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Autêntico genevois

As duas primeiras semanas em Genebra passaram rápido! Se por um lado parece que foi ontem que cheguei aqui, por outro, já me sinto um autêntico genevois. Até parece! Mas pelo menos não fico me perdendo por aí, não me sinto um alienígena no escritório, nem tenho a impressão de estar cercado de desconhecidos (mesmo quando de fato estou) – em suma, não tenho sofrido nenhuma dor de adaptação. Pode ser que esteja ocupado de mais com trabalho pra pensar na vida ou que esteja aprendendo a me adaptar mais facilmente. Também pode ser mais um sinal de que Deus é comigo sempre. Mas acho mesmo que é uma feliz combinação desses três fatores e talvez mais alguns.

Uma pergunta legítima do leitor deste blog poderia ser: “mas afinal de contas, o que esse Guri faz em Genebra?” Esse Guri ensaia uma resposta, então, e segue falando de si próprio em terceira pessoa, o que ele acha uma tolice qualificada, mas, obstinado do jeito que é, agora que começou não vai conseguir parar. Então lá vai.

O Guri participou, quando ainda mestrando em Direito Internacional, de um processo de seleção de cinco International Law Fellows da turma James Madison (2010) do Mestrado em Direito da New York University. Contemplado com uma das bolsas, veio fazer um estágio no escritório europeu do Programa de Investimento e Desenvolvimento Sustentável do International Institute for Sustainable Development (Instituto Internacional do Desenvolvimento Sustentavel), uma organização com sede em Winnipeg, Canadá.

E basta de terceira pessoa.

Nessas primeiras semanas, tenho lido e feito relatórios de laudos arbitrais de disputas internacionais entre investidores, de um lado, e Estados soberanos, de outro – em particular, Estados Membros da União Europeia. O trabalho é bem juridico e tem tudo a ver com Direito Internacional, o que me deixa bastante satisfeito e motivado. Ainda melhor, um dos relatórios que escrevi foi em formato menos jurídico e mais jornalístico (e portanto menos aburrido!). Também ajudei um colega de trabalho fazendo uma tradução para uma pesquisa em Economia. Direito, Economia, Jornalismo e Tradução – taí um mix que muito me agrada.

Mas, por fim, nem só para o trabalho vive o Guri (que por deslize volta para a terceira pessoa mas já a abandona de novo). No sábado caminhei pela Vielle Ville (o centro antigo de Genebra) e fui ao Museu Internacional da Reforma. No domingo fui ao culto na International Christian Fellowship, a continuar meu church shopping por aqui. E na terça-feira à noite ainda fiz algo digno de findi: jantei na Crêperie des Pâquis com a Sravya, uma ex-colega da NYU que veio a Genebra para um evento de direitos humanos.

Aleatório

Acho que virei um blogueiro domingueiro! Durante a semana não sobra tempo para postar; só me resta o meu agradável tempo sabático dos domingos. O problema é que, quando o assunto vai acumulando ao longo da semana, o resultado tende a ser um post domingueiro altamente aleatório (como este).

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Um dia desses um amigo meu tinha a seguinte frase como status no Google Talk: “Woman to me on the subway: ‘if you touch me, I’m gonna f*** you up!'” (Lamento, mas isso é intraduzível aqui no blog.) Bom, claro que eu tive que chamá-lo pra perguntar, “quê?”

Pois foi bem isto: uma mulher, do nada, começou a vociferar insultos pra tudo que é lado dentro do metrô, e acabou sobrando pro meu amigo (que não tinha nada a ver com o pastel, obviamente, e que não tinha sequer encostado nela). Disse ele que ela estava visivelmente drogada ou embriagada (ou ambos), empurrando as pessoas e causando tumulto dentro do vagão de metrô.

Mais tarde, ao sair da biblioteca para almoçar, sou testemunha de outro desses momentos malucos (embora de um nível de agressividade um pouco inferior). Alguém atravessava a rua, na faixa de segurança, mas quando o sinal de pedestres estava fechando ou começando a fechar.

Até aí, nada de extraordinário. Aqui todo o mundo faz isso. Respeitar o sinal de pedestre? Usar a faixa de segurança? Nunca atravessar a rua em diagonal? São regras. Mas todas opcionais em Nova Iorque. (Pra esclarecer: o pedestre transgressor não era eu. Só não nego que poderia ter sido!)

O extraordinário só aconteceu quando um carro parou diante da faixa de segurança onde o pedestre atravessava a rua. O homem que estava sentado no banco do passageiro abriu a janela, esticou a cabeça pra fora (de uma forma tão cômica que só vendo), e começou a berrar, a plenos pulmões: “Hey… HEY! NO! Don’t cross! It says don’t cross! Don’t cross!”

Eu não consegui conter o riso. Nessas horas, não há o que dizer senão o que eu já disse por aqui outra vez: “It’s New York City…” O negócio é relevar e seguir andando, fingindo que tudo é normal.

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Meu novo passaporte mercossulino ficou pronto na segunda-feira. É bonito.

Frustração número 1: diz que foi emitido no C.G. (Consulado Geral) de Nova York. Não: nada contra que meu passaporte tenha sido emitido aqui. É que o purista (napoleônico) dentro de mim continua achando que é ou “Nova Iorque” ou “New York”. Esse purista fica quieto na maior parte das vezes, mas de tempos em tempos ele aparece. Fiquei um pouco chateado de ver uma grafia controversa em um documento oficial. Mas tudo bem.

Frustração número 2: enquanto o passaporte antigo mostrava todo o nome, sem subdivisões, o novo mostra “prenomes” e “sobrenomes” separadamente. Tudo muito lindo para os hermanos. No caso do “Fulano Hernández García”, o prenome é Fulano, o sobrenome do pai é Hernández, e o sobrenome da mãe é García. Então, no passaporte vai constar que os sobrenomes são “Hernández García”, vão chamá-lo de “Mr. Hernández” ou “Señor Hernández”, e tudo bem. Para os nomes de formação portuguesa, porém, vai dar confusão. No caso do “Beltrano Pereira Ribeiro”, o prenome é Beltrano, o sobrenome da mãe é Pereira, e o sobrenome do pai é Ribeiro. No passaporte, os sobrenomes serão “Pereira Ribeiro” e, como a maioria das gentes fora de Brasil e Portugal não sabe da diferença (e a organização dos nomes no passaporte não ajuda em nada a esclarecê-la), em vez de “Sr. Ribeiro”, vão chamá-lo de “Sr. Pereira”, ou seja, “Sr. Filho-da-Mãe”. Não acho que haja problema em ser “Sr. Filho-da-Mãe”… é só uma questão de se acostumar.

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Outro dia, no térreo da Biblioteca Bobst, entrei num dos elevadores para subir ao décimo. Entrou também uma moça, desconhecida, que ia descer no terceiro. Em algum ponto entre o térreo e o terceiro, o elevador começou a oscilar e trepidar com força e simplesmente estancou. Na próxima fração de segundo, vi (e foi a única coisa que vi) poeirinhas voando diante dos meus olhos. Na próxima fração de segundo, em coro, a moça e eu murmuramos, “Oh, my God!” Na próxima fração de segundo, o elevador continuou parado, e a moça completou, “ainda estamos vivos?” Na próxima fração de segundo, eu comecei a rir. Então o elevador subiu ao terceiro andar. A moça saiu do elevador e me desejou boa sorte. Então o elevador subiu ao décimo e eu saí. Vivo.

The Bobst Mysteries

Tô aqui na Bobst, pra variar; estudando, pra variar. Saio da sala por cinco minutos (para um intervalinho de barra de cereal) e já me destraio com um mistério.

Saboreando minha barra de cereal e caminhando de um lado pro outro no corredor, me deparo com um pedaço de papel com a frase: “We are PEOPLE not PROFIT.” = “Somos PESSOAS, não LUCRO.” Ok: alguma espécie de protesto (vai saber contra quem? a universidade, talvez?). O que me intriga, porém, é como o pedacinho de papel foi parar ali.

Pra quem não conhece a Bobst, talvez valha a pena descrever um pouco o lugar, porque a foto (tirada com o celular, através de um vidro e de um ângulo complicado!) não é lá muito clara. A parte central da Biblioteca Bobst é “oca” (uma palavra que eu cuidadosamente selecionei no meu imenso vocabulário técnico de arquitetura). Tirei a foto olhando do corredor-galeria do décimo andar para baixo. (O padrão em preto, branco e cinza que predomina na foto é o piso do térreo; os semicírculos pretos são bancos estofados no saguão central.) Em cada andar, há um vidro de mais de dois metros de altura na beirada da galeria, como medida de segurança. Além disso, do lado “de fora” do vidro há uma grade de um metro de altura. O pedaço de papel que vi está entre o vidro e a grade! Como? Intrigante.

Segundo fator intrigante: que lugar mais estranho para um protesto, não? Fico me perguntando quantas poucas pessoas já tiveram a feliz ideia de, durante um intervalinho de barra de cereal, perambular pelo corredor do décimo andar observando o espaço estreito entre o vidro e a grade pra ver se encontram algum pedaço de papel com um recadinho de significado obscuro.

Terceiro fator intrigante: as hastes das grades de proteção em formato de cruz. Por incrível que pareça, há quem consiga não se sentir suficientemente encorajado pelo vidro de mais de dois metros de altura e pelas grades a ficar com os pés firmes no corredor-galeria e a desistir da ideia de aprender a voar. (Infelizmente, é isso mesmo. Já aconteceu algumas vezes. Uma delas, em novembro do ano passado.) Seria coincidência o formato das hastes das grades?

Se eu fosse inventar de colocar um recado entre o vidro de dois metros de altura e as grades do corredor-galeria do décimo andar da Bobst (e soubesse uma forma segura de fazer isso!), minha mensagem seria diferente; algo mais no estilo: “Think twice. Jesus loves you.” = “Pensa bem. Jesus te ama.” Acho que é isso que um bom protestante (!) faria.

The Bobst Dilemma

Nas últimas semanas, tenho me afundado na rotina de preparação para o bar exam. Acordo entre 6h e 6:30. Vou pra Bobst (a biblioteca central da NYU) o mais rápido possível para estudar. Depois da pausa de almoço, venho pra biblioteca do Direito da NYU e assisto a teleaulinha básica do curso preparatório (três horas e meia, mais ou menos). Depois da pausa do lanche/café, fico na biblioteca do Direito até às 21h, ou volto pra Bobst até as 22h. Então pego meu metrô (“the F: a mighty train“, como diz um amigo meu) para Roosevelt Island. Em casa, faço pilates (!) e tento ir dormir às 23h, pra recomeçar tudo no dia seguinte.

Perfeito.

Isto é, até eu colapsar de desânimo, o que não é bom, mas acontece às vezes; e aí no dia seguinte eu tenho que recuperar o atraso causado pelo desânimo da véspera, o que é ainda pior. Simples: só preciso aprender a não colapsar. Quem sabe se eu blogar de vez em quando? Talvez ajude. Meus dias sabáticos (domingos sem atividades acadêmico-jurídicas) sem dúvida ajudam: procuro acordar cedo (pra não perder o costume, claro) e vou tocar flauta das 8:30 até as 10:30 na sala de música da igreja. Almoço com amigos; faço passeios com amigos à tarde; durmo mais cedo à noite. São minhas tentativas legítimas (e acho que bem-sucedidas) para manter uma rotina minimamente saudável. Ou pelo menos não enlouquecedora.

Nessas primeiras semanas, já tenho 100 páginas de resumos em Times New Roman 11 espaço simples. Resumos esquemáticos, não puro texto. Francamente, não sei onde isso vai parar.

Termino com uma foto que tirei esses dias da Bobst. Não explico, porque a imagem e o título que dei a ela, interpretados pelo observador externo inteligente no contexto da minha rotina e do verão em Nova Iorque, fazem com que explicações adicionais sejam desnecessárias. Alguém me avise se eu estiver errado, por favor, que eu explico.

The Bobst Dilemma

Mais maio

Cá estou de novo, postando retroativamente. Não dá. Não consigo evitar. Essa história de “momentos inesquecíveis” infelizmente não funciona bem assim pra mim. Tenho memória fraca – e, como já disse em alguma outra oportunidade aí pelo blog, admitindo ser verdade o que minha irmã Lu disse uma vez –, o Blog do Guri meio que funciona como uma extensão da minha memória. É praticamente um diário online (ou, ultimamente, um quinzenário online!). Preciso escrever e fazer uma seleção adequada de fotos pra um dia voltar aqui e poder relembrar os eventos e as imagens que a minha mente conturbada (e prejudicada pelo bombardeio tecnológico da minha geração… haha) um dia vai acabar esquecendo.

Desta vez – talvez mais do que nunca! – as novidades são muitas. Portanto, advertência preliminar: o post vai ser longo. Muito. Mas, pra quem se importa com o que tem acontecido comigo nesta aventura nova-iorquina, eu garanto que vai valer a pena ler até o fim. Pra quem não se importa, melhor nem começar. (Bah, será que isso ficou grosseiro demais? Só quero poupar o tempo do leitor desinteressado.)

Nesses posts retroativos eu procuro evitar as listas cronológicas de eventos, mas, mais uma vez, aqui vai ser difícil evitar essa forma de organização. E não é por preguiça de fazer uma síntese decente, não: é que tanta coisa aconteceu! Cada dia destas últimas semanas foi cheio de atividades e coisas boas pra lembrar pro resto da vida. Paro pra pensar e não consigo listar um só momento que eu gostaria de esquecer, o que é bastante surpreendente – ainda mais pra alguém normalmente tão negativo como eu… Será que mudei um pouquinho? Pode ser, mas isso é discussão pra outro post (talvez ainda mais gigantesco que este – e eu nem comecei ainda e o negócio já tá tomando volume…). Vamos ao trabalho.

(Só pra manter meu estilo parentético e metadiscursivo, vejam só o que “9 anos compactos” de estudos jurídicos (especialmente o último aqui, no estilo norte-americano) fizeram comigo: preparei um esboço – tipo sumário – do post, dia por dia, com tudo o que aconteceu e sobre o que quero escrever aqui. Bah, acho que o estudo do Direito só agravou minhas neuroses.)

9 de maio

A última vez que escrevi foi na madrugada do dia 9 de maio, domingo, Dia das Mães! Assim que acordei, fui buscar um arranjo comestível que minha irmã encomendou para minha mãe (Dia das Mães, já disse) e me fui pro meu novo quarto em Roosevelt Island. Aluguei o quarto já a partir do início do mês de maio e, como fiquei até o dia 16 nos dormitórios da universidade, meus pais ficaram no meu novo apartamento durante os sete primeiros dias deles aqui em Nova Iorque (de 9 a 16). Uma boa economia de contas de hotel, podem acreditar!

Assim que pousaram no JFK, foram direto pra lá, onde eu os esperava com o arranjo comestível e uma ideia fixa: íamos ao culto. E pronto. Coitadinhos… preciso dizer que fiquei com um pouco de pena. Afinal, essa viagem do Brasil até aqui é cansativa. Com o trecho de avião e as esperas nos aeroportos e as 8 ou 9 horas de voo, a odisseia dura praticamente um dia inteiro. (Essa frase foi difícil de escrever, hein: o processador de texto insiste em pôr acento em “voo” e “odisseia”!) Acontece que eu vinha dizendo havia semanas para os meus amigos na igreja que meus pais chegariam no dia 9 e que eles iriam comigo ao culto. A pena pela viagem cansativa dos meus pais foi menor que a vontade de colocar em contato dois mundos até então completamente desconexos: meus pais, de um lado, e meus amigos da igreja, de outro!

Foi um contato explosivo. Pra começar, meus pais não falam inglês, e ninguém na minha igreja fala alemão ou português. Minha primeira tarefa, portanto, foi traduzir todo o culto – umas 10 ou 12 páginas de palavras-chave da mensagem principal do culto no caderninho de anotações da minha mãe. (O Pastor Steve, que deu a mensagem aquele diz, disse depois, “ah, então era isso que estavas fazendo… achei que estavas fazendo dever de casa durante o culto” – disse brincando, claro.) Depois, muitas apresentações e momentos ligeiramente incômodos, mas ainda assim divertidos – quando, por exemplo, eu tinha que traduzir alguns elogios que meus amigos queriam fazer a meu respeito para os meus pais. Fui um tradutor fiel, mesmo traduzindo em causa própria!

A diversão continuou quando saímos para almoçar no DoJo, um dos meus restaurantes preferidos de domingo – por causa da comida vegetariana e do preço razoável e principalmente das lembranças de almoços pós-culto. Meus pais, quatro amigos – Lydia, Kyle, Misako e Ryan – e eu. Fora a Misako, que se virou em espanhol com meus pais e em inglês com os demais, estava eu de tradutor simultâneo entre os anglófonos e os brazuca-lusófonos. O melhor, indubitavelmente melhor, foi quando o Kyle teve a brilhante ideia de sugerir um tópico para meus pais: histórias embaraçosas da minha infância. Todos acharam ótima a ideia, claro. E eu, “sim, né, e vocês querem que eu traduza isso?”

Mas não teve volta. A mãe e o pai contaram – e eu traduzi – de quando eu, ainda bebê, não parava de chorar e por isso ficava sem respirar (numa progressão de vermelho a roxo), até que o pai descobriu que me pôr no carro e dirigir pela cidade era o melhor remédio. Contaram de quando me perdi num evento da igreja, aos 4 ou 5 anos de idade, e por um tempo depois disso não queria mais ir ao culto infantil por causa do trauma. Contaram de quando, aos 7 ou 8 anos de idade, uma enfermeira de um consultório pediátrico não conseguia achar minha veia no braço para um exame de sangue e acabou tirando sangue de uma veia do meu pescoço (claro que ela teve que quase que me amarrar pra conseguir fazer isso!) – e um tempo depois, indo com o pai para uma agência bancária que ficava no mesmo prédio do consultório, eu estanquei o pé no meio do caminho e disse, “pensando bem, acho que não quero ir contigo ao banco, pai”. No fim das contas estava eu lá – “ah, lembram daquela vez…” –, lembrando meus pais de mais histórias bobas que eles podiam contar sobre mim.

Deu pra perceber que todos se comunicaram muito bem e se divertiram bastante juntos; um pouco às minhas custas, mas não me importei, mesmo! Quando saímos do restaurante e cada um foi para o seu lado, meus pais me diziam o quanto gostaram de conhecer meus amigos e de confirmar o meu bom gosto para amizades – e meus amigos me mandavam torpedos dizendo o quanto tinham gostado de conhecer meus pais e de indiretamente me conhecer ainda melhor através deles.

Almoçados e divertidos, meus pais e eu fomos do Village para Roosevelt Island, devorar – sobremesa! – o arranjo comestível (!) e instalar meus pais propriamente no quarto.

Mamis e papis na cozinha do apartamento em Roosevelt Island

Atacando o arranjo comestível

10 de maio

Na segunda-feira, mesmo com meus pais na City, tive que deixá-los um pouco de lado para trabalhar na minha última prova take-home Investment Disputes in International Law. Durante a manhã, procurei refúgio na biblioteca para preparar a prova; à tarde, um intervalinho de almoço de 3,5 horas (!) com meus pais e os amigos Danielle e Conrado no “Vegetariano” (Vegetarian’s Paradise). À tarde, fiz um plano de passeio para meus pais – uma caminhada pela Broadway sentido downtown – e segui trabalhando na prova o resto do dia…

11 de maio

… Até que, às 3h da madrugada, digitei as palavras mágicas “End of Exam” na minha prova de Investment Disputes e fui dormir. Acordei cedinho, porque pouco antes das 9h meus pais já estavam no D’Ag para irmos juntos a um café-da-manhã de formatura (Commencement Breakfast) oferecido pelo departamento de estudantes e pesquisadores estrangeiros da NYU, só para esses estudantes e seus convidados. Fomos uns dos primeiros a chegar lá, por volta das 9h. O dia estava maravilhoso e o evento foi no décimo andar do Kimmel Center (um centro de convivência e eventos da NYU), que tem uma vista particularmente especial do Washington Square Park e da cidade em geral. Foi uma das refeições mais decentes que a NYU já ofereceu (!): um café-da-manhã americano completinho, com frutas, ovos mexidos, cereais, café (óbvio), diversos tipos de sucos, pães, croissants e outros artigos de padaria… Além disso, claro, a vantagem de estarmos entre os primeiros: sentamos numa mesa com vista para o parque e pertinho do quarteto de jazz – ah, New York…

Washington Square Park + NYC skyline

À tarde, fiz o mesmo que na véspera: um plano de passeios para meus pais; desta vez, uma caminhada pelos parques próximos ao campus da NYU (Washington Square Park, Union Square, Gramercy Park, Madison Square Park) e terminando no Empire State Building. Enquanto isso, revisei e enviei definitiva e irreversivelmente (ótimo que seja irreversível, porque do contrário eu nunca terminaria de revisar e trevisar) minha prova de Investment Disputes. Pronto, menos um item na lista! Só ficou faltando, então, o meu “terço de paper” (trabalho em trio) para Climate Change Policy, que resolvi terminar na semana seguinte, depois das cerimônias de formatura. (Sim, porque aqui a gente se forma e depois ainda pode ter trabalhos, provas… vai entender.)

A estratégia funcionou perfeitamente, porque meus pais voltaram da caminhada às 16:30, quando eu já tinha conseguido terminar a prova, para podermos ir juntos ao Grad Alley da NYU. É uma espécie de carnaval ou festival de rua que a NYU oferece em homenagem aos formandos de toda a universidade, com músicas, jogos, malabaristas, além de banquinhas de lanches, sorvete, algodão doce, passeios de carruagem pelo Village – tudo com acesso liberado e gratuito para o formando e dois convidados.

Grad Alley

O dia foi longo e puxado. Meus pais, depois do Grad Alley, voltaram para Roosevelt Island. Eu voltei ao meu dormitório para, acreditem, passar (com steamer ou vaporizador) a toga de formatura para o dia seguinte. Palavra de honra: concluir o mestrado foi fichinha perto dessa tarefa.

12 de maio

Dia dos Commencement Exercises: a grandiosa cerimônia de formatura de toda a universidade no estádio dos Yankees, no Bronx. Fomos todos premiados pela meteorologia: uma chuva murrinha e temperatura em torno de 8 graus Celsius. Uma semana antes (5/5), estava comemorando meu aniversário com um piquenique primaveril no Central Park; de uma hora pra outra, parece que fomos transportados ao auge do outono pelotense! Azar do Valdemar: Commencement acontece faça chuva ou faça sol.

Acordei cedinho, vesti a toga e encontrei meus pais e a Misako na frente do prédio dos dormitórios. Fomos de metrô até o Bronx; mais ou menos meia hora no D. Lá, logo nos dividimos: meus pais e a Misako entraram por um portão e eu, por outro. Eles conseguiram entrar logo, mas eu tive que esperar, junto com vários outros formandos, numa fila bastante grande. Milhares de formandos. Só pra lembrar, a NYU é a maior universidade particular dos EUA, com 40.000 alunos. Formandos esperados na cerimônia: uns 5.000.

Agora, falando em acontecimentos aleatórios, o melhor do ano até agora – e posso dizer com segurança –, aconteceu na fila para entrar no Yankee Stadium. Estava ali, naquela murrinha frígida, de toga de doutor (os cursos jurídicos aqui se formam com a toga de doutorado) e guarda-chuva, sentindo as pontas dos pés gelarem dentro do sapato… e tão sozinho quanto é possível estar sozinho no meio de uma multidão. Como fui pra lá com meus pais e minha amiga, no fim das contas não fiquei na companhia de nenhum colega; acabaria encontrando-os só lá dentro, porque nossos lugares estavam, claro, reservados em uma mesma área do estádio.

Nisso se aproximou de mim alguém que eu não conhecia até então. Estava vestido também de toga de doutorado. E me disse (em inglês, claro), “vamos ver, chutando… és da Faculdade de Direito? Posso esperar na fila contigo?” E eu, “sou, sim; claro, entra aí!” (A fila, detalhe, não era do tipo que outras pessoas se importariam com “furos” – todos acabariam entrando, invariavelmente, assim que abrissem os portões. Então, sem problemas.)

Fomos conversando. Apresentou-se como Lev (um nome que não me era de todo estranho). Também da Faculdade de Direito. Também do mestrado. Também estudante estrangeiro. Também do programa de International Legal Studies… que não é tão grande assim; umas 100 pessoas, talvez. Peraí – como é que não nos conhecíamos? Descobrimos que fizemos umas três ou quatro disciplinas juntos (inclusive a de Investment Disputes, essa da prova que tinha terminado na véspera) – e nunca sequer nos vimos em aula ou nos corredores, nem trocamos uma palavra. Depois de nove meses de mestrado, fomos nos conhecer por pura coincidência no dia da formatura! Aproveitando a vantagem de estar (como narrador) umas semanas adiante, posso dizer: um dos meus melhores amigos aqui.

Vencida a fila, a cerimônia! Ficamos – o Lev e eu – na parte bem da frente da área reservada aos formandos da Faculdade de Direito, o que nos garantiu uma vista praticamente livre da cerimônia (não fosse pelo guarda que estava à minha esquerda… um pouco irritante, mas ok). Dali vimos “a banda passar” (com direito a tambores e gaitas de foles), mas também passaram professores das várias faculdades, estudantes carregando as insígnias das respectivas faculdades, convidados de honra (inclusive o nosso orador convidado, Alec Baldwin, ex-aluno de Teatro da NYU). A banda e o glee club da NYU interpretaram New York, New York (vídeo meu!) bem ali na frente… foi de arrepiar, no melhor sentido possível.

Yankee Stadium, NYU Commencement 2010

Lev e Guri

NYU Law!

Alec Baldwin

Terminada a cerimônia, metrô de volta para o Village. Recebi muitos cumprimentos andando pela rua – a sensação de andar pela cidade de toga tem o seu componente “mico”, mas também é uma experiência divertida e, por que não, de certo orgulho. Afinal, entrar na NYU não foi mole, sair dela também não: comemoração e “mico” conquistados e merecidos. Fomos almoçar na Otto Enoteca, um restaurante de que gosto muito (e que tem o endereço mais memorável da City, na minha opinião: 1 5th Ave – não tem como competir). Lá encontramos Sue e Tom, os pais do meu cunhado James, que vieram do norte do estado de Nova Iorque, se bem que não para a formatura em si, mas para comemorá-la comigo e com meus pais. Queríamos fazer passeios à tarde, mas o chuvisco e o tempo curto da Sue e do Tom na cidade acabaram forçando uma simplificação. Fomos à Biblioteca Pública e à Grand Central, de onde eles já pegaram o trem de volta pra casa.

Empire State visto da Biblioteca Pública

13 de maio

O dia intercerimônias (entre o Commencement de toda a NYU e a Convocation da Faculdade de Direito) foi o de maior rendimento, eu acho. Meus pais chegaram lá pelo meio da manhã ao meu prédio, de onde saímos e pegamos um metrô até City Hall. Dali, atravessamos a ponte do Brooklyn a pé e fomos até o passeio do rio (promenade) em Brooklyn Heights, de onde se tem uma vista muito bonita de Manhattan, especialmente do Distrito Financeiro.

Brooklyn Bridge

Brooklyn Heights Promenade

Enquanto caminhávamos no passeio do rio, o Ryan me mandou uma mensagem para combinar definitivamente o que já vínhamos alinhavando desde o domingo: uma visita “com desconto da casa” ao Radio City Music Hall, onde ele trabalha como guia turístico. Então meus pais e eu voltamos rápido ao Village para almoçar e, de lá, fomos ao Rockefeller Center, para fazer uma excelente visita guiada (não só porque o guia é um grande amigo… hehe).

Excelente e VIP. Seguindo a orientação do Ryan, cheguei lá e me identifiquei como amigo dele. A moça – colega de trabalho dele – nos chamou pra dentro, onde ele estava e começou a falar que a visita começaria em seguida – e eu, traduzindo sempre, claro. Então eu disse, “tá, mas peraí, onde compramos os ingressos?” E ele, “I think you’re good.” E eu, “Ryan, falando sério, onde compramos os ingressos?” E ele, rindo, de novo, “Uhm… I think you’re ok.” Ou seja: o “desconto da casa” era uma visita grátis, o que eu realmente nem suspeitava.

O Radio City é uma casa de espetáculos e, em si mesmo, um espetáculo. As fotos dão uma pista de quão majestoso é o teatro. Ver os bastidores, conhecer pessoalmente uma rockette, saber dos detalhes da história e da construção do teatro (e da alta tecnologia por trás do seu palco móvel) – tudo muito impressionante.

Radio City

Saindo dali e vendo aquele dia de céu azul espetacular (o extremo oposto do dia anterior), percebemos que era necessário aproveitar o tempo e a visibilidade para subir ao Top of the Rock, o observatório que fica no 70º andar do prédio mais alto do Rockefeller Center (que aparece na série 30 Rock, sabe?). Eu já tinha subido (em 2006) no Empire State. O Top of the Rock, porém, é uma experiência bem diferente e que vale a pena: de lá se veem o Empire State, o Chrysler, o Central Park… É “turístico”, sim, naquele sentido um pouco depreciativo. Mesmo assim, é de tirar o fôlego.

Visa norte (Central Park)

Vista nordeste: midtown, Upper East Side, Queens

Vista noroeste: midtown, Upper West Side

Vista sul

Vista sudeste

Eram 6h da tarde, mas o dia ainda estava longe de terminar! Depois do Top of the Rock, tomamos o Path até a Penn Station de Newark (New Jersey) para buscar a maninha Lu, recém chegada das longínquas terras texanas! Meia hora pra ir, meia hora pra voltar. Na volta, paramos no meio do trajeto do Path para tirar fotos noturnas de Manhattan desde Jersey… uma linda noite. Jantamos – sushi! – no Ritz Asia… e aí, sim, fechamos o dia. Desta vez, a Lu fez o trabalho de passar a toga… 😛

Manhattan vista de New Jersey

World Financial Center

14 de maio

A cerimônia de Convocation da Faculdade de Direito foi no teatro do Madison Square Garden, em cima da Penn Station, bem mais perto de casa. Começou com a reunião de todos os formandos, muitas fotos, um lanche nos bastidores do teatro. A entrada foi segundo a ordem das especializações, não alfabética. Acho que a cerimônia em si foi ainda mais emocionante e significativa que a de Commencement: cada formando foi chamado ao palco (embora de forma muito rápida) para a formalidade do… bem… encapuzamento? Haha… Aqui o que se faz é colocar uma espécie de capuz ou capa sobre os ombros e ao redor do pescoço; o capelo (chapéu de formatura) se usa todo o tempo. E a oradora convidada foi Valerie Jarrett, uma conselheira do Presidente Obama.

Fotos de toga (mais “mico” e mais orgulho), recepção na Faculdade de Direito (um pouco frustrante… melhor nem comentar), almoço no Quantum Leap – e em seguida fomos a uma exposição de fotografia em que a minha amiga Misako expôs uma das suas. Por fim, a “janta oficial” de formatura foi no Gustorganics – um restaurante próximo de casa (6th Ave com 14th St, a dez quadras da NYU), argentino, de gerente brasileiro, com comida 100% orgânica, inclusive com certificação do “ministério da agricultura” dos EUA. A música de fundo foi electrotango quase toda a noite. Sobremesa: alfajores. No achado desse restaurante, falando sério, eu me superei.

Formando e familiares presentes 😉

No Washington Square Park

Janta de formatura

15 de maio

Dia de mudança! A Lu e eu acordamos cedinho, empacotamos duas malas com meus pertences e fomos da NYU até Roosevelt Island. Voltamos para a NYU, enchemos mais duas malas (e cacarecos acessórios), carregamos tudo num táxi e fomos até Roosevelt Island. Nossa praticidade e eficiência foram embasbacantes. À tarde já estávamos fazendo caminhadas turísticas no Distrito Financeiro.

Woolworth Building

Financial District

16 de maio

A Lu acordou cedão (tipo 6h da madrugada, quase um desaforo) pra ir ao aeroporto – e eu, claro, acordei pra tomar café da manhã com ela e me despedir dela. Fiz a última mala com os resquícios de coisas que tinham ficado no dormitório, fiz o check-out (¡hasta la vista, D’Ag!), fui a Roosevelt Island e voltei para o Village a tempo do culto. Minha mudança estava completa, só faltava… fazer a mudança dos meus pais para o hotel no Upper West Side. Enfim, um dia de muitas, muitas mudanças! Durante à noite, saí com meus pais para um passeio turístico imprescindível: Times Square.

Times Square

17 a 19 de maio (Roosevelt Islander)

Formado, casa nova, colchão novo… e o bendito paper por terminar, por isso fiquei mais isolado na segunda-feira e na terça-feira, enquanto meus pais passeavam no Upper West Side. Segunda-feira à noite, porém, fui com eles a um recital de jovens músicas na sala de recitais do Carnegie Hall. Terça-feira enfim terminei minha parte no artigo, ainda em tempo de ir ao hotel e me despedir dos meus pais… Eles passaram dez dias bastante intensivos aqui em Nova Iorque, é verdade, e curtiram muito. Fiquei satisfeito com a satisfação deles! 🙂 Na quarta-feira 19 revisei e entreguei o paper. Pronto! Sem mais pendências com a NYU. (A partir de agora, posts com o marcador “NYU” não serão tão frequentes!)

Manhattan vista de Roosevelt Island

20 a 24 de maio (microférias)

Quinta-feira 20 oficialmente começaram minhas microférias. Na sexta 21 fiz a volta toda em Roosevelt Island, reconhecendo o meu novo território (fotos, muitas fotos). No sábado 22 fiz faxina (haha) e à noite saí para jantar com o novo amigo Lev: caminhamos desde o campus da NYU (W 4th), onde ele ainda mora, até Hell’s Kitchen (W 50th), passando pelo Highline, um espaço muito interessante que eu ainda não conhecia – uma linha ferroviária transformada em área de lazer. (Achei genial.) Infelizmente não tirei fotos, porque estávamos famintos e eu não queria interromper a caminhada… 😛

Queensborough Bridge

Lighthouse (farol no norte de Roosevelt Island)

The Octagon: antes, o “asilo de lunáticos”

Queensborough Bridge, U.N. Headquarters

Queensborough Bridge, lado Queens

Ruínas do hospital de varíola (ponta sul da ilha)

Nações Unidas

Chrysler Building

No domingo 23 após o culto, estava mais disposto do que nunca a aproveitar as microférias. Fiquei um bom tempo com amigos da igreja no Washington Square Park – lagarteando, em bom gauchês –, bloguei no Starbucks da Astor Place (desde então estou escrevendo este post interminável) e concluí o domingo em uma pizzaria argentina buenísima no Upper East Side. Segunda 24 segui blogando (estabeleci uma parceria de blogagem com meu amigo Kyle, haha) noutro ambiente até então desconhecido – East Harlem Café, no bairro de mesmo nome.

25 a 27 de maio (barbri)

E acabaram-se as microférias. Terça-feira dia 25, às 14h, estava eu em plena Times Square para minha primeira teleaula (4h, com dois intervalos de 10 minutos) de barbri, o curso preparatório para o “exame de ordem” do estado de Nova Iorque. No segundo dia de aulas (26) já transgredi: não fui pra Times Square (onde estou matriculado). Em vez disso, fui pra biblioteca da NYU e fiz a teleaula de lá, à tarde. Terceiro dia (27) transgredi mais ainda: descobri que eles colocam as aulas no ar de véspera, o que me permite fazê-las já no turno da manhã, o que é infinitamente melhor. Portanto, fiz a aula de manhã. Observação: transgrido, mas faço as aulas. Três dias de aula, trinta páginas de anotações para revisar no findi-feriadão (por causa do Memorial Day – sexta a segunda).

Pra quem deveria estar estudando loucamente sem parar, sem querer tenho uma intensa vida social (o que não é, digamos, necessariamente ruim). Uma loucura isso, mas cada dia desta semana alguém me convidou pra jantar, e foram sempre convites irrecusáveis: segunda, aniversário; terça, sushi bom e barato (haha); quarta, encontro da igreja marcado há semanas num restaurante coreano… Até parece que sou popular.

Quinta (27, hoje – ou seja, o post está terminando!) foi a superação: tendo mui disciplinadamente assistido à teleaula de manhã, à tarde eu… fui à praia! Primeira vez que vou à praia desde que cheguei a Nova Iorque em agosto (portanto, verão) do ano passado. Fomos (Kyle, Ryan e eu) até Coney Island, uma região que ficou famosa no século XX por seus resorts e parques de diversões (hoje, um pouco decadentes, digamos). O passeio foi parte da “semana de despedida” do Ryan, que vai embora de Nova Iorque segunda-feira que vem.

Coney Island

Ryan congelando

Ryan e Kyle

O Atlântico…

Coney Island Boardwalk

Kyle, Ryan, Guri

Posfácio

Quatro mil palavras – o post acabou com o mesmo tamanho que a última prova que escrevi no mestrado (embora as provas do mestrado eu não ilustrasse com fotografias). Será que consegui escrever o post mais longo da história da humanidade, ou ainda não? Todos os que chegarem até aqui, por favor, deixem um comentário. No mínimo responderei pessoalmente para agradecer pela fidelidade, paciência, tolerância…

Enfim, eu precisava atualizar o blog com os acontecimentos das últimas semanas. A partir de agora, com a intensificação dos estudos (sim, eu já estudei bastante na vida, mas aparentemente o que é bastante nem sempre basta) e a desintensificação das atividades dignas de postagem, a tendência é que as postagens vão acabar sendo mais esparsas (mais ainda!), porque a minha vida vai se tornar menos interessante (menos ainda!). Mesmo assim, acho que ainda não é o momento de sepultar o blog do Guri. Vou segurar firme por enquanto – e quem sabe até aprender a postar com regularidade, para no futuro conseguir evitar o absurdo de publicar posts de 4.000 palavras…

Maio

Direto ao ponto. Ou aos vários pontos. Ou melhor: aos asteriscos.

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Comecei o mês escrevendo ensandecidamente um artigo de Direito Internacional Ambiental, que enviei ao professor às 23:40 do dia primeiro de maio. Claro que o último dia do prazo era primeiro de maio. Uma das minhas resoluções de Ano Novo é “não procrastinar (tanto)”. Nota-se que estou fazendo progressos: enviei 20 minutos antes do fim do prazo! Incrível.

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Fico em Nova Iorque até fim de setembro! Depois de uma sofrida busca por moradia (as histórias renderiam um livro… ou filme de terror), consegui um lugar ótimo pra morar a partir de meados de maio. Fica em Roosevelt Island – teoricamente parte de Manhattan, geograficamente fora de Manhattan. O melhor de tudo é meu endereço novo: Main Street, New York, NY. Sim, “rua principal”. Outra hora escrevo mais sobre meu novo e adorável bairro. Por enquanto, publico umas fotos que fiz por lá no dia em que fui buscar minhas chaves.

Meu prédio é o alto atrás da igreja

Riverwalk. Manhattan do outro lado do East River.

Verde, verde, verde

Queensboro Bridge. Prédio bem do meio (“abaixo da ponte”): sede das Nações Unidas.

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Completei um quarto de século! A comemoração foi inesquecível. Primeiro: foi no dia errado. Propositalmente, claro. Por causa do amigo Kyle, que estava ocupadíssimo no dia meu aniversário, a comemoração ficou para o dia seguinte.

(Historinha parentética: o Kyle é professor de pré-escola. E daí? Acontece que é a segunda vez que festejo meu aniversário no dia seguinte por causa de um professor de pré-escola. No jardim de infância, tinha um colega – o Felipe – cujo aniversário é no mesmo dia que o meu. Por decisão da professora – tia Neuzeli –, o Felipe pôde fazer sua festa em aula no dia do aniversário, e eu tive que fazer a minha no dia seguinte. Não sei qual foi o critério que ela escolheu pra dar preferência ao Felipe. Desempenho acadêmico certamente não foi, porque eu já era nerd no jardim de infância. Uma injustiça sem tamanho. Aliás, deve ter sido naquele momento que a sementinha do Direito foi plantada em mim, para lutar contra injustiças e arbitrariedades. Agora sou praticamente Mestre em Direito e sigo sofrendo injustiças. Oh vida.)

Segundo: apesar da idade avançada do aniversariante, foi quase uma festa de criança. Fui à vendinha de produtos brasileiros em Astoria (US Brazil Deli), e comprei seis pacotes de pão de queijo e quatro garrafas de guaraná. Com tudo pronto, colocamos os pães de queijo numa cesta e fomos fazer um piquenique no Central Park. Outros amigos contribuíram para o piquenique também, com biscoitos, queijo brie, salgados, frutas. E ganhei um bolinho – cupcake, coisa muito tipicamente nova-iorquina.

Terceiro: fiz até discurso. Mas sobre o discurso não vou escrever. Só digo que foi um bonito discurso.

Quarto: depois do piquenique fomos à Yorkville Crêperie. Crêpes franceses… meus preferidos. Tudo de bom.

Risadas deliciosas

Olhando para a ponta da pirâmide na 5th Ave

O mais próximo que chegamos de uma foto com todo o grupo

Ryan e eu treinando expressões dramáticas

Na Crêperie!

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Minha formatura (Convocation) é no dia 14, sexta-feira que vem, no Madison Square Garden. Quarta-feira dia 12 também tem a cerimônia de Commencement de toda a NYU, no estádio dos Yankees. Até lá, ainda preciso terminar uma prova e um terço de artigo (trabalho em trio!).

Neste momento, meus pais estão num avião em algum lugar entre o Rio de Janeiro e Nova Iorque… Resolvi blogar antes que eles cheguem, porque, com a presença deles aqui, as últimas atividades na faculdade, a mudança para Roosevelt Island e as muitas festividades logo em seguida, não deverá sobrar muito tempo. Mais tarde, porém, desdobro este post para contar sobre a busca de moradia, a moradia nova, os últimos dias na faculdade, as cerimônias de formatura…

Só tem mais uma coisa.

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Em outubro vou pra Suíça. Pronto, falei.

Banananinanão II

Não esperava que conseguissem bater o recorde de dez dias atrás – o episódio da casca de banana na lata de lixo sem tampa e para lixo reciclável, dentro da biblioteca. Pra minha surpresa, conseguiram. Desta vez, a criatura ao meu lado escolheu Doritos Nacho Cheese. Além do cheiro forte, tem também o barulho do pacote. O cara mergulha a mão gordita lá dentro, come um Dorito (?), depois vira uma página do livro de direito (desses caros, sabes?) com a mão gordurosa e cheia de sal. Yum… Falando sério: daqui a dez dias estarei aqui de novo e vai ter alguém comendo peixe frito.

Banananinanão

Eu poderia estar ainda estudando na biblioteca agora, mas acabo de voltar pra casa. E o porquê é inacreditável. Estava eu lá, bem instalado na área de estudo; sobre a mesa, além do computador, uma pilha de oito artigos pra ler. Estava lendo os artigos, fazendo anotações. Nisso, meio sem acreditar, comecei a sentir cheiro de banana. “Não, não pode ser.”

Foi aí que vi: dois seres de forma humana na mesa ao lado terminaram o lanche e estavam indo embora da biblioteca. Antes disso, porém, vieram colocar na lixeira (uma lixeira sem tampa, para papéis e outros recicláveis) ao lado da minha mesa – claro, onde mais? – o resíduo do lanchinho: um copão de café (óbvio!), vazio, e uma casca de banana. “Não, não pode ser.”

Tchê, falando sério. Primeiro: lanche dentro na biblioteca? Segundo: banana? Por que não um peixe frito, então, ou algo com cheiro mais forte ainda? Terceiro: na lixeira sem tampa para lixo reciclável? Quarto: se a ideia era sair da biblioteca de qualquer jeito, não dava pra fazer o lanche – e descartar o resíduo – fora da biblioteca, não? [Suspiros.]

Taí, talvez eu devesse ter dito, “vem cá, criançada, tão pensando que isso aqui é o quê?” Mas não sou assim. Evito conflito. Em vez de me expressar e de justamente me indignar, me fecho. Juntei minhas coisas e vim embora – e já que tive que me desinstalar, nem me dei trabalho de procurar outro lugar na biblioteca; aproveitei pra voltar pra casa. Tudo bem… teria que voltar logo de qualquer forma. Além do mais, acho que nem teria adiantado falar o que quer que fosse. A criançada estava saindo com pressa pra recreação.

Heat wave

Ontem foi um dia chique: almoço com o reitor e New York Philharmonic (NY Phil, para os íntimos) à noite.

O almoço com o reitor começou mal. Não era propriamente almoço (era sanduíche) nem com o reitor (que chegou atrasado). Mas depois foi melhorando.

A NY Phil, por outro lado, começou e terminou bem, conforme o esperado. Da primeira vez, assisti à orquestra no Carnegie Hall, com o Alan Gilbert de maestro, como contei alhures. (Haha! “Alhures” é uma daquelas palavras horrendas, pedantes, contrárias a qualquer princípio de boa redação em português brasileiro, mas me lembrei agora de que ela existe e resolvi usá-la só por diversão. Significa “em outro lugar”, só pra deixar claro pra quem talvez não soubesse. Na boa, nenhuma obrigação de saber. Aliás, não recomendo essa palavra. Olha, até já me arrependi de usá-la. Não, agora é tarde; não vou apagar este comentário parentético e metadiscursivo. Talvez devesse. Ih, quanto mais eu penso alto a respeito, mais longo fica o comentário. Não vou apagar. E chega. Fecha-parênteses.)

Desta vez, assisti à NY Phil no Avery Fisher Hall, do Lincoln Center – a “casa” da NY Phil –, com o maestro Antonio Pappano. Espetacular. Começou com a Sinfonia no. 31 em Ré Maior de Mozart, conhecida como “Sinfonia Paris” (primeiro movimento: Allegro Vivace). Totalmente Mozart. Sem intervalo (o que eu achei ótimo!), finalizou com a Sinfonia no. 4 em Mi menor de Brahms (primeiro movimento: Allegro non troppo). Totalmente romântico. Ah, é tão triste pensar que em tão pouco tempo perderei essa barbada dos ingressos estudantis…

Um dia de atividades agradáveis, mas um péssimo dia pra ter de usar terno. Quase derreti, em pleno início de primavera. Foi 90 °F (32,2 °C) a temperatura registrada no Central Park, a mais alta num 7 de abril desde 1929, quando fez 89 °F (31,6 °C). Hoje foi bem mais ameno, mas a tempestade prometida ainda não chegou pra fazer a coisa voltar ao agradável normal primaveril. Neste instante, 81 °F (27,2 °C) dentro do meu quarto. A brisa já é escassa, e pouco dela chega até mim através dos dez centímetros de abertura possível da janela (não abre mais que isso – regras da universidade, para reduzir o índice de suicídios… pior que é sério). O D’Ag (meu prédio) ou tem aquecimento no prédio todo ou tem ar condicionado no prédio todo – e a administração só pretende fazer a troca para a função ar condicionado (é um processo complicado, não apenas um clic de interruptor) em 31 de maio. Até lá, sofrimento.

Como se vê, calor me irrita. A intenção inicial do post era um “what really grinds my gears” pra liberar com sarcasmo poético (?) algumas frustrações entaladas na garganta há algum tempo. Mas calor me irrita tanto que perco até a paciência de manifestar minha irritação.