Homeopatia: tão eficaz quanto ler a Bíblia

Por acaso ouvi alguém opinar que homeopatia seria tão eficaz quanto ler a Bíblia. O tom foi de sarcasmo puro: a real mensagem era que homeopatia e leitura da Bíblia seriam ineficazes. Além de sarcasmo, preconceitos. Mesmo assim, ou até mesmo por isso, achei que valia comentar.

Homeopatia (assim como acupuntura, quiropraxia, fitoterapia) faz parte do que se chama de Medicina Complementar e Alternativa. No Brasil, é especialidade reconhecida pelo Conselho Federal de Medicina. Mesmo assim, há quem duvide da eficácia das terapias homeopáticas, por não se enquadrarem perfeitamente nos moldes e critérios científicos da Medicina ocidental. Nesse sentido, é um preconceito compreensível: tendemos a desconfiar do que foge ao convencional.

Quanto à eficácia de ler a Bíblia, o comentário deslizou na construção de frase. De fato, ler a Bíblia não é eficaz, porque não basta: é preciso ler a Bíblia, entendê-la, aceitar sua mensagem, meditar nela e praticá-la. Como acontece com a Homeopatia, seguir a Bíblia foge ao convencional; por isso, há desconfiança e preconceito. A diferença é que, enquanto os críticos da Homeopatia testam sua eficácia, os críticos da Bíblia rejeitam sua eficácia mesmo sem testá-la.

Coisa de novo-rico

No fim do século XIX, os novos-ricos da Segunda Revolução Industrial adquiriam bens e serviços supérfluos para obter prestígio ou poder e ascender socialmente. O economista e sociólogo Thorstein Veblen, em livro escrito em 1899, chamou essa atitude de “consumo conspícuo”.

“Bem coisa de novo-rico do século retrasado, isso”, né?

Um estudo prevê que o aumento do consumo de bens de luxo ficará 50% acima do crescimento do PIB global em 2013. É um aumento surpreendente, em especial quando só se fala em crise.

A demanda por bens de luxo pode até aumentar por causa da percepção dos consumidores de que esses bens são mais caros por terem mais qualidade. Porém, pensando na decisão de compra de carros esportivos e bolsas de marca, por exemplo, o efeito Veblen (compro porque quero status) parece mais importante que essa percepção (compro porque quero qualidade).

Da mesma forma, na decisão de gastar R$ 3 milhões de reais ganhos na Mega(s)Sena para comprar um apartamento, talvez o efeito Veblen seja mais importante que a percepção de que esse apartamento realmente é tão melhor em comparação aos demais e vale o que custa.

Outro estudo sugere que um comprador pode tender a pagar mais por um apartamento dependendo do nome do condomínio. Os autores analisaram o efeito que a inclusão de “country” e “country club” no nome de condomínios semelhantes num mesmo bairro teve sobre os preços pagos pelos apartamentos. Concluíram que os compradores tendem a pagar 4,2% a mais se o nome incluir “country”, ou 5,1% a mais se incluir “country club”. Também concluíram que os compradores mais ricos tendem a ser os líderes na disposição a pagar esse adicional.

Em outras palavras: se o apartamento for no condomínio “Jardim Aterro Sanitário”, estou disposto a pagar R$ 3 milhões; se for no condomínio “Jardim Aterro Sanitário Country Club“, próximo e quase equivalente ao primeiro, estou disposto a pagar R$ 153.000,00 além dos R$ 3 milhões.

Bem coisa de novo-rico do século retrasado, isso.

Ganhei na Mega-Sena

Agora tenho três milhões de reais para comprar o apartamento que descrevi no texto de ontem. Vou pagar com um milhão de notas de três reais.

Vamos ao jogo dos quatro erros:

  1. Para começar pelo mais óbvio: notas de três reais? Essa foi só para dar a dica de que eu obviamente não ganhei na Mega-Sena. (E, se tivesse ganhado, não anunciaria publicamente!)
  2. A Caixa insiste com “Mega-Sena”, mas deveria ser “Megassena” depois da reforma ortográfica. Só comentando. E não é “sem querer ser chato”. Comento querendo ser chato, mesmo.
  3. Seria logicamente impossível eu ter ganhado na Mega(s)Sena, porque só ganha quem joga, e eu não jogo. Já joguei uma ou duas vezes, com amigos, mas só pra poder dizer que já joguei.
  4. Se eu tivesse três milhões de reais sobrando (o “sobrando” é pra dar a entender que “ter, até tenho, só não sobrando”), eu não compraria um apartamento de três milhões de reais.

Pobrinho! Diz isso só porque não tem dinheiro para comprar um apartamento assim.

Invejoso! Diz isso só porque mora num apartamento de um quarto (não suíte), sem lareira e sem vista para área verde ou lago, com uma vaga de garagem, num condomínio sem piscina nem sala de ginástica nem salão de festas nem quadra de tênis nem sala de jogos nem sala de brinquedos nem elevador nem portaria nem eira nem beira onde às vezes se publicam cartazinhos feios.

Comunista! Diz isso porque é um monstro devorador de criancinhas e odeia a burguesia.

Não. Digo isso por uma questão de perspectiva (não vale a pena acumular “tesouros na terra, onde a traça e a ferrugem destroem, e onde os ladrões arrombam e furtam”, Mateus 6:19) que orienta meus princípios (frugalidade é um deles) e prioridades (patrimônio não é uma delas).

P.S.: Se alguém quiser me doar um apartamento de três milhões de reais, até aceito.

O sonho da casa própria

Há muitos edifícios residenciais de alto nível recentemente construídos ou em construção em Porto Alegre. Em muitos deles, as áreas comuns dos condomínios têm piscina interna e aquecida, piscina externa, sala de ginástica, salão de festas, quadra de tênis, sala de jogos, sala de brinquedos. Cada apartamento tem duas ou três lareiras, três ou quatro suítes, quatro ou cinco vagas de garagem. Os jardins são amplos e graciosamente planejados; há vidro em abundância; as vistas são encantadoras, para áreas verdes ou o lago. Não faltam sofisticação, requinte, luxo.

Tudo isso está acessível a toda família trabalhadora que consegue apertar o cinto e economizar.

Numa família de quatro pessoas (mãe e pai economicamente ativos, filha e filho menores), com renda familiar de dois salários mínimos, o planejamento pode ser assim: metade da renda paga a prestação do apartamento, enquanto a outra metade (um salário mínimo inteiro) fica disponível para atender às necessidades vitais básicas da família com moradia (sim, porque enquanto o apartamento não está pago ainda é preciso pagar aluguel), alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.

Trezentos e poucos anos depois, o apartamento estará quitado.

Nesse momento, a filha e o filho já serão economicamente ativos e poderão contribuir com o sustento material da família. Supondo que ganhem um salário mínimo cada e que não se casem nem tenham filhos, as rendas dos dois filhos ajudarão a pagar o que não se quita nem no longo prazo, o que é vitalício, anual, recorrente: as despesas do apartamento (água, luz, gás, seguro, telefonia, conexão de Internet, TV por satélite), o imposto predial, a contribuição condominial.

A renda remanescente poderá enfim bancar o grande sonho da família: uma casa de praia.

A vida como ela não deveria ser

Por amor, acidente ou álcool, ou alguma combinação dos anteriores, somos concebidos. Nove meses depois, estoura uma rolha, e a vida começa a ser despejada.

No começo, o líquido flui aos berros e prantos. Aos poucos, para uns de nós, os berros e prantos silenciam; para outros, aumentam; para ainda outros, tornam-se risos ou até gargalhadas.

Construímos relacionamentos com familiares, amigos, colegas, pessoas dos mais diversos círculos. Construímos também esperanças, conhecimento, carreira, patrimônio.

À medida que a vida flui, produzimos, consumimos, descartamos. Cuidamos de nós mesmos de forma excessiva, equilibrada, ou insuficiente. Buscamos bem-estar, prazeres e entretenimento.

Encontramos namorados, companheiros, esposos. Ou não. Por amor, acidente ou álcool, ou alguma combinação dos anteriores, causamos o estouro de outras rolhas. Ou não.

Destruímos relacionamentos com familiares, amigos, colegas, pessoas dos mais diversos círculos. Destruímos também esperanças, conhecimento, carreira, patrimônio.

O volume despejado vai diminuindo até que a garrafa se esvazie. Do relevante, fica apenas nossa memória, para ser julgada, justa ou injustamente, por outras garrafas que também se esvaziam.

O nome dele não é Martin

Uma amiga minha que não lê meu blog (porque egocentricamente se recusa a ler blogs que não tratam sobre ela) ontem me contou sobre uma notícia estarrecedora, que eu ainda não tinha lido. (Está por aí, na mídia, inclusive na BBC.)

No estado do Tennessee, nos EUA, os pais de um bebê de sete meses não conseguiam decidir sobre a guarda e os sobrenomes dele. Por isso, recorreram ao Judiciário. No início desta semana, a juíza Lu Ann Ballew resolveu a disputa, mas a solução dada nem importa tanto quanto o que ela decidiu além disso: determinou que os pais alterassem também o nome de batismo do bebê de Messiah (Messias em inglês) para Martin. Segundo a juíza, o nome poderia causar problemas ao menino à medida que crescesse no Tennessee, que é uma região predominantemente cristã. Além disso, ela argumentou que a palavra Messias é um título e que cabe a Jesus Cristo e a mais ninguém. A mãe do bebê apelou contra a decisão; o recurso será julgado em setembro.

Antes do comentário sério, a piadinha infame inevitável: a mãe do bebê não sabe a honra que seria ter um filho Martin e deveria falar com meus pais sobre isso.

Agora, sim, o comentário sério: a decisão da juíza é contrária ao Direito.

Primeiro, a intervenção do Judiciário sobre o nome escolhido pelos pais só se justificaria se o nome fosse ofensivo ao bebê, como Abobado ou Indesejado. Pobre criança: a intervenção judicial seria bem-vinda e lícita. Não é o caso, porque Messiah não é ofensivo; pode até ser ofensivo à consciência da juíza, ou à minha, mas não ofende o bebê. Há outros meninos com esse nome nos EUA; duvido que os problemas vislumbrados pela juíza realmente ocorreriam. Aliás, mesmo no Brasil há Messias por aí (como sobrenome) e não os vejo sendo perseguidos.

Segundo, a juíza decidiu com base em suas convicções religiosas, impondo-as sobre os pais da criança e, assim, violando a liberdade religiosa deles. Para a juíza, Messiah é um título exclusivo de Jesus Cristo. Para mim, também. Mas isso não nos autoriza, por exemplo, a proibir os judeus de usar esse título quando o Messias deles vier ao mundo. Também não nos autoriza a proibir não cristãos de batizar seus filhos de Messiah simplesmente porque acham bonitinho. No máximo, podemos achar que foi uma escolha de mau gosto (o que, aliás, é de fato a minha opinião).

Woody Allen (New York) State of Mind

Num desses meus acessos de nostalgia nova-iorquina, comecei uma maratona para assistir aos filmes de Woody Allen, especialmente os ambientados em Nova Iorque, desde os mais antigos.

Comecei com Annie Hall (1977) e depois vi Interiors (1978) e então Manhattan (1979) e em seguida Stardust Memories (1980) e também A Midsummer Night’s Sex Comedy (1982) além de Broadway Danny Rose (1984) e ainda The Purple Rose of Cairo (1985). Recomendo todos: alguns mais (Broadway Danny Rose, além dos óbvios); outros, menos (Stardust Memories).

Ainda há muitos na lista do IMDB e a lista segue aumentando. O mais recente, Blue Jasmine (2013), nem estreou ainda no Brasil e outro ainda sem título já está sendo filmado. Woody Allen é muito produtivo e começou com vantagem (antes de eu nascer!), mas um dia eu o alcanço.

Toda quarta-feira de manhã, a rádio WQXR convida os ouvintes a votar na música que gostariam de ouvir ao meio-dia. As três opções de hoje faziam parte da trilha sonora de algum filme de Woody Allen: o Quarteto de Cordas número 15 de Schubert (do filme Crimes and Misdemeanors, 1989), Rhapsody in Blue de George Gershwin (do filme Manhattan, 1979) e o Concerto para Cravo BWV1056, de Bach (do filme Hannah and Her Sisters, 1986).

Curiosamente, eu já tinha me programado para ver Hannah and Her Sisters hoje à noite: mais um nova-iorquino, é o próximo filme da lista. Por isso, e também um pouquinho por gostar um pouquinho de Bach, votei (e olha que não costumo votar nesse tipo de coisa) na última opção.

E é claro que minha escolha não foi a da esmagadora maioria, que pediu Rhapsody in Blue:


Resultado previsível. O público da WQXR, majoritariamente nova-iorquino, escolheu a música de Gershwin só porque ele também é nova-iorquino. Assim como Woody Allen é nova-iorquino. Gente bairrista esses nova-iorquinos.

E com toda a razão.

Bluegrass progressivo: quem diria?

Junho de 2010. Incrível que já faça três anos! Eu tinha terminado o LL.M. em NYC em meados de maio e estava me preparando para o exame de ordem do Estado de New York. Foi um período que para mim foi, não traumático, sobretudo porque passei no exame (ha!), mas, digamos, de poucos prazeres, como relata de forma resumida este post da época.

O que eu não postei à época foi sobre o show a que fui, a convite de um grande amigo que fiz na City Grace Church (grande amigo desses que, três anos depois e a milhares de quilômetros de distância, continua sendo grande amigo). Ele, cantor, violonista e bandolinista, estava divulgando apaixonadamente entre seus amigos uma banda de que era fã de carteirinha e que faria show em Williamsburg, no Brooklyn: Punch Brothers, banda de… bluegrass progressivo.

Pronto: um prato cheio para o preconceito. Não curto música countryBluegrass é um subgênero da música country. Bluegrass progressivo só poderia ser uma variação sobre o mesmo tema. Portanto, seria impossível gostar. Mas meu amigo apelou convincentemente para meu lado amante de Bach, enviando por e-mail o seguinte vídeo:


(Brandenburg Concerto no. 3)

(Assistindo novamente ao vídeo, tive mais um microataque de nostalgia nova-iorquina: foi feito em uma apresentação ao vivo do Punch Brothers no The Living Room, um bar que costuma servir excelente música alternativa no Lower East Side.)

Começando por Bach, meu amigo me convenceu do talento da gurizada do Punch Brothers:


(This Is The Song)

E por fim conseguiu derrubar meus preconceitos e me fazer curtir bluegrass progressivo!


(Rye Whiskey)

No fim das contas, fui ao show (ótimo!) e também comprei Antifogmatic, o CD que o grupo tinha lançado em 15 de junho, poucos dias antes do show. Está à venda na Amazon e no iTunes e inclui versões de estúdio das três músicas dos vídeos acima.

Ao som dos bandolins barrocos de Bach

Uma das minhas rádios nostalgicamente preferidas é a WQXR, uma rádio pública de música erudita de New York. Para minha agradável surpresa, um dos CDs da semana na rádio é o primeiro volume de Bach: Sonatas e Partitas, lançado na semana passada. Nele, o bandolinista Chris Thile interpreta obras do compositor barroco (e luterano) Johann Sebastian Bach.

Chris Thile é um bandolinista virtuoso, mais famoso por outros estilos que pela música barroca. De minhas outras experiências com a obra musical dele eu conto um pouco mais amanhã. Por hoje, digo apenas que nem de longe esse cara de trinta e poucos anos é um músico erudito careta.

O CD recém-lançado está à venda na Amazon e no iTunes. É um investimento musical de retorno certo (digo isso por experiência, não por publicidade, porque o Chris Thile não me paga). Pra quem precisa de uma provinha antes de comprar, aí vai: 


* Lembrando que clássica é a música erudita do período clássico (fim do século XVIII, início do século XIX): Haydn, Mozart, Beethoven. No século XX, outro exemplo: The Beatles.

Paternidade

Tenho sobrinhos e afilhados gêmeos, um casal. São as pessoinhas mais amáveis e, ao mesmo tempo, terríveis. Nisso, nada de anormal: são crianças saudáveis de três anos de idade que têm toda a energia do mundo pra gastar. Brincam e fantasiam como se não houvesse amanhã e como toda criança deveria poder fazer.

São dessa geração que intuitivamente acha que todo display é obviamente touch. (Afinal, a ideia de um que não seja é incompreensível, inconcebível.) Pela exposição à informação e às tecnologias, vivem num mundo já bem diferente daquele em que seus pais cresceram. A diferença entre o mundo dessas crianças e o de seus avós, então, é tão abismal que nem vou começar a diferenciá-los.

Como tio, sou responsável por contribuir da melhor forma possível para o desenvolvimento integral dos dois pimpolhos. Um dia desses saí a procurar um DVD educativo para mandar de presente a eles. O que encontrei foi uma dificuldade surpreendente numa tarefa que deveria ser tão simples para quem mora a cinquenta metros de uma livraria.

Foi muito difícil escolher, não só porque há muitas opções, mas também porque muitas são de gosto ou moral questionáveis. Não quero dar exemplos, para não fazer crítica editorial. Para meu argumento basta dizer que não me senti 100% confortável com nenhum dos DVDs. Escolhi dois, mas aconselhei minha irmã a verificar se eram de fato adequados, antes de os reproduzir para as crianças.

E foi aí que me dei conta: como pais, minha irmã e meu cunhado teriam de fazer isso de qualquer forma. Se a responsabilidade pesa sobre os ombros de um tio a milhares de quilômetros dos sobrinhos, imagina sobre os deles. Sustento material e nutricional, saúde física e emocional, educação formal e informal, desenvolvimento moral e espiritual — a responsabilidade dos pais alcança todos esses aspectos da vida dos filhos, especialmente na primeira infância, mas até a maioridade (no sentido intelectual, não no jurídico).

Ontem foi Dia dos Pais. Minha reflexão, embora diga respeito tanto a papais quanto a mamães, aconteceu espontaneamente num momento significativo do ano. Refleti sobre a responsabilidade que meu pai e minha mãe tiveram e ainda têm pela minha formação como ser humano completo. Refleti, olhando para minha irmã e meu cunhado, pais há poucos anos, sobre a responsabilidade que já têm e ainda terão na formação dos dois pimpolhos amados deste titio babão que escreve. E também refleti, olhando para um casal de amigos que está esperando um bebê, sobre as responsabilidades que já têm e sobre as que logo virão.