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A vida definitivamente não é bela

Rehtaeh Parsons, uma jovem canadense de 15 anos, sofre estupro coletivo. Alguém fotografa a brutalidade e faz circular a fotografia na escola da jovem. Depois disso, ela se torna alvo de assédio online (cyberbullying). Passa a sofrer de depressão e acaba por cometer suicídio.

Alguns meses depois, surge no Facebook um anúncio de um site de relacionamentos. O texto de divulgação: “Encontre Amor no Canadá!” A imagem do anúncio é uma foto de perfil de Rehtaeh Parsons. Após denúncia, o Facebook tira do ar o anúncio e publicamente pede desculpas, mas o anunciante não é localizado e o site de relacionamentos já não existe.

Ler essa história me tirou o sono. Pensei em escrever sobre os direitos violados, de mal a pior: do “simples” (mas não por isso desprezível) descumprimento de normas internacionais de autorregulamentação publicitária sobre moralidade na propaganda até o crime de estupro, passando pelo uso não autorizado de fotografia e pela ofensa à imagem e à memória de pessoa falecida. Não seriam poucas as ilicitudes a comentar.

Mas desisti. O Direito e o Judiciário, agora, no máximo vão possibilitar a punição dos responsáveis, se forem identificados e localizados. A vida de Rehtaeh Parsons já foi destruída, e cicatrizes profundas também foram deixadas nas vidas dos familiares dela. A monstruosidade humana evidente nessa história me faz pensar no quanto nosso mundo precisa, muito antes de um bom Direito e um bom Judiciário, de mais gente boa.

Meu blog, minha vida

Criei a página martinbrauch.com no facebook, por onde vou canalizar os textos que publico aqui. Também atualizei a versão do WordPress do site. Reorganizei as categorias, como se pode ver na lista à direita. E enfim concluí e incluí as informações do autor e de contato – o menu “SOBRE”.

À medida que realizei essas tarefas ao longo do final de semana, revi (ainda que superficialmente, em alguns casos) cada um dos mais de 400 textos publicados neste site. Em dois dias, revivi os últimos sete anos. Relendo os textos, eu me senti exatamente como me sentia quando os escrevi. A experiência foi, ao mesmo tempo, emocionante e assustadora (eu não esperava por ela).

A alegria e a expectativa após ser aprovado para o Mestrado na NYU. A angústia de não conseguir uma bolsa de estudos. As delícias de viajar e conhecer outros mundos. Minhas características constantes: a busca pelo artístico (a Fotografia, a Música), a reflexão, a crítica, a nostalgia.

Todos os registros escritos confirmam quem sou. Eu agora sou essencialmente o mesmo que sempre fui; agora apenas conheço melhor a minha essência (e agora mais) (e agora ainda mais). E reconheço no exercício de manter um blog uma ferramenta útil para o autoconhecimento.

Sim, os textos que escrevi e publiquei contam a respeito de quem sou e de meus sentimentos em tempos específicos. Mas há também um aspecto não tão trivial: os textos que não escrevi também contam sobre mim e sobre o que vivi. O silêncio, no meu blog como na Música, pode ser solene e significativo. Os intervalos silenciosos (normalmente seguidos de pedidos de desculpas aos leitores!) até resultaram, em alguns casos, de falta de tempo para escrever, mas, em regra, corresponderam aos meus momentos de maior ansiedade, num sentido bem autodestrutivo.

Por fim, rever os 400 posts e reviver os sete anos também me fez lembrar da minha motivação primeira para começar um blog: escrever pelo gosto de escrever. Comunicar “porque sim“, nos termos do primeiro post publicado. Hoje eu também poderia dizer: escrever simplesmente pelo bem de produzir conteúdo original, num mundo cada vez mais (mal-)acostumado a não produzir, mas apenas replicar, em suas diversas formas: encaminhar, retweetar, compartilhar.

A vida como ela não deveria ser

Por amor, acidente ou álcool, ou alguma combinação dos anteriores, somos concebidos. Nove meses depois, estoura uma rolha, e a vida começa a ser despejada.

No começo, o líquido flui aos berros e prantos. Aos poucos, para uns de nós, os berros e prantos silenciam; para outros, aumentam; para ainda outros, tornam-se risos ou até gargalhadas.

Construímos relacionamentos com familiares, amigos, colegas, pessoas dos mais diversos círculos. Construímos também esperanças, conhecimento, carreira, patrimônio.

À medida que a vida flui, produzimos, consumimos, descartamos. Cuidamos de nós mesmos de forma excessiva, equilibrada, ou insuficiente. Buscamos bem-estar, prazeres e entretenimento.

Encontramos namorados, companheiros, esposos. Ou não. Por amor, acidente ou álcool, ou alguma combinação dos anteriores, causamos o estouro de outras rolhas. Ou não.

Destruímos relacionamentos com familiares, amigos, colegas, pessoas dos mais diversos círculos. Destruímos também esperanças, conhecimento, carreira, patrimônio.

O volume despejado vai diminuindo até que a garrafa se esvazie. Do relevante, fica apenas nossa memória, para ser julgada, justa ou injustamente, por outras garrafas que também se esvaziam.

Paternidade

Tenho sobrinhos e afilhados gêmeos, um casal. São as pessoinhas mais amáveis e, ao mesmo tempo, terríveis. Nisso, nada de anormal: são crianças saudáveis de três anos de idade que têm toda a energia do mundo pra gastar. Brincam e fantasiam como se não houvesse amanhã e como toda criança deveria poder fazer.

São dessa geração que intuitivamente acha que todo display é obviamente touch. (Afinal, a ideia de um que não seja é incompreensível, inconcebível.) Pela exposição à informação e às tecnologias, vivem num mundo já bem diferente daquele em que seus pais cresceram. A diferença entre o mundo dessas crianças e o de seus avós, então, é tão abismal que nem vou começar a diferenciá-los.

Como tio, sou responsável por contribuir da melhor forma possível para o desenvolvimento integral dos dois pimpolhos. Um dia desses saí a procurar um DVD educativo para mandar de presente a eles. O que encontrei foi uma dificuldade surpreendente numa tarefa que deveria ser tão simples para quem mora a cinquenta metros de uma livraria.

Foi muito difícil escolher, não só porque há muitas opções, mas também porque muitas são de gosto ou moral questionáveis. Não quero dar exemplos, para não fazer crítica editorial. Para meu argumento basta dizer que não me senti 100% confortável com nenhum dos DVDs. Escolhi dois, mas aconselhei minha irmã a verificar se eram de fato adequados, antes de os reproduzir para as crianças.

E foi aí que me dei conta: como pais, minha irmã e meu cunhado teriam de fazer isso de qualquer forma. Se a responsabilidade pesa sobre os ombros de um tio a milhares de quilômetros dos sobrinhos, imagina sobre os deles. Sustento material e nutricional, saúde física e emocional, educação formal e informal, desenvolvimento moral e espiritual — a responsabilidade dos pais alcança todos esses aspectos da vida dos filhos, especialmente na primeira infância, mas até a maioridade (no sentido intelectual, não no jurídico).

Ontem foi Dia dos Pais. Minha reflexão, embora diga respeito tanto a papais quanto a mamães, aconteceu espontaneamente num momento significativo do ano. Refleti sobre a responsabilidade que meu pai e minha mãe tiveram e ainda têm pela minha formação como ser humano completo. Refleti, olhando para minha irmã e meu cunhado, pais há poucos anos, sobre a responsabilidade que já têm e ainda terão na formação dos dois pimpolhos amados deste titio babão que escreve. E também refleti, olhando para um casal de amigos que está esperando um bebê, sobre as responsabilidades que já têm e sobre as que logo virão.

Aquele período do ano para reflexões

Há duas ou três semanas, causei o sobressalto de uma amiga que almoçava comigo num shopping center. Arregalei os olhos, tapei a boca com os dedos e soltei uma interjeição engasgada de horror, apontando ao longe: “olha, uma árvore de Natal!” Isso foi só o começo.

Mal termina o Dia da Criança e os lojistas já decoram tudo de verde e vermelho. Todo ano é assim e ironicamente eu sempre me surpreendo.

Ao chegar em casa hoje notei que minha vizinha pendurou em sua porta uma escabrosa guirlanda artificial cintilante com um Papai Noel assustador em alto relevo ao centro. Não adianta ignorar a realidade posta. O Advento não começou, mas é quase como se.

Deixando de lado minha aversão a decorações alegadamente natalinas über fiasquentas, esse período do ano costuma (para mim como para muitos) ser de reflexões sobre o que passou, o que ainda passará, o que deveria ter passado e outros tempos verbais cada vez mais complexos.

Este ano foi quando menos escrevi no blog do Guri em seis anos. Existe um porquê, certamente; existem vários, aliás. Não listo todos, porque isso aqui tende a ficar enfadonho. Só alguns, de forma bem genérica.

O silêncio tem a ver, sim, com o trabalho, em seus aspectos de volume, intensidade, tempo de dedicação, conteúdo sigiloso. Tem a ver, também, com instabilidades (ainda) não resolvidas da minha vida. Tem a ver, ainda, com adaptações, nostalgias, frustrações, sei-lá-mais-quê.

E tem a ver, talvez mais que tudo, com a sensação bastante nítida de que minha vida de jovem profissional de rotina pouco variável – de casa para o trânsito para o escritório para a visita ao cliente para a natação para o supermercado para casa – não seja lá muito digna de relatos que possam despertar interesse.

Aqui vou ter de usar minha licença dramática, porque a frase pode parecer exagerada: às vezes eu penso, com toda a sinceridade, que já tive todas as minhas melhores experiências, ou pelo menos as mais dignas de relato, e que a partir de agora a vida terá experiências como a curva de uma função exponencial decrescente.

Mas outras vezes eu me dou conta do absurdo que é isso e despenso tudo. Um desses momentos de despensar foi hoje mesmo, quando um cliente, depois de aconselhar-se comigo ao telefone sobre um assunto jurídico qualquer, agradeceu-me dizendo, “obrigado, Guri”.

Aí me lembrei de que sou mesmo o Guri. Pensei no blog e pensei que tenho, sim, experiências dignas de relato, e que ainda terei muitas mais. E se forem aparentemente menos ricas que as do passado, talvez apenas precisem ser fotografadas com outras lentes ou usando uns filtros de cor interessantes. Só preciso voltar a fotografar e revelar por aqui.

Não era pra ser um blog trimestral

Mas nem tudo acontece como a gente quer. E tudo bem, porque os imprevistos da vida, agradáveis ou não, edificam. O lado mais agradável de um hiato na postagem parece ser a diferença de perspectiva que o passar do tempo proporciona. Vejo bem mais claramente hoje que ao longo dos últimos três meses o que realmente importou nesse tempo.

Primeiro, estar com toda a minha família reunida. A bênção de poder reunir com razoável frequência uma família tricontinental compensa até mesmo a forte dor da despedida (sempre acompanhada de choradeira) ao final de cada reencontro.

Segundo, crescer naturalmente no trabalho – e sentir o trabalho crescer naturalmente em mim. É tão difícil acreditar que já completei meio ano de advocacia quanto acreditar que completei apenas meio ano de advocacia. Há desafios novos a cada dia e nem os percebo mais, porque estou cada vez mais acostumado a enfrentá-los sem medo.

Terceiro, cumprir a árdua missão de “mobiliar o apartamento, com calma, simplicidade, conforto e estilo – mas sem torrar grana em luxos”. Há semanas tenho a impressão de que nada me falta em casa. Isso libera minha mente e meu tempo para atividades mais nobres.

É aí que entra a parte nem-tudo-são-flores do post. Apesar dos avanços evidentes, ainda não atingi o equilbrio desejado entre as atividades fora do trabalho: ler, assistir a filmes, nadar, fotografar, estudar idiomas, caminhar, tocar música, escrever. Manter contato com os amigos de longe. Passar tempo com os amigos de perto. Fazer novos amigos.

E, por fim, tem a parte do post em que eu admito um incômodo sentimento de pro-resto-da-vida. Em contraste com os últimos anos (desde julho de 2009) de dinamismo instável, relatados aqui no blog, estou estranhando um pouco a constância dos últimos meses. Antes, vivia incomodado porque não tinha nem mesmo uma vaga ideia de para onde a vida ia; agora, porque tenho a impressão de saber com excessiva precisão para onde vai.

Entre o sono e a vigília

Outrora eu sonhava longos sonhos sonhados ao longo de longas noites de soninho. Na infância e na adolescência, as tramas dos meus sonhos costumavam ser tão elaboradas e fantasticamente dotadas de uma tal falta de sentido que rendiam belas histórias. Aliás, um dos meus projetos de criança (sei lá em que série do ensino fundamental eu estava) foi escrever um livrinho sobre alguns dos meus sonhos mais memoráveis (mas dos quais hoje, mesmo assim, já me esqueci).

Atualmente, porém, minha vida é mais dinâmica, minhas noites são mais curtas, meus sonhos são mais rápidos – mas não menos perplexificantes. Ontem, por exemplo. Nem sei se foi um sonho, um pesadelo, ou um relâmpago de pensamento desorientado que ocorreu precisamente naquela fração ínfima de segundo em que se deu a transição do sono para a vigília.

A linha do tempo foi mais ou menos assim (cada “instante” significa a milionésima parte da menor duração imaginável):

  • Instante 1, ainda em sono profundo: “zzz…”
  • Instante 2, um pesadelo jurídico: “tenho de saltar rápido da cama para ir logo ao escritório e conseguir para o cliente a homologação da sentença penal estrangeira condenatória à morte.”
  • Instante 3, já bem desperto: “hã?”

Há tantos problemas com o pesadelo jurídico do instante 2 que fica até difícil decidir por onde começar a explicar, mas vamos lá. Trabalho com Direito Civil e Contratos; jamais lido com Processo. No escritório, ninguém atua na área de Direito Penal. E, como se não bastasse, a solicitação do cliente é absurda, porque o Brasil não admite a pena de morte (ok, salvo aquela exceçãozinha) e, por isso, jamais homologaria sentença penal estrangeira condenatória à morte.

Preciso dormir – agora, em particular, mas mais, em geral…

Planos furados?

Deu tudo errado quanto à visita da minha irmã e do meu cunhado aqui em Genebra. Simplesmente não rolou.

Primeiro, o voo deles dos EUA a Londres foi cancelado por causa da “neve torrencial” na Inglaterra.

(Calcula-se que tenha nevado uns dois centímetros, o que foi suficiente para os londrinos surtarem e os aeroportos ficarem fechados por dias. Fiasco pouco, eu diria.)

Acabou que só conseguiram chegar a Londres com um dia de atraso e sair de lá um dia depois – direto para a Alemanha. O tempo antes do Natal era tão curto que ir a Genebra não valia mais a pena.

A aventura deles é uma historia à parte. Sem outra possibilidade de passar para o lado de cá do Canal de Mancha, devido ao colapso aéreo e ferroviário causado pela “forte nevasca” de 1,96cm na Inglaterra, eles alugaram um carro!

Carro inglês, com direção no lado direito. Travessia de balsa ate a França. (Parece até coisa d’A volta ao mundo em 80 dias, de Jules Verne, que eu li em outubro-novembro!) Trânsito na Holanda e na Bélgica com pneus de verão, porque a locadora londrina nunca tinha ouvido falar de pneus para dirigir na neve; chegou a sugerir que andassem  na autoestrada com as correntes para neve nos pneus(definição de livro-texto de “ideia de girico”). Pra finalizar: o GPS, alugado com “pacote europeu”, só tinha mapas das ilhas britânicas…

Até agora não entendo como chegaram à Alemanha – e ainda a tempo do Natal. Só por milagre, mesmo! Pena que não puderam vir a Genebra, mas…

Em seu coração o homem planeja o seu caminho, mas o Senhor determina os seus passos. (Provérbios 16.9)

Outra história daquelas

Daquelas tipo esta.

Um assunto sobre o qual não comentei muito (ou pelo menos não de forma sistemática) aqui no blog foi o bar exam – o exame de ordem do estado de Nova Iorque. No post aquele das 4.000 palavras eu comentei que, depois da minha formatura no mestrado, em meados de maio, tive miniférias e logo comecei o curso preparatório para o exame, no barbri. No início de junho, contei um pouco sobre a minha árdua rotina de preparação, que não mudou muito até o fim de julho, exceto no período em que fui para San Antonio visitar mana e cunha.

Quem acompanhou o blog na época vai se lembrar (e quem não acompanhou vai ficar sabendo agora): os meses de barbri, junho e julho, foram de posts curtos e poucos. Em geral, postei só pra compartilhar alguns de meus olhares fotográficos para a cidade de Nova Iorque, às vezes combinados com momentos esparsos de inspiração literária aleatória e incontrolável. Até que em agosto finalmente voltei à postância normal, mesmo antes de fazer a última prova relacionada ao bar exam – a de responsabilidade profissional.

Vale lembrar meu posicionamento oficial sobre a prova:

[…] não tenho nenhuma base para saber como fui – e nem quero ficar pensando a respeito, porque os resultados só saem daqui a alguns meses (nem estarei mais em Nova Iorque quando saírem). O que posso dizer de consciência limpa é que fiz o meu melhor considerando as circunstâncias. E seja o que Deus quiser [e digo isso da forma mais sincera possível – nada de “força de expressão”].

E então eu parei de pensar nisso. Aproveitei muito bem aproveitados meus últimos dois meses morando em Nova Iorque, e depois vim pra Genebra. Muitas transições. A vida aqui é bem diferente da vida lá. Outros projetos, outras coisas pra me manter ocupado. A ideia era mesmo nem ter muitas esperanças, e deixei isso bem claro para todos com quem falei sobre esse assunto. Claro que muitos amigos seguiram insistindo que tinham certeza de que eu tinha passado… o que, embora não seja mal-intencionado, não ajuda muito; só me coloca ainda mais na responsa, na necessidade (autoimposta) de sempre mostrar bons resultados e de corresponder às expectativas do mundo ao meu redor.

Como já expliquei no meu posicionamento oficial, fiz o meu melhor na prova. Passar seria ótimo, mas não passar não seria o fim do mundo – talvez apenas um sinal de que Papai do Céu não quisesse que eu fosse um big-shot New York lawyer (difícil traduzir isso!). Cheguei a dizer isso pra alguns amigos aqui e ali.

Aliás, saindo do escritório ao final do expediente na minha primeira sexta-feira de trabalho no IISD aqui em Genebra, a Jocelyn, uma colega de trabalho, perguntou sobre a prova da ordem (eu já tinha comentado que tinha feito a prova). Então eu expliquei essa minha postura – nas palavras que usei no parágrafo anterior, mesmo. Pra minha total surpresa, ela respondeu, “bom, se já colocaste essa questão diante do Senhor, talvez Ele possa mesmo responder dessa forma.” E foi assim que, na minha primeira interação com alguém do trabalho fora do ambiente de trabalho, ainda novo na cidade e sem igreja e sem amigos, descobri uma colega de trabalho cristã, e aparentemente a única do escritório. Coincidência?

Até que chegou novembro e comecei a pensar, “o resultado do exame de ordem deve sair em breve.” Semana passada comecei a olhar o site… todos os dias, na esperança de encontrar a lista de aprovados. Mas nada. Chegou um e-mail do barbri, dizendo que os resultados só sairiam a partir da semana que vem. E me determinei, “pronto, não adianta ficar olhando o site freneticamente; o negócio é ter paciência.”

É interessante como determinar-se não significa absolutamente nada. Semana passada, um dia sonhei que tinha olhado a lista e meu nome estava lá. Outro dia, também semana passada, sonhei que tinha olhado a lista e meu nome não estava lá. Sim: na semana passada, sonhei duas vezes com a lista dos aprovados. Por mais que não quisesse me importar com o resultado (“passar seria ótimo, mas não passar não seria o fim do mundo”), a simples determinação de não me importar com o resultado era um sinal de que já estava me importando.

Foi bem isso que me disse a Jocelyn no intervalo de almoço de sexta-feira. Eu tinha contado a ela que a história do bar exam vinha me atormentando… e que eu não queria mais me importar. Mais, ela enfatizou bastante o que eu já sabia: tinha apenas que deixar de lado essa preocupação e confiar em Deus. Pronto. Claro que eu já sabia disso. Mas é tão difícil pôr em prática… Os amigos cristãos  às vezes ajudam simplesmente nisso – lembrando o que já sabemos sobre Deus, mas que às vezes é difícil de aplicar no dia-a-dia. Ótimo. Mais uma vez, eu disse a Deus, “tá contigo… quero paz; não quero mais pensar nesse exame.”

Sábado acordei superdisposto e fui passear. Peguei um bonde até o Palais de Nations (sede das Nações Unidas aqui), de onde caminhei até o Jardim Botânico. De lá, caminhei na Pérola do Lago (um parque) e atravessei de barco até o outro lado do lago, em Genève Plage. Voltei pra casa, fiz um almocinho básico, e à tarde fui até a Piscine de Pervenches, em Carouge: fui nadar, o que não fazia desde abril, quando ainda tinha acesso ao centro esportivo da NYU. Comprei um passe para toda a temporada; pretendo ir regularmente! Cãimbras à parte (normal, depois de tanto tempo!), a primeira vez foi ótima. Eu amo natação. Ria sozinho no vestiário, me preparando pra entrar na piscina. “Não acredito – eu vou nadar!” Haha… Espero que ninguém tenha notado minha felicidade boba. Voltei pra casa a pé. O dia foi lindo – chegou a fazer 19 graus! E em nenhum momento do dia pensei no exame.


Jardim Botânico de Genebra


Jardim Botânico


Pérola do Lago, parque em Genebra.
Não parece a Pérola da Lagoa, São Lourenço do Sul? 😉


Ainda na Pérola do Lago


Cisne no Lago de Genebra


Mont Blanc


Jato d’Água


Jato d’Água e o Salève


Catedral e Jato d’Água


Jato d’Água e cisnes


Jato d’Água e arco-íris

Finalmente vim para o computador colocar os e-mails em dia. Também estava determinado a telefonar para alguns amigos de Nova Iorque (telefonemas pelo Google Voice para os EUA são de graça até o fim do ano – fica aqui a dica!). Então vi que tinha um e-mail do comitê de examinadores da ordem dos advogados de Nova Iorque na minha caixa de entrada. Não podia ser. Eu tinha olhado pela última vez o site da ordem na sexta-feira à noite e o resultado não tinha saído; no sábado é que não teria sido publicado! Mas tinha a diferença de horário… será? Não podia ser. Mas aí entrei no facebook e vi várias atualizações dos meus amigos, anunciando que tinham passado… Não podia ser. Mas era: tinha saído o resultado do exame de ordem.

Aí, o que se faz? Entra-se na caixa de entrada e abre-se o e-mail do comitê de examinadores, certo? Não. Surta-se primeiro. Catei minha prima Carol no Google Talk. “Carol, acontece o seguinte…”, e expliquei a história, acrescentando, “não quero abrir o e-mail. Tô com medo.” Acho que se não fosse a Carol me ordenar que abrisse o e-mail imediatamente (hahaha!), até agora estaria aqui, esperando… sei lá exatamente pelo quê. E então eu abri o e-mail. Diz assim:

The New York State Board of Law Examiners congratulates you on passing the New York State bar examination held on July 27-28, 2010.

Passei. No e-mail, o comitê me dá os parabéns. Só tenho a agradecer a Deus por tudo… pelo meu intelecto, sim, mas principalmente pela capacitação e pela paz de espírito que Ele me concedeu, desde o tempo de barbri, passando pelos os dias de prova, até a publicação do resultado (apesar do momento “low” da última semana). Também sou muito grato a minha família e aos meus amigos (no Brasil e em Nova Iorque), por torcer e orar por mim, e especialmente por me aturar (ou aturar minha ausência) durante os meses estressantes de estudos. O que essa aprovação significa em termos práticos eu ainda não sei; isso também está nas mãos de Deus. A única certeza, por enquanto, é que uma porta segue aberta. 🙂

Buzina

Alguém buzinou pra mim enquanto eu caminhava pelo Village, da estação de metrô à biblioteca, arrastando minha mala (literalmente: é uma pequena mala, dessas de levar de bagagem de mão) com os livros para meus estudos. Às 8h da manhã, com o Village quase deserto, dá pra ter certeza: a buzina era pra mim. Não foi uma buzina-xingamento; foi antes uma buzina rápida e simpática.

Em Pelotas, buzina rápida e simpática normalmente significa que um conhecido te viu na rua e quis te cumprimentar. Aqui, porém, a chance de isso acontecer é nula: ninguém que eu conheça tem carro. Mas mesmo assim eu olho, como há pouco olhei, pra ver quem era. Claro, sou de Pelotas. Vai que seja algum conhecido? Santa ingenuidade.

Outra vez que isso aconteceu (em pleno domingo de manhã, na caminhada de uma quadra entre a igreja e o prédio onde eu morava), baixaram o vidro do carro e cumprimentaram meus atributos físicos, de uma forma tão particularmente nova-iorquina que prefiro não transcrever aqui. Nada de mais, e nem teria sido incômodo, não fosse por um detalhe: era um cara (!). Não sei por que eu insisto em olhar… Ignorar e seguir caminhando (o que em Pelotas é grosseria) aqui é sempre a opção certa.

Hoje, de novo, não resisti e olhei. Obviamente não era nenhum conhecido. Era um taxista. O táxi estava reduzindo a velocidade e pouco a pouco se aproximando do meio-fio. Aí que me dou conta (sabe como é, de manhã o raciocínio é um pouquinho mais lento): como me viu puxando uma mala, talvez o taxista tenha suposto que eu gostaria de pegar um táxi. Estranho, de qualquer forma, porque conseguir um táxi em Manhattan é a coisa mais trivial; se eu realmente quisesse um, estaria dentro de um, não caminhando na calçada. Aí por aqueles segundinhos incômodos ficou o taxista a me olhar, meio que indagando se eu queria um táxi. Quando me dei conta, claro, fiz o que deveria ter feito desde o início (ignorar e seguir caminhando), pra ver se o taxista seguia seu rumo. E foi o que ele fez.

Já é a segunda vez que tenho esse tipo de interação com taxistas. Vai ver que os taxistas de NYC estão ficando sem serviço e estão correndo atrás da demanda? Impossível. Vai ver, então, que estão se tornando mais simpáticos? Duvido ainda mais. Acho que isso só acontece para eu ter aleatoriedades matinais para postar no blog.