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Tantos motivos para ter parado de postar

Não tem jeito, mesmo: sempre que volto a postar no blog do Guri depois de um tempo de hibernação, escrevo um postão com justificativas. Eu adoraria poder evitar isso (seja simplesmente não hibernando, seja não me justificando depois da hibernação!), mas (1) tem vezes que não dá pra postar e pronto, e (2) não tenho a cara-de-pau de voltar a postar así nomás, sem nenhuma explicação pros meus leitores.

Aliás, que leitores? Coitados – os mais persistentes fugiram de raiva nos últimos meses. Vamos ver se consigo me redimir, pelo menos por enquanto. Sabem como é – não foi a primeira hibernação do bdG, e muito provavelmente não será a última. Melhor assumir isso do que jogar tudo pro alto e desistir de ter um blog. Bem, eu poderia muito bem jogar tudo pro alto e desistir de ter um blog. Mas isso é outra coisa que eu não consigo fazer, e só porque eu gosto muito do meu bloguinho – embora isso não seja aparente todo o tempo, como nesses longos períodos de apostância (bah, isso existe? entenda-se!).

Tá, mas o que aconteceu que eu parei de postar? No primeiro semestre de 2008 eu estive muito triste, e acho que hoje entendo bastante bem o porquê. Resumindo, foi uma combinação de três ingredientes: um caminhão de saudade de um dos melhores períodos da minha vida (meu tão sonhado estágio nas Nações Unidas) mais uma pitada de frustração com meus cursos (Direito e pós em Direito Ambiental) mais um punhado de falta de perspectivas para o futuro (deprê pós-formatura da Economia mais deprê pré-formatura do Direito). Minhas atividades não me ocupavam nem me consolavam, só me faziam entrar em pânico por não ter absolutamente nada marcado na agenda de 2009 (como muito bem ilustrou Carol Grassi).

Então, num impulso de determinação (do tipo, “basta!”), criei uma pasta “2009” no computador e criei um label “2009” no meu gmail. (Podem acreditar: isso funciona; não é puramente simbólico.) Comecei a encher a pasta “2009” com as mais diversas subpastas: concurso para a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), concurso para o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), projeto de dissertação para a seleção do Mestrado em Direito da UFRGS (também conhecida como “Úrguis”), processo de seleção para um emprego na World Resources Institute (WRI) em Washington, estudos para a prova de proficiência TOEFL, candidaturas para mestrados em Direito nos EUA

Em suma, dei tiros pra todos os lados. Se acertasse um pássaro, ficaria triste, porque sou pró-ambiente, mas assumi o risco: atirar era preciso. O segundo semestre de 2008 inaugurou um tempo de reorganizar a vida e os planos para 2009 e além, e não um tempo de postar. Vida e planos reorganizados, perdas e ganhos contabilizados, volto a postar.

Reflexões de um estrangeiro

Foi tal a freqüência de eventos sinistros, tristes ou difíceis (ou tudo isso ao mesmo tempo!) nos últimos dias que acabei relaxando na postagem. Acho que tudo começou com o acidente no sábado passado, mas continuou durante a semana passada com o suor para a finalização do meu paper (sim: mandei o último rascunho para a SUPERvisora na sexta-feira e agora só estou à espera dos comentários!). Vejamos se consigo pôr a postagem e as notícias em dia.

No domingo visitei com minha irmã e meu cunhado o campo de concentração de Dachau, que foi o primeiro a ser construído no regime nazista e persistiu até o fim da Segunda Guerra. Claro que não dá pra dizer que esse tipo de visita seja “legal”, mas é sem dúvida interessante, algo que todo o mundo deveria fazer (talvez só) uma vez. Tirei apenas quatro fotos. Não vale a pena postá-las aqui: o que vale, mesmo, é a mensagem. Numa parte do memorial, diz, em francês, inglês, alemão e russo: Que o exemplo daqueles que foram exterminados aqui entre 1933 e 1945 porque resistiram ao nazismo ajude a unir os vivos pela defesa da paz e da liberdade, em respeito pelo ser humano (tradução minha). Noutra parte diz simplesmente: Nunca mais (tradução minha), em hebraico, francês, inglês, alemão e russo. Claro que uma visita assim só podia me deixar pensativo…

Na segunda-feira, indo de bonde (Straßenbahn) do centro de Bonn para (a gloriosa) Kessenich, conversava com minha irmã pelo celular. No mesmo vagão, uns guris estavam brincando uns com os outros, mas naquelas brincadeiras meio violentas, que não dá pra saber direito se é carinho ou se é porrada. Se me lembro bem, a Ca me disse para ficar um pouco quieto no telefone, porque poderiam inventar de me incomodar. Eu achava que não tinha problema, porque eles estavam no lado oposto do trem.

Porém, depois que desceram, umas duas paradas antes da minha, e antes do bonde voltar a andar, um deles bateu com tudo no vidro da janela, bem onde eu estava sentado. E quando eu digo “bateu com tudo” quero dizer: com vontade de botar pra quebrar, mesmo. Engoli em seco e me concentrei em ficar na minha; não queria parecer assustado nem mudar de lugar, porque devia ser bem isso que eles queriam. Disfarcei o susto (estou bastante seguro de que consegui!) e segui conversando normalmente ao telefone. Em segundos, o trem fechou a porta e começou a se mover… e o cara veio de novo bater com tudo na janela do trem, bem onde eu estava!

Pelo telefone contei pra minha irmã o que tinha acontecido e brinquei que, a rigor, com essa cara de alemão que eu tenho, eu não deveria ter problemas com neonazis. Só com a resposta dela é que fui me dar conta: posso até ser “imune”… mas só enquanto não abro a boca e falo português!

Na noite do dia seguinte, terça-feira, fiquei trabalhando até mais tarde no Secretariado, e antes de sair troquei umas palavras com uma assistente administrativa do Legal Affairs, a única que também ainda estava por lá. Contei sobre o incidente da véspera e ela, que também é estrangeira (filipina), me disse que alguns bairros da cidade são desaconselhados para estrangeiros, por causa da xenofobia de alguns moradores locais. Disse também que uma vez gritaram para um conhecido dela algo em alemão do tipo: “volta pra casa!” (querendo dizer: pro teu país de origem).

Com duas amigas estagiárias, fui ao Langer Eugen na quarta-feira para uma sessão de cinema restrita para funcionários da ONU. (“Sessão de cinema”, aqui, quer dizer projeção de DVD em um datashow! ;) Mesmo assim, não se pode reclamar: a imagem e o som estavam excelentes!) O filme? Hotel Ruanda. E aí está, mais uma das minhas recomendações de cinema! Sei, mais um filme-de-catálogo, mas muito boa sugestão pra quem ainda não viu! Minhas duas amigas saíram chorando e, pra ser bem sincero, eu também estava quase lá! O filme é bastante pesado, triste, emocionante, e talvez ainda assim “adocicado” perto dos horrores que na realidade devem ter acontecido. E pensar que tudo ocorreu por causa de um ódio entre grupos étnicos inventados, cujas diferenças existiam apenas na sua imaginação, que nutria preconceitos infundados…

Finalmente, no sábado fomos a Berlim. O postálbum, incluindo o relato dos passeios tão interessantes que fizemos e até de um agradável reencontro de amigos, vai ficar para outra hora; por enquanto, só consigo pensar em algumas coisas que me entristeceram. Fiquei negativamente supreso com a quantidade de “gente estranha”, perdida na vida, que vi pelas ruas. Às vezes tinha a impressão de que nem estava na Alemanha. Foi a primeira vez que me senti verdadeiramente inseguro desde que estou por aqui. Na noite de sábado, a Ca ainda me contou que, anos atrás, soube de um estudante brasileiro que apanhou por um grupo de jovens furiosos por não saber falar alemão (direito). Aliás, bem no início do passeio, já no trajeto do aeroporto para o hotel, nazivandalismo no trem: quatro pequenas suásticas desenhadas num dos bancos. Minha irmã me disse que, para não ter qualquer problema, seria melhor não publicar a foto no blog enquanto estou na Alemanha.

Posso até não publicar foto nenhuma; aliás, acho nem depois de voltar ao Brasil. O que não consigo é esconder minha inquietação e deixar de expressá-la aqui, por meio de palavras. Eu simplesmente não entendo. Num um povo que já passou por uma história tão triste e que vive diariamente em meio a memoriais erguidos em homenagem a todos os que foram exterminados… A cidade de Berlim, por exemplo, é um grande monumento, e parece impossível que alguém, morando lá ou tendo ido pelo menos alguma vez para lá, seja capaz de esquecer-se das atrocidades do nefasto nacional-socialismo. Como pode que, nesse ambiente, alguns (ainda) não tenham aprendido a lição?

Ao escrever este post, tenho a especial preocupação de ser justo e de não deixar margem para que me entendam mal. Há tanta gente neste país que é “do bem” (a começar em grande estilo pelo meu cunhado) e que por isso não merece que essa gente “do mal” faça com que gente estrangeira como eu construa uma imagem negativa da Alemanha e um conceito perverso dos alemães. Enfim: o mal existe e temos de aprender a conviver com ele, mas isso de forma alguma significa aceitá-lo! O segredo (ou parte importante dele) veio no meu devocional da quarta-feira passada, que me surpreendeu com uma lição que não posso deixar de repassar aqui; um consolo que é ao mesmo tempo um desafio:

É no fogo dos insultos, grosseiros ou refinados, que o cristão se vai definindo, que ele vai sendo trabalhado e lapidado. Se ele retribuir na mesma moeda – dente por dente, e olho por olho – deixa de ser uma testemunha de Jesus. Antes deverá aprender a reagir como uma laranjeira carregada de frutas: ela responde com saborosas laranjas aos que atiram paus e pedras. Não é nenhuma reação natural de nossa parte. É a graça de Deus que nos capacita a amar até os que nos odeiam. (Orando em Família, 2008, p. 83)

Quem Deus põe ao nosso lado

Noite em Viena. O sábado que começou muito cedo e correu intensamente nos passeios pela cidade foi coroado com um concerto: peças de Mozart e Strauss executadas pela Salonorchester Alt Wien no Kursalon, sala de espetáculos onde a própria “dinastia Strauss” realizou apresentações no século XIX. Sozinho, estava um pouco entristecido porque minha irmã e meu cunhado resolveram voltar ao hotel, e um pouco desconfortável no meu traje simples de estudante-viajante perto de tanta gente vestida para concerto, “usando roupa de domingo”. Ainda assim, estava disposto a aproveitar ao máximo o ambiente e a música.

À minha esquerda sentou-se um casal, com uns 60 anos de idade. Lembrei-me dos meus pais – e era justamente a véspera do aniversário da minha mãe! Logo que chegaram, apenas trocamos sorrisos cordiais. Uns minutos depois, ela, que estava sentada bem ao meu lado, puxou assunto: “Do you speak English?“. A partir daí, enquanto esperávamos pelo início do concerto, travamos uma agradável prosa. O casal, vindo da Finlândia, estava de férias em Viena por quase uma semana. Ela, professora; ele, pastor! Logo fiz as devidas associações (Finlândia-Luteranismo) e tirei a dúvida: sim, como eu, eram luteranos! Acabamos conversando também no intervalo e depois do concerto, e no fim trocamos contatos.

Entardecer em Bonn. A segunda-feira que começou cedo e correu intensamente no estágio foi coroada com um acesso de produtividade no meu paper… tanto que, mesmo cansado, não conseguia parar de escrever e ir embora para casa! Até que parei para conversar com a estagiária-prima que conhecera algumas horas antes e com quem a partir de então passei a dividir o escritório. Depois de algumas amenidades, ela me contou sobre as dificuldades pelas quais vinha passando em conseguir um lugar onde se hospedar em Bonn, assim como das que enfrentara para ganhar o visto alemão.

Se até então eu já vinha me identificando com a história, o momento em que deixei mesmo o queixo cair foi quando ela me disse: “Quando fui entrevistada, não imaginava que seria selecionada para este estágio, nem que conseguiria o visto alemão, depois de tantas exigências e contratempos. Eu não teria conseguido se não tivesse colocado tudo nas mãos de Deus e confiado nEle. Me dá até arrepios!

A mim também…

Orgulhosamente honesto

Lembram da história da Yuki e da raridade com que fiscalizam se os passageiros dos ônibus têm ticket válido? Pois é: fui fiscalizado ontem pela primeira vez! Mostrei meu Monatsticket pro fiscal com o maior orgulho. Ele conferiu, agradeceu, e foi só isso – nenhum trauma. Segui sentadinho, quase sorrindo de felicidade porque os 54,30 € valeram e porque minha honestidade foi verificada. Agora… fiquei com uma dúvida quanto ao meu caráter: será que orgulho anula honestidade?

Honestidade: não tem preço

Lá vou eu falar do transporte coletivo de Bonn. Desculpem, mas fazer o quê? É algo que faz parte da minha vida. Ah, se faz!

Meu esquema aqui com o sistema de transporte é o seguinte (acho que até já contei, mas não custa recapitular, como nas primeiras semanas de aula no ensino fundamental): com um Monatsticket de € 54,30 posso usar todas as linhas de ônibus da cidade quantas vezes por dia e por mês eu quiser. Esse é meu principal interesse, pois tenho de pegar dois ônibus para vir de casa ao Secretariado. Porém, com o cartão também posso usar livremente as linhas de Straßenbahn (que é um trem urbano ou bonde) e metrô (que basicamente é o Straßenbahn subterrâneo), também nos limites da área urbana de Bonn.

O mais interessante é que o sistema confia totalmente na honestidade das pessoas. Não há catracas. Isso é ótimo, porque “catracas” é uma palavra bastante feia, e também porque catracas apatralham a vida das pessoas. O curioso da história é ver as estações de metrô livres de qualquer impedimento à entrada: simplesmente se pode chegar a qualquer estação e entrar no primeiro trem que vier.

O mês está chegando ao fim, assim como o período de validade do meu Monatsticket. No máximo até sexta-feira precisarei comprar outro. Mais € 54,30 – caro pro dinheiro brazuca (que nessas horas pouco tem de real!), mas razoável ou talvez até barato para padrões europeus.

Em tese pode haver fiscalização, e a multa para quem não tem bilhete válido (unitário ou promocional como o meu Monatsticket) é de € 40,00. Eu nunca fui fiscalizado, e além disso sempre ando com ticket válido; o mesmo, porém, não se pode dizer da Yuki.

A Yuki é a personagem principal do meu curso de alemão. Na vinda para o Secretariado, hoje de manhã, eu ouvi no MP3 (sim, aqui é até seguro ouvir MP3 no ônibus!) uma lição de alemão em que a Yuki foi “flagrada” sem ticket em Munique. Na verdade, pobrezinha, ela tinha comprado o ticket, só tinha esquecido de carimbá-lo. Mesmo assim, não teve conversa com o fiscal, e ela teve de pagar a multa, que em Munique acho que é de € 30,00.

Agora preciso correr pra não perder o ônibus – pelo uso do qual, aliás, pretendo continuar pagando, de mês em mês! No Brasil eu provavelmente passaria por trouxa. Diriam que o risco de ser fiscalizado é pequeno, e que valeria a pena correr esse risco. Sou bastante averso ao risco, mas não é só: pra mim, honestidade não tem preço.

Diz-me quem fala e te direi se o que ele fala presta

Está confirmado: a Copa de 2014 será no Brasil. Vejo pontos positivos e negativos nisso, mas na real não tenho paciência para esse tipo de ponderação. Por isso, não pretendo discutir o mérito da decisão da FIFA. O que me chamou mais a atenção hoje foi a comitiva brasileira que apresentou a candidatura do Brasil à Copa; em particular, refiro-me ao discurso de um de seus membros: o imortal escritor (será que eu deveria usar aspas?) Paulo Coelho.

A emoção do futebol, ela é totalmente atípica. Eu já vi pessoas ficarem cinco horas discutindo sobre um jogo, e nunca vi ninguém ficar discutindo cinco horas sobre uma relação sexual. Conseqüentemente, pelo menos a emoção do futebol dura mais! […] (Não tô dizendo que seja melhor ou pior; digo que dura mais!)

Entenda cada um como quiser. Aliás, pesquisei algumas reações em sites com notícias esportivas. O Globo Esporte, na minha opinião, foi o mais objetivo e imparcial: Paulo Coelho teria comparado “isto” com “aquilo”, quer dizer, “paixão-do-brasileiro-pelo-futebol” com “sexo”. Outros foram bem mais dramáticos. Para o Estadão online, a comparação feita representaria a essência do espírito brasileiro tal como o escritor a percebe: futebol, para brasileiro, seria mais importante que sexo. A Lancepress foi mais ou menos pelo mesmo caminho: Paulo Coelho teria dito que “o brasileiro deve preferir o esporte ao ato sexual”.

Da platéia (autoridades políticas brasileiras em peso: Presidente da República, Governadores de Estado, Ministros de Estado, Chanceler), a comparação arrancou risadas. Já o Presidente da FIFA, Joseph Blatter, ficou impressionado com o senso de humor “apurado” ou “muito específico” ou “muito particular”. Os sites de notícias que eu consultei, independentemente da interpretação sobre a analogia entre futebol e sexo, classificaram o discurso como irreverente (me parece que num sentido positivo).

Quanto a mim, a reação foi de puro asco. Por vários motivos.

Antes mesmo de não gostar do discurso, não gostei da presença da figura ali, pelo que ela representa. E não me refiro ao que ela representa (será que caberia um “ou não”?) em geral, para a literatura de língua portuguesa, mas ao que ela representava naquele lugar, naquele instante. Autoridades políticas, ok, perfeitamente compreensível: trazer uma Copa do Mundo para o Brasil é um esforço com evidentes reflexos políticos e econômicos. Craques do futebol, ok também, obviamente. A presença deles ali é uma mensagem para o mundo: “só pra lembrar – o futebol brasileiro é tudo isso e muito mais, e merecemos sediar de novo uma Copa”. Agora… o escritor? Por acaso a idéia seria vender o peixe da cultura do povo brasileiro? (Ainda não entendi bem a história da propaganda ecológica ou ambientalista na Copa, mas também me cheira a golpe.) Aliás, a propósito de vender o peixe, a pergunta que não quer calar: por que Pelé não estava lá? Pelé é muito mais imortal do que qualquer imortal que se pudesse chamar para uma comitiva encarregada de tratar de futebol. Se nem mesmo Pelé estava lá, por que mesmo o escritor?

Já quanto a não gostar do discurso em si, em especial do trecho citado, digo de forma bem sincera: não achei graça. Talvez me diga o leitor que meu senso de humor não é apurado o suficiente. Acho improvável. (Posso discordar radicalmente da tua opinião, mas defenderei até a morte o teu direito de expressá-la!)

Mais do que sem graça, achei impertinente. E por quê? Sugiro, só para ilustrar meu ponto de vista, um exercício de imaginação: substitui a figura do Imortal pela do Excelentíssimo. Ele vai lá dar o discurso, compara futebol a sexo, dá uma risadinha, coça a barba com cara de sacanagem. Tudo igual. Mas pronto: a reação seria totalmente diferente. Todos os meios de comunicação divulgariam a imperdoável gafe, uma vergonha para a nação. Só teria faltado falar em samba e cachaça, porque futebol já era o tema principal do evento, e alguém deu um jeito de falar em sexo. Seria um prato cheio para todos os sites de frases não muito felizes do Presidente Lula. Experimenta só googlar as palavras “Lula” e “frases” pra ver o que aparece… Talvez me diga o mesmo leitor (aquele que criticou meu senso de humor) que eu estou enganado, que não seria assim. De novo, eu não mudaria de idéia por causa da crítica.

No Brasil, tudo depende mais da pessoa do orador que do conteúdo do discurso. Se é um imortal Dr. Fulano, vale a pena ser ouvido (mesmo que, no fundo, diga asneiras de início a fim, e as diga fora da norma culta, e de improviso). Se é um Zé Beltrano, só diz asneiras (mesmo que, no fundo, diga coisas que valem a pena ser ouvidas, embora não seja um orador irretocável). Pior ainda: se é um Excelentíssimo Zé Beltrano, só diz asneiras, de improviso, e além disso fala errado, e por isso vamos reparar apenas na forma como ele fala, dissecar suas frases, expor seus erros gramaticais publicamente e questionar como é possível que tenha chegado ao posto onde chegou, já que não tem um mínimo exigível de domínio sobre a língua culta, falada ou escrita.

Se a comparação entre futebol e sexo fosse de um Excelentíssimo Zé Beltrano, eu a dissecaria. Mas é de um imortal Dr. Fulano. Deixa assim. Ele tem licença poética.

Adaptado

Achava engraçado (não só eu, mas também o meu chefe) que os estadunidenses que estiveram aqui na hospedaria e que agora estão com suas famílias anfitriãs (ver posts anteriores) tenham tido uma “semana de adaptação”, antes de efetivamente dar início às suas atividades de intercâmbio. Em suma, o que faziam era sair quase toda noite, dormir até tarde e passear pela cidade durante o dia. Para ser suficientemente justo, devo dizer que tinham algumas tarefas; poucas, como algumas aulas de castellano e visitas aos seus futuros lugares de trabalho.

Não via muita utilidade em tudo isso (fora, claro, as aulas de castellano), tanto que cheguei numa sexta-feira e comecei minhas atividades na fundación na segunda-feira seguinte. Mas é óbvio que minha primeira semana nesta vida nueva foi de adaptação, muito embora não tenha tido um tempo exclusivamente dedicado a isso. Nas primeiras conversas que tinha com meu chefe, na fundação, tinha dificuldade de entender o que dizia; agora já nos compreendemos perfeitamente, à exceção de uma palavra ou outra que desconheço. Como ele mesmo costuma dizer, já nos acostumamos ao timbre um do outro. Também já me localizo bem na cidade e me sinto em casa – tanto na hospedaria quanto na fundação onde trabalho. Enfim, estou adaptado.

Assim parece mais fácil do que na realidade foi. Meus dilemas lingüístico-culturais só se foram resolver no domingo, em minhas caminhadas de reflexão pelas ruas de Buenos Aires – ou pelo menos começaram a resolver-se no sábado à noite, depois de uma conversa com meu amigo Enrique. O que aconteceu foi que, um dia desses, em uma loja de conveniências, pedi um alfajor, e o vendedor logo queria saber de onde eu era. Aí eu, mui neurótico que sou, já comecei a pensar… Pombas! Quer dizer que na primeira frase que digo já se pode perceber que sou estrangeiro? Então, conversando com meu amigo, eu insistia que meu castellano não era bom e que cometia muitos erros. E ele retrucava que meu castellano era bom – embora, sim, tivesse sotaque – e que eu não deveria ser tão duro comigo mesmo. Ora, digo eu, muito prazer: eu sou exigente comigo mesmo!

É que, em outros lugares onde já estive, não passava por estrangeiro. No Canadá, por exemplo, achavam que eu era de lá mesmo. Aliás, era bastante difícil fazer acreditarem que um jovem com toda a pinta de europeu e que – segundo me diziam – falava inglês sem sotaque era, na verdade, um brasileiro. Aqui na Argentina, a situação é totalmente diferente. O argentino típico é aquele que te vem à mente quando lês a expressão “argentino típico”. Para ajudar: cabelo de castanho escuro a negro, olhos escuros, máximo de 1,80m de altura. Não há loiros, altos e de olhos claros – descontando, é claro, o meu usual exagero. É claro que há, mas são pouco numerosos, e por isso é que logo me identificam como estrangeiro (normalmente como yankee, como dizem por aqui, com aquele sotaque particular argentino: “xánqui”). E não mudam de idéia quando abro a boca, porque assim como não aparento ser argentino, tampouco sôo argentino. A secretária da fundación disse até que sôo “saxão” ou… estadunidense! Será o efeito negativo das freqüentes conversações em castellano com os norte-americanos?

O fato de ser logo identificado como estrangeiro me incomodava um pouco, porque me sentia um pouco alienígena, ou atração de zoológico. Andar pela rua e sentir os olhares dos passantes era bastante incômodo. Mas agora, tendo conversado e refletido bastante, já não o percebo tanto, ou já me acostumei, não sei ao certo. Uma coisa que ajuda a se sentir bem é que os argentinos têm um sem-número de expressões que usamos no Rio Grande (ainda publico um post sobre isso, se conseguir reunir uma compilação interessante!). Além disso, devo ter assimilado o fato de que não vou desenrolar a língua em tão pouco tempo. Outra estratégia para soltá-la e ter um sotaque um pouco mais argentino (segundo a conversa com meu amigo) é falar cantado, como os italianos, o que parece bastante comum por aqui, talvez por causa da influência dos imigrantes.

Por fim, diz o meu amigo que há vantagens em ser e de fato parecer estrangeiro: por exemplo, os argentinos são mais atenciosos com um estrangeiro que peça informações na rua do que seriam com um compatriota que fizesse o mesmo. E… bueno… também as argentinas são mais atenciosas para com estrangeiros!

Deus é fiel

Passou meu segundo domingo em La Plata e ainda não encontrei uma igreja. No primeiro domingo cheguei a procurar com Virginia (dona da hospedaria) uma igreja luterana aqui por perto. E encontramos uma, mas com todo o jeito de estar abandonada: bastante sujeira, grama por cortar, papeizinhos do mural de avisos em estado de esfarelamento e outros detalhes desse estilo. Nenhum sinal de vida. Escrevi para a ABUA (Asociación Bíblica Universitaria Argentina, a “hermana” da Aliança Bíblica Universitária do Brasil, da qual participo) e tampouco obtive resposta.

No entanto, por aí já vejo sinais de esperança. Faz uns dias Virginia disse que passou de novo pela igreja luterana abandonada e descobriu que o pastor está de férias. É bem provável que as atividades recomecem em fevereiro. De igual forma deve acontecer com a ABUA: as aulas na universidade aqui em La Plata começam esta semana; se começam as aulas, vêm os estudantes; se vêm os estudantes, reativa-se a ABU. Assim espero.

Ontem de manhã, caminhando para o terminal de ônibus para pegar o La Plata – Buenos Aires, ia pensando na falta que sentia de participar de um culto, de ler mais a Bíblia, de dedicar mais tempo à oração (antes de desmaiar de sono). Tenho certeza – como sempre tive – de que Deus sabe de tudo isso e conhece bem minhas inquietações. Acontece que Ele nunca se manifesta a mim de maneiras espetaculares, e sim em coisas tão pequenas de que nem sequer me dou conta a não ser que esteja procurando com muita atenção.

Um desses momentos aconteceu quando finalmente o La Plata – Buenos Aires chegou ao terminal de embarque. No vidro da porta do ônibus havia um adesivo, bastante singelo, em letras brancas que contrastavam com o colorado do veículo, que dizia: “Deus é fiel”. Não haveria nada de surpreendente ou extraordinário aí, exceto pelo fato de que dizia exatamente assim: “Deus é fiel”. Ipsis litteris. Em língua portuguesa. Não sei explicar direito o que senti; foi quase como ouvir o próprio Pai dizer que me amava.

Fuera Bush

Quando voltei à hospedería hoje, depois de um dia em que já não podia mais ver cambio climático trilíngüe (português, espanhol e inglês!) pela frente, já não estavam aqui os americanos. Cada um foi para a casa de sua família anfitriã. Senti um vazio, porque já estava bastante acostumado à hospedería cheia, e porque fiz boas amizades, e também porque gosto de estadunidenses.

Quer dizer, não tenho os preconceitos que muitos têm. Sabemos que o anti-americanismo anda forte ultimamente em todo o mundo. Quanto à Argentina, há uma pequena ilustração desse sentimento na Diagonal 78, rua que atravesso todos os dias.

Infância patriótica

Sete de setembro
Data tão festiva
Foi a independência
Desta terra tão querida

É uma grande data
Para o meu Brasil
Que hoje está liberto
Cheio de encantos mil

Um dia desses, num típico ataque de flashback, cantarolei essa linda canção (que aprendi nas séries iniciais do ensino fundamental!). Ninguém cantou comigo e eu só recebi olhares estranhos. Tudo bem, admito que tenha sido estranho e talvez inadequado lembrar dos meus saudosos (?) tempos pueris em um intervalo, na Faculdade de Direito. Veio, porém, a dúvida: será que essa musiquinha é fruto da minha imaginação perturbada?

Em verdade, nunca fui nem fiz questão de ser uma criança patriótica. Aliás, nunca fui nem fiz questão de ser patriota, e ponto. O orgulho de Sete de Setembro não me parece verdadeiro. Ai de quem disser que eu não gosto do Brasil, mas sou contrário a manifestações ufanistas. Quando penso em independência, penso nos 2 milhões de libras esterlinas, na Constituição outorgada de 1824, no Imperador-desertor que voltou pra casa pra reivindicar o trono para a filha.

O título desse post é um engano. E a canção que o segue, mesmo que não seja só delírio meu, também. O Grito, porém, não foi uma farsa. D. Pedro falou e disse: Independência ou morte! Eu preferia que tivesse gritado só: Independência! Talvez assim não tivesse aberto caminho para tanta morte: morte política, morte social, morte econômica.