A Kombi da serralheria

Trânsito estressa, ainda mais em hora do rush. Por isso, os motoristas criam diferentes formas de descarregar a tensão. Uns buzinam por qualquer motivo (ou sem motivo aparente). Outros xingam, gritam, levantam o dedo médio. Há os que murmuram, falam sozinhos.

Eu ouço música para não me estressar, tentando evitar as condutas que acabo de citar. Às vezes eu cantarolo alguma coisa (aproveito para ensaiar as músicas do coro de que participo). Ou, quando estou realmente estressado, eu canto a plenos pulmões.

Há poucos dias descobri que não há coisa melhor pra descarregar que cantar o Agnus Dei da Missa Brevis K 49 de Mozart em fff (forte fortissimo). Atravessei a Avenida Ipiranga cantando assim. Quem me (ou)viu certamente me achou meio doido (com alguma razão).

Outro exemplo sugestivo foi o de um motorista de uma Kombi de uma serralheria. Estávamos parados no sinal vermelho; a Kombi, bem ao lado do meu carro. O motorista tinha os vidros da Kombi abertos e estava cantando, dançando e batucando na direção (que tremia de tanta batucada) um pagode. Era uma festa animadíssima às 8:45 da manhã.

Fiquei pensando que o motorista da Kombi da serralheria era bem mais feliz que eu com meu Agnus Dei em fff. Fiquei pensando que, se o efeito podia ser assim tão benéfico para o bom-humor, talvez eu devesse começar a ouvir e aprender a curtir pagode. #sqn

O homem a serviço da informática

Há poucos dias BIll Gates enfim admitiu que a combinação Ctrl+Alt+Del para dar início ou reiniciar um PC foi uma ideia infeliz. Mas há outras ideias infelizes a serem admitidas…

Inserir uma imagem no MS Word é fácil, mas alguém já tentou extrair uma que já esteja no arquivo, salvando-a como imagem? Era o que eu precisava fazer ontem. Consegui. Mas, no processo, fiquei chocado com o quanto isso é bem menos trivial que deveria ser.

Deveria haver a possibilidade de simplesmente clicar com o botão direito do mouse sobre a imagem e depois clicar em “Salvar como…”, como se pode fazer nas páginas de Internet, mas não há. A MS tratou de não prever nenhuma forma simples (que eu conheça).

A dica da própria MS é salvar o documento em formato HTML e, a partir dele, fazer como se faria em uma página qualquer da Internet. Tão ridículo que me neguei a fazer.

Felizmente, a Internet é uma fonte virtualmente interminável de criatividade, sabedoria e genialidade aleatórias, até a ponto de suprir o ridículo dos desenvolvedores. Googlei “extrair imagem word” (sem aspas) e encontrei esta página, que recomenda os seguintes passos:

  1. Fazer uma cópia do documento em formato DOCX.
  2. Renomear a cópia para extensão ZIP.
  3. Extrair o ZIP.
  4. Na pasta com os arquivos extraídos, entrar na pasta “word” e, dentro dessa, na pasta “media”, onde estarão todas as imagens do documento.

Brilhante. O arquivo DOCX é um arquivo ZIP disfarçado. Como só fui saber disso ontem?

Manual de Sobrevivência na Universidade: Da graduação ao pós-doutorado

Ele poderia escrever (ainda mais) sobre Economia Regional, Desenvolvimento Econômico, História Econômica. Ou poderia escrever um livro de ficção científica para a coleção O Guia do Mochileiro das Galáxias. Mas o livro que Leo Monasterio decidiu escrever, que eu li há uns dois meses e que vou hoje finalmente comentar é o Manual de Sobrevivência na Universidade: da graduação ao pós-doutorado, um guia para que “você evite os piores erros, aproveite as oportunidades e, no fim das contas, até curta o mundo acadêmico”.

Quando eu era graduando em Economia, tive o privilégio de ter o Dr. Leo Monasterio (ele fez pós-doutorado, mas lembrando, como ele mesmo ensina no livro: pós-doc não é título!) como orientador de projetos de iniciação científica. Foi dele que recebi o convite para criar minha conta no Gmail (sim, porque no início era só por convite, para quem não sabia ou não se lembrava!). Foi também ele que me inculcou a necessária neurose de fazer backups. Foi o primeiro professor que me provocou a planejar a carreira e me ajudou nisso.

Assim, tive o privilégio de receber muitas das dicas do livro uns sete anos antes de seu lançamento. Ao ler o livro, fiquei pensando em quantos colegas perambulavam pelo mundo acadêmico, porque não tinham dicas assim, e em como a vida acadêmica deles teria sido mais fácil se tivessem lido um livro como o Manual. Também fiquei pensando em como tê-lo desde o início da graduação teria evitado diversas inseguranças minhas.

Escrever os capítulos do livro como verbetes em ordem alfabética ficou, como o próprio autor reconheceu, esquisito. Mesmo assim, ler o livro de ABNT a Zotero é bem mais prazeroso que ler um dicionário. Eu, com toda a minha paciência, já tentei ler um dicionário (!), e não tive paciência. O Manual eu li numa sentada. O texto vai direto ao ponto, preza pela relevância e é sempre bem-humorado como o autor (rir alto ao longo da leitura é inevitável em alguns pontos). É uma leitura leve.

Como teria mesmo de ser, muitos verbetes são metodológicos: tratam da elaboração de projeto de pesquisa até a apresentação de um trabalho acadêmico em um congresso ou diante de uma banca e sua publicação por uma revista especializada. O primeiro verbete já assusta um pouco: ABNT. Mas a abordagem é realista e conciliadora:

Se você não tem distúrbio obsessivo-compulsivo, as normas da ABNT parecerão criadas por alguém que precisa de socorro psiquiátrico. […] Mas as normas têm sua razão de existir. As normas da ABNT impedem que outros malucos inventem seus próprios jeitos de apresentarem seus textos.

Nenhum dos verbetes é academicista, naquele sentido chato (existe outro?). Pelo contrário, todos são muito práticos. Afinal, é um Manual de dicas, não um livro de regras. Há verbetes sobre como escolher bem o orientador, preparar uma boa revisão de literatura e um bom resumo (abstract), usar gráficos e tabelas com elegância e sem estardalhaço, lidar com a rejeição de trabalhos enviados à publicação.

Leo Monasterio também é blogueiro e incluiu no Manual um verbete sobre Blogs (junto com redes sociais). Ele reconhece que um blog tem vantagens (“torna você conhecido no seu mundinho” e “lhe dá prática de escrita e disciplina” ) e desvantagens (“é o desperdiçador de tempo perfeito”). No mesmo sentido, o Manual contém também um verbete sobre a vilã Procrastinação, que todo acadêmico e trabalhador intelectual deveria combater.

Termino com duas citações de um dos meus verbetes preferidos, Escrita, porque nele a influência das ideias de McCloskey sobre redação é evidente, pelo enfoque na necessidade de clareza, fluidez, revisão, reescrita. O próprio Leo Monasterio foi quem me recomendou a leitura do livro dela, Economical Writing, e depois me contou que evitou relê-lo ao preparar o Manual, para evitar “contaminação”.

  • Tenha um leitor cobaia da sua área. Se ele não entendeu o texto, a culpa é sua. Repetindo: a culpa é sua. Reescreva o texto.” Qualquer semelhança com o escrito por McCloskey e citado no meu último texto não é mera coincidência: “Se o leitor acha que o que tu escreveste não está claro, então não está, por definição. Desiste de discutir.“.
  • Fingir profundidade com frases longas e palavras obscuras ou vagas funciona com uns figurões de algumas áreas das ciências humanas. Para mim, os textos dos grandes ‘intelectuais’ só fazem com que os meus fusíveis mentais rompam na tentativa de proteger a minha cabeça. Isso gera sono ou o desejo de incendiar o livro. Esses figurões alcançaram tanta importância que os leitores suam para entender aqueles parágrafos incompreensíveis. Como você não tem esses seguidores, o jeito é ser bondoso com o leitor e se esforçar para tornar a leitura o mais fluida possível.” É o que eu muito gostaria que fosse assimilado por certos colegas meus, juristas, que transitam no limite tênue entre a pompa e o pedantismo.

Basta saber Direito para redigir um contrato?

Nesta série de textos sobre negociação, revisão e redação de contratos, já tratei da importância de ficar amigo do editor de texto, refletir sobre aspectos relevantes da negociação de contratos e reconhecer a importância de saber Direito para redigir um contrato. Hoje trato de cuidados ao redigir o texto do contrato.

Começo por uma regra de ouro de Deirdre McCloskey, uma economista que tem uma história de vida incrível e cujas ideias sobre redação me influenciam muito:

Clareza é uma questão social, não algo a ser decidido unilateralmente por quem escreve. O leitor, como o consumidor, é soberano. Se o leitor acha que o que tu escreveste não está claro, então não está, por definição. Desiste de discutir. (Economical Writing, p. 12)

Clareza num contrato, documento que objetiva produzir consequências jurídicas, tem importância fundamental. Num contrato, os “consumidores soberanos” são os próprios contratantes. Se para um dos contratantes o texto está claro e, para outro, confuso, não é que um seja mais inteligente ou perspicaz que o outro. É porque o contrato não está claro, só isso! E se nem mesmo um contratante acha que o contrato está claro, o documento não serve como contrato. Precisa ser reescrito, total ou parcialmente.

Clareza resume as dicas seguintes: de um jeito ou de outro, é o objetivo de todas. Mesmo assim, vale exemplificar formas de alcançar (mais) clareza:

  • Se o contrato for em língua portuguesa, escreve em língua portuguesa. Não em latim, nem em língua inglesa, muito menos em juridiquês.

Se uma expressão latina (dessas que tipicamente se usam no meio jurídico, como “pro rata die“) causar confusão e tiver equivalente em língua portuguesa (por exemplo, “proporcionalmente ao número de dias”), melhor substituir pela equivalente. Aliás, melhor evitar a expressão latina de início.

Usa expressões em língua inglesa ou outras línguas estrangeiras modernas, mas somente quando for necessário ou para evitar o ridículo. Por exemplo: “site” de Internet, no Brasil, é “site”. Bem que tentaram impor o “sítio”. Não funciona. Ninguém fala assim. Não aparece “site” no teu dicionário preferido? O problema pode ser tua preferência ou teu dicionário, mas não a palavra “site”.

Juridiquês? Qual a finalidade: restringir a compreensão do contrato ao mundo jurídico? Preciso ficar fazendo mais perguntas para demonstrar ironicamente que juridiquês não faz sentido e é contrário ao ideal de clareza? Ou posso parar? Agora bem sério: cuidado para não confundir juridiquês com jargão jurídico. Juridiquês é pedantismo, mas jargão é importante, no Direito como em qualquer outra área, para garantir precisão técnica.

  • Aproveitando a deixa: escreve com precisão técnica. A palavra escolhida pode ter consequências relevantes no mundo do Direito. “Marca” remete à Lei de Propriedade Industrial, “locação não residencial” remete à Lei de Locações (ou Lei do Inquilinato), e assim por diante. Usar no contrato palavras que remetam a conceitos legais ajuda a garantir que o contrato produza os efeitos desejados.

Ainda quanto à precisão técnica, vale lembrar outra dica de McCloskey (p. 56): evitar a “variação elegante”, ou seja, o uso de palavras diferentes com o mesmo significado, só para evitar repetições. Num contrato, esse tipo de variação pode até ser elegante aos olhos de alguns, mas é abominável porque gera ambiguidade. Num contrato de compra e venda de “relógios”, não há por que se referir ao conjunto de relógios como “os bens objeto deste contrato” numa cláusula, “bens móveis” em outra, “produtos” em outra, “mercadorias” em outra. Consistência: são “relógios”. Pronto.

  • “Usa verbos, na voz ativa” também é uma dica de McCloskey (p. 70) facilmente transponível à redação contratual.

Primeiro, “usa verbos”. Verbos (especialmente os de ação) tendem a ser mais fluidos e agradáveis que substantivos. A “preparação de dicas para a redação de contratos” é bem mais enrolada que “preparar dicas para redigir contratos”.

Segundo, usa verbos “na voz ativa”. “O registro será feito…”, “a mercadoria será entregue…”, e por aí vai. Quem fará o registro? Quem entregará a mercadoria? Usar a voz passiva pode gerar dúvidas se a obrigação é de um contratante, de outro, de um terceiro, de todos os anteriores, de nenhum deles. A estrutura “sujeito + verbo + objetos e complementos” oferece mais clareza.

  • Por fim, concisãoNada melhor que um exemplo-exercício (absurdo, bobo e exagerado, mas ilustrativo do que aparece por aí): “Na hipótese de que a Cicrano venha a ganhar na Mega-Sena, fica expressamente acordado pelas partes que o imóvel da Rua dos Bobos será vendido pelo Proprietário Fulano ao Locatário Beltrano.”

“Na hipótese de que Cicrano venha a ganhar na Mega-Sena” é uma condição. Dó, ré, mi, fá, sol, lá… o que mesmo indica condição? “Se”! Em vez de “na hipótese de que”, podemos usar, simplesmente, se Cicrano vier a ganhar na Mega-Sena”.

Mais: podemos resumir “vier a ganhar” para “ganhar”, sem perder nada (antítese intencional!) no significado. A condição fica: “Se Cicrano ganhar na Mega-Sena”.

“Fica expressamente acordado pelas partes que”: Tudo o que está escrito no contrato está expressamente acordado, e obviamente pelas partes (quem não é contratante não concordou com nada). Dizer que essa fórmula é necessária em apenas uma ou em algumas das cláusulas do contrato implica admitir que as outras cláusulas não foram expressamente acordadas, o que não faz sentido. Corta sem piedade.

Ficamos com “O imóvel da Rua dos Bobos será vendido pelo Proprietário Fulano ao Locatário Beltrano”. Mas “Proprietário” e “Locatário” não fazem falta. Corta.

Ficamos com “O imóvel da Rua dos Bobos será vendido pelo Fulano ao Beltrano”. Usando voz ativa, ficamos com “Fulano venderá o imóvel da Rua dos Bobos a Beltrano”, a boa e velha – e concisa – estrutura “sujeito + verbo + objetos e complementos”.

Antes: “Na hipótese de que a Cicrano venha a ganhar na Mega-Sena, fica expressamente acordado pelas partes que o imóvel da Rua dos Bobos será vendido pelo Proprietário Fulano ao Locatário Beltrano.”

Depois: “Se Cicrano ganhar na Mega-Sena, Fulano venderá o imóvel da Rua dos Bobos a Beltrano.”

De 31 palavras no Antes, chegamos a 15 no Depois. Na mágica de editar para tornar conciso, cortamos mais da metade do conteúdo sem perder nada de conteúdo.

Vergonhosamente motorizado

Durante um curto tempo com carteira de habilitação vencida e sem carro, andei de ônibus em Porto Alegre. Sou muito favorável ao transporte coletivo, apesar dos contratempos, por ser mais sustentável, menos estressante, mais produtivo. Cada vez mais convicto de que o custo de ter um carro não cobre a comodidade (há até calculadoras online que facilitam essa avaliação), comecei a refletir seriamente sobre me desfazer do carro.

Com vergonha e um quê de irresignação, admito que decidi não me desfazer do carro por enquanto. Meus motivos são fracos:

  • Gosto da (sensação de) liberdade proporcionada por ter um carro. Dá trabalho na vida não ter um, e eu ando um pouco chateado de passar trabalho. Pronto: juntei já no primeiro item os motivos mais fracos, egoístas, insustentáveis, vergonhosos.
  • A experiência de andar de ônibus piorou bastante por causa de uma onda de calor fora de época. Comecei a pensar em mim, de gravata, no verão: três meses, com alta umidade e temperaturas acima de 30 graus, em ônibus cheios e potencialmente abafados.
  • Com as esperas pelos ônibus e os trajetos feitos mais lentamente que de carro, vi que se esvaiu bem mais rapidamente meu pouco tempo disponível fora do trabalho. Este item a ver com a aversão a passar trabalho, mas num nível mais profundo: quando passar trabalho significa perder tempo já escasso, eu me sinto mais autorizado a ser egoísta.
  • O status quo me afeta significativamente. Eu já tenho um carro. Se não tivesse, talvez persistisse mais na ideia de usar transporte coletivo e eventualmente táxi.
  • A perda de padrão de vida me incomoda mais do que gostaria de admitir. Talvez porque não seja só uma perda aparente. Porto Alegre (ainda) não é (mais) uma cidade com transporte público conveniente e bom o suficiente a ponto de atrair classe média.

“Por que ter um carro, não precisando de um?” Ainda penso assim, mas acabei concluindo que, em Porto Alegre, preciso de um carro. Espero um dia sentir que não preciso mais.

Como redigir um contrato sem saber Direito?

No primeiro texto desta série sobre negociação, revisão e redação de contratos, comentei que cada um de nós, mesmo sem formação jurídica, negociará ou revisará um contrato em algum momento da vida. Porque, afinal, “viver é contratar”. (Forcei a barra?)

No segundo texto, tratei da importância de conhecer o editor de texto e usar as ferramentas que ele disponibiliza, tanto para preparar quanto para revisar ou negociar um contrato. Dei dicas de formatação que valem para advogados e não advogados.

Comecei o terceiro texto com uma provocação: Como negociar um contrato sem saber Direito? Meu argumento é que negociar um contrato não precisa ser motivo de pânico, mesmo para quem não tem formação em Direito. Dei dicas válidas para todos os públicos.

O foco do texto de hoje é a redação contratual. Começando também com uma provocação: Como redigir um contrato sem saber Direito? Sem saber Direito, negociar um contrato pode ser difícil, mas é viável; redigir um contrato pode ser viável, mas é difícil. (Sutil a diferença?)

A atividade econômica exige que todos possam redigir contratos, assim como revisá-los e negociá-los. O Estatuto da OAB não inclui a redação contratual expressamente na lista de atividades privativas de advogado. Entendo que não poderia ser diferente. Há Projeto de Lei na Câmara dos Deputados que pretende incluir nessa lista o “assessoramento jurídico em contratos e acordos extrajudiciais”. Mesmo que o projeto seja aprovado, o que seria privativo seria o assessoramento jurídico quanto aos contratos, e não a redação deles.

Sem exagero, redigir um contrato sem saber Direito é tão difícil quanto opinar sobre o tratamento médico adequado sem ter estudado Medicina, ou quanto elaborar um projeto de engenharia sem ter estudado Engenharia. Felizmente para a qualidade dos tratamentos médicos, é preciso estudar Medicina e ser inscrito no Conselho Regional de Medicina para prescrever tratamentos médicos. Felizmente para a qualidade das obras de engenharia, é preciso estudar Engenharia e ser inscrito no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia para assinar projetos de engenharia. Qualquer um pode opinar sobre tratamento médico e elaborar projeto de engenharia, informalmente, mas só médico pode prescrever tratamento médico e só engenheiro pode assinar projeto de engenharia, legalmente.

Existem motivos (além de uma intenção de reservar mercado!) por que só médicos e engenheiros podem atuar nas suas respectivas áreas. Tanto médicos quanto engenheiros têm conhecimento acadêmico e treinamento específicos, além de responsabilidade profissional pelo que fazem. No caso dos médicos, isso importa para a segurança dos pacientes; no dos engenheiros, para a segurança das obras de engenharia. 

Contratos redigidos por advogados têm benefícios análogos. Escritos por pessoas com conhecimento acadêmico e treinamento específicos, serão produtos intelectuais de mais qualidade. Os advogados têm responsabilidade profissional pelo trabalho jurídico que desempenham e, por meio dele, podem oferecer mais segurança jurídica a seus clientes.

Antonio Vivaldi hoje em POA

Para quem está em Porto Alegre ou nas proximidades: ainda há tempo para prestigiar o terceiro concerto do Projeto Vésperas, na Igreja da Reconciliação, hoje às 18h. A entrada é franca! Estarei lá, em meio aos baixos do Grupo Cantabile. Segue o material de divulgação:

O concerto de hoje terá peças para orquestra, coro e solistas, escritas pelo compositor italiano Antonio Vivaldi, do período barroco (1678-1741). Uma delas será Gloria (RV 589). Opa, revelei parte do programa — informação privilegiada!

Para quem, por qualquer motivo, não puder prestigiar, o consolo é um vídeo de Gloria, por Collegium Singers & Baroque Orchestra, da University of North Texas (UNT), em 2 de dezembro de 2011. A UNT transmite seus concertos ao vivo na Internet.

O Tempo e o Vento (2013)

Tem que ter coragem pra fazer uma adaptação de O Tempo e o Vento. O risco é altíssimo. As consequências de uma adaptação infeliz seriam desastrosas. Exagero? Não mesmo. O Tempo e o Vento é uma obra querida ao Rio Grande do Sul, porque conta com genialidade e um sotaque muito próprio a formação do povo gaúcho. Ninguém queira brincar com isso, porque, se a gauchada não gostar, responde a laço e espora.

No Vinte de Setembro de 2013, o Rio Grande do Sul foi presenteado com a estreia exclusiva do filme O Tempo e o Vento (2013) (imdb e site oficial) dirigido por Jayme Monjardim. O filme é uma adaptação ao cinema que Tabajara Ruas e Letícia Wierzchowski fizeram de O Continente, primeira parte da trilogia O Tempo e o Vento, do escritor gaúcho Érico Verissimo.

No elenco, ninguém menos que Fernanda Montenegro (como Bibiana Terra na terceira idade), além de Thiago Lacerda (como o Capitão Rodrigo Cambará), Marjorie Estiano (Bibiana Terra na juventude), Cléo Pires (Ana Terra), entre outros.

* Alerta de spoiler *

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A vida definitivamente não é bela

Rehtaeh Parsons, uma jovem canadense de 15 anos, sofre estupro coletivo. Alguém fotografa a brutalidade e faz circular a fotografia na escola da jovem. Depois disso, ela se torna alvo de assédio online (cyberbullying). Passa a sofrer de depressão e acaba por cometer suicídio.

Alguns meses depois, surge no Facebook um anúncio de um site de relacionamentos. O texto de divulgação: “Encontre Amor no Canadá!” A imagem do anúncio é uma foto de perfil de Rehtaeh Parsons. Após denúncia, o Facebook tira do ar o anúncio e publicamente pede desculpas, mas o anunciante não é localizado e o site de relacionamentos já não existe.

Ler essa história me tirou o sono. Pensei em escrever sobre os direitos violados, de mal a pior: do “simples” (mas não por isso desprezível) descumprimento de normas internacionais de autorregulamentação publicitária sobre moralidade na propaganda até o crime de estupro, passando pelo uso não autorizado de fotografia e pela ofensa à imagem e à memória de pessoa falecida. Não seriam poucas as ilicitudes a comentar.

Mas desisti. O Direito e o Judiciário, agora, no máximo vão possibilitar a punição dos responsáveis, se forem identificados e localizados. A vida de Rehtaeh Parsons já foi destruída, e cicatrizes profundas também foram deixadas nas vidas dos familiares dela. A monstruosidade humana evidente nessa história me faz pensar no quanto nosso mundo precisa, muito antes de um bom Direito e um bom Judiciário, de mais gente boa.

Como negociar um contrato sem saber Direito?

Como comentei no primeiro texto desta série, cada um de nós, mesmo sem formação jurídica, precisará negociar um contrato em algum momento. Essa necessidade pode angustiar quem não tem formação em Direito, mas não há motivo para pânico. Compilei cinco dicas:

1)

A primeira é bastante óbvia, mas não por isso poderia ser dispensada: sabe aquilo de “não sou advogado, não vou entender, não adianta nem ler”? Nem pensar. Lê todo o contrato.

2)

Se estiveres diante de um contrato proposto de forma unilateral e padronizada pelo outro contratante, que não te dá chance de discutir ou modificar qualquer aspecto substancial, estás diante de um contrato por adesão. Nesse caso, resta identificar os riscos de contratar, ou pedir a um advogado que os identifique, sem pretensão de alterar o texto. (Pode acreditar: a operadora de telefonia celular não vai mudar seu contrato-padrão só porque estás pedindo.)

Se os riscos forem excessivamente altos, talvez o mercado ofereça alternativas. E se decidires assumir os riscos, tens a vantagem de que, em caso de problemas posteriores, o contrato será interpretado de forma mais favorável a ti. Essa interpretação mais favorável é garantida por lei.

3)

Uma coisa é a necessidade de um padrão. Por exemplo, é difícil imaginar uma operadora de telefonia (ela de novo) personalizar profundamente os contratos que tiver com cada usuário. A gestão contratual ficaria inviável. O serviço de telefonia varia entre os usuários, mas nem tanto.

Outra coisa bem diferente é a conveniência de um padrãoPara a gestão contratual de uma imobiliária, por exemplo, pode ser conveniente usar um mesmo modelo para todos os contratos. Porém, isso não quer dizer que a atividade da imobiliária imponha a necessidade de padronizar. Cada locação tem especificidades que dependem do imóvel, do locador, do inquilino. Nesse contexto, até faz mais sentido personalizar que padronizar.

Dessa forma, ao receberes um contrato “inalterável”, identifica se há real necessidade ou apenas conveniência de padronização. Se te enviarem uma primeira minuta contratual já em formato não editável (por exemplo, PDF), dizendo que não serão aceitas alterações “porque o contrato é padrão” ou “porque é gerado pelo sistema”, desconfia e questiona. É assim porque precisa ser, ou porque não estão dispostos a negociar? Pede uma minuta editável.

Se notares resistência, pensa se queres mesmo estabelecer uma relação contratual com um contratante inflexível, que te trata como número e não como parceiro. Talvez consigas encontrar alguém mais disposto a negociar e preparar um contrato que atenda tanto aos interesses dele quanto aos teus. Não há arrogância em querer ser tratado como VIP. Todos merecemos isso.

4)

Contratos são documentos importantes no mundo jurídico, porque criam direitos e obrigações. Os advogados que os elaboram empregam certos termos técnicos do Direito. Tudo certo e normal.

Porém, um contrato que só alguém com formação jurídica consegue entender tem algo de errado e anormal. Lembrando a primeira regra de ouro de Deirdre McCloskey, se um texto não está claro, a culpa é de quem o escreveu, nunca do leitor. Portanto, busca esclarecer o que está difícil de entender, corrigir erros e ambiguidades, equilibrar direitos e obrigações.

5)

Ao pedir auxílio jurídico quanto a um contrato, identifica o que é jurídico e o que é negocial. Teu advogado pode indicar o limite máximo de uma multa contratual, com base na lei e nas decisões judiciais, e talvez queira até opinar – mas não necessariamente queira sugerir ou decidir se haverá uma multa contratual no teu contrato e de quanto será. Ele poderá te ajudar a identificar os riscos da contratação – mas não necessariamente queira opinar ou te influenciar quanto a assumir ou não esses riscos. Enfim: teu advogado pode ajudar com questões jurídicas em um contrato, mas em regra as decisões negociais cabem a ti, como dono do negócio.