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Futebol e estatística

Todos estão cansados de saber e por isso não vou perder tempo com comentários mais elaborados do que este: o Brasil jogou muito mal. Total bola fora. A França, com um futebol superior, mereceu a vitória. Bravo, Zidane !

Acho que falo por toda a nação quando digo que brasileiro sabe perder. A gente não perde a dignidade – até porque as cinco estrelas não permitem! – nem parte pra agressão física no fim do jogo, causando escândalo e maculando a festa mundial do futebol. Quem é vivo sabe que me refiro aos hermanos, é claro. A gente pode perder o jogo, mas nunca a oportunidade de ser superior a eles. :D

Com Brasil na Copa, era “que vença o Brasil”, por mais podre que estivesse a Seleção (e de fato estava). Agora que o Brasil caiu fora, é “que vença o gaúcho” – nosso Felipão e o seu time simpático. Mas, se não der, tudo bem. Não me importa mesmo essa Copa do Mundo. Até porque não é mais do Mundo – é só da Europa.

O que eu queria mesmo comentar hoje é que acaba sendo engraçado o emprego da estatística no futebol, como se fosse parâmetro pra qualquer coisa. A cada ano de Copa, as seleções mudam, os técnicos mudam, as táticas mudam, mas tem gente que faz comparações como se tudo fosse igual. Raciocínios espetaculares (pseudo-lógicos) são construídos… como este aqui:

1994: Brasil vence a Copa
1998: Brasil esbarra na França
2002: Brasil vence a Copa
2006: Brasil esbarra na França
2010… Brasil vence a Copa, é evidente!

(Ainda mais grave é constatar que tem quem faça esse tipo de constatação simplista mesmo em coisas infinitamente mais complexas – como a economia, por exemplo.)

Esqueça-se a estatística. O negócio é baixar o nariz empinado e jogar bola. Sem isso, a probabilidade de caírem estrelinhas do céu pra camisa canarinho… é nula!

Pra ver a banca passar: a primeira batalha

A banca de revisão daquela prova de Direito Civil que fiz há dez meses foi ontem à noite. Participaram da banca o professor que aplicou a prova com a questão controvertida e mais outros dois: um professor meu e outro com quem nunca tive aula.

No ano passado, quando da entrega da prova, tentei convencer o professor a anular a questão sem a necessidade de uma “discussão contenciosa”, mas não adiantou muito. Então decidi levar adiante: pedir vistas de prova, elaborar argumentação, sustentá-la perante a banca. Uma trabalheira.

Mas há a idéia da luta pelo Direito. Por mais que no fim das contas o benefício que se busca através do Direito seja inferior ao desgaste sofrido no caminho processual até a sua obtenção, não importa: a sensação de direito violado impele o lesado a buscar a justiça. “A Luta pelo Direito”, aliás, é título de um livro do jurista Jhering. E eu vim a ler esse livro justamente porque, no primeiro ano, fiz uma resenha a respeito dele, como requisito parcial de avaliação em disciplina do mesmo professor que me aplicou a prova que vim a discutir na banca de ontem! (Ironia na vida, pra que, mesmo?)

Contudo, é preciso deixar bem claro que, desde a origem eu já achava muito absurda a idéia de reunir uma banca de professores de Direito (como se ninguém tivesse nada mais útil a fazer – nem eles nem eu) para discutir uma questão tão elementar… de gramática. Toda a controvérsia estava em uma só palavra complicada, que cai por terra muito facilmente: “deve”. E a questão era objetiva, de falso ou verdadeiro. É bom lembrar, para o bem da lógica, que o verdadeiro (que pode ser enorme, de várias facetas, cheio de virtudes, lindo, maravilhoso e perfeito), se somado ao falso, não dá noutra – vira falso. O falso contamina todo o resto. Foi justamente isso que aconteceu na questão discutida, que o professor pretendia que fosse verdadeira. Para mim, não era.

E não era, mesmo. E os outros dois professores da banca apoiaram minha sustentação. Espero que o professor que elaborou a questão também tenha, no fim das contas, percebido o erro e concordado. Afinal, mesmo o sábio Aristóteles já reconhecia que herrar é umano.

Com isso tudo, junta-se à minha coleção mais uma história feliz pra contar aos netinhos que eu dificilmente virei a ter: a banca atribuiu à questão valor integral e, por isso, obtive nota máxima. (Sim, eu estava com 9,5 antes disso! Eu não disse que era mesmo uma questão de luta pelo Direito?)

Já me senti um pouco melhor com relação às tentativas de castração que o Direito me tem aplicado. Vou impor valor ao que eu tenho a dizer. Já garanti em post recente aqui no blog: quem vai vencer sou eu. De batalha em batalha.

O mundo pára e a bola gira

Meu apetite postador de hoje está tal que chego a me aventurar a escrever sobre um assunto inesperado. No meu manual de instruções (Compreenda Martin em treze lições simples), esse tema figura na seção “Assuntos pouco prováveis em uma conversa”. Chega a ser um exemplo de livro-texto, quase caricato, daquilo que não tem absolutamente nada a ver comigo e a respeito de que não tenho qualificação alguma para discorrer. Para quem me conhece minimamente já deve estar óbvio que me refiro a futebol.

Eu nunca joguei muito bem – por isso, talvez, acabei virando goleiro (preconceito?). Agora, pelo menos isso: era um bom goleiro. Jogava de quando em quando com a gurizada da vizinhança, mas nunca fui um grande apaixonado. Torcedor, até que fui, mas só nominal – como todo o mundo, me dizia torcedor de um time de Porto Alegre e outro de Pelotas.

O futebol só virou trauma de infância quando meus pais me forçaram a jogar na escolinha que passou a funcionar na associação do bairro, perto de casa. “Eu sei que eu preciso fazer um esporte, mas quero jogar basquete!”. Que dúvida: sendo eu absolutamente incapaz para a prática de atos da vida civil, meus pais me colocaram na tal escolinha, e pronto. Não eram tão sofridos os treinos (até que me divertia), mas eu realmente não tinha talento algum. Eu era mesmo perna-de-pau. Também, não queriam que eu fosse goleiro…

Deve fazer seis anos (explosão!) que não chego perto de uma bola de futebol, tudo por causa do trauma. Assisti a um jogo em um estádio uma só vez – um BraPel, o clássico da cidade de Pelotas. Não teve, aliás, importância alguma na minha vida. Na televisão (eu sou ou não sou o sonho de qualquer namorada?) eu só assisto jogo de futebol quando é da Seleção Brasileira, e numa situação bem específica: Copa do Mundo.

OBS.: Quanto a eu ser ou não ser o sonho de qualquer namorada, não pensem que é presunção minha. Nada disso. Como diz um amigo, é justamente o contrário. Nesta situação de baixa auto-estima, eu preciso mesmo desse tipo de auto-incentivo.

Agora vem a confissão: hoje foi o primeiro jogo da Copa de 2006 que assisti (ou consegui assistir) do início* ao fim. Nos outros jogos, eu tentei, mas não deu certo – sofro demais. Hoje, consegui, mas continuo sofrendo. Ah, e pensar que ainda temos até três jogos pela frente nessa Copa… Eu sofro! E me irrito quando o desempenho dos jogadores não me agrada. E me irrito ainda mais por não ter esse direito – quem sou eu pra criticar qualquer jogador de futebol? Até os guris de oito anos aqui da rua me dão um show de bola.

E sofro mais: amo o Brasil e o futebol do Brasil, mas não me conformo com injustiça. Fico indignado com o fato de que os árbitros não podem usar a tecnologia disponível. No jogo de hoje (contra Gana, oitavas de final), aquele segundo gol do Brasil, feito em situação de impedimento que era evidente aos telespectadores, valeu só porque o juiz não era eu. (E eu nunca seria juiz, porque não passaria nem em concurso pra gandula). Quanto ao resultado do jogo, já dizia aquele velho ditado árabe: mais vale uma vitória justa por 2 x 0 do que uma vitória esmagadora de 3 x 0 com uma pulga atrás da orelha.

* * * * * *

Pra terminar, conto a experiência prévia ao jogo de hoje… Fiz uma prova das dez horas ao meio-dia – horário do fim da prova, horário do início do jogo (por isso é que assisti o jogo “do início* ao fim”). Peguei o ônibus para voltar pra casa. Nunca vi o ônibus deslizar tão rapidamente pela rua. A cidade estava totalmente deserta. Podia contar nos dedos o número de pessoas que vi na rua. As lojas estavam quase todas fechadas… parecia até domingo! O país simplesmente pára.

Quer saber? Que pare. (Já recebi críticas por isso: “Quê? Tu, um guri esclarecido, defendendo o pão-e-circo?”) O mundo poderia, é verdade, parar em prol dos direitos humanos, da qualidade de vida, da paz mundial e outros motivos nobres. Mas o esporte também é motivo nobre. Além do mais, já existe muita desilusão e tristeza nesse Brasil. A gente precisa de um motivo de patriotismo.

Parem tudo e vistam-se de verde-e-amarelo e azul-e-branco e estrelinhas e faixas de Ordem e Progresso! E que ninguém me venha com ingenuidade: não é mero acaso que a Copa caia em ano de eleição presidencial… é um presente divino!

Je me souviens

Acabo de voltar da minha palestra na Faculdade de Letras da UFPEL: Je me souviens : un séjour au Québec (“Eu me lembro: uma estada no Quebec). Falei das minhas experiências na melhor viagem da minha vida, na oportunidade em que me apaixonei profundamente pelo Canadá. Falei sobre as razões por que fui ao Canadá, as minhas atividades lá, os lugares que visitei.

Que cara de pau! Eu, ministrando uma palestra na universidade, em francês, na presença de professoras… Eu, que estudo francês (formalmente) há menos de um ano… Haja coragem! Mas, falando em uma língua que amo sobre uma vivência incrível, tratando de um assunto (mudanças climáticas) que tanto me interessa, eu me senti tão bem! Até me esqueci do nervosismo e das dúvidas e da desenvoltura incerta. Acho que só agora, chegando em casa, é que me dei conta da loucura que acabei de fazer.

E, para acabar com o meu encanto, tenho o firme auxílio de uma boa dose de realidade: preciso estudar para uma prova de Direito Civil. Direitos de vizinhança. Condomínio. Castração da própria alma. O Direito é, por vezes, o incansável perseguidor da minha poesia. Parece que se esforça por silenciar aquela musiquinha que não pára de cantar aqui dentro de mim. 

Mas quem vai vencer sou eu.

A bicicleta, o avião, a carruagem e o metrô

Nicolas Desjardins

João dos Santos e sua filha Anabela moravam em apartamento próprio, mas parcamente mobiliado, na periferia de Porto Alegre. Ele tinha trinta e cinco anos, apesar do aspecto de gurizão de vinte e cinco. Era enfermeiro e trabalhava em um posto de saúde que ficava perto de onde morava, tão perto que ia de bicicleta. Ela tinha catorze; crescera sem a mãe, que abandonou o lar e a criança de colo para tentar a vida com um sem-vergonha por quem se apaixonou. Assim é que João e Anabela tinham um ao outro na vida, e nada mais. Ele trabalhava por ela. Podia arcar com um só luxo: pagar aulas particulares de francês para a filha. Ela, por seu lado, estudava por ele. Tinha um só projeto: ser professora de francês e retribuir o esforço do pai.

Nunca se poderia imaginar que um comentário inocente viria a fazer tanta diferença na vida de João e Anabela. “O Canadá tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo!”, disse aos colegas um dos estudantes de Medicina que atendiam no posto de saúde. “E como os canadenses têm poucos filhos, eles incentivam bastante a imigração. Quem sabe tem chance lá pra nós, hein? Tudo de bom!”.

Foi por acaso que João ouviu isso, mas ficou atento. Ele já ouvira coisas positivas sobre o Canadá. Não que ele fosse um homem erudito, mas ao menos assistia a algum programa de televisão, todas as noites, até ser vencido às pauladas pelo cansaço. Pela televisão, ele ficara sabendo que o Canadá tinha mesmo um bom sistema de saúde, e que a imigração era mesmo facilitada – e também que se falava francês por lá. O comentário do estudante de Medicina fez João pensar. No Brasil, não dava mais pra viver. Talvez no outro extremo do continente (ele ainda lembrava um pouco das aulas de Geografia!) sua profissão fosse mais valorizada. No Canadá, onde o governo ajuda tanto os imigrantes, talvez desse para pagar a faculdade para Anabela. Melhor ainda – ela talvez conseguisse passar em uma faculdade lá, para estudar francês em um país de língua francesa. Talvez. Tudo de bom…

Mesmo no seu dia de folga, João pegou a bicicleta e foi ao posto de saúde, para usar o computador da sala dos médicos. Buscou informações na Internet sobre obter o visto de imigrante. A burocracia não aparentava ser complicada, cara ou demorada. Era preciso apenas juntar uns documentos aqui, responder uns formulários ali, e enviar tudo ao serviço de imigração. João fez tudo isso em sigilo, sem contar para Anabela. Economizou em tudo para conseguir pagar as taxas. Apesar do esforço, não tinha muita esperança de que desse certo. Qual não foi sua surpresa quando, oito meses depois, chegou uma carta. O Consulado do Canadá em Porto Alegre chamou para uma entrevista, em inglês e francês. E chamou não só João, mas também Anabela – os dois candidatos à imigração.

Não tinha mais como esconder: João contou para a filha sobre a sua idéia, sobre o tiro no escuro, sobre a entrevista. Nunca tinha visto os olhos verdes de Anabela tão azuis como naquele dia. Brilhavam como nunca. Ah, uma possível ida a um país de língua francesa! Anabela também já havia ouvido falar sobre o Canadá. Nas aulas de francês, a professora particular dava uns toques sobre a cultura canadense, o estilo de vida, o bilingüismo… A fantasia sem amarras de Anabela permitia que ela se imaginasse vivendo lá.

Na entrevista, os funcionários do Consulado ficaram muito impressionados com o francês da menina e com o inglês do pai – positivamente quanto a ela, negativamente quanto a ele. Ainda assim, o que João sabia de inglês, recordações dos três semestres de curso básico que fizera, bastava para as exigências da entrevista. Semanas mais tarde, chegou outra carta: tinham sido emitidos os vistos de imigração.

Foi preciso ler, reler e treler a carta, tal era a incredulidade dos dois – uma incredulidade feliz. Logo passou o período de anestesia e João se obrigou a confrontar seus questionamentos. Emigrar para um país distante, sem garantia nenhuma, submetendo a si mesmo e à filha a um banho de imersão em incerteza – era isso mesmo que ele queria? É claro que não. Mas, ora, não era isso que estava em jogo. Havia garantias: o governo canadense lhe daria uma determinada quantia em dinheiro para o seu estabelecimento e para as despesas dos primeiros meses. Receberia, além disso, um benefício de seguro-desemprego por doze meses, até que pudesse encontrar um trabalho condizente com suas habilidades. Não se tratava de um banho de incerteza; na verdade, era uma grande oportunidade para que João fizesse um retorno na rua sem-saída em que sua vida tinha se transformado. Ele era jovem e resolveu apostar tudo nessa chance única. Depois de fazer o retorno, restaria escolher se queria seguir à frente, à direita ou à esquerda. Voltar para trás, nunca mais.

Vendeu o quase-nada que possuía: do apartamento à bicicleta velha que tinha mais valor sentimental do que econômico. Conseguiu juntar um dinheirinho razoável, ao menos suficiente para pagar os bilhetes de passagem aérea e complementar, se preciso, a ajuda do governo canadense. Afinal, precisaria de dinheiro para reconstruir a vida. Ir para o Canadá já não era apenas uma idéia, mas um projeto de vida. João estava decidido a não mais voltar. Não tinha por que deixar algo seu no Brasil.


(Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre: http://www.portoimagem.com)

Num vinte e nove de julho, João e Anabela devolveram à hospedeira a chave do quarto de pensão onde moraram por um mês, após a venda do apartamento. Cada um tinha uma mala, não muito grande nem pesada. Pegaram uma lotação para o aeroporto. Fazia um frio de rachar em Porto Alegre naquela típica madrugada de inverno. O vento soprava forte no Salgado Filho e o chefe daquela unidadezinha familiar, totalmente inexperiente no quesito viagens aéreas, tremia de medo – muito embora, macho, não admitisse: “não é medo, é só um pouco de frio”. Anabela procurava tranqüilizá-lo: “Ô, pai, nem te preocupa: a professora de Geografia disse que o avião é um dos meios de transporte mais seguros que existem – quase nunca acontecem acidentes”. O argumento não convenceu o homem (essa aula de Geografia ele tinha faltado) e ele continuou disfarçando o medo.

Anabela, ao contrário, nem se quisesse poderia esconder a alegria. Desconversava feliz da vida: “Ah, falando em transporte, tu sabia que no Canadá tem metrô? E não é que nem o Trensurb aqui de Porto: é um metrô mesmo, que anda sempre por baixo da terra. Dizem que também é tri rápido e seguro! Será que a gente vai andar muito de metrô lá, pai?”. João não conseguia muito mais que murmurar respostas sem sentido e continuar alimentando o seu medo bobo. Anabela não dava bola – nada poderia tirar-lhe a alegria. Despedira-se de suas melhores amigas e as proibiu de ir ao aeroporto. Não queria ter mais despedidas chorosas nem ver nenhuma delas no observatório do andar de cima, dando tchauzinho. Queria mergulhar na vida nova. Manteria contato, é claro, mas não queria oportunidade de arrependimentos e dores da partida.

Os vôos, as conexões e a chegada ao Canadá se deram sem complicações, permitindo que se dissipassem o medo e as preocupações de João. Era a manhã do dia trinta, um domingo ensolarado, quando pousaram no aeroporto internacional Trudeau, na cidade de Montreal. Fazia quarenta graus – não sabiam que era verão no hemisfério norte (essa aula de Geografia os dois tinham faltado). João e Anabela guardaram as roupas do inverno gaúcho na mala e tiraram o dia para conhecer um pouco da metrópole. As flores e os jardins, a arquitetura do centro antigo da cidade, o povo receptivo, gente falando francês, gente falando inglês… Não restavam dúvidas: queriam morar lá mesmo.

O primeiro pernoite foi em um albergue de juventude bem barato. No dia seguinte, uma segunda-feira, João tratou de encontrar, no lado francês da cidade, um apartamento. Era tão simples e parcamente mobiliado como o de Porto Alegre, mas havia boas perspectivas: era apenas o começo. João procurou o serviço de imigração e obteve o auxílio inicial do governo. Abriu conta bancária para fazer o depósito do cheque e das economias trazidas do Brasil, já convertidas em dólar. Depois, foi com Anabela matriculá-la em uma escola pública. Ela estudaria em língua francesa. Naquele dia os olhos dela brilharam e azularam tanto que nunca mais voltaram a ser verdes.

(Praça Jacques-Cartier, e a Prefeitura antiga de Montréal, ao fundo)

O arranjo, até então, estava perfeito, mas chegou o mês de agosto. Na primeira hora do dia, Anabela foi para a escola e João, à secretaria de saúde, em busca de emprego. “Seu diploma não vale, Monsieur Santô”, dizia o atendente. João tinha dificuldade de entender. “Seu diploma brasileiro não tem validade aqui no Canadá, Monsieur”, repetia o rapaz, esforçando-se para falar devagar e claramente. João compreendeu já na segunda vez – seu problema era não querer compreender. Como assim, não tem validade? Saiu dali e foi direto até a Prefeitura. Era imigrante e tinha direitos. “De fato, o senhor tem vários direitos como imigrante”, concordou o funcionário, “mas, para exercer a enfermagem, terá de estudar em uma universidade canadense. O senhor não leu os papéis da imigração?”.

Não, João não lera os papéis da imigração – pelo menos não essa parte. Saiu dali com lágrimas nos olhos: era apaixonado por sua profissão. Descendo a escadaria da Prefeitura, avistou a Praça Jacques-Cartier, logo em frente, cheia de turistas. E os turistas estavam cercados por feirantes, músicos, pintores – todos tinham algo para vender. Foi um consolo para João. Não lhe faltariam oportunidades de trabalho naquela cidade. Viu também, à margem da praça, uma carruagem, levada por um belo e forte cavalo branco e conduzida por um senhor grisalho, sorridente e vestido em trajes de época. Na parte de trás da carruagem, um casal de turistas apaixonados devorava com os olhos as belas imagens à sua volta. João se imaginou naquela posição, em alguns anos: grisalho e sorridente, conduzindo casais em uma carruagem ao longo das ruas românticas da cidade antiga de Montreal. E pensou no sorriso e nos olhos azuis contemplativos de Anabela, sentada na carruagem, num dia de folga em que ele pudesse levá-la para passear. Fez uma boa oferta ao dono da carruagem (foram-se as economias) e começou a trabalhar no dia seguinte.

(A carruagem, em frente à Praça Jacques-Cartier!)

O negócio ia bem, até que chegou o inverno. Em dezembro, a temperatura caiu para vinte graus negativos. Quando a temperatura ficava mais amena, perto de zero, nevava muito. De um jeito ou de outro, poucos saíam de casa para um passeio de carruagem. No início, João passava dias inteiros ali, parado em frente à Praça Jacques-Cartier, esperando algum turista corajoso – que nunca vinha. O jeito foi guardar a carruagem em um depósito, mandar o cavalo para um haras na periferia e pedir o seguro-desemprego ao governo. Voltaria a trabalhar em um mês.

Mas o que ele não tinha era seguro-desespero – e começou a preocupar-se, achando que se encaminhava ao mesmo insucesso que vivia no Brasil. No mês de janeiro viciou-se em televisão, o que só serviu para aprimorar seu francês e destruir sua auto-estima. Fez um super-rancho no início do mês e cozinhava todos os dias em casa, só para si, na hora do almoço. Anabela almoçava na escola. Sua aula terminava às cinco da tarde. Ela saía de lá às cinco e dez e, depois de vinte minutos na linha verde do metrô, chegava à estação de destino.

(Estação de metrô, em Montréal)

Esse era o único momento do dia em que João colocava os pés fora de casa, naquele inverno. Todos os dias, pontualmente às cinco e quinze, saía de casa e caminhava até a estação Honoré-Beaugrand, a dez minutos a pé do apartamento; levava no máximo quinze minutos, quando o gelo na rua dificultava muito a caminhada. E lá João esperava Anabela. Ela descobria um mundo novo; ele, como no Brasil, só tinha a ela. Esperá-la dia após dia e vê-la ansiosa para contar as muitas novidades era sua única alegria. O sorriso e o brilho nos olhos de Anabela eram a vida de João.

Naquele dia não havia gelo e João chegou à estação cinco minutos antes do metrô. Esperando na plataforma, viu um pequeno aro de metal dourado perto dos trilhos. Parecia um anel de ouro. “Quem me dera pudesse dar um desses à Anabela…” Mas será que era um anel? Foi para perto, na beirada, e se inclinou para ver melhor. Era mesmo um anel de ouro, com uma pedrinha brilhante! De bobeira, desequilibrou-se e caiu no fosso do metrô, entre os trilhos, bem ao lado da placa onde dizia: 1.200 Volts. Por um triz! João colocou discretamente o anel no dedo mínimo e gritou por ajuda para subir de volta à plataforma. Um passageiro saiu em busca de ajuda, mas o trem vinha rápido.

No trem vinha Anabela. Ela nem imaginava, mas naquela noite… ganharia um anel.

Banca, eu?

Ao chegar em casa da aula no Direito, ontem, recebi o recado de que ligaram de lá mesmo, da Faculdade, chamando para uma banca. Que banca? Do trabalho de conclusão é que não pode ser – pra isso ainda faltam dois anos. Só podiam ter ligado para a pessoa errada… (Se bem que seria ótimo se eles decidissem me formar mais cedo!)

Fui à secretaria da Faculdade, hoje pela manhã, para tirar satisfações sobre a tal banca. Acontece que é comigo mesmo. Eu já nem me lembrava disso, mas em agosto do ano passado (!) pedi revisão da primeira prova de Direito Civil do ano – e agora, uns dez meses depois, fui chamado para fazer a defesa da minha argumentação perante uma banca. É uma ótima oportunidade para reestudar Direito Civil 2, especificamente sobre um conteúdo a respeito do qual fiz prova há cerca de um ano

Mas é também uma boa oportunidade de escrever acerca das manias e maneiras dos professores quanto à reavaliação de questões controversas nas provas. É nos períodos de publicação de notas (estou passando por um!) que se confirma (ou não) o profissionalismo do professor. Esse assunto renderá, sem dúvida, um post – e excelentes comentários complementares. ;)

O homem a serviço da tecnologia

Computadores foram criados para facilitar (em tese) a vida das pessoas. E se pode mesmo dizer que facilitam – pelo menos até que resolvam, sem aviso prévio, parar de funcionar. É o que os técnicos da informática costumam diagnosticar, com muita propriedade e rigorismo científico, com a seguinte frase: deu pau.

Os micros que a minha família teve ao longo da última década já deram pau tantas vezes que, uns anos atrás, cheguei a ficar amigo dos guris da assistência técnica e a fazer um “estágio” (não-remunerado) na loja onde eles trabalhavam. Aprendi bastante sobre instalação de hardware e software. Ao fim do período do “estágio” (nem me lembro se foi um semestre ou um ano), passei a ter uma boa independência, para resolver por mim mesmo os paus do PC aqui de casa.

Isso, como tudo, tem pontos positivos e também negativos. Por um lado, economizam-se os 50 reais da visita técnica que um especialista cobraria – muitas vezes para dizer que o problema não tem solução e que o HD terá de ser reformatado… De outro lado, perde-se um bom tempo tentando descobrir e resolver um problema, quando qualquer técnico habilitado poderia fazer isso muito mais rapidamente (em tese!!!).

No último sábado, numa bela hora da tarde, meu computador congelou e não mais se reiniciou. Entrei em pânico, chorei de raiva pelos meus dados potencialmente perdidos e já estava até pensando em argumentos para uma ação de indenização por perdas e danos contra o fabricante. (Invocadinho, eu?)

Fui teclar com minha irmã pelo computador dos meus pais para ver se ela ou meu cunhado pensavam em alguma solução… quando também o computador dos meus pais congelou e não mais se reiniciou. Foi meu dia de Midas invertido: parecia que tudo em que tocava virava um latão vagabundo.

Passei um bom tempo trabalhando para trazer as máquinas de volta à vida. Eu sou incrivelmente seguro e não admito (pelo menos no que diz respeito à informática) que outra pessoa me cobre o que eu posso muito bem fazer. É claro que o meu conhecimento é limitado nesse campo, mas a minha persistência manda tentar tudo o que eu sei antes de chamar alguém que saiba mais.

A história teve final feliz: os dois voltaram a funcionar. Perdi tempo, mas economizei (em dobro, talvez!) – valeu a pena. Eles que se comportem, agora. Eles é que estão aí para me servir, e não o contrário…

A semana-piada

Mais uma pra série universitária! (E olha que a semana mal começou…)

Manhã de segunda-feira

Um dos professores já tinha avisado que não iria; o outro mandou avisar na hora, mesmo. Não houve aula.

Noite de segunda-feira
Trabalhos da Economia para fazer em casa, além da maldita invenção do ensino à distância. Não houve aula.

Manhã de terça-feira
Conforme tinham avisado na tarde da véspera, os professores não compareceram. Não houve aula.

Noite de terça-feira
Faltei transgressiva e voluntariamente (eufemismo, claro) a primeira aula, mas na verdade foi “crime impossível”, porque não houve a primeira aula. Era o dia da aula inaugural do Instituto, e eu tinha esquecido. E a aula inaugural invadiu também o período da segunda aula. Como cheguei tarde, o auditório estava lotado – e nem pude entrar. (Ao menos para mim) Não houve aula.

Manhã de quarta-feira
No primeiro período, prova de segunda chamada. Como tinha feito a prova em primeira chamada, uma semana antes, estava dispensado. Só cheguei no segundo período. O professor teve de sair mais cedo e falou apenas por cerca de 45 minutos. Não houve aula. Só meia-aula.

Tarde de quarta-feira
Houve aula – a primeira aula inteira da semana.

Noite de quarta-feira
Cheguei à sala de aula da Economia: ninguém, tudo escuro. Perguntei à secretária pelo professor. “Não, ele não vem hoje”. Não houve aula.

Manhã, tarde e noite de quinta-feira
Feriado nacional. Não haverá aula.

Manhã de sexta-feira
Os colegas combinaram na manhã de hoje, quarta-feira, na primeira (meia-)aula da semana, que não viriam à aula na sexta-feira próxima. Feriadão declarado pelos próprios alunos. Não haverá aula.

Tarde de sexta-feira
O próprio professor sugeriu hoje à tarde, na primeira aula inteira da semana, que não fôssemos à aula na sexta-feira à tarde, oficializando o feriadão que clandestinamente já fora declarado. Não haverá aula.

Noite de sexta-feira
Ensino à distância, de novo. Não haverá aula.

Desgastes e desgostos da socialização universitária

Fiquei tão feliz comigo mesmo depois do meu último post, em que finalmente consegui publicar algo a respeito de um assunto totalmente aleatório – mas a minha alegria se esvai hoje, porque não posso mais resistir à inquietação que tenho desde ontem por escrever sobre um assunto conexo ao do último post. Não adianta, eu sou mesmo uma pessoa temática. E o meu blog segue meu padrão. A verdade é que uma coisa leva a outra: escrevo sobre um assunto e, por isso mesmo, acabo refletindo mais profundamente sobre assuntos afins. Ficou para outro dia a façanha de publicar neste blog posts solo, sem cada vez dar início a uma seqüência ou novela.

Sábado eu fui a uma festa de aniversário de uma colega da Economia. Ela é uma guria muito querida, e tal, e os colegas também são muito legais, e tal. Fui convidado e não pude deixar de ir. Mas foi aos moldes dos churrascos da turma. E os churrascos da turma (tanto no Direito quanto na Economia) têm moldes que me irritam.

Não é porque não sei dançar pagode (!) nem porque não gosto de cerveja (!) nem porque não vou a festas pra caçar ou ficar (!) nem porque sou vegetariano (explosão!). Estaria muito feliz em uma festa, sem dançar nem beber nem caçar nem me alimentar – pra mim vale por si só a socialização. Eu sou uma pessoa socializante. O problema está no contexto. Não é meu tipo de diversão, nem de socialização. Prefiro muito mais jogar conversa fora com colegas e amigos – ou jogar algum jogo de tabuleiro – ou jogar boliche – ou ver um filme – ou sair pra comer uma pizza ou um queijo-quente do Sanata (essa é só pra pelotenses!). O que me importa é que todos estejam sóbrios. Taí um grande problema meu: sou um dos poucos que se colocam contra a ebriedade em um meio de pessoas que não estão nem aí e que acham que o bom, mesmo, é ficar bêbado, borracho, pra lá de Marraqueche.

Um tempo atrás eu desisti: simplesmente deixei de ir a churrascos de turma. Assumi que a coisa não faz minha cabeça. Mas existe a insistência… Tem vezes que não resisto à pressão e vou – e fico lá, perdido. É tudo muito vazio de sentido, superficial, alucinado. Chega a ser um mundo paralelo cheio de vazio. Não se encaixa na minha lógica. No fim das contas eu acabo voltando, desgastado, aos meus desgostos.

Formatura e dilemas

Na manhã de ontem foi marcada a data: 23 de janeiro de 2009 (!!!) será minha formatura no curso de Direito. [A propósito, estão todos convidados!] Faz pouco que se iniciou a segunda metade do curso, mas até se pode dizer que a data não foi marcada tão cedo assim. Em geral, a primeira coisa que os bixos do Direito fazem é preparar as fotos para o quadro de formatura…

Brincadeiras (com sua boa dose de crítica) à parte, a discussão sobre a data e sobre o reajuste na mensalidade da associação da turma me deu até nó na garganta. Eu já fui, aliás, secretário da associação – felizmente hoje estou livre disso e consciente de nunca mais assumir esse tipo de obrigação! O que acontece hoje é que estou muito mais inclinado a uma formatura de gabinete do que a um megaevento do trinômio colação-recepção-baile.

Surpreendentemente, não estou muito disposto hoje a uma argumentação longa. Os argumentos são tão patentes que parece redundante apontá-los, mas vamos lá, de forma breve. Em primeiro lugar, não será minha única nem primeira formatura (a Economia vem antes). E por derradeiro lugar (aliás, só este argumento já basta!), juntar cerca de mil reais (em não-tão-suaves prestações mensais pagas à associação da turma), para gastar em uma só noite, é quase um absurdo sob o ponto de vista pessoal. Aliás, não só pessoal – também distributivo ou social. Eu preferiria empregar os sessenta mil reais (R$ 60.000,00, pra visualizar melhor) que a turma como um todo vai juntar para fazer o espetáculo na compra de uma casa para quem realmente precisa – ou qualquer outra coisa que não me pareça tão fútil e efêmero.

Por que as formaturas precisam ser megaeventos? Por que não fazer cerimônias mais modestas? Tudo bem, é ótimo para as produtoras e, por isso mesmo, para a economia. E é evidente que esse é um momento especial na vida das pessoas – na minha vida também será, por óbvio. Mas será inesquecível de qualquer forma… Todo esse circo vale a pena?