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Concordando (ou não) com Ruy Barbosa

Por causa do texto de ontem e do sentimento que me inspirou a escrevê-lo, hoje pensei em Ruy Barbosa. Importante jurista brasileiro na transição do século XIX para o XX, em diversas oportunidades ele escreveu sobre a importância do advogado e do exercício da advocacia conforme princípios éticos. Por exemplo:

A profissão de advogado tem, aos nossos olhos, uma dignidade quase sacerdotal. Toda a vez que a exercemos com a nossa consciência, consideramos desempenhada a nossa responsabilidade.

Lendo um pouco sobre o autor da frase, percebi que ele e eu temos um tanto em comum além da formação jurídica e da defesa da ética na advocacia. Ele acreditava no poder da escrita. Gostava de línguas estrangeiras. Defendia o Direito Internacional. Era metódico, obstinado, perfeccionista, detalhista, revisor compulsivo. E por muitos contemporâneos seus era tido como um mala.

Também percebi outro tanto de diferenças entre ele e mim. A primeira e mais evidente é que Ruy Barbosa foi uma figura de importância histórica inegável e de inteligência admirável, enquanto eu não passo de um guri. Envolvia-se ativamente na vida política do país e tinha influência. Ele também era um grande patriota, até ufanista, o que eu não conseguiria ser nem se quisesse.

Ele ainda era prolixo e pedante. Eu, se tenho esses defeitos, tenho as defesas de que já fui pior (“estou melhorando”) e de que pelo menos tento melhorar, deliberadamente. Já ele era prolixo e pedante sem medo de ser feliz. E isso não é uma crítica. Talvez fosse apenas o estilo de redação e oratória do mundo em que ele viveu, mas que não cabe no mundo em que vivo.

Voltando ao discurso ético de Ruy Barbosa, tenho uma história de infância para contar sobre uma das mais célebres frases dele:

De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto.

Meu pai costumava ter um poster com essa frase em seu escritório. Por isso, conheço-a desde meus primeiros anos escolares. Quando ainda não tinha condições de entendê-la, tinha a impressão de ser longa e desnecessariamente complicada, porque poderia ser expressa de forma mais simples e sucinta. Depois que passei a entendê-la, minha impressão tornou-se certeza.

Hoje, mesmo discordando do estilo de argumentação, compreendo o argumento e o sentimento que o motiva. Porém, mesmo tendo essa compreensão, não concordo com o argumento nem compartilho do sentimento que o motiva.

Quanto mais nulidades eu vejo triunfar, quanto mais vejo prosperar a desonra, quanto mais vejo crescer a injustiça, quanto mais vejo agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, mais sede eu tenho de virtude, honra e honestidade. Se por causa dessas situações eu desanimasse da virtude ou me risse da honra ou tivesse vergonha de ser honesto, não seria um homem, como Ruy Barbosa parece sugerir — eu seria um rato.

(A Revista Época publicou um especial sobre Ruy Barbosa. Vale a leitura.)

Advogado antiético: a exceção que envergonha a regra

Num dos últimos cultos a que fui, durante a mensagem, o pastor ironizou a ética dos advogados. Não me lembro exatamente do que disse. Foi algum comentário generalizador, no sentido de que todo advogado seria antiético, dito num tom de pressuposto lógico. Não nas seguintes palavras, mas no seguinte espírito: “é óbvio que todo advogado é antiético e que todos vocês sabem disso e concordam com isso; portanto, vocês concordarão com tudo o eu disser a seguir”.

Mais lamentável que o próprio uso de sarcasmo como ferramenta para validar o discurso e ganhar a cumplicidade e dos ouvintes, especialmente inapropriado no contexto de um culto cristão, foi o fato de a artimanha ter permitido ao pastor alcançar o resultado pretendido. Os ouvintes riram risos abafados, com cumplicidade. “É bem isso, mesmo: todo advogado é antiético. Vamos ouvir e concordar com o que ele disser a seguir.”

Mesmo correndo o risco de aprofundar minha notória ingenuidade, acho que pode não ter sido um comentário mal-intencionado por parte do pastor. Afinal, a intenção dele não foi criar nem reforçar um preconceito contra os advogados: foi apenas beneficiar-se de um preconceito já existente. Ao mesmo tempo que não foi mal-intencionado, tampouco foi bem-intencionado: não ajudou a amenizar esse preconceito, que, como todo preconceito, não tem fundamento.

Ser fiel à verdade, agir com lealdade e de boa-fé nas relações profissionais, merecer a confiança do cliente e da sociedade pelos atributos intelectuais e pela probidade pessoal — mais que obrigações, esses são princípios formadores da consciência profissional do advogado, e não poderia ser diferente: confiança é essencial. Infelizmente, uma minoria de profissionais antiéticos cria uma névoa de desconfiança que a maioria se ocupa de dissipar. Novamente correndo (sem medo) o risco de ser acusado de ingênuo ou romântico, refuto absolutamente o preconceito, não só porque eu mesmo sou advogado e ajo rigorosamente conforme princípios éticos, mas também porque conheço muitos outros advogados que fazem o mesmo. Somos a maioria.

Reclamar: vício ou virtude? (4) Ou ambos?

Uma de minhas mais trabalhosas e desafiantes atividades no escritório é aconselhar e auxiliar clientes estrangeiros na aquisição de imóveis rurais na Faixa de Fronteira – aquela faixa de 150 Km ao longo das fronteiras terrestres do Brasil. Antes de adquirir um imóvel na Faixa de Fronteira, o estrangeiro deve obter autorizações do Incra, do Conselho de Defesa Nacional e, em alguns casos, até do Congresso Nacional.

Os procedimentos para obter essas autorizações exigem um número significativo de documentos. Por exemplo, o estrangeiro precisa demonstrar que, com a aquisição dos imóveis, não se excederá o “limite de estrangeirização” do município onde se situam. A regra é que estrangeiros não podem ser donos de mais de 25% da área de um município; além disso, estrangeiros de mesma nacionalidade não podem ser donos de mais de 10% da área total do município.

Parece complicado, mas a mesma lei que criou essa regra passou a exigir dos Registros de Imóveis um “livro auxiliar” para registrar todas as aquisições de imóveis rurais por estrangeiros. Assim, o Registro tem condições de emitir certidão que indique a área rural total pertencente a estrangeiros naquele município e a discriminação dessa área por grupos de nacionalidade. Mais que isso, a requerimento de qualquer interessado, o Registro deve emitir essa certidão. É sua obrigação.

Em tese, tudo lógico, perfeito, funcional. Na prática… (Se todas as leis fossem cumpridas no Brasil, viveríamos num país muito melhor, sem necessidade de tantos advogados. Ou seja, num país melhor ainda.)

Na prática, há Registros de Imóveis que não mantêm atualizados os seus “livros auxiliares”, deixando de registrar neles as vendas de imóveis rurais a estrangeiros. Assim, as certidões que emitem com base nesses livros não corresondem à realidade.

Além disso, há o problema deixado pela onda de emancipações. Fica mais fácil explicar com um exemplo. Imagine o município hipotético de Budapeste, que em 1990 dividiu-se nos municípios de Buda e Peste. Apesar da divisão, subsistiu apenas um Registro de Imóveis em Buda, com abrangência sobre Buda e Peste. O Registro não atualizou seus livros (inclusive o “livro auxiliar”) após a divisão e não tem condições de informar quais áreas pertencentes a estrangeiros estão localizadas em Buda e quais estão localizadas em Peste. Tem o dever legal de informar, mas não informa. Para isso, o registrador deveria dar-se o trabalho de localizar quais áreas estão em Buda e quais estão em Peste.

Por um lado, as certidões emitidas por esses Registros de Imóveis quanto ao nível de estrangeirização do município são sabidamente incorretas. Por outro, as certidões têm fé pública – ou seja, o conteúdo delas presume-se verdadeiro.

Voltando aos procedimentos que conduzimos para os clientes, solicitamos em nome deles as certidões necessárias aos Registros. Sabemos que as certidões emitidas não correspondem à realidade. Os clientes também. Os registradores também. O Incra também – e reclamou. Solicitou que obtivéssemos certidões corretas.

Como solicitar aos Registros, “por favor, cumpram seu dever legal e emitam certidões que estejam atualizadas e cujo conteúdo corresponda à realidade”? Não sei, mas foi o que fizemos – polidamente solicitamos novamente aos Registros que fizessem de novo o que já tinham feito.

A resposta que esperamos é que os Registros atualizem seus “livros auxiliares” e emitam certidões corretas e atualizadas. Isso resolveria todos os nossos problemas – meus, do escritório, do cliente, do Incra. E todos se regozijariam.

Mas outra resposta plausível seria: “as certidões que emitimos estão atualizadas e correspondem à realidade”; ou seja, um carimbo de autenticidade em algo sabidamente falso. E o que fazer nesse caso?

Poderíamos argumentar ao Incra que, mesmo após nossa insistência, os Registros insistem no erro – mas isso não resolveria o problema, porque continuaríamos sem as certidões necessárias. Poderíamos reclamar à Corregedoria-Geral de Justiça gaúcha, para que compelisse o Registro a cumprir seu dever legal – e assim começaríamos uma bela inimizade com os registradores, de cujos serviços tanto necessitamos.

Nesse caso, reclamar é o correto e, ao mesmo tempo, um tiro no pé.

Reclamar: vício ou virtude? (2)

Saiu em uma edição do Diário Oficial da União uma publicação relevante quanto a um cliente do escritório. Tendo de apresentar a página dessa publicação à Junta Comercial gaúcha, fizemos o que normalmente se faz: imprimimos a página a partir do site da Imprensa Nacional. Cada página do Diário Oficial assim obtida vem com um código único, que permite a verificação da autenticidade.

Essa assinatura digital existe por força de lei (na verdade, da Medida Provisória, número 2.200-2 de 24/08/2001) e é amplamente usada e aceita. A Imprensa Nacional adverte: as publicações oficiais desde 1990 estão disponíveis no site, com certificação digital.

Porém, para nossa surpresa, a Junta Comercial inflexivelmente recusou o documento e exigiu original ou cópia autenticada do Diário Oficial impresso. “Queremos uma folha de papel jornal.” Solicitamos uma cópia autenticada da página relevante à Imprensa Nacional em Brasília: para nossa ainda maior surpresa (preconceito?!), foi fácil, ágil e barato.

Porém, para nossa enorme suspresa, a Imprensa Nacional nos enviou a mesma página que tínhamos imprimido originalmente a partir do site, mas com um simplório carimbo da Imprensa Nacional (“confere com o original”, ou algo assim) e a rubrica de um servidor público, sem reconhecimento de firma.

Esse carimbo e essa rubrica sem reconhecimento de firma pouco acrescentaram à autenticidade ou mesmo à aparência de autenticidade da (já suficientemente autêntica) página com autenticação digital. Mas era o tudo o que a Imprensa Nacional tinha a oferecer. “Não enviamos folha em papel jornal.” E foi o que apresentamos à Junta Comercial.

Porém, para nossa estapafurdiamente gigante surpresa (e com um tantinho de alegria pelo nosso cliente), a Junta Comercial aceitou aquilo que era uma folha impressa do site mais carimbo e rubrica.

Nessa história, talvez o mais irritante seja a recusa inicial da Junta em reconhecer autenticidade a um documento de autenticidade óbvia, legalmente exigível e amplamente aceita. Ou talvez seja o reconhecimento final, pela Junta, da autenticidade do segundo documento apresentado, pretensamente mais autêntico que o primeiro, mas, na verdade, igualmente autêntico. Ou talvez seja, simplesmente, a inconsistência e a arbitrariedade da Junta.

De qualquer forma, problema resolvido. Mas neste caso, desta vez. Sem termos manifestado nossa insatisfação com a recusa inicial indevida, não temos como garantir que a Junta se abstenha de repetir essa recusa indevida futuramente. Sem termos reclamado, só nos resta torcer que o absurdo não se repita.

Reclamar: vício ou virtude? (1)

Um dia desses, minha amiga gaúcho-candanga Carol Grassi reclamou em forma de pergunta antropológica: “Por que gaúcho gosta tanto de reclamar?” E eu reclamei da premissa dela: “Não sei se gaúcho gosta mesmo de reclamar.” Obviamente só o fiz porque, como bom gaúcho, tive de reclamar. É claro que gaúcho gosta de reclamar.

Outro dia desses, conversava com meus amigos Karina e Felipe Soares sobre as reclamações nossas de cada dia. (E eles são pessoas bem entendidas no assunto, não porque sejam reclamadores de primeira, mas porque, como servidores da Justiça do Trabalho, lidam direto com reclamantes, reclamadas, reclamatórias.)

Nesse contexto, o Felipe comentou sobre um atendimento ruim que recebeu recentemente e que, ao reclamar por escrito desse atendimento, inspirou-se em como eu me indignava com as coisas reclamáveis, e reclamava delas, já no início da faculdade de Direito. “Chutava o balde,” disse ele como diria eu então.

“Mas eu nem reclamava tanto assim no início da faculdade”, reclamei eu. “Capaz que não!”, ele reclamou. “E o artigo aquele sobre as avaliações inconsistentes, que escreveste já no primeiro ano?”

Bah. Faz nove anos. Nem me lembrava. Mas é mesmo: eu já reclamava bastante. Bem mais que hoje, aliás. Não que hoje tenha menos motivos. Na melhor das hipóteses, tenho dez vezes mais.

Por isso resolvi escrever uma série de posts reclamando sobre reflexões — quer dizer, refletindo sobre reclamações. Gaúchos ou não, servidores da Justiça do Trabalho ou não, estudantes do primeiro ano da faculdade ou não, todos temos as reclamações nossas de cada dia. Reclamar é vício ou virtude? Às vezes é melhor silenciar que reclamar, mas outras vezes reclamar pode até ser necessário.

Mas basta — não quero e não vou entregar já neste primeiro post nenhuma conclusão precipitada sobre um assunto que ainda nem desenvolvi nem exemplifiquei propriamente. Sem mais, o resto ficará para os próximos posts desta série. Não adianta reclamar.

Contatos de segundo grau

Visitei hoje um escritorio de advocacia a convite do sócio-gerente, com quem tinha entrado em contato em virtude de um evento de arbitragem internacional. Não: não foi uma entrevista de emprego.

Fui muito bem recebido. Primeiro que o advogado tem opiniões muito lúcidas sobre os problemas do regime internacional do investimento estrangeiro, que eu pesquiso todos os dias no trabalho.

Segundo que ele, além de ser supercool e ter na sua mesa fotos com o George Clooney e com os Obamas (as pessoas de verdade – não de museu de cera, como as que eu tenho), foi também supergentil, oferecendo dicas para minha busca de emprego e me apresentando outros três advogados do escritório.

GEDC4020

Uma das minhas fotos dos Obamas,
de quando os visitei na Casa Branca (aham…)

Outra história daquelas

Daquelas tipo esta.

Um assunto sobre o qual não comentei muito (ou pelo menos não de forma sistemática) aqui no blog foi o bar exam – o exame de ordem do estado de Nova Iorque. No post aquele das 4.000 palavras eu comentei que, depois da minha formatura no mestrado, em meados de maio, tive miniférias e logo comecei o curso preparatório para o exame, no barbri. No início de junho, contei um pouco sobre a minha árdua rotina de preparação, que não mudou muito até o fim de julho, exceto no período em que fui para San Antonio visitar mana e cunha.

Quem acompanhou o blog na época vai se lembrar (e quem não acompanhou vai ficar sabendo agora): os meses de barbri, junho e julho, foram de posts curtos e poucos. Em geral, postei só pra compartilhar alguns de meus olhares fotográficos para a cidade de Nova Iorque, às vezes combinados com momentos esparsos de inspiração literária aleatória e incontrolável. Até que em agosto finalmente voltei à postância normal, mesmo antes de fazer a última prova relacionada ao bar exam – a de responsabilidade profissional.

Vale lembrar meu posicionamento oficial sobre a prova:

[…] não tenho nenhuma base para saber como fui – e nem quero ficar pensando a respeito, porque os resultados só saem daqui a alguns meses (nem estarei mais em Nova Iorque quando saírem). O que posso dizer de consciência limpa é que fiz o meu melhor considerando as circunstâncias. E seja o que Deus quiser [e digo isso da forma mais sincera possível – nada de “força de expressão”].

E então eu parei de pensar nisso. Aproveitei muito bem aproveitados meus últimos dois meses morando em Nova Iorque, e depois vim pra Genebra. Muitas transições. A vida aqui é bem diferente da vida lá. Outros projetos, outras coisas pra me manter ocupado. A ideia era mesmo nem ter muitas esperanças, e deixei isso bem claro para todos com quem falei sobre esse assunto. Claro que muitos amigos seguiram insistindo que tinham certeza de que eu tinha passado… o que, embora não seja mal-intencionado, não ajuda muito; só me coloca ainda mais na responsa, na necessidade (autoimposta) de sempre mostrar bons resultados e de corresponder às expectativas do mundo ao meu redor.

Como já expliquei no meu posicionamento oficial, fiz o meu melhor na prova. Passar seria ótimo, mas não passar não seria o fim do mundo – talvez apenas um sinal de que Papai do Céu não quisesse que eu fosse um big-shot New York lawyer (difícil traduzir isso!). Cheguei a dizer isso pra alguns amigos aqui e ali.

Aliás, saindo do escritório ao final do expediente na minha primeira sexta-feira de trabalho no IISD aqui em Genebra, a Jocelyn, uma colega de trabalho, perguntou sobre a prova da ordem (eu já tinha comentado que tinha feito a prova). Então eu expliquei essa minha postura – nas palavras que usei no parágrafo anterior, mesmo. Pra minha total surpresa, ela respondeu, “bom, se já colocaste essa questão diante do Senhor, talvez Ele possa mesmo responder dessa forma.” E foi assim que, na minha primeira interação com alguém do trabalho fora do ambiente de trabalho, ainda novo na cidade e sem igreja e sem amigos, descobri uma colega de trabalho cristã, e aparentemente a única do escritório. Coincidência?

Até que chegou novembro e comecei a pensar, “o resultado do exame de ordem deve sair em breve.” Semana passada comecei a olhar o site… todos os dias, na esperança de encontrar a lista de aprovados. Mas nada. Chegou um e-mail do barbri, dizendo que os resultados só sairiam a partir da semana que vem. E me determinei, “pronto, não adianta ficar olhando o site freneticamente; o negócio é ter paciência.”

É interessante como determinar-se não significa absolutamente nada. Semana passada, um dia sonhei que tinha olhado a lista e meu nome estava lá. Outro dia, também semana passada, sonhei que tinha olhado a lista e meu nome não estava lá. Sim: na semana passada, sonhei duas vezes com a lista dos aprovados. Por mais que não quisesse me importar com o resultado (“passar seria ótimo, mas não passar não seria o fim do mundo”), a simples determinação de não me importar com o resultado era um sinal de que já estava me importando.

Foi bem isso que me disse a Jocelyn no intervalo de almoço de sexta-feira. Eu tinha contado a ela que a história do bar exam vinha me atormentando… e que eu não queria mais me importar. Mais, ela enfatizou bastante o que eu já sabia: tinha apenas que deixar de lado essa preocupação e confiar em Deus. Pronto. Claro que eu já sabia disso. Mas é tão difícil pôr em prática… Os amigos cristãos  às vezes ajudam simplesmente nisso – lembrando o que já sabemos sobre Deus, mas que às vezes é difícil de aplicar no dia-a-dia. Ótimo. Mais uma vez, eu disse a Deus, “tá contigo… quero paz; não quero mais pensar nesse exame.”

Sábado acordei superdisposto e fui passear. Peguei um bonde até o Palais de Nations (sede das Nações Unidas aqui), de onde caminhei até o Jardim Botânico. De lá, caminhei na Pérola do Lago (um parque) e atravessei de barco até o outro lado do lago, em Genève Plage. Voltei pra casa, fiz um almocinho básico, e à tarde fui até a Piscine de Pervenches, em Carouge: fui nadar, o que não fazia desde abril, quando ainda tinha acesso ao centro esportivo da NYU. Comprei um passe para toda a temporada; pretendo ir regularmente! Cãimbras à parte (normal, depois de tanto tempo!), a primeira vez foi ótima. Eu amo natação. Ria sozinho no vestiário, me preparando pra entrar na piscina. “Não acredito – eu vou nadar!” Haha… Espero que ninguém tenha notado minha felicidade boba. Voltei pra casa a pé. O dia foi lindo – chegou a fazer 19 graus! E em nenhum momento do dia pensei no exame.


Jardim Botânico de Genebra


Jardim Botânico


Pérola do Lago, parque em Genebra.
Não parece a Pérola da Lagoa, São Lourenço do Sul? ;)


Ainda na Pérola do Lago


Cisne no Lago de Genebra


Mont Blanc


Jato d’Água


Jato d’Água e o Salève


Catedral e Jato d’Água


Jato d’Água e cisnes


Jato d’Água e arco-íris

Finalmente vim para o computador colocar os e-mails em dia. Também estava determinado a telefonar para alguns amigos de Nova Iorque (telefonemas pelo Google Voice para os EUA são de graça até o fim do ano – fica aqui a dica!). Então vi que tinha um e-mail do comitê de examinadores da ordem dos advogados de Nova Iorque na minha caixa de entrada. Não podia ser. Eu tinha olhado pela última vez o site da ordem na sexta-feira à noite e o resultado não tinha saído; no sábado é que não teria sido publicado! Mas tinha a diferença de horário… será? Não podia ser. Mas aí entrei no facebook e vi várias atualizações dos meus amigos, anunciando que tinham passado… Não podia ser. Mas era: tinha saído o resultado do exame de ordem.

Aí, o que se faz? Entra-se na caixa de entrada e abre-se o e-mail do comitê de examinadores, certo? Não. Surta-se primeiro. Catei minha prima Carol no Google Talk. “Carol, acontece o seguinte…”, e expliquei a história, acrescentando, “não quero abrir o e-mail. Tô com medo.” Acho que se não fosse a Carol me ordenar que abrisse o e-mail imediatamente (hahaha!), até agora estaria aqui, esperando… sei lá exatamente pelo quê. E então eu abri o e-mail. Diz assim:

The New York State Board of Law Examiners congratulates you on passing the New York State bar examination held on July 27-28, 2010.

Passei. No e-mail, o comitê me dá os parabéns. Só tenho a agradecer a Deus por tudo… pelo meu intelecto, sim, mas principalmente pela capacitação e pela paz de espírito que Ele me concedeu, desde o tempo de barbri, passando pelos os dias de prova, até a publicação do resultado (apesar do momento “low” da última semana). Também sou muito grato a minha família e aos meus amigos (no Brasil e em Nova Iorque), por torcer e orar por mim, e especialmente por me aturar (ou aturar minha ausência) durante os meses estressantes de estudos. O que essa aprovação significa em termos práticos eu ainda não sei; isso também está nas mãos de Deus. A única certeza, por enquanto, é que uma porta segue aberta. :)

Mais maio

Cá estou de novo, postando retroativamente. Não dá. Não consigo evitar. Essa história de “momentos inesquecíveis” infelizmente não funciona bem assim pra mim. Tenho memória fraca – e, como já disse em alguma outra oportunidade aí pelo blog, admitindo ser verdade o que minha irmã Lu disse uma vez –, o Blog do Guri meio que funciona como uma extensão da minha memória. É praticamente um diário online (ou, ultimamente, um quinzenário online!). Preciso escrever e fazer uma seleção adequada de fotos pra um dia voltar aqui e poder relembrar os eventos e as imagens que a minha mente conturbada (e prejudicada pelo bombardeio tecnológico da minha geração… haha) um dia vai acabar esquecendo.

Desta vez – talvez mais do que nunca! – as novidades são muitas. Portanto, advertência preliminar: o post vai ser longo. Muito. Mas, pra quem se importa com o que tem acontecido comigo nesta aventura nova-iorquina, eu garanto que vai valer a pena ler até o fim. Pra quem não se importa, melhor nem começar. (Bah, será que isso ficou grosseiro demais? Só quero poupar o tempo do leitor desinteressado.)

Nesses posts retroativos eu procuro evitar as listas cronológicas de eventos, mas, mais uma vez, aqui vai ser difícil evitar essa forma de organização. E não é por preguiça de fazer uma síntese decente, não: é que tanta coisa aconteceu! Cada dia destas últimas semanas foi cheio de atividades e coisas boas pra lembrar pro resto da vida. Paro pra pensar e não consigo listar um só momento que eu gostaria de esquecer, o que é bastante surpreendente – ainda mais pra alguém normalmente tão negativo como eu… Será que mudei um pouquinho? Pode ser, mas isso é discussão pra outro post (talvez ainda mais gigantesco que este – e eu nem comecei ainda e o negócio já tá tomando volume…). Vamos ao trabalho.

(Só pra manter meu estilo parentético e metadiscursivo, vejam só o que “9 anos compactos” de estudos jurídicos (especialmente o último aqui, no estilo norte-americano) fizeram comigo: preparei um esboço – tipo sumário – do post, dia por dia, com tudo o que aconteceu e sobre o que quero escrever aqui. Bah, acho que o estudo do Direito só agravou minhas neuroses.)

9 de maio

A última vez que escrevi foi na madrugada do dia 9 de maio, domingo, Dia das Mães! Assim que acordei, fui buscar um arranjo comestível que minha irmã encomendou para minha mãe (Dia das Mães, já disse) e me fui pro meu novo quarto em Roosevelt Island. Aluguei o quarto já a partir do início do mês de maio e, como fiquei até o dia 16 nos dormitórios da universidade, meus pais ficaram no meu novo apartamento durante os sete primeiros dias deles aqui em Nova Iorque (de 9 a 16). Uma boa economia de contas de hotel, podem acreditar!

Assim que pousaram no JFK, foram direto pra lá, onde eu os esperava com o arranjo comestível e uma ideia fixa: íamos ao culto. E pronto. Coitadinhos… preciso dizer que fiquei com um pouco de pena. Afinal, essa viagem do Brasil até aqui é cansativa. Com o trecho de avião e as esperas nos aeroportos e as 8 ou 9 horas de voo, a odisseia dura praticamente um dia inteiro. (Essa frase foi difícil de escrever, hein: o processador de texto insiste em pôr acento em “voo” e “odisseia”!) Acontece que eu vinha dizendo havia semanas para os meus amigos na igreja que meus pais chegariam no dia 9 e que eles iriam comigo ao culto. A pena pela viagem cansativa dos meus pais foi menor que a vontade de colocar em contato dois mundos até então completamente desconexos: meus pais, de um lado, e meus amigos da igreja, de outro!

Foi um contato explosivo. Pra começar, meus pais não falam inglês, e ninguém na minha igreja fala alemão ou português. Minha primeira tarefa, portanto, foi traduzir todo o culto – umas 10 ou 12 páginas de palavras-chave da mensagem principal do culto no caderninho de anotações da minha mãe. (O Pastor Steve, que deu a mensagem aquele diz, disse depois, “ah, então era isso que estavas fazendo… achei que estavas fazendo dever de casa durante o culto” – disse brincando, claro.) Depois, muitas apresentações e momentos ligeiramente incômodos, mas ainda assim divertidos – quando, por exemplo, eu tinha que traduzir alguns elogios que meus amigos queriam fazer a meu respeito para os meus pais. Fui um tradutor fiel, mesmo traduzindo em causa própria!

A diversão continuou quando saímos para almoçar no DoJo, um dos meus restaurantes preferidos de domingo – por causa da comida vegetariana e do preço razoável e principalmente das lembranças de almoços pós-culto. Meus pais, quatro amigos – Lydia, Kyle, Misako e Ryan – e eu. Fora a Misako, que se virou em espanhol com meus pais e em inglês com os demais, estava eu de tradutor simultâneo entre os anglófonos e os brazuca-lusófonos. O melhor, indubitavelmente melhor, foi quando o Kyle teve a brilhante ideia de sugerir um tópico para meus pais: histórias embaraçosas da minha infância. Todos acharam ótima a ideia, claro. E eu, “sim, né, e vocês querem que eu traduza isso?”

Mas não teve volta. A mãe e o pai contaram – e eu traduzi – de quando eu, ainda bebê, não parava de chorar e por isso ficava sem respirar (numa progressão de vermelho a roxo), até que o pai descobriu que me pôr no carro e dirigir pela cidade era o melhor remédio. Contaram de quando me perdi num evento da igreja, aos 4 ou 5 anos de idade, e por um tempo depois disso não queria mais ir ao culto infantil por causa do trauma. Contaram de quando, aos 7 ou 8 anos de idade, uma enfermeira de um consultório pediátrico não conseguia achar minha veia no braço para um exame de sangue e acabou tirando sangue de uma veia do meu pescoço (claro que ela teve que quase que me amarrar pra conseguir fazer isso!) – e um tempo depois, indo com o pai para uma agência bancária que ficava no mesmo prédio do consultório, eu estanquei o pé no meio do caminho e disse, “pensando bem, acho que não quero ir contigo ao banco, pai”. No fim das contas estava eu lá – “ah, lembram daquela vez…” –, lembrando meus pais de mais histórias bobas que eles podiam contar sobre mim.

Deu pra perceber que todos se comunicaram muito bem e se divertiram bastante juntos; um pouco às minhas custas, mas não me importei, mesmo! Quando saímos do restaurante e cada um foi para o seu lado, meus pais me diziam o quanto gostaram de conhecer meus amigos e de confirmar o meu bom gosto para amizades – e meus amigos me mandavam torpedos dizendo o quanto tinham gostado de conhecer meus pais e de indiretamente me conhecer ainda melhor através deles.

Almoçados e divertidos, meus pais e eu fomos do Village para Roosevelt Island, devorar – sobremesa! – o arranjo comestível (!) e instalar meus pais propriamente no quarto.

Mamis e papis na cozinha do apartamento em Roosevelt Island

Atacando o arranjo comestível

10 de maio

Na segunda-feira, mesmo com meus pais na City, tive que deixá-los um pouco de lado para trabalhar na minha última prova take-home Investment Disputes in International Law. Durante a manhã, procurei refúgio na biblioteca para preparar a prova; à tarde, um intervalinho de almoço de 3,5 horas (!) com meus pais e os amigos Danielle e Conrado no “Vegetariano” (Vegetarian’s Paradise). À tarde, fiz um plano de passeio para meus pais – uma caminhada pela Broadway sentido downtown – e segui trabalhando na prova o resto do dia…

11 de maio

… Até que, às 3h da madrugada, digitei as palavras mágicas “End of Exam” na minha prova de Investment Disputes e fui dormir. Acordei cedinho, porque pouco antes das 9h meus pais já estavam no D’Ag para irmos juntos a um café-da-manhã de formatura (Commencement Breakfast) oferecido pelo departamento de estudantes e pesquisadores estrangeiros da NYU, só para esses estudantes e seus convidados. Fomos uns dos primeiros a chegar lá, por volta das 9h. O dia estava maravilhoso e o evento foi no décimo andar do Kimmel Center (um centro de convivência e eventos da NYU), que tem uma vista particularmente especial do Washington Square Park e da cidade em geral. Foi uma das refeições mais decentes que a NYU já ofereceu (!): um café-da-manhã americano completinho, com frutas, ovos mexidos, cereais, café (óbvio), diversos tipos de sucos, pães, croissants e outros artigos de padaria… Além disso, claro, a vantagem de estarmos entre os primeiros: sentamos numa mesa com vista para o parque e pertinho do quarteto de jazz – ah, New York…

Washington Square Park + NYC skyline

À tarde, fiz o mesmo que na véspera: um plano de passeios para meus pais; desta vez, uma caminhada pelos parques próximos ao campus da NYU (Washington Square Park, Union Square, Gramercy Park, Madison Square Park) e terminando no Empire State Building. Enquanto isso, revisei e enviei definitiva e irreversivelmente (ótimo que seja irreversível, porque do contrário eu nunca terminaria de revisar e trevisar) minha prova de Investment Disputes. Pronto, menos um item na lista! Só ficou faltando, então, o meu “terço de paper” (trabalho em trio) para Climate Change Policy, que resolvi terminar na semana seguinte, depois das cerimônias de formatura. (Sim, porque aqui a gente se forma e depois ainda pode ter trabalhos, provas… vai entender.)

A estratégia funcionou perfeitamente, porque meus pais voltaram da caminhada às 16:30, quando eu já tinha conseguido terminar a prova, para podermos ir juntos ao Grad Alley da NYU. É uma espécie de carnaval ou festival de rua que a NYU oferece em homenagem aos formandos de toda a universidade, com músicas, jogos, malabaristas, além de banquinhas de lanches, sorvete, algodão doce, passeios de carruagem pelo Village – tudo com acesso liberado e gratuito para o formando e dois convidados.

Grad Alley

O dia foi longo e puxado. Meus pais, depois do Grad Alley, voltaram para Roosevelt Island. Eu voltei ao meu dormitório para, acreditem, passar (com steamer ou vaporizador) a toga de formatura para o dia seguinte. Palavra de honra: concluir o mestrado foi fichinha perto dessa tarefa.

12 de maio

Dia dos Commencement Exercises: a grandiosa cerimônia de formatura de toda a universidade no estádio dos Yankees, no Bronx. Fomos todos premiados pela meteorologia: uma chuva murrinha e temperatura em torno de 8 graus Celsius. Uma semana antes (5/5), estava comemorando meu aniversário com um piquenique primaveril no Central Park; de uma hora pra outra, parece que fomos transportados ao auge do outono pelotense! Azar do Valdemar: Commencement acontece faça chuva ou faça sol.

Acordei cedinho, vesti a toga e encontrei meus pais e a Misako na frente do prédio dos dormitórios. Fomos de metrô até o Bronx; mais ou menos meia hora no D. Lá, logo nos dividimos: meus pais e a Misako entraram por um portão e eu, por outro. Eles conseguiram entrar logo, mas eu tive que esperar, junto com vários outros formandos, numa fila bastante grande. Milhares de formandos. Só pra lembrar, a NYU é a maior universidade particular dos EUA, com 40.000 alunos. Formandos esperados na cerimônia: uns 5.000.

Agora, falando em acontecimentos aleatórios, o melhor do ano até agora – e posso dizer com segurança –, aconteceu na fila para entrar no Yankee Stadium. Estava ali, naquela murrinha frígida, de toga de doutor (os cursos jurídicos aqui se formam com a toga de doutorado) e guarda-chuva, sentindo as pontas dos pés gelarem dentro do sapato… e tão sozinho quanto é possível estar sozinho no meio de uma multidão. Como fui pra lá com meus pais e minha amiga, no fim das contas não fiquei na companhia de nenhum colega; acabaria encontrando-os só lá dentro, porque nossos lugares estavam, claro, reservados em uma mesma área do estádio.

Nisso se aproximou de mim alguém que eu não conhecia até então. Estava vestido também de toga de doutorado. E me disse (em inglês, claro), “vamos ver, chutando… és da Faculdade de Direito? Posso esperar na fila contigo?” E eu, “sou, sim; claro, entra aí!” (A fila, detalhe, não era do tipo que outras pessoas se importariam com “furos” – todos acabariam entrando, invariavelmente, assim que abrissem os portões. Então, sem problemas.)

Fomos conversando. Apresentou-se como Lev (um nome que não me era de todo estranho). Também da Faculdade de Direito. Também do mestrado. Também estudante estrangeiro. Também do programa de International Legal Studies… que não é tão grande assim; umas 100 pessoas, talvez. Peraí – como é que não nos conhecíamos? Descobrimos que fizemos umas três ou quatro disciplinas juntos (inclusive a de Investment Disputes, essa da prova que tinha terminado na véspera) – e nunca sequer nos vimos em aula ou nos corredores, nem trocamos uma palavra. Depois de nove meses de mestrado, fomos nos conhecer por pura coincidência no dia da formatura! Aproveitando a vantagem de estar (como narrador) umas semanas adiante, posso dizer: um dos meus melhores amigos aqui.

Vencida a fila, a cerimônia! Ficamos – o Lev e eu – na parte bem da frente da área reservada aos formandos da Faculdade de Direito, o que nos garantiu uma vista praticamente livre da cerimônia (não fosse pelo guarda que estava à minha esquerda… um pouco irritante, mas ok). Dali vimos “a banda passar” (com direito a tambores e gaitas de foles), mas também passaram professores das várias faculdades, estudantes carregando as insígnias das respectivas faculdades, convidados de honra (inclusive o nosso orador convidado, Alec Baldwin, ex-aluno de Teatro da NYU). A banda e o glee club da NYU interpretaram New York, New York (vídeo meu!) bem ali na frente… foi de arrepiar, no melhor sentido possível.

Yankee Stadium, NYU Commencement 2010

Lev e Guri

NYU Law!

Alec Baldwin

Terminada a cerimônia, metrô de volta para o Village. Recebi muitos cumprimentos andando pela rua – a sensação de andar pela cidade de toga tem o seu componente “mico”, mas também é uma experiência divertida e, por que não, de certo orgulho. Afinal, entrar na NYU não foi mole, sair dela também não: comemoração e “mico” conquistados e merecidos. Fomos almoçar na Otto Enoteca, um restaurante de que gosto muito (e que tem o endereço mais memorável da City, na minha opinião: 1 5th Ave – não tem como competir). Lá encontramos Sue e Tom, os pais do meu cunhado James, que vieram do norte do estado de Nova Iorque, se bem que não para a formatura em si, mas para comemorá-la comigo e com meus pais. Queríamos fazer passeios à tarde, mas o chuvisco e o tempo curto da Sue e do Tom na cidade acabaram forçando uma simplificação. Fomos à Biblioteca Pública e à Grand Central, de onde eles já pegaram o trem de volta pra casa.

Empire State visto da Biblioteca Pública

13 de maio

O dia intercerimônias (entre o Commencement de toda a NYU e a Convocation da Faculdade de Direito) foi o de maior rendimento, eu acho. Meus pais chegaram lá pelo meio da manhã ao meu prédio, de onde saímos e pegamos um metrô até City Hall. Dali, atravessamos a ponte do Brooklyn a pé e fomos até o passeio do rio (promenade) em Brooklyn Heights, de onde se tem uma vista muito bonita de Manhattan, especialmente do Distrito Financeiro.

Brooklyn Bridge

Brooklyn Heights Promenade

Enquanto caminhávamos no passeio do rio, o Ryan me mandou uma mensagem para combinar definitivamente o que já vínhamos alinhavando desde o domingo: uma visita “com desconto da casa” ao Radio City Music Hall, onde ele trabalha como guia turístico. Então meus pais e eu voltamos rápido ao Village para almoçar e, de lá, fomos ao Rockefeller Center, para fazer uma excelente visita guiada (não só porque o guia é um grande amigo… hehe).

Excelente e VIP. Seguindo a orientação do Ryan, cheguei lá e me identifiquei como amigo dele. A moça – colega de trabalho dele – nos chamou pra dentro, onde ele estava e começou a falar que a visita começaria em seguida – e eu, traduzindo sempre, claro. Então eu disse, “tá, mas peraí, onde compramos os ingressos?” E ele, “I think you’re good.” E eu, “Ryan, falando sério, onde compramos os ingressos?” E ele, rindo, de novo, “Uhm… I think you’re ok.” Ou seja: o “desconto da casa” era uma visita grátis, o que eu realmente nem suspeitava.

O Radio City é uma casa de espetáculos e, em si mesmo, um espetáculo. As fotos dão uma pista de quão majestoso é o teatro. Ver os bastidores, conhecer pessoalmente uma rockette, saber dos detalhes da história e da construção do teatro (e da alta tecnologia por trás do seu palco móvel) – tudo muito impressionante.

Radio City

Saindo dali e vendo aquele dia de céu azul espetacular (o extremo oposto do dia anterior), percebemos que era necessário aproveitar o tempo e a visibilidade para subir ao Top of the Rock, o observatório que fica no 70º andar do prédio mais alto do Rockefeller Center (que aparece na série 30 Rock, sabe?). Eu já tinha subido (em 2006) no Empire State. O Top of the Rock, porém, é uma experiência bem diferente e que vale a pena: de lá se veem o Empire State, o Chrysler, o Central Park… É “turístico”, sim, naquele sentido um pouco depreciativo. Mesmo assim, é de tirar o fôlego.

Visa norte (Central Park)

Vista nordeste: midtown, Upper East Side, Queens

Vista noroeste: midtown, Upper West Side

Vista sul

Vista sudeste

Eram 6h da tarde, mas o dia ainda estava longe de terminar! Depois do Top of the Rock, tomamos o Path até a Penn Station de Newark (New Jersey) para buscar a maninha Lu, recém chegada das longínquas terras texanas! Meia hora pra ir, meia hora pra voltar. Na volta, paramos no meio do trajeto do Path para tirar fotos noturnas de Manhattan desde Jersey… uma linda noite. Jantamos – sushi! – no Ritz Asia… e aí, sim, fechamos o dia. Desta vez, a Lu fez o trabalho de passar a toga… :P

Manhattan vista de New Jersey

World Financial Center

14 de maio

A cerimônia de Convocation da Faculdade de Direito foi no teatro do Madison Square Garden, em cima da Penn Station, bem mais perto de casa. Começou com a reunião de todos os formandos, muitas fotos, um lanche nos bastidores do teatro. A entrada foi segundo a ordem das especializações, não alfabética. Acho que a cerimônia em si foi ainda mais emocionante e significativa que a de Commencement: cada formando foi chamado ao palco (embora de forma muito rápida) para a formalidade do… bem… encapuzamento? Haha… Aqui o que se faz é colocar uma espécie de capuz ou capa sobre os ombros e ao redor do pescoço; o capelo (chapéu de formatura) se usa todo o tempo. E a oradora convidada foi Valerie Jarrett, uma conselheira do Presidente Obama.

Fotos de toga (mais “mico” e mais orgulho), recepção na Faculdade de Direito (um pouco frustrante… melhor nem comentar), almoço no Quantum Leap – e em seguida fomos a uma exposição de fotografia em que a minha amiga Misako expôs uma das suas. Por fim, a “janta oficial” de formatura foi no Gustorganics – um restaurante próximo de casa (6th Ave com 14th St, a dez quadras da NYU), argentino, de gerente brasileiro, com comida 100% orgânica, inclusive com certificação do “ministério da agricultura” dos EUA. A música de fundo foi electrotango quase toda a noite. Sobremesa: alfajores. No achado desse restaurante, falando sério, eu me superei.

Formando e familiares presentes ;)

No Washington Square Park

Janta de formatura

15 de maio

Dia de mudança! A Lu e eu acordamos cedinho, empacotamos duas malas com meus pertences e fomos da NYU até Roosevelt Island. Voltamos para a NYU, enchemos mais duas malas (e cacarecos acessórios), carregamos tudo num táxi e fomos até Roosevelt Island. Nossa praticidade e eficiência foram embasbacantes. À tarde já estávamos fazendo caminhadas turísticas no Distrito Financeiro.

Woolworth Building

Financial District

16 de maio

A Lu acordou cedão (tipo 6h da madrugada, quase um desaforo) pra ir ao aeroporto – e eu, claro, acordei pra tomar café da manhã com ela e me despedir dela. Fiz a última mala com os resquícios de coisas que tinham ficado no dormitório, fiz o check-out (¡hasta la vista, D’Ag!), fui a Roosevelt Island e voltei para o Village a tempo do culto. Minha mudança estava completa, só faltava… fazer a mudança dos meus pais para o hotel no Upper West Side. Enfim, um dia de muitas, muitas mudanças! Durante à noite, saí com meus pais para um passeio turístico imprescindível: Times Square.

Times Square

17 a 19 de maio (Roosevelt Islander)

Formado, casa nova, colchão novo… e o bendito paper por terminar, por isso fiquei mais isolado na segunda-feira e na terça-feira, enquanto meus pais passeavam no Upper West Side. Segunda-feira à noite, porém, fui com eles a um recital de jovens músicas na sala de recitais do Carnegie Hall. Terça-feira enfim terminei minha parte no artigo, ainda em tempo de ir ao hotel e me despedir dos meus pais… Eles passaram dez dias bastante intensivos aqui em Nova Iorque, é verdade, e curtiram muito. Fiquei satisfeito com a satisfação deles! :) Na quarta-feira 19 revisei e entreguei o paper. Pronto! Sem mais pendências com a NYU. (A partir de agora, posts com o marcador “NYU” não serão tão frequentes!)

Manhattan vista de Roosevelt Island

20 a 24 de maio (microférias)

Quinta-feira 20 oficialmente começaram minhas microférias. Na sexta 21 fiz a volta toda em Roosevelt Island, reconhecendo o meu novo território (fotos, muitas fotos). No sábado 22 fiz faxina (haha) e à noite saí para jantar com o novo amigo Lev: caminhamos desde o campus da NYU (W 4th), onde ele ainda mora, até Hell’s Kitchen (W 50th), passando pelo Highline, um espaço muito interessante que eu ainda não conhecia – uma linha ferroviária transformada em área de lazer. (Achei genial.) Infelizmente não tirei fotos, porque estávamos famintos e eu não queria interromper a caminhada… :P

Queensborough Bridge

Lighthouse (farol no norte de Roosevelt Island)

The Octagon: antes, o “asilo de lunáticos”

Queensborough Bridge, U.N. Headquarters

Queensborough Bridge, lado Queens

Ruínas do hospital de varíola (ponta sul da ilha)

Nações Unidas

Chrysler Building

No domingo 23 após o culto, estava mais disposto do que nunca a aproveitar as microférias. Fiquei um bom tempo com amigos da igreja no Washington Square Park – lagarteando, em bom gauchês –, bloguei no Starbucks da Astor Place (desde então estou escrevendo este post interminável) e concluí o domingo em uma pizzaria argentina buenísima no Upper East Side. Segunda 24 segui blogando (estabeleci uma parceria de blogagem com meu amigo Kyle, haha) noutro ambiente até então desconhecido – East Harlem Café, no bairro de mesmo nome.

25 a 27 de maio (barbri)

E acabaram-se as microférias. Terça-feira dia 25, às 14h, estava eu em plena Times Square para minha primeira teleaula (4h, com dois intervalos de 10 minutos) de barbri, o curso preparatório para o “exame de ordem” do estado de Nova Iorque. No segundo dia de aulas (26) já transgredi: não fui pra Times Square (onde estou matriculado). Em vez disso, fui pra biblioteca da NYU e fiz a teleaula de lá, à tarde. Terceiro dia (27) transgredi mais ainda: descobri que eles colocam as aulas no ar de véspera, o que me permite fazê-las já no turno da manhã, o que é infinitamente melhor. Portanto, fiz a aula de manhã. Observação: transgrido, mas faço as aulas. Três dias de aula, trinta páginas de anotações para revisar no findi-feriadão (por causa do Memorial Day – sexta a segunda).

Pra quem deveria estar estudando loucamente sem parar, sem querer tenho uma intensa vida social (o que não é, digamos, necessariamente ruim). Uma loucura isso, mas cada dia desta semana alguém me convidou pra jantar, e foram sempre convites irrecusáveis: segunda, aniversário; terça, sushi bom e barato (haha); quarta, encontro da igreja marcado há semanas num restaurante coreano… Até parece que sou popular.

Quinta (27, hoje – ou seja, o post está terminando!) foi a superação: tendo mui disciplinadamente assistido à teleaula de manhã, à tarde eu… fui à praia! Primeira vez que vou à praia desde que cheguei a Nova Iorque em agosto (portanto, verão) do ano passado. Fomos (Kyle, Ryan e eu) até Coney Island, uma região que ficou famosa no século XX por seus resorts e parques de diversões (hoje, um pouco decadentes, digamos). O passeio foi parte da “semana de despedida” do Ryan, que vai embora de Nova Iorque segunda-feira que vem.

Coney Island

Ryan congelando

Ryan e Kyle

O Atlântico…

Coney Island Boardwalk

Kyle, Ryan, Guri

Posfácio

Quatro mil palavras – o post acabou com o mesmo tamanho que a última prova que escrevi no mestrado (embora as provas do mestrado eu não ilustrasse com fotografias). Será que consegui escrever o post mais longo da história da humanidade, ou ainda não? Todos os que chegarem até aqui, por favor, deixem um comentário. No mínimo responderei pessoalmente para agradecer pela fidelidade, paciência, tolerância…

Enfim, eu precisava atualizar o blog com os acontecimentos das últimas semanas. A partir de agora, com a intensificação dos estudos (sim, eu já estudei bastante na vida, mas aparentemente o que é bastante nem sempre basta) e a desintensificação das atividades dignas de postagem, a tendência é que as postagens vão acabar sendo mais esparsas (mais ainda!), porque a minha vida vai se tornar menos interessante (menos ainda!). Mesmo assim, acho que ainda não é o momento de sepultar o blog do Guri. Vou segurar firme por enquanto – e quem sabe até aprender a postar com regularidade, para no futuro conseguir evitar o absurdo de publicar posts de 4.000 palavras…

A melhor

Adivinhem qual é a melhor Faculdade de Direito dos EUA na especialidade Direito Internacional, no ranking de 2010 da U.S. News? :)

Are human or are we blogger?

Que saudade do blog! Sim, eu gosto de postar, e até sinto saudade dessa atividade (embora às vezes isso não fique muito evidente ao leitor fiel).

Lá vou eu para meu clássico parágrafo de justificativa: bah, simplesmente não deu pra postar. Um turbilhão. Com meus pais em viagem, fiquei de caseiro ou dono-de-casa por umas semanas. E ainda viagens a Pelotas para as aulas finais na Especialização em Direito Ambiental (sim, acabou!). E preparativos para a viagem a New York. E mais muitas despedidas: tive pelo menos um bota-fora por grupo de convivência – amigos da igreja, colegas de uma e outra faculdade, famílias de tios e primos, dindos… Cheguei a ficar doente de despedidas por um tempo; agora estou melhor…zinho.

Resumindo uma história longa, sou ainda domiciliado, mas não mais residente em São Lourenço do Sul. (Era mesmo provisório!) Meu endereço oficial agora é em New York, NY.

Mas ainda não cheguei lá. Estou na Alemanha desde sábado, visitando minha irmã Carina e meu cunhado Volker. Como o tempo aqui é curto (seis dias) e a conversa é muita, este provavelmente será meu único post neste período. Talvez mais tarde venha algum post(álbum) retroativo, mas não posso garantir.

As duas primeiras semanas em NY também serão puxadas, por causa de uma disciplina intensiva (Intodução ao Direito dos EUA – especial para estudantes de formação estrangeira, como é o meu caso), vários encontros de orientação, além da própria adaptação e ambientação… “reconhecimento de território”. Prometo me esforçar para postar regularmente. Só não sei qual vai ser a periodicidade – isso, só depois de estabelecer minha rotina nova-iorquina.

Sei que estou devendo fotos e e-mails para várias pessoas… aos poucos eu me atualizo. Por favor, tenham paciência e compreensão com este pobre mestrando.

Mestrando! Agora já dá pra sentir o friozinho na barriga da proximidade do início das aulas. Começam dia 10 de agosto. Chego lá dia 7 à noite. Dia 8 já vou wake up in a city that doesn’t sleep… :)

* * * * *

Quanto à célebre pergunta deste post aqui, Are we human or are we lawyer?, posso dizer, não sem um pouquinho (saudável) de orgulho, que agora sou lawyer. Ou pelo menos posso ser, se quiser. E por ora não quero. Trocando em miúdos: fui aprovado na segunda fase do Exame de Ordem 2009.1, do que já sei desde 21 de julho, mas, como vou fazer mestrado na NYU, não vou fazer minha inscrição na OAB por enquanto.