Arquivo da categoria: Economia

Os nóbeis

Participando de um evento na NYC Bar (associação de advogados de NYC) hoje de manhã, espiei o Financial Times do desconhecido ao lado e assim fiquei sabendo que Elinor Ostrom e Oliver Williamson ganharam o Prêmio Nobel de Economia de 2009 – ela, “por sua análise da governança econômica, especialmente quanto os commons (bens globais, como a atmosfera)”; ele, “por sua análise da governança econômica, especialmente quanto aos limites da firma”. Tanto Ostrom como Williamson são acadêmicos da escola da Nova Economia Institucional – que foi o marco teórico que usei na minha monografia final do curso de Economia.

Gostei. Pelo menos eles ganharam um prêmio por coisas que já fizeram (aliás, têm feito por muito tempo ao longo da vida), e não por coisas que apenas prometeram fazer. Uh, um pouco ácido… Na verdade eu não sou tão dramaticamente contrário à ideia de terem dado o Prêmio Nobel da Paz ao Obama. Embora meio temprano, talvez o lado bom seja o incentivo para que ele agora faça por merecer.

(Só a título de curiosidade: o Prêmio Nobel da Paz é mesmo um Prêmio Nobel, ou seja, pago com os rendimentos do legado de Alfred Nobel, o sueco que inventou a dinamite; o chamado “Prêmio Nobel de Economia” é na verdade um prêmio “em memória de Alfred Nobel”, criado não por ele, mas pelo banco central sueco.)

Dez minutos

Primeira entrevista em processo seletivo de bolsa de estudos. Foi informal, tranquila… só que durou dez minutos, sendo que deveria durar 30 ou 40. Tudo bem, disseram que os documentos que enviei na inscrição estavam bem claros e que por isso não restavam muitas dúvidas. Enfim, não foi péssimo nem fui eliminado preliminarmente, mas sinto que estou cada vez mais distante de receber dindim pra estudar na NYU.

Parece que sou o contrário do que se espera de um bolsista. “Perfil acadêmico, então?”, com certo tom depreciativo. “Recém te formou na faculdade e já quer uma pós-graduação?”, meio que rindo. “É, isso aí”, respondi, e pensei, “putz, isso não era uma coisa boa?”.

Aparentemente não. Aparentemente essa história de qualificação acadêmica está fora de moda – e eu que achava que graduação era apenas o mínimo da decência! Aparentemente eu teria que entrar no mercado logo após de me formar, ganhar experiência profissional, e só então tentar uma pós-graduação.

Afinal, o que importa é trabalhar (no meu caso, advogar ou “economizar” pra gente grande) e ganhar dinheiro, porque só assim se mostra empreendedorismo e competência e liderança. Excelência acadêmica em duas graduações, pesquisa e extensão, estágios no exterior, serviço público, preocupações ambientais… naaah.

Desculpa, Mundo, mas minha trajetória foi diferente. Aliás, acho que não teria sido aceito na NYU se não tivesse sido. Eu até poderia ter sido “empreendedor” em vez de CDF, mas acho que teria fracassado (em algum ou em ambos) se tivesse tentado ser ambos ao mesmo tempo. Ademais, agora a Inês é morta: desde sempre “optei” pelo cedefismo (“optei”, entre aspas, porque talvez não tenha tido opção). Se essa foi a “opção” errada pra quem viria a postular uma bolsa, acho que vou ter mesmo que me endividar pra bancar a NYU.

Ou desistir, e trabalhar pra ganhar muito dinheiro e “experiência profissional” e pra me tornar um líder empreendedor e competente. E talvez mais tarde tentar de novo um mestrado na NYU ou noutra universidade. E talvez fracassar, porque terei perdido o “perfil acadêmico” que eu tanto valorizei e que lutei pra construir e que agora desprezam. E talvez me arrepender de não ter feito o que eu queria (estudar na NYU, nestes tempos) pro resto da vida. Que é uma só. Que desperdício. É, acho que vou ter mesmo que me endividar.

Coisa de gente grande

Essa estória de fazer aniversário é brincadeira. Não, nem brincadeira é, porque já não sou criança pra ficar de brincadeira. Tenho compromissos sérios.

Um deles é ler com calma e atenção o Estatuto do Idoso, pra saber tão logo possível os direitos que muito em breve aplicar-se-me-ão.

Outra tarefa importantíssima é aprender a escrever, porque essa coisa de “aplicar-se-me-ão” não pode estar de acordo com qualquer norma de escrita. E, se estiver, é porque esse mundo tá mesmo muito torto.

Tô dizendo! “Esse mundo tá mesmo muito torto”? Frase de velho. Ok, apesar da decadência evidente, pelo menos ainda tenho autocrítica. Mais uma tarefa: mantê-la.

Como se vê, vários indicativos da maturidade surgiram do nada, subitamente interrompendo minha juventude. No último post eu ainda estava com duas dúzias incompletas de anos de vida, e agora as pessoas já me dizem que estou “rumando ao quarto de século”. Peraí, não mesmo. Nego peremptòriamente. (Ai, esses dias caiu o tal do acento subtônico, não é?)

O derradeiro indicativo do declínio, agora mais oficial do que nunca (depois de publicado no Diário Oficial da União, ninguém se atreve a dizer que não é oficial): fui aprovado em concurso público, do IPEA.

Fiquei no cadastro de reserva (décimo-oitavo de nove vagas). Tudo bem, porque sempre corro o risco de ser nomeado uma hora dessas, e isso seria ótimo. Afinal, preciso garantir a subsistência na velhice.

Freela em POA – e além

(Criança quando aprende palavra nova usa quando pode. Aprendi “freela” há um ou dois meses – “freelancer” eu já conhecia; “freela” é que, até então, não.)

Esta semana estive em Porto Alegre para um trabalho de freela (!) em finanças, por indicação e sob a orientação do professor Nelson, patrono da minha turma de Economia. Foi uma ótimo período prático pra relembrar e aprender um pouco mais de Economia.

No mais, conheci muita gente boa, revi meu professor e também meu ex-colega Felipe (que é colaborador da empresa onde trabalhei), e de quebra trouxe de volta um pouco de dindim pro meu so-called “NYU fund”. Claro que não fiquei milionário de um dia pro outro (isso só no sábado, quando a Nadia ganhar na Megassena), mas tudo o que entra vem bem!

Ah, claro, e após o trabalho nesses dias em POA eu assistia à CNN, o que eu não fazia há mais de um ano, desde o período do meu estágio em Bonn… haha! Foram boas recordações. Assisti a um programa ótimo, Talk Asia, com o Lang Lang – aquele pianista prodígio chinês. Mas o engraçado da CNN é que tem umas chamadas de programas que continuam as mesmas de um ano atrás, e como repetem quase a cada intervalo, grudam muito na cabeça. Uma dessas chamadas é a do programa da Christiane Amanpour, correspondente internacional (copiei daqui):

You have listened to the world leaders,
and leaders who want to rule the world;
You have heard from the men of God,
and men who kill in God’s name;
Gaze into eyes with hope,
and see hearts consumed with hopeless.
With CNN, you have followed the facts around the world.
Come with me and see where the stories take us next.

Enfim, voltei de POA a SLS ontem e por enquanto sigo aqui… até surgir outra boa oportunidade dessas. Volto pra passar o findi de Páscoa com meus pais, e hoje eles me inventam de sair a visitar amigos, pode?

Silêncio pode ser perigoso

Silêncio aqui no blog geralmente é sinal de preguiça; às vezes, porém, pode ser um alerta de perigo!

Desta vez, eu estava de fato tramando algo. Convidado pelo professor Shikida (blog De Gustibus Non Est Disputandum), entrei como co-autor no novo e-book que ele organizou. O livrinho traz, segundo o próprio organizador, de uma “reflexão verdadeiramente plural sobre o significado da Lei Seca e os impactos da mesma sobre a sociedade brasileira”

Minha contribuição ao e-book é o artigo O poste não é de borracha, que está no post ali abaixo. Mas é claro que o melhor mesmo é ler tudo. O e-book completo, A quem (realmente) servem os bafômetros, está disponível aqui.

O poste não é de borracha

Maldito por isso em alguns círculos de discussão de Economia e em outros de Ecologia, eu tenho esse hábito lamentável de me dedicar a abordagens econômicas sobre problemas ambientais. A mais tradicional delas, sem aqui entrar nas críticas, é a da externalidade negativa, segundo a qual a degradação do meio ambiente aconteceria porque os agentes econômicos pensam apenas nos benefícios e custos privados e desconsideram os benefícios e custos (principalmente os custos) externos, que são aqueles causados por suas escolhas a outros agentes ou à sociedade como um todo.

Nessa boa e velha inspiração, o trânsito é tido como terreno fértil para a produção de externalidades negativas. Por exemplo, na opção pelo uso individual do automóvel (em oposição ao transporte coletivo e aos esquemas de caronas alternadas), os agentes econômicos descuidam dos efeitos negativos que sua opção traz ao meio ambiente, por causa da poluição atmosférica, e ao próprio fluxo de trânsito, por causa dos congestionamentos.

A fatal combinação de bebida alcoólica e trânsito pode muito bem ser interpretada como um terceiro caso de externalidade negativa. Num mundo ideal sem intervenção do Estado (e não que um mundo sem intervenção do Estado seja “perfeito”…), quem bebe antes de dirigir leva em conta apenas os custos privados de sua atitude, como o preço da bebida e o risco de sofrer danos físicos ou patrimoniais em caso de acidente. Seria preciso que fosse levado a pensar também nos custos externos, como o de causar esses danos a outras pessoas ou de pelo menos impor à sociedade o risco de causá-los. E foi isso que a Lei Seca fez.

(“O consumo de bebidas alcoólicas por motoristas, em economia, é um exemplo clássico de geração de externalidades negativas” – essa idéia já foi levantada na própria Câmara dos Deputados. Foi usada como argumento no substitutivo ao Projeto de Lei 2.997/2004, cujo objetivo era proibir a comercialização de bebidas alcoólicas em lojas de conveniência situadas em postos de gasolina.)

A bem da verdade, trata-se de uma externalidade que já era internalizada em certo grau na legislação brasileira. O Código de Trânsito Brasileiro já oferecia incentivos (sanções administrativas e penais) para que o motorista considerasse os efeitos externos de sua decisão de beber. O que a Lei Seca fez foi dar mais uma internalizadinha: tolerância zero ao ato de dirigir alcoolizado. Isso também veio com um aumento na fiscalização e na repressão. É punição exemplar; serve pra que o agente econômico perceba que o negócio não é brincadeira (“bah, multa de mil pila!”) e mude pra valer a sua conduta.

A nova lei vem ao encontro das conclusões de alguns economistas no tratamento das externalidades. Em alguns casos extremos, não há muito que se possa fazer para resolver o problema. Por exemplo, ninguém vai sugerir que o Estado se meta a tentar resolver o problema da perda de bem-estar social devida ao bafo etílico e às conversas de bêbado da gurizada. No outro extremo, há casos em que não resta alternativa à sociedade a não ser simplesmente proibir uma conduta. Talvez o caso da bebida no volante seja assim. Talvez tivesse bastado um simples aumento em todo o país no rigor da fiscalização, mesmo sob a lei antiga. Vai saber?

O certo é que a lei tem produzido efeitos positivos (e há de continuar a produzir, contanto que continue sendo cumprida). Existe pelo menos uma sensação de que os acidentes de trânsito diminuíram. Estatísticas oriundas dos hospitais de pronto socorro parecem sugerir que o primeiro mês da lei já foi um sucesso. Eu particularmente acho cedo pra esse tipo de conclusão. Seria preciso uma série mais longa para uma análise mais precisa.

Parte do efeito positivo é o espaço que se abre à criatividade dos agentes econômicos. Tomar todas e tomar um táxi de volta pra casa não é exatamente uma delas, porque já estava faz tempo na lista de soluções dos mais conscientes. Esquemas de rodízio entre as parcerias – do tipo “hoje eu não bebo pra poder dirigir, mas amanhã é tu” – são um pouco mais criativos (embora talvez um pouco enfadonhos pro abstinente da vez).

Alguns bares e restaurantes entraram na brincadeira e oficializaram o rodízio, colocando uma pulseira naquele que vai levar a galera pra casa, como forma de sinalizar ao garçom que não lhe sirva bebidas alcoólicas. Legal também a iniciativa de alguns estabelecimentos de oferecer condução para os clientes, pra que possam beber, e a criação de oportunidades econômicas como a dos motoristas de bêbado – o cara vem, pega teu carro e te dirige de volta pra tua casa. (Não quero dizer necessariamente tu, leitora ou leitor.)

“Legal coisa nenhuma,” podes estar pensando (agora sim: tu, leitora ou leitor), “porque tudo isso se reflete no preço da refeição no restaurante, da bebida no bar e do serviço do taxista ou do motorista de bêbado”. Sim, só que essa era justamente a idéia. Afinal, não existe nada mais devidamente internalizante que uma dorzinha no bolso.

É bem por isso que sou favorável à Lei Seca (e, como já disse e repito, ao seu fiel cumprimento). Uma hora ou outra e de uma forma ou outra seria preciso fazer o motorista assumir o custo externo associado aos riscos de dirigir bêbado. Em outras palavras, cai na real: o poste não é de borracha – FAZ DODÓI!

Uma revolução redacional

Não pretendo em um só post recuperar o atraso do blog, mas desde já faço a advertência: isso pode muito bem acontecer. Este texto resulta de uma profunda reflexão que tenho feito desde que reli um livro realmente transformador: Economical Writing, da Dra. Deirdre McCloskey. Podes parar de bocejar: mesmo que Economia não seja tua praia, o livro tem muito mais de Writing que de Economical. Aliás, na minha opinião deveria chamar-se Academic Writing, ou, sem querer exagerar na abrangência, Writing.

A lição do livro serve para qualquer pessoa, já que escrever bem deveria ser o objetivo de qualquer pessoa. Tudo bem que o público-alvo é o escritor de língua inglesa, e que justamente por eu estar escrevendo um artigo em inglês ao ler o livro acabei aproveitando mais a lição, mas farei aqui apenas comentários que na minha opinião valem para qualquer idioma ou até, de novo sem querer exagerar na abrangência, em qualquer forma de comunicação.

“Escritores amadores acham que escrever é um traço de personalidade, e não uma habilidade.” (p. 1)

Já pensei assim, e talvez também penses. Mas vejamos: escrever não é simplesmente um dom que as pessoas têm. É muito mais transpiração (prática) do que inspiração (talento). É muito mais questão de ter conteúdo e vontade de exprimi-lo do que de ter uma capacidade extraordinária para expressar idéias por escrito. Todos somos falantes competentes da nossa língua. Às vezes o que nos falta para escrever bem é apenas um pouco de domínio sobre aspectos técnicos da língua escrita, e isso só a prática ensina.

“Escrever é pensar. Não aprendes os detalhes de um argumento até que o escrevas em detalhe, e em escrever os detalhes descobres falhas nos fundamentos.” (p. 7)

Fica até difícil comentar essa colocação, porque é auto-explicativa! Muito bem escrito e verdadeiro. Por esse e outros motivos eu digo que esse livro é o máximo!

“Diz o que que vais dizer; dize-o; e depois diz que o disseste.” (p. 11)

Enquanto McCloskey simplesmente abomina essa regra, nós a ouvimos até de professores de Língua Portuguesa ou Redação e de Metodologia da Pesquisa. Para constatar que muita gente leva essa regra a sério, basta ler alguns trabalhos científicos e até livros didáticos (mesmo de ensino superior). Há quem não se canse de repetir a mesma idéia expressa de outra forma. Alguns escritores têm prazer em dizer a mesma coisa em outras palavras. Só para garantir que o leitor entenda, reformulam frase após frase…

Pronto, pronto, já entendeste bem o que eu quero dizer: repetição cansa o leitor! Como é que tem gente que não se dá conta disso? Ah, se fosse só disso que não se dão conta… Tem tanto mais na escrita acadêmica que deveria ser repensado. Queres ver?

“Notas de rodapé são ninhos de pedantes. Uma nota de rotapé deveria ser subordinada. É por isso que está no pé da página.” (p. 48)

Tenho professores que amam tanto as notas de rodapé a ponto de dizer que é nelas que deve estar a contribuição principal do autor: no corpo do texto, caberia apenas fazer um “diálogo” com a literatura já existente sobre o tema. Isso não faz o menor sentido para mim. Notas desviam a atenção do autor, porque quebram a fluência da leitura, especialmente quando colocadas no meio de uma frase. Gosto da regra da McCloskey: “Notas de rodapé deveriam guiar o leitor às fontes. E só” (p. 48). Talvez seja uma opinião radical demais, porque às vezes também acho difícil evitar uma nota explicativa… De qualquer forma, se as notas começam a tomar volume, é porque não têm importância meramente “subordinada”; nesse caso, merecem ser “promovidas” para o corpo do texto.

“Usa verbos, na voz ativa” (p. 70)

McCloskey sugere o uso de verbos na voz ativa e do imperativo (“usa verbos na voz ativa”) como substituto para a voz passiva (“verbos na voz ativa devem ser usados”). A tal da voz passiva, que a autora (des)qualifica de “covardia”, é a recomendação de vários manuais de normas técnicas, redação acadêmica e metodologia da pesquisa, inclusive o da universidade onde estudo. Mas, pra falar a verdade, ninguém pensa na voz passiva e ninguém fala na voz passiva. Muitos dos manuais autorizam a voz ativa, mas ainda em nome da impessoalidade, recomendam o uso da terceira pessoa do plural: “nós”. Agora, convenhamos: se sou autor único do texto, por que diria que “nós” fizemos isto ou aquilo? Na busca pela impessoalidade, pela imparcialidade, pelo distanciamento do pesquisador e tudo o mais, a academia acabou tornando-se um lugar onde se escrevem esquisitices.

“Evitar a Variação Elegante” (p. 56)

Variação Elegante é o uso de várias palavras com o mesmo significado – que muitos escritores usam e muitos professores recomendam com o fim de evitar repetições. Exemplo: “o autor”, “o eminente jurista”, “o doutrinador”, “o discípulo de Beltrano” – sempre para substituir o nome da pessoa, Fulano de Tal. McCloskey, no extremo oposto, chega a recomenda a repetição moderada de palavras, para manter a coerência do texto, usando às vezes pronomes oblíquos “para aliviar a monotonia” (p. 50). É uma solução melhor do que o perigo de, no fim das contas, o leitor nem saber mais a respeito de que estamos escrevendo (p. 56).

Outras dicas de McCloskey válidas para a escrita acadêmica

Não começar um trabalho acadêmico com aquela clássica encheção de lingüiça da “imaginação falida”: “Este paper…”.

Evitar a seção de “background”, “aquele material que coletaste e que depois descobriste que estava além do objetivo do texto” (pp. 36-37). Em outras palavras: manter o foco do texto; não divagar; excluir informações irrelevantes.

Pular o parágrafo-índice: “O presente paper está estruturado da seguinte forma: o primeiro capítulo…”. Dependendo da forma como se escreve esse parágrafo (e aqui me refiro também a “recapitulações” no início de novos capítulos), pode ficar mais fácil para o leitor localizar-se e ter uma noção de unidade do texto. Por isso eu relativizo esta regra…

Nunca repetir sem pedir desculpas: se julgares preciso repetir para reforçar ou relembrar um argumento, cuidado para não insultar a inteligência e a memória do leitor!

As REGRAS DE OURO ensinadas por McCloskey no seu livro são as duas seguintes, na minha opinião:

1) “Clareza é uma questão social, não algo a ser decidido unilateralmente por quem escreve. O leitor, como o consumidor, é soberano. Se o leitor acha que o que tu escreveste não está claro, então não está, por definição. Desiste de discutir.” (p. 12)

Por não entendermos isso, às vezes somos hostis às críticas de nossos leitores (involuntários revisores!)… Pensamos que está bem escrito e ponto, que se o leitor não entendeu porque é “limitadinho” intelectualmente, que ele não respeita o nosso “estilo”. Não, não, não: clareza não tem nada a ver com inteligência ou estilo. Nosso texto tem clareza, como bem ensina McCloskey, quando tem objetividade e fluência, isto é, quando o leitor (a “sociedade”) compreende o que escrevemos sem embaralhar-se.

2a) Lê, relê, trelê…

A autora dá uma dica para contornar o problema da falta de clareza: “Ler o que escreveste com frieza, uma semana depois de ter feito o rascunho, vai evidenciar partes do texto que nem mesmo tu consegues ler com facilidade” (p. 13). Aliás, também recomenda a leitura do texto em voz alta, para não usar palavras pomposas demais: “Tu ouves uma frase quando a lês em alta voz. É uma boa regra não escrever nada que terias vergonha de falar ao teu público-alvo” (p. 30). Mais adiante, diz ainda o seguinte: “Ler em voz alta é uma técnica poderosa de revisão. Lendo em voz alta, tu ouves o teu texto como os outros o ouvem internamente, e se teu ouvido é bom vais detectar os pontos ruins” (p. 68).

2b) … e reescreve!

“Escrita fácil produz leitura difícil. O Dr. Johnson disse há dois séculos: ‘O que é escrito sem esforço é em geral lido sem prazer’.” (p. 58). Revisar e reescrever é imprescindível. É o resultado da primeira idéia que expus neste texto (lembrando: escrever é uma habilidade, e não um dom) e da primeira regra de ouro (de novo: clareza é uma questão social, e não de estilo). É, enfim, um sinal de respeito ao leitor.

Se eu já era perfeccionista e um revisor compulsivo (de escritos próprios e alheios!), a releitura de Economical Writing me fez ainda pior. Ou melhor. Isso quem há de decidir é o leitor, que é soberano. Agora, uma coisa é certa: a literatura acadêmica muito se beneficiaria da aplicação das regrinhas simples expostas pela Dra. McCloskey. Haveria mais qualidade e interesse na ciência e no ensino-aprendizagem se houvesse mais qualidade na escrita. Encerro como comecei, “sem querer exagerar na abrangência”: teríamos um mundo bem melhor (pelo menos mais agradável para todos nós, leitores!) depois de uma revolução redacional.

Meu Dia

Ontem, 11 de agosto, foi o Dia do Advogado. Foi também o Dia do Pendura: segundo a tradição, os estudantes de Direito estão autorizados a ir em grupo a um restaurante e não pagar pelo que consomem. Duas observações importantes:

1) Digo que os estudantes estão autorizados a fazer isso porque, afinal, o costume também é fonte de Direito.

2) Muita gente, não entendendo muito bem essa história de costume e fonte de Direito, acha que o Pendura (sim, com letra maiúscula) é sinônimo de calote e que configuraria o crime de “Outras fraudes” (art. 176 do Código Penal). Não caiam nesse engano. O Pendura é um ritual erudito, com certa solenidade. Tomar uma refeição em restaurante sem ter os recursos para pagá-la – isso, sim, é crime.

Mas, de qualquer forma, este é meu quinto ano como estudante de Direito, e é o quinto ano em que não exercito meu direito de Pendura. Estou em crédito com os restaurantes de Pelotas. Um dia, essa dívida haverá de ser cobrada. Me aguardem.

Hoje, 12 de agosto, segundo domingo de agosto, é o Dia dos Pais.

Mas, embora seja biologicamente um pai em potencial, na realidade (ainda) não sou pai. Que eu saiba. [Risos!] Não, não, tô brincando: definitivamente não sou pai. Nem de um bichinho de estimação, que nunca tive.

Amanhã, 13 de agosto, é o Dia do Economista.

Mas, embora minha formatura em Economia tenha sido terça-feira passada, ainda não sou economista, porque ainda não tenho o registro no Conselho Regional de Economia. Enão, por favor, não me chamem de economista, pra não me arranjar confusão – dizer-se “economista” sem ter o registro é exercício ilegal da profissão.

Eu sou um quase-tudo: um quase-advogado, um quase-economista e um quase-pai. E como tanto faz dizer que o copo está meio cheio ou meio vazio, sou, ao mesmo tempo, um quase-nada. Eu protesto! Não quero ser um quase-nada, um infeliz, um sem-dia. Quero meu Dia.

Mas o calendário já contempla o meu triste caso: depois de amanhã, 14 de agosto, é o Dia do Protesto.

Sobrevivente

Desta vez eu me puxei na “paradinha de uma semana” desde a terça-feira de carnaval. Mas não vou pedir perdão, porque eu tenho suficientes desculpas para não ter postado ao longo de todo esse tempo. Por óbvio, a idéia de posts retroativos está rejeitadíssima, porque a essas alturas isso seria humanamente impossível. E, ao contrário do que alguns pensam, não sou alienígena. Mas pra justificar meu sumiço vou fazer uma breve retrospectiva. Breve. Prometo que consigo.

Neste meu último semestre no curso de Economia, a Universidade resolveu exigir cadeiras que, até então, diziam ser eletivas. E a exigência veio depois do período de matrículas, quando já não há muito o que fazer. Aí é pra enlouquecer qualquer um, né? E foi exatamente isso que aconteceu – enloquecemos, meus colegas e eu. (…) E essas reticências significam intermináveis MESES de sangue e suor e negociação com a coordenação do curso, a pró-reitoria de graduação, os registros acadêmicos, até a reitoria… em um processo administrativo que finalmente garantiu a oferta das disciplinas faltantes. Apesar dos percalços, tudo se resolveu.

Só que pra me formar, além das cadeiras, faltava a monografia. Primeiro, tive de traduzi-la (pra quem lembra, foi escrita originalmente em espanhol!) e finalizá-la. Tudo certo. Dia 30 de julho, fui aprovado (yay!), depois de uma banca de duas horas. Mas não foi uma tortura. Ao contrário – foi uma das minhas melhores experiências. Os professores elogiaram bastante o trabalho e eu não tive dúvidas de que valeu o sacrifício.

Mesmo enquanto ainda não tinha certeza de que as disciplinas faltantes seriam oferecidas e de que eu poderia me formar em 2007/1, eu me candidatei a uma pós-graduação: Especialização em Direito Ambiental, a área que eu pretendia seguir, desde que entrei no curso de Direito. E passei. Aí tive de pedir uma formatura interna às pressas (pra fazer pós-graduação, há quem diga que precisa ser graduado). Então tá, desde terça-feira sou Bacharel em Economia. E a matrícula na pós é hoje à tarde. Ufa…

Quando voltei supermegafeliz voltando da Argentina, nunca imaginei que tudo isso poderia acontecer em um só semestre, e um semestre tão decisivo. Nesse período eu li Hard Times, de Charles Dickens. E me parecia claramente que eu estava descendo a escadaria da Sra. Sparsit: a mighty Staircase, with a dark pit of shame and ruin at the bottom (“uma grandiosa Escadaria, com um escuro poço de desonra e ruína na sua base” – tradução livre).

Mas agora eu posso, finalmente, voltar a respirar tranqüilo. Nem acredito que consegui interromper a descida antes de chegar ao poço. Sobrevivi. E sou muito grato a Deus por isso – não teria sobrevivido não fosse pela força dEle. Por isso, quero reinaugurar a atividade de postagem neste blog-fênix com o meu LOUVOR reproduzindo um hino que a minha irmã Lu me apresentou um dia desses. É em inglês, mas já estamos trabalhando em resolver esse probleminha, né, Lu? ;) Fabi, vamos cantá-la quando eu voltar ao coro? :D (Quem tiver banda larga está FORTEMENTE aconselhado a ouvir aqui uma linda versão da música!)

In Christ Alone

Letra e Música: Keith Getty & Stuart Townend

Copyright © 2001 Kingsway Thankyou Music

In Christ alone my hope is found;
He is my light, my strength, my song;
This cornerstone, this solid ground,
Firm through the fiercest drought and storm.

What heights of love, what depths of peace,
When fears are stilled, when strivings cease!
My comforter, my all in all—
Here in the love of Christ I stand.

In Christ alone, Who took on flesh,
Fullness of God in helpless babe!
This gift of love and righteousness,
Scorned by the ones He came to save.

Till on that cross as Jesus died,
The wrath of God was satisfied;
For ev’ry sin on Him was laid—
Here in the death of Christ I live.

There in the ground His body lay,
Light of the world by darkness slain;
Then bursting forth in glorious day,
Up from the grave He rose again!

And as He stands in victory,
Sin’s curse has lost its grip on me;
For I am His and He is mine—
Bought with the precious blood of Christ.

No guilt in life, no fear in death—
This is the pow’r of Christ in me;
From life’s first cry to final breath,
Jesus commands my destiny.

No pow’r of hell, no scheme of man,
Can ever pluck me from His hand;
Till He returns or calls me home—
Here in the pow’r of Christ I’ll stand.

Acadêmico

Mais uma vez, devo agradecer pelas cobranças de atualização no blog. É bem provável que desta vez tenha batido o recorde de não-postância. Entretanto, muito embora eu funcione melhor sob pressão, ultimamente, no caso do blog, a pressão não tem sido eficaz (como se pode observar no histórico recente do arquivo de posts!). E existe um só e simples motivo: estou acadêmico. Muito tenho lido, estudado, pesquisado, escrito. E tenho tido prazer – como nunca, talvez – nessas atividades.

Com o fim das minhas pseudo-férias, deparei-me com o sétimo semestre da Economia. Além de ser o “último” (ao menos o último com aulas presenciais, porque no oitavo só restará redigir a monografia), o semestre promete ser interessante e, sobretudo, desafiante. Cadeiras difíceis, professores exigentes. Eu amo um desafio. E o Direito, embora com relativamente menos exigências, está pouco a pouco chegando ao fim. Esgotam-se paulatinamente minhas oportunidades de aproveitar meus cursos de graduação. Não que eu não tenha feito isso até agora – é que começa a bater um certo saudosismo precoce.

Então, este é um pedido de desculpas, mas não chega a ser um pedido de perdão, porque acredito que ninguém possa me acusar, dizendo que estou fazendo a coisa errada. Não estou encerrando o blog, nem me eximindo do compromisso de postar de vez em quando; estou prometendo postar menos. Um desestímulo ao leitor? Talvez. Mas eu sinto que isso (postar menos) é o que eu preciso fazer, pelo menos por enquanto. Existe uma certeza: quanto mais (academicamente) produtivo eu me sentir, mais vou ter vontade de postar aqui. Enquanto esse sentimento não vem, preciso resolver umas pendências, tirar uns atrasados.

[Este post REALMENTE precisa de comentários!]