, atividades, assuntos e desafios comuns aos meus.

O grave problema foi mesmo a superficialidade das mensagens e, ainda mais inquietante, a menção a Deus Pai e Mãe. Ouvi isso pela primeira vez de uma pastora e, por isso, pensei que pudesse ser um esforço excessivo de equalização de gênero, por parte de uma teóloga-pastora feminista. Mas na segunda vez ouvi de um pastor e fiquei mais intrigado.

Entendo que o amor de Deus seja comparável tanto ao de uma mãe quanto ao de um pai. Também entendo que haja quem associe a figura paterna a uma imagem negativa, por ter sofrido agressão, abandono ou outros abusos de seu pai, e por isso preferem associar o amor de Deus ao que receberam de sua mãe.

Mas sigo não convencido de que exista fundamento bíblico para a existência de Deus Mãe. Equalização de gênero é uma coisa; outra bem diferente é a distorção, por pastores aqui e ali, do Credo Apostólico, adotado pela igreja luterana como expressão do conteúdo básico da fé cristã: Creio em Deus, Pai todo-poderoso, Criador do céu e da terra.

Essa distorção do credo denota uma falta de solidez e unicidade quanto ao que, afinal, a igreja professa. Por isso, tem afetado bastante minha a vontade de participar de uma igreja luterana.

* * * * *

Também visitei quatro igrejas batistas.

Em duas delas não pude com a informalidade do culto. Para mim, a forma ideal de culto está num ponto difícil de localizar num continuum entre a liberdade total, sem qualquer ordem, e a total rigidez litúrgica, com repetição recitada de fórmulas prontas e sem espontaneidade. Essas duas batistas penderam muito para o primeiro extremo (assim como as luteranas que visitei penderam para o segundo).

Nas outras duas batistas, fiquei feliz com o que encontrei: igrejas vivas, acolhedoras, missionárias, musicais e com mensagens inteligentes, significativas e biblicamente fundadas.

Meu tema com as batistas é sempre o fato de elas serem batistas e eu, não. Fui batizado quando ainda criança. Para que pudesse me envolver plenamente na igreja, teria de ser batizado (do ponto de vista da igreja) ou rebatizado (do meu ponto de vista). Até que aceitasse isso, seria uma espécie de “membro de segunda classe” da igreja (por mais que tentem me convencer – e já tentaram – de que não seja bem assim).

Tenho reservas principiológicas quanto a ser rebatizado: sinto que seria como negar validade ao batismo e à confirmação de fé que tive na igreja luterana. Entendo que esse batismo enquanto criança e essa confirmação de fé apenas evidenciam que sou um cristão oriundo de uma igreja histórica – não me fazem menos cristão que um batista ou outro cristão batizado quando adulto.

Alguns se deixam rebatizar para poderem envolver-se em uma igreja batista. Talvez algum dia eu levante minhas reservas e faça o mesmo. Mas quando penso que uma igreja me obrigue a conflitos principiológicos por rejeitar a validade dos atos de fé que vivi por causa da origem da minha família, em vez de simplesmente me aceitar como cristão, perco a esperança de mudar de ideia quanto ao rebatismo – assim como a vontade de me envolver nessa igreja.

* * * * *

Não gostaria que meu alto padrão de exigência na busca de uma igreja fosse interpretado como arrogância. Sei que não sou perfeito e que as pessoas não são perfeitas e que as igrejas não são perfeitas. Ao mesmo tempo, não acho ilegítima minha busca por uma igreja que se compare àquelas de que já fiz parte e onde me senti acolhido e envolvido.

Um dia desses escrevi a um dos pastores de NYC sobre minhas frustrações nessa busca e confessei que sinto muita saudade da igreja de lá, a City Grace. (Também comentei sobre isso em a blog with an accent.) Ele respondeu que talvez eu não encontrasse por aqui algo como a City Grace, “solidamente reformada, jovem e contemporânea, mas também voltada ao evangélico e não legalista – uma combinação singular”. Ele acertou que seja difícil encontrar igrejas assim (confirmei isso nas minhas andanças por aqui!), mas errou quanto à singularidade dessa combinação. A Igreja São João, em Pelotas, onde cresci, pode ser descrita da mesma forma. E por que aqui em Porto Alegre tenho tido tanta dificuldade?

Enfim, o que mais o pastor escreveu me fez refletir decisivamente:

O importante é estar em comunidade cristã e poder crescer na fé. Dentre opções limitadas, só tens que fazer uma escolha, certo?

Tenho percebido que um dos motivos por que 2012 tem sido um ano aquém (“aquém”, assim genericamente) é essa interminável jornada de church shopping e a minha perda de crescimento por estar em várias igrejas e ao mesmo tempo em nenhuma. Preciso mesmo fazer uma escolha (de fé, de compromisso) dentre opções limitadas.

No próximo domingo, estarei no Rio de Janeiro, onde participarei de um evento do Curso Alpha. O Alpha tem sido um interessante conector entre as igrejas de que já participei. No Rio, encontrarei amigos cristãos tanto de Pelotas quanto de NYC. Espero que esse tempo lá me ajude a, no retorno a Porto Alegre, fazer uma escolha e enfim cessar o church shopping no primeiro domingo de Advento.

Vendemos smoothies (ou não)

Contrariamente às recomendações de um sem-número de amigos, colegas de trabalho, chefe, primas, tias, irmãs, minha mãe, entre outras pessoas cujas opiniões têm um alto (mas obviamente relativizável) valor para mim, às vezes eu não almoço.

Sejamos justos aqui. Eu almoço quase todos os dias. Às vezes, quando não almoço, é porque jantei fora na véspera ou porque pretendo jantar fora no mesmo dia; é uma compensação calórica. Outras vezes, para honrar (ou ludibriar) as pessoas mencionadas no primeiro parágrafo, eu saio do escritório na hora do almoço rumo a um café-restaurante nas redondezas para, em lugar do almoço, tomar um smoothie.

Foi o que fiz hoje, um daqueles agradáveis dias tórridos de Porto Alegre em que a gente se arrepende com amargura de ter deixado o sobretudo em casa. Chegando ao café-restaurante, vi que o cartaz com os sabores de smoothies não estava afixado. “Bah, será que isso quer dizer que vou ter de almoçar?” Mas não custava perguntar.

Quer dizer, achava eu que não custava perguntar.

– Vocês não vendem mais smoothies?

A moça do balcão se voltou à dona ou gerente do café-restaurante:

– Nós ainda vendemos smoothies?

A dona ou gerente do café-restaurante se voltou a mim:

– Ah, sim. Mas agora não posso preparar; estou bem atrapalhada.

[Pausa para perplexidade e reflexão.]

Forjei um sorriso e disse:

– Ah, ok. Obrigado.

Juntei minhas coisas da mesa que já tinha reservado e fui saindo dali. Fiquei pensando se não deveria ter pedido desculpas pelo incômodo à gerente do café-restaurante. Também, que ideia a minha: pedir um smoothie em um café-restaurante que vende smoothies!

Mas já era um pouco tarde para arrependimentos. Para a alegria geral das pessoas mencionadas no primeiro parágrafo, eu já estava rumo a outro restaurante – para almoçar.

Aquele período do ano para reflexões

Há duas ou três semanas, causei o sobressalto de uma amiga que almoçava comigo num shopping center. Arregalei os olhos, tapei a boca com os dedos e soltei uma interjeição engasgada de horror, apontando ao longe: “olha, uma árvore de Natal!” Isso foi só o começo.

Mal termina o Dia da Criança e os lojistas já decoram tudo de verde e vermelho. Todo ano é assim e ironicamente eu sempre me surpreendo.

Ao chegar em casa hoje notei que minha vizinha pendurou em sua porta uma escabrosa guirlanda artificial cintilante com um Papai Noel assustador em alto relevo ao centro. Não adianta ignorar a realidade posta. O Advento não começou, mas é quase como se.

Deixando de lado minha aversão a decorações alegadamente natalinas über fiasquentas, esse período do ano costuma (para mim como para muitos) ser de reflexões sobre o que passou, o que ainda passará, o que deveria ter passado e outros tempos verbais cada vez mais complexos.

Este ano foi quando menos escrevi no blog do Guri em seis anos. Existe um porquê, certamente; existem vários, aliás. Não listo todos, porque isso aqui tende a ficar enfadonho. Só alguns, de forma bem genérica.

O silêncio tem a ver, sim, com o trabalho, em seus aspectos de volume, intensidade, tempo de dedicação, conteúdo sigiloso. Tem a ver, também, com instabilidades (ainda) não resolvidas da minha vida. Tem a ver, ainda, com adaptações, nostalgias, frustrações, sei-lá-mais-quê.

E tem a ver, talvez mais que tudo, com a sensação bastante nítida de que minha vida de jovem profissional de rotina pouco variável – de casa para o trânsito para o escritório para a visita ao cliente para a natação para o supermercado para casa – não seja lá muito digna de relatos que possam despertar interesse.

Aqui vou ter de usar minha licença dramática, porque a frase pode parecer exagerada: às vezes eu penso, com toda a sinceridade, que já tive todas as minhas melhores experiências, ou pelo menos as mais dignas de relato, e que a partir de agora a vida terá experiências como a curva de uma função exponencial decrescente.

Mas outras vezes eu me dou conta do absurdo que é isso e despenso tudo. Um desses momentos de despensar foi hoje mesmo, quando um cliente, depois de aconselhar-se comigo ao telefone sobre um assunto jurídico qualquer, agradeceu-me dizendo, “obrigado, Guri”.

Aí me lembrei de que sou mesmo o Guri. Pensei no blog e pensei que tenho, sim, experiências dignas de relato, e que ainda terei muitas mais. E se forem aparentemente menos ricas que as do passado, talvez apenas precisem ser fotografadas com outras lentes ou usando uns filtros de cor interessantes. Só preciso voltar a fotografar e revelar por aqui.

Antes que se completem outros três meses

Não sei explicar como funciona esse tal de tempo. Só sei que ele existe. Quer dizer, existe mal e mal. Quando penso que me apropriei dele, percebo que já passou. Ó: passou. E passou de novo.

Nos quase três meses que passaram, trabalhei muito – o que só faz aumentar a sensação de fugacidade do tempo. No escritório, sem contar a rotina normal de análise e redação de contratos, trabalhei no protocolo de dezenove (isso aí!) processos administrativos para aquisição, por clientes estrangeiros, de terras rurais na Faixa de Fronteira. Além do escritório, trabalhei no turno três em mais três projetos de consultoria. Para meu alívio, estão quase concluídos.

Quanto à parte nem-tudo-são-flores do post anterior, sigo longe do equilíbrio desejado. Mas culpar o trabalho longo ou o tempo curto por essa falta de equilíbrio seria insincero. Os culpados são outros.

(O culpado, para ser bem preciso, sou eu. O que quero dizer é que as causas da falta de desequilíbrio são outras. Já explico.)

No meu aniversário (que, aliás, também foi entre o post anterior e este), recebi de um de meus melhores amigos um e-mail bofetada. Ele, sem dúvida, escreveu o e-mail com a melhor das intenções; eu é que, mesmo consciente da intenção dele, li o e-mail como uma bofetada.

No e-mail, ele me contou que se lembrou de mim ao ler uma biografia do teólogo Dietrich Bonhoeffer, um mártir da resistência ao nazismo. A lembrança não foi por causa do prenome de Bonhoeffer (que é um dos meus sobrenomes) nem do prenome de Luther, reformador que teve grande influência sobre Bonhoeffer. A lembrança foi porque, segundo meu amigo, minha autodisciplina seria comparável à de Bonhoeffer.

Bofetada.

Além de me dar vontade de ler essa biografia, o e-mail me fez sentir elogiado por ser lembrado assim por um amigo e, ao mesmo tempo, envergonhado por ele estar enganado. Ultimamente minha autodisciplina anda bastante aquém do apogeu de outrora (acho que um “outrora” só se justifica numa frase que tenha um “apogeu”, né?). A falta do equilíbrio que tanto gostaria de ter, como disse antes, não é culpa do trabalho nem do tempo, nem do pouco tempo que sobra por causa, em grande parte, do trabalho. É culpa da falta de autodisciplina. E a falta de autodisciplina é culpa minha, por óbvio.

Há algum tempo tenho pensado sobre isso. Depois de conversar ontem com minha irmã (sobre os mais aleatórios assuntos, como sempre), fiquei pensando ainda mais e resolvi tomar atitudes. Mas com calma, num crescendo, porque a pressa… é a BFF da frustração!

Decidi reduzir TV e redes sociais radicalmente. De 2009 a novembro do ano passado vivi sem um televisor – e vivi muito bem, obrigado. Não quero nem pensar no tempo que já perdi com televisão desde novembro. Quanto às redes sociais: em 2010, fiz jejum de facebook por 40 dias – e foi tão bom que demorou um bom tempo até ter fome de facebook novamente. Assim como é uma ferramenta legal para manter contato (e por isso reduzirei radicalmente, mas não farei jejum absoluto), às vezes é uma grande perda de tempo. Acho bastante ilustrativo que o primeiro resultado de uma busca no google por “time suck” seja o verbete do Urban Dictionary, que traz a seguinte aplicação da expressão em uma frase:

Ever since I got on Facebook I haven’t been able to stay away. I’m spending hours on it each day – it’s a total time suck, but I can’t stop! Grocery shopping and laundry will have to wait.

É isso aí. A cada dia, um novo passo rumo a uma melhor autodisciplina. (Um dos próximos será ler a biografia do Bonhoeffer!)

Não era pra ser um blog trimestral

Mas nem tudo acontece como a gente quer. E tudo bem, porque os imprevistos da vida, agradáveis ou não, edificam. O lado mais agradável de um hiato na postagem parece ser a diferença de perspectiva que o passar do tempo proporciona. Vejo bem mais claramente hoje que ao longo dos últimos três meses o que realmente importou nesse tempo.

Primeiro, estar com toda a minha família reunida. A bênção de poder reunir com razoável frequência uma família tricontinental compensa até mesmo a forte dor da despedida (sempre acompanhada de choradeira) ao final de cada reencontro.

Segundo, crescer naturalmente no trabalho – e sentir o trabalho crescer naturalmente em mim. É tão difícil acreditar que já completei meio ano de advocacia quanto acreditar que completei apenas meio ano de advocacia. Há desafios novos a cada dia e nem os percebo mais, porque estou cada vez mais acostumado a enfrentá-los sem medo.

Terceiro, cumprir a árdua missão de “mobiliar o apartamento, com calma, simplicidade, conforto e estilo – mas sem torrar grana em luxos”. Há semanas tenho a impressão de que nada me falta em casa. Isso libera minha mente e meu tempo para atividades mais nobres.

É aí que entra a parte nem-tudo-são-flores do post. Apesar dos avanços evidentes, ainda não atingi o equilbrio desejado entre as atividades fora do trabalho: ler, assistir a filmes, nadar, fotografar, estudar idiomas, caminhar, tocar música, escrever. Manter contato com os amigos de longe. Passar tempo com os amigos de perto. Fazer novos amigos.

E, por fim, tem a parte do post em que eu admito um incômodo sentimento de pro-resto-da-vida. Em contraste com os últimos anos (desde julho de 2009) de dinamismo instável, relatados aqui no blog, estou estranhando um pouco a constância dos últimos meses. Antes, vivia incomodado porque não tinha nem mesmo uma vaga ideia de para onde a vida ia; agora, porque tenho a impressão de saber com excessiva precisão para onde vai.

Entre o sono e a vigília

Outrora eu sonhava longos sonhos sonhados ao longo de longas noites de soninho. Na infância e na adolescência, as tramas dos meus sonhos costumavam ser tão elaboradas e fantasticamente dotadas de uma tal falta de sentido que rendiam belas histórias. Aliás, um dos meus projetos de criança (sei lá em que série do ensino fundamental eu estava) foi escrever um livrinho sobre alguns dos meus sonhos mais memoráveis (mas dos quais hoje, mesmo assim, já me esqueci).

Atualmente, porém, minha vida é mais dinâmica, minhas noites são mais curtas, meus sonhos são mais rápidos – mas não menos perplexificantes. Ontem, por exemplo. Nem sei se foi um sonho, um pesadelo, ou um relâmpago de pensamento desorientado que ocorreu precisamente naquela fração ínfima de segundo em que se deu a transição do sono para a vigília.

A linha do tempo foi mais ou menos assim (cada “instante” significa a milionésima parte da menor duração imaginável):

  • Instante 1, ainda em sono profundo: “zzz…”
  • Instante 2, um pesadelo jurídico: “tenho de saltar rápido da cama para ir logo ao escritório e conseguir para o cliente a homologação da sentença penal estrangeira condenatória à morte.”
  • Instante 3, já bem desperto: “hã?”

Há tantos problemas com o pesadelo jurídico do instante 2 que fica até difícil decidir por onde começar a explicar, mas vamos lá. Trabalho com Direito Civil e Contratos; jamais lido com Processo. No escritório, ninguém atua na área de Direito Penal. E, como se não bastasse, a solicitação do cliente é absurda, porque o Brasil não admite a pena de morte (ok, salvo aquela exceçãozinha) e, por isso, jamais homologaria sentença penal estrangeira condenatória à morte.

Preciso dormir – agora, em particular, mas mais, em geral…

Três meses e pouco, em síntese (de novo!)

Passou tanto tempo e aconteceu tanta coisa que nem sei por onde começo – até porque mal me lembro de onde parei! Então vou adotar uma estratégia nada trivial, considerando minha inclinação natural às narrativas organizadas de forma neurótica, linear, cronológica: vou começar pelo fim.

Estou em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, trabalhando como advogado na área contratual de um escritório de advocacia daqui. Assim que voltei de NYC, em meados de agosto, comecei a procurar trabalho como advogado, enquanto terminava a consultoria para o IISD. A proposta de trabalho surgiu em menos de um mês, no início de setembro, e comecei a trabalhar em 15 de setembro.

Resumindo assim, parece até que foi rápido e fácil… Na verdade, foi uma busca de trabalho que começou durante meu mestrado, ainda em 2009. Em 2010, uma vez mestre, veio o bar exam em NY; depois do bar, veio o estágio no IISD na Suíça; em seguida do estágio, veio a consultoria. Durante a consultoria, fui a NY para fazer o juramento na Suprema Corte em NY e para continuar a busca de trabalho (período, aliás, que eu relatei aqui, em inglês). Por fim, mais um mês de busca de trabalho no Brasil. Toda essa andação (EUA, Suíça) para me trazer de volta à Capital do meu estado natal.

Moro agora no apartamento que pertence aos meus pais, mas nesse meio tempo já fiz umas quantas mudanças e já morei em uns quantos lugares – e, curiosamente, o número de mudanças e de moradas não coincide, já explico por quê! Recapitulando…

  • Em janeiro, morava em Genebra, Suíça.
  • Em fevereiro, fui para a Alemanha, com minha família.
  • De março a junho, estive em São Lourenço, morando sozinho na casa dos meus pais, trabalhando como consultor do IISD.
  • Depois de 40 dias em NYC e 20 dias na Califórnia, …
  • … voltei para São Lourenço em agosto, sendo que quase não parei em casa, …
  • … por causa das viagens a Porto Alegre e São Paulo, na busca por trabalho.
  • Em setembro, quando comecei a trabalhar aqui, meio que morei e meio que me hospedei por dois meses com minha roomie publicitária, designer, professora, genial e sem roupa.
  • Finalmente, em 11/11/11, o inquilino saiu do apartamento dos meus pais (depois de uma enrolação sem tamanho que eu quero mais é esquecer), onde passei então a morar, …
  • … ao mesmo tempo em que ajudei minha roomie (porque ex-roomie é feio) a fazer a sua mudança para outro apartamento.

Em resumo: desde o início de 2011, eu me mudei sete vezes; em média, uma morada diferente a cada 40 dias. Não que eu esteja imune a novas mudanças, pro resto da vida, mas posso dizer com bastante segurança que, em 2011, não me mudo mais. Estou bem instalado no apartamento. Estou amando a ideia de ter um armário – em vez de malas-fazendo-as-vezes-de-armário.

O trabalho tem andado bem e estou gostando muito – de certa forma, para minha própria surpresa! Nunca imaginei que trabalharia em Porto Alegre, nem na área contratual. Tampouco imaginei que teria de escrever, trabalhando em Porto Alegre, memorandos e contratos e análises contratuais em inglês, muito menos que me comunicaria com clientes em espanhol e francês. Estou aplicando o que aprendi (de Direito, de idiomas, de relações interpessoais, de mundo) nas experiências que tive aqui e ali – e aprendendo outro tanto!

Estou crescendo. Ou “estou ficando velho”, outra forma legítima de interpretar a situação.

São muitas novidades, acontecimentos até então inéditos em minha vida. Tenho um trabalho fixo (não freelance), com horário fixo (pouco flexível) e um salário fixo (não por hora). Comprei (tive de comprar) móveis e eletrodomésticos. Ou seja: meus pertences nesta Terra não cabem mais em duas malas de 32 Kg (!). Pior ainda: não cabem nem mesmo no automóvel que comprei (tive de comprar).

“Estás estabelecido em Porto Alegre, então?”

Alguém me perguntou um dia e eu quase entrei em choque. Vamos com calma. Eu amo Porto Alegre – e a vida que tenho aqui e mesmo a perspectiva de continuar aqui por algum tempo ou muito tempo ou quem sabe todo o tempo que me resta de vida. Mas “estabelecido” é uma palavra forte, primeiro porque este ano foi de nomadismo, e segundo porque eu ainda sou apenas um Guri. Não faz três meses que estou em Porto Alegre e no trabalho atual. Então, por favor, ninguém me venha com essa de “estabelecido”. Depois que eu tiver 30 (ainda demora uns aninhos), se eu ainda estiver aqui (quem sabe?), reavalio.

“Mas e NYC?”

Essa é a pergunta mais difícil. Um grande pedaço do meu coração continua lá, mas o momento é de estar aqui. Sei disso mesmo sem entender bem como nem porquê.

“E o que será do blog do Guri?”

Existe, ora, e deverá continuar a existir. (De novo: depois que eu tiver 30 e se começar a ficar forçado ter um blog “do Guri”, reavalio.) O certo é que o blog vai mudar um pouco. Antevejo bem menos aventuras para os próximos dois ou três anos que nos últimos dois ou três. Infelizmente, relatos de viagens deverão ficar menos frequentes, mas não desaparecerão. Afinal, eu gosto mais de viagens que de luxos residenciais. “Um teto eu tenho, mas ainda não conheço a Itália.” Acho que essa frase diz muito sobre minhas prioridades!

“E agora?”

Bah, mas só me vêm com pergunta difícil. E agora… sei lá. Uma das coisas a fazer é terminar de mobiliar o apartamento, com calma, simplicidade, conforto e estilo – mas sem torrar grana em luxos. Outra das coisas é que quero voltar a estudar alemão. E talvez a mais urgente de todas: church shopping, para encontrar uma igreja onde me sinta acolhido e envolvido. Não será fácil, depois da City Grace (onde há a maior concentração dos amigos cristãos que tenho!), mas tampouco impossível. Amanhã, quem sabe? Segundo domingo de Advento – vou visitar uma igreja pela primeira vez.

Eu, Eu Mesmo & Irene

Vendo as notícias sobre o terremoto sentido em Nova Iorque esta semana e o furacão e finalmente tempestade tropical Irene, que atingiu NYC esta manhã, muitos ficaram com a dúvida, por isso esclareço: não, não é culpa minha. Saí de Nova Iorque há mais de duas semanas.

Quando estava na Alemanha em fevereiro, houve um terremoto a poucos quilômetros de onde eu estava. No mesmíssimo dia em que retornei ao Brasil, em março, a manchete principal era que o crescimento do PIB do Brasil em 2010 (o único ano da minha vida que passei inteirinho fora do Brasil) foi de 7,5%, a mais alta desde meus tempos de bebê. Dias depois, recém chegado a São Lourenço do Sul, aconteceu a enxurrada histórica que inundou metade da cidade. E foi assim que começou o papo de eu ser agoureiro.

Tem fundamento? Não sei. Mas com a Irene não tenho nada a ver.

Falando muito sério agora: apesar dos ventos e chuvas e inundações e inconvenientes correlatos, felizmente NYC escapou do pior. Meus pensamentos e orações seguem com meus amigos de lá – muitos dos quais tiveram de ser evacuados de suas casas – e com os atingidos pelo furacão em toda a costa leste dos EUA.