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Banhos termais de Budapeste, a Cidade dos Spas

É histórica a fama de Budapeste por seus banhos termais. Há mais de 2000 anos, os romanos já haviam construído vários; vestígios de 14 foram encontrados até hoje. Durante a ocupação otomana da Hungria (1541–1699), a tradição foi reforçada com a abertura de dezenas de banhos turcos (hamam), alguns em funcionamento até hoje, quase 500 anos depois.

Hoje há em Budapeste 123 fontes e poços de águas termais, com temperaturas que variam entre 21 e 78 graus Celsius. E também há infraestrutura para quem quiser aproveitar essas águas, seja diversão, seja pelas propriedades medicinais. A empresa de spas de Budapeste (excelente site oficial) administra sete banhos termais e cinco praias.

Durante a Expedição 2015, visitamos três dos banhos termais (Széchenyi, Gellért e Rudas), que são o assunto deste post. Também visitamos uma das praias (Palatinus), que ficará para mais adiante, quando contar do passa-dia na Ilha Margaret (Margit-sziget).

Széchenyi

Um dos favoritos é o imperdível Széchenyi (site e mapa), um dos maiores spas termais da Europa. Situado no Parque da Cidade, é um dos banhos termais históricos de Budapeste: foi construído em 1913 e é o mais antigo de Peste. Há 3 grandes piscinas externas: uma de 50 metros para natação (26 a 28 graus), outra com correnteza (30 a 34 graus) e ainda outra piscina termal (38 graus). Na parte interna há 15 piscinas menores, com diferentes temperaturas, e mais 3 na parte interna reservada para fisioterapia. Também há saunas e câmaras de vapor. O site oficial descreve todas as piscinas e apresenta a planta-baixa. Vale conferir também as fotos.

Uma das portas laterais de Széchenyi, evidenciando o estilo Neo-Barroco

A piscina com correnteza, parte da piscina para natação e vista geral do edifício onde ficam as piscinas internas

Gellért

O Gellért fica em Buda, às margens do Danúbio e aos pés do morro Gellért; pra quem chega de Peste, fica ao lado esquerdo da Ponte de Liberdade (Szabadság híd). Bem em frente ao Gellért fica a Igreja na Rocha (Sziklatemplom), que é muito interessante – vale combinar as visitas! Começo por algumas fotos e relatos do Sziklatemplom.

De Buda: estátua do Rei Santo Estêvão; em segundo plano, a Ponte da Liberdade e o Danúbio; ao fundo, Peste

O Szikatemplum fica literalmente dentro do morro Gellért, em um sistema de cavernas formado por fontes termais (as mesmas que abastecem as termas de Gellért). A caverna pertence à Ordem Paulina da Hungria, que construiu a igreja em 1926 e continuou a expansão dentro da caverna ao longo dos anos 1930. Nesse período também construiu um monastério adjacente.

Depois de ter servido como hospital militar para os nazistas durante a Segunda Guerra, a igreja voltou a funcionar por seis anos, até ser tomada e destruída pela polícia secreta comunista em 1951, com o objetivo de enfraquecer a Igreja Católica. Em 1960, o Estado Húngaro lacrou a caverna com um impressionante muro de concreto de dois metros de largura. Somente em 1989, após a queda do regime comunista, o templo voltou aos monges e reabriu em 1991.

Entrada do Sziklatemplom

Resquício do muro de concreto que lacrava o templo

Interior da “nave principal” do Sziklatemplom

Vitral de Maria, Patrona da Hungria

Painéis de madeira talhada no monasterio adjacente à igreja

Painéis de madeira talhada no monasterio adjacente à igreja

Agora, sim, ao Gellért (site e mapa), outro dos banhos termais históricos de Budapeste. Foi inaugurado em 1918, em estilo Secessão – Art Nouveau. A parte interna tem 8 piscinas: 5 térmicas (entre 35 e 40 graus), 2 de imersão (19 graus) e uma de natação (26 graus). A parte externa tem mais 2: uma térmica (36 graus) e uma de ondas (26 graus). Também há saunas e câmaras de vapor de diferentes temperaturas. Mais detalhes e planta-baixa no site oficial, onde também vale conferir a galeria de fotos.

Piscina interna para natação

Vista geral da parte externa; piscina de ondas em primeiro plano

Piscina de ondas em funcionamento

Direto do túnel do tempo: como tomar banho sem estragar o penteado?

Um dos belos espaços internos do Gellért

Rudas

Rudas (site e mapa) é um dos banhos turcos de Budapeste. Também fica em Buda, às margens do Danúbio e aos pés do morro Gellért. A parte mais antiga foi construída no século XVI, durante a ocupação otomana: uma piscina octogonal sob uma cúpula de 10 metros de diâmetro, sustentada por oito pilares. Originalmente, somente homens podiam entrar nessa área. É um ambiente escuro, mas a cúpula tem furos com vitrais coloridos que permitem a passagem de um pouco de luz solar. O site oficial tem belas fotos.

No total, há seis piscinas termais (com temperaturas de 16, 28, 30, 33, 36 e 42 graus), uma piscina de natação (29 graus) e cinco piscinas na parte mais moderna do complexo.

Vista do restaurante do Rudas

Todos os prédios da foto pertencem ao complexo das termas de Rudas: bem à esquerda (onde se vê uma cúpula aramada), fica a parte nova do complexo, com a piscina ao ar livre; nos prédios do meio, o restaurante, o spa e as piscinas internas; bem à direita, a parte mais antiga, com a cúpula do banho turco do século XVI.

Complexo Rudas, às margens do Danúbio e aos pés do morro Gellért

Concertos e múmias na Basílica de Santo Estêvão

Um dos objetivos da Expedição 2015 a Budapeste foi aproveitar ao máximo a cena musical da cidade. Por exemplo, num dos últimos posts, já contei sobre Fausto e a visita guiada à Ópera do Estado Húngaro. Mas os primeiros ingressos comprados foram para o Concerto de Gala – com direito a órgão de tubos, orquestra sinfônica e coro – na Basílica de Santo Estêvão (Szent István Bazilika), já nos primeiros dias em Budapeste.

A Basílica (site em inglês) foi construída de 1851 a 1905 e dedicada ao Rei Estêvão (canonizado pela Igreja Católica como Santo Estêvão), fundador do Estado Húngaro. O primeiro arquiteto da Basílica, József Hild, faleceu durante a construção, que foi continuada por Miklós Ybl (o arquiteto da Ópera de Budapeste) e József Kauser. A cúpula original, do projeto de Hild, colapsou em 1868 devido a problemas de construção. Ybl teve de alterar o projeto original, Clássico, para o atual, Neo-Renascentista. Durante a Segunda Guerra, as torres e as paredes externas foram danificadas; toda a estrutura do telhado teve de ser substituída. Somente em 2003 a restauração foi concluída.

A praça em frente à Basílica é um agradável espaço de convivência, com diversos restaurantes e cafés (e turistas sempre circulando). O espaço aberto ressalta o caráter imponente do edifício. Segue um trio de vistas da Basílica – em dia nublado, à noite e em dia ensolarado.

Esperando para entrar pela primeira vez na Basílica, para assistir ao Concerto de Gala (8 de maio, às 20h), minha irmã Lucila e eu ficamos observando os detalhes externos.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” João 14:6

Quase entrando

O programa do Concerto de Gala, regido por András Virágh, consistiu em obras conhecidas:

  1. Tocata e Fuga em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach (BWV 565), com o organista András Gábor Virágh; e
  2. Requiem em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart (K 626), com o Coro Jovem de Budapeste, o Coro Paroquial, a Orquestra Sinfônica Monarchia e solistas da Ópera do Estado Húngaro (soprano Ildikó Szakács, contralto Kornélia Bakos, tenor László Kálmán e baixo Lóránt Najbauer)

Assistimos à primeira récita, em 8 de maio – e ainda haverá mais duas, em 28 de agosto e 25 de setembro. A divulgação está no site www.organconcert.hu, onde é possível adquirir ingressos; os preços variam de 16 a 28 Euros.

Como o programa incluía parte com orquestra, coro e solistas (no altar) e parte com órgão de tubos (no coro, atrás), a Basílica virou uma grande sala de espetáculos com dois palcos.

Músicos no altar, durante a execução do Requiem

O grandioso órgão de tubos

Não só por causa dos dois palcos, mas fica difícil olhar para um lugar só, considerando a riqueza de detalhes da decoração interna da igreja, com muitas pinturas e esculturas.

Nas colunas centrais da Basílica, imagens de Math, Marc, Lvc e Joan, os escritores dos quatro Evangelhos

Também chama atenção a grandiosa cúpula no centro da Basílica, que atinge a altura de 96 metros. É uma referência a 896, o ano em que as tribos magiares (ou húngaras) vieram da região dos Montes Urais e assentaram-se na Bacia dos Cárpatos, para posteriormente dar origem ao Estado Húngaro. O Parlamento Húngaro (que será assunto de outro post!) tem uma cúpula de mesma altura, dando a ideia de que Igreja e Estado não se devem sobrepor um ao outro. Hoje, o plano diretor de Budapeste não permite a construção de edifícios mais altos que 96 metros, garantindo que a Basílica e o Parlamento continuem sendo os mais altos.

Por um valor acessível, é possível subir ao observatório da cúpula, de onde se têm vistas panorâmicas de Budapeste. Não chegamos a subir… mas deve valer a pena!

A cúpula da Basílica

Dias depois, arrastei comigo meu cunhado James para o concerto de órgão na Basílica, que acontece regularmente às segundas-feiras; o site www.organconcert.hu traz os horários e programas. No concerto a que fomos, dia 11 de maio, o organista András Gábor Virágh e a soprano ldikó Szakács apresentaram Albinoni (Adagio), Mozart (Aleluia), Bach (Prelúdio e Fuga, Ária, Tocata e Fuga – algumas delas, repetição do Concerto de Gala), Bizet (Agnus Dei), Liszt (Coral) e Gounod (Ave Maria).

 

Por fim, desde 1931, a Basílica guarda uma relíquia especialmente importante para os católicos húngaros: a Santa Destra – uma mão direita mumificada, que seria a do Rei Santo Estêvão e que teria poderes milagrosos (aqui, mais sobre a história da relíquia). Milhares de fiéis na Hungria fazem procissões no Dia de Santo Estêvão, anualmente em 20 de agosto, dia da morte do rei.

A urna onde é mantida, preservada, a Santa Destra

O café mais lindo do mundo

Um dos muitos encantos da localização de nossa morada em Budapeste era que bastava dobrar uma esquina para chegar ao New York Palota, ou Palácio Nova York. Foi construído entre 1890 e 1894 pelo arquiteto húngaro Alajos Hauszmann para sediar a New York Insurance Company. O estilo é eclético, mas inspirado principalmente pelo Barroco italiano.

Vista da fachada principal do New York Palota

A fachada é decorada por diversos sátiros (mitologia grega) ou faunos (mitologia romana) – divindades de corpo parte humano, parte equino – que seguram luminárias.

Reflexos e um sátiro em uma das laterais do edifício

O New York Palota hoje abriga o elegante hotel 5 estrelas Boscolo Budapest. Mas a grande preciosidade do edifício é o New York Kávéház, ou New York Café, situado no térreo, com entrada pela esquina. Foi aberto no final do século XIX, auge da popularidade dos cafés de Budapeste para a cena intelectual da cidade. Diz a lenda que o escritor húngaro Ferenc Molnár, no dia da inauguração, jogou no Danúbio as chaves do café, para que nunca mais fechasse.

Não era apenas “mais um café”: era o café mais lindo do mundo.

New York Café: The most beautiful café in the world

Anno 1894, ano da conclusão da construção do edifício

Simplesmente passar pela soleira da porta do New York Café provoca um poderoso efeito uau. Basta entrar para sentir uma rajada de esplendor e o luxo da Belle Époque, por todos os lados. Tudo ao redor – candelabros, colunas de mármore, ornamentos dourados pelas paredes – é precioso. No teto há afrescos de Gusztav Mannheimer e Ferenc Eisenhut. Os lustres venezianos são espetaculares.

Interior do café a partir da nossa mesa

Um dos diversos afrescos do teto

A riqueza de detalhes parece interminável

A maioria dos turistas vai ao New York Café pela atmosfera deslumbrante, claro. Mesmo assim, a comida e os cafés também são excelentes (embora, como se poderia esperar, mais caros que a média de Budapeste). Minha forte recomendação vai para os omeletes – com queijos, pimentões (típicos na Hungria) e mais.

Um arco de madeira sobre colunas de mármore em espiral dá acesso ao nível inferior do restaurante, onde estava montado o bufê para os hóspedes do hotel.

O arco e a área do bufê

Visão geral da área do bufê

Visão geral da área do bufê

A área do bufê, vista do outro extremo

O arco, visto de outro ângulo

Nas galerias ao lado da área do bufê, há um espaço para música ao vivo. Numa das visitas ao New York Café, havia um pianista, e em outra, uma harpista.

A área dos músicos

Durante a Segunda Guerra Mundial, o prédio foi danificado. Chegou a servir de loja e até de depósito – era o depósito mais lindo do mundo. Apesar de restaurado em 1954, durante a era comunista o prédio nunca retomou seu esplendor. Depois da redemocratização, ficou vazio por uma década, até ser restaurado pelo grupo Boscolo. Foi reinaugurado em 2006.

Ao lado do café, o jardim interno do Boscolo

Vista noturna do New York Palota, com destaque à esquina da entrada do New York Café

Sinagoga Ortodoxa de Budapeste

Morando no Erzsébetváros, tradicionalmente o distrito judeu de Budapeste, não poderíamos deixar de visitar as sinagogas. Já na primeira caminhada pela vizinhança, a primeira que vimos — com sua bela e imponente fachada Art Nouveau, espremida na estreita Kazinczy utca — foi a Sinagoga Ortodoxa, cuja construção foi finalizada em 1913.

Fachada principal da Sinagoga Ortodoxa da rua Kazinczy

Detalhes da fachada da sinagoga

Tábuas da Lei na fachada da sinagoga

Foi minha primeira visita a uma sinagoga. Achei a decoração do interior deslumbrante e rica em detalhes, dos candelabros até os vitrais do teto e os símbolos judaicos pintados nas paredes. A sinagoga da rua Kazinczy é chamada de Ortodoxa porque foi construída por uma comunidade judaica dessa vertente do Judaísmo, mais voltada a interpretações tradicionais.

Teto, luminárias, galerias

Relógio em hebraico e símbolos judaicos nas paredes

Já que minha amiga Silvia pediu que eu postasse “figurinhas” em que eu aparecesse também (o que eu em geral evito fazer!), aí vai uma — de costas! — pra mostrar que eu estava apropriadamente usando o quipá, o chapéu utilizado pelos judeus como sinal de temor a Deus. Nesta foto, à direta, também se vê um pouco da bimá, o pódio usado para a leitura da Torá.

Contemplando…

O véu vermelho, com bordados de escritos em hebraico e das Tábuas da Lei, é o Parokhet, que cobre a porta que separa o templo da arca onde ficam guardados os rolos da Torá. Ele simboliza a cortina que, no Tabernáculo, cobria a Arca da Aliança, conforme descrito no Êxodo.

Detalhe do Parokhet

Rumo à saída da sinagoga, chama a atenção o vitral colorido sobre a porta principal. Por fim, nosso guia ainda nos mostrou uma página de jornal de 1944, mostrando o interior da sinagoga em ruínas, destruída pela ocupação nazista.

Vitral colorido que fica sobre a porta principal do templo

“A Sinagoga da Rua Kazinczy está em ruínas… Vamos reconstruí-la!”

Magyar Állami Operaház: a Ópera do Estado Húngaro

proximidade da ópera foi um dos critérios para a escolha da nossa morada temporária durante a Expedição 2015. Mas a ideia era não só morar perto: também queríamos assistir a uma ópera em Budapeste! Conseguimos bons ingressos para assistir de camarote a Faust, ópera de Charles Gounod baseada na obra de Goethe.

Magyar Állami Operaház, a Ópera do Estado Húngaro. Foto tirada no lindo último dia da Expedição 2015.

A produção fez parte do Festival Faust225, organizado para comemorar os 225 anos da primeira publicação de “Fausto, um Fragmento” de Goethe, em 1790. O festival durou duas semanas durante o mês de maio — felizmente, bem no mês da nossa expedição! Fomos à récita de 19 de maio. Além da ópera de Gounod, quatro outras peças relacionadas à obra de Goethe foram apresentadas como parte do festival.

O poster do festival, visto do terraço do foyer, na noite do espetáculo

A produção da ópera era moderna, o que não esperávamos e que corresponde naturalmente a um maior risco de controvérsia. A Lu não gostou muito desse aspecto, mas acho que houve quem tenha gostado menos ainda, porque ouvimos até uma vaia rápida (mas forte!) logo que as cortinas baixaram após o último ato. Eu acho que teria gostado mais de uma produção clássica, mas a releitura e os aspectos cênicos moderninhos não me incomodaram tanto.

A visibilidade do nosso camarote era perfeita. A acústica também. E o teatro é só elegância.

Vista do nosso camarote

Hoje a maior ópera da Hungria, foi construída a partir de 1875 em estilo Neo-Renascentista, com elementos barrocos, na elegante avenida Andrássy út. Sua inauguração aconteceu em 1884, com a presença do Imperador Austro-Húngaro Franz Josef — que, juntamente com a cidade de Budapeste, financiou a construção — e sua esposa queridinha dos húngaros, a Imperatriz Sissi. Nos anos 1980, a ópera foi restaurada e reaberta no seu centenário, em 1984. Abriga 1261 pessoas e, segundo especialistas, tem uma das melhores acústicas entre os teatros de ópera da Europa, depois do Scala de Milão e do Palais Garnier de Paris.

Visão geral da parte posterior do auditório

Destaque para as estátuas que ficam sobre o camarote real (hoje presidencial), que representam os quatro naipes: soprano, contralto, tenor e baixo

São muitos os detalhes deslumbrantes, mas se destaca no teto o afresco de Károly Lotz que retrata deuses gregos no monte Olimpo. O fabuloso lustre pesa mais de 2 toneladas.

O afresco e o lustre

Detalhes da luxuosa decoração dos camarotes

Num dos intervalos entre os atos, passamos pela grande escadaria até o foyer.

Detalhe lateral da grande escadaria

O foyer

Na frente do teatro há estátuas de Erkel Ferenc, compositor do hino nacional húngaro, diretor da Ópera e fundador da Orquestra Filarmônica de Budapeste. Há também uma estátua de outro Ferenc (ou Franz): Liszt, o mais famoso compositor húngaro.

Estátua de Franz Liszt (Liszt Ferenc) em frente à Ópera

Outro dia voltamos à ópera para uma visita guiada, que também vale muito a pena para conhecer outras partes do teatro que não se podem visitar durante os espetáculos — por exemplo, o salão da entrada lateral construída para a corte e a nobreza. Por um pequeno adicional ao preço da visita guiada, a casa oferece um miniconcerto no foyer.

Caminhadas pelo Distrito VII de Budapeste

No Erzsébetváros, nosso lar temporário durante a Expedição 2015 a Budapeste, há elegantes prédios antigos, construídos antes da Segunda Guerra. Muitos foram restaurados, mas há outros bem decadentes, com fachadas marcadas por poluição e abandono. Em muitos prédios de uso comercial é curioso ver que a restauração chegou só à fachada do andar térreo, onde ficam as vitrines; os demais andares continuam deteriorados. Há prédios que estão quase em ruínas — e muitos desses mesmo assim estão habitados ou ocupados pelos ruinpubs, famosas atrações da vida noturna de Budapeste.

Não restaurado, mas nem por isso menos elegante

Restaurado — e já precisando de retoques

Bela fachada de edifício na Klauzál tér, 2, pela Nagy Diófa utca (a Grande Rua das Nozes)

Pertinho do final da Akácfa utca, fica a Avilai Nagy Szent Teréz Plébánia, a Igreja de Santa Teresa de Ávila. Também ficou conhecida como “nossa igreja amarela”, porque ficava perto do apartamento, caminhávamos bastante por ali e servia de ponto de referência. E porque notamos que por alguma razão há várias igrejas amarelas em Budapeste — mas aquela era a “nossa”. O edifício foi construído no início do século XIX (1801–1809). O interior foi restaurado no século XX e está muito bem preservado.

Nossa Igreja Amarela de Santa Teresa de Ávila

Interior neoclássico da Igreja de Santa Teresa de Ávila

Na diagonal da igreja chama a atenção um prédio neogótico, construído em 1847.

Ainda no Erzsébetváros — a caminho do Parque da Cidade — visitamos Árpádházi Szent Erzsébet templom, a Igreja de Santa Isabel, construída na virada do século XIX para o XX, também em estilo neogótico. O templo sofreu com um bombardeio durante a Segunda Guerra. A partir de 1993, ocorreu a renovação do teto e de uma das torres, mas na parte interna se vê que reparos adicionais são necessários.

A fachada principal da Igreja de Santa Isabel, com a rosácea e as torres de 76 metros de altura

Interior da Igreja de Santa Isabel

Voltando para pertíssimo do apartamento, na própria Akácfa utca, um prédio muito importante no nosso quotidiano: a sede da

Budapesti Közlekedési
Zártkörűen Működő
Részvénytársaság

“Budapesti” é tranquilo entender… e o resto?

Nossa plena fluência em húngaro (mas principalmente o logo sugestivo) nos permitiu concluir que se tratava de “alguma coisa municipal referente a transportes”. Mais precisamente, é a sede da Budapest Transport Privately Held Corporation (BKV Zrt.), que opera metrôs, trens suburbanos (HÉV), bondes e ônibus.

Para encerrar o post, outro destaque do Distrito VII: os belos murais pintados nos paredões de alguns prédios. Na montagem a seguir vemos dois. No da direita, uma homenagem aos costureiros de Budapeste; no da esquerda, a imitação da fachada do mesmo prédio. Há muitos outros desses murais — como retrata este post do site BeBudapest.hu.

Erzsébetváros e o Gueto de Budapeste

No airbnb encontramos diversas opções legais de apartamentos em Budapeste. Avaliamos apartamentos localizados entre o Parque da Cidade e o Danúbio. Nosso critério mais específico de boa localização era a proximidade da Ópera do Estado Húngaro (de onde poderíamos caminhar para muitos pontos de interesse) e, ao mesmo tempo, de alguma estação de metrô ou bonde (para conveniência e distâncias maiores). Internet, máquina de lavar roupa, mesa para trabalhar e cama extra para receber hóspedes também eram critérios importantes.

Decidimos pelo Apartamento Axanda, na Akácfa utca (lê-se “Ó-cats-fa útsa”; utca significa “rua”), a 1 Km da Ópera e a duas quadra da estação de metrô Blaha Lujza — e cumprindo todos os  requisitos essenciais. A fachada do prédio de mais de 100 anos esconde um simpático pátio interno. O apartamento que alugamos tinha sol todas as manhãs.

Lu e James no corredor-sacada do nosso prédio

A Akácfa utca fica no Erzsébetváros — ou “cidade de Isabel” (Erzébet = Elizabeth = Isabel) —, o VII Distrito de Budapeste. O bairro recebeu seu nome em homenagem à Sissi, Rainha consorte da Hungria no final do século XIX. Historicamente foi o bairro judeu de Budapeste.

Nosso prédio e muitos outros vizinhos testemunharam uma parte triste da história. Em março de 1944, Budapeste foi ocupada pelos nazistas. Em novembro do mesmo ano, o Governo Húngaro — aliado à Alemanha nazista durante a Segunda Guerra, vale lembrar — determinou que vários quarteirões do Erzsébetváros (incluindo duas sinagogas) fossem isolados com muros de pedras e cercas. Assim se formou ali o Gueto de Budapeste, onde os judeus foram aprisionados em condições desumanas, sem comida, sem recolhimento de lixo.

Ainda que o gueto tenha existido ali por apenas três meses — até a liberação de Budapeste pelo Exército Vermelho Soviético em janeiro de 1945 —, milhares de pessoas morreram ali, de fome ou por diversas doenças. (Sem contar outros milhares que foram deportados a campos de concentração.) Apartamentos como o que alugamos, em que umas 6 pessoas podem viver com conforto, foram superlotados com 20 ou 30. O gueto chegou a ter 200.000 habitantes.

Mapa do Gueto de Budapeste. A Akácfa utca é a rua bem da direta.

Triste, mas não podia deixar de contar essa parte importante da história do Erzsébetváros. Prometo compensar nos próximos posts contando histórias mais leves e mostrando fotos de lugares lindos próximos ao nosso apartamento na Akácfa ucta.

Em Buenos Aires, com visita guiada ao Céu

Com este post eu finalmente concluo a temporada de viagens de março! Depois de GenebraBernaArushaAmsterdã e Paris du Nord, a última escala foi na París del Sur: ¡Buenos Aires!

Gosto muito de Buenos Aires e sempre me alegro em voltar. Minha última viagem pra lá tinha sido a trabalho, em agosto de 2014, quando também revi alguns pontos turísticos, vivenciei uma autêntica milonga e fiz uma visita guiada ao Teatro Colón. Em março deste ano, fui de novo por conta do imperdível casamento de Enrique e Lucrecia (aqui citados).

Cheguei num domingo pela manhã, com mau tempo.

Torre de los Ingleses, Retiro, Buenos Aires. A foto “fotobombada” pela pomba em pleno voo me fez pensar na minha amiga Lígia Kuhn, que tem uma habilidade inexplicável de tirar fotos dessas. No segundo plano, à esquerda da Torre de los Ingleses, também se pode ver a torre do Edificio Kavanagh, arranha-céu Art Déco de 1935.

A Sabrina, minha colega de trabalho que mora em Buenos Aires com sua família, gentilmente me acolheu em sua casa nos primeiros dias — enquanto eu, hóspede horrível, trabalhei 8h por dia. Mesmo assim, graças ao meu horário maleável e à hospitalidade criativa da Sabrina e sua família, consegui curtir um pouco de Buenos Aires.

Numa volta de bicicleta, passamos pelo Palacio Pereda, construído na década de 1920, que desde 1945 é residência oficial do Embaixador da República Federativa do Brasil à República Argentina. Ali perto também fica Palacio Ortiz Basualdo, de 1912, que em 1925 foi residência de Eduardo VIII, Príncipe de Gales, e desde 1939 é sede da Embaixada Francesa.

Palacio Pereda

Palacio Ortiz Basualdo, lindo até se visto da parte dos fundos

Outro dia voltei ao Teatro Colón, não para uma visita guiada, mas para um espetáculo de ballet! Uma amiga da Sabrina que tinha ingressos de temporada não pôde ir ao espetáculo — e eis que, de última hora, tive a oportunidade de adquirir o ingresso dela. Se o teatro já é incrível na visita guiada, tanto mais em funcionamento!

Teatro Colón

Quando escrevi sobre a visita de 2014 a Buenos Aires, comentei que o “gostinho de quero mais” ficou por conta do Palacio Barolo, na Avenida de Mayo: é o mais antigo edifício construído em concreto armado na Argentina, obra do arquiteto Mario Palanti. Quando concluído, em 1923, era o edifício mais alto da América do Sul, com 100m de altura. Comentei que gostaria de fazer a visita guiada — e a Sabrina gostou da ideia!

 

Dentro do Palacio Barolo, olhando para a Avenida de Mayo

Da galeria no térreo do Palacio Barolo (o Inferno), olhando para os andares mais altos (no Purgatório). As referências são do próprio arquiteto, que para o projeto do edifício encontrou inspiração na Divina Comédia, de Dante Alighieri.

O primeiro elevador vai até o 14o. andar. A agulha que indica os números dos andares segue em pleno funcionamento.

Do Purgatório, tirei foto da galeria (el pasaje) da entrada: o Inferno.

A partir do 14o andar, o mais alto do Purgatório, subimos uma escada (cada vez mais) estreita através dos andares da torre (o Céu) até o 22o, onde fica o farol, com vistas privilegiadas para a cidade de Buenos Aires.

Placas originais do edifício, indicando o caminho do Céu

Vista oeste do alto da torre do Edificio Barolo, com destaque para o Congreso de la Nación Argentina

A leste, vista para os arranha-céus de Puerto Madero e o infindável Mar Dulce que é o Río de la Plata

Olhando para dentro do refletor do farol, vi Buenos Aires de cabeça para baixo. (O fotógrafo também aparece. Em plena tarde tórrida de verão porteño, estava reluzindo de tanto suar dentro da redoma de vidro onde fica o farol!)

Na sexta-feira tirei folga e fui para San Isidro, na Grande Buenos Aires, para o casamento de Enrique e da Lucrecia. Foi muito bom rever meu hermano — que há uma década conheci no Canadá —, ajudar nos preparativos do casamento e entregar a ele os chocolates que tinha trazido de Genebra (via Arusha, Amsterdã e Paris). E me diverti muito ficando hospedado com a Vir, mãe do noivo, minha Mamá greco-argentina desde 2007, que morou na Grécia por um tempo e faz pouco se mudou para o Chile. E me alegrei também por ver depois de anos a Alejandra, irmã do Enrique, e conhecer o marido dela, Jean — eles moram na África do Sul.

O internacionalismo não é provocado. Acontece espontaneamente. :)

Depois de três intensivas semanas em três continentes, voltei enfim — sem mais escalas — ao Porto que convencionei chamar de casa.

Estación Retiro-Mitre, primeira parada no meu retorno multimodal a Porto Alegre (trem–ônibus–avião–táxi)

Anoitecer em Paris

Recapitulando a última viagem contada por aqui (porque ainda tenho muito para pôr em dia)… Em março passei uma semana em Genebra (menos um sábado em Berna) e uma semana em Arusha. No retorno ao Brasil, fiz algumas escalas. Na primeira, de 7h, passei uma manhã em Amsterdã. A segunda, também de umas 7h, foi em Paris, onde passei o anoitecer.

Cheguei ao aeroporto Charles de Gaulle (CDG) por volta das 16h e, meia hora depois, já estava no RER B3 (azul) para o centro da cidade (estação St-Michel – Notre-Dame). Para minha sorte, tomei um trem expresso, que passou sem parar por diversas estações!

Decidi aproveitar para fazer passeios pela Rua, já que não teria tempo para visitar museus. Atravessei la Seine e fui rever o exterior da Catedral Notre Dame.

La Seine – Atravessando o Rio Sena

Cathédrale Notre-Dame de Paris – Catedral de Nossa Senhora

A Catedral e o Sena

Vista lateral da Catedral

Segui a pé, passando pela Prefeitura e pela Torre de São Tiago, em direção à estação Châtelet – Les Halles, para de lá tomar o RER A (vermelho) até a estação Charles de Gaulle Étoile. Cheguei lá justo a tempo de ver o Arco do Triunfo ao anoitecer.

Hôtel de Ville de Paris – Prefeitura de Paris

Tour Saint Jacques – Torre de São Tiago

Arc de Triomphe – Arco do Triunfo

(Re)visto o Arco do Triunfo, a noite estava quase caindo, então resolvi tomar rumo para o destino final antes da (infelizmente inevitável) volta ao aeroporto Charles de Gaulle (CDG). E o destino final não poderia ser outro: a Torre Eiffel, o grande símbolo da Cidade Luz.

De RER A (vermelho) voltei até Châtelet Les Halles e, de lá, fiz transferência ao RER C (amarelo) até a estação Champ de Mars – Tour Eiffel. Caminhei até o pé da torre, esticando o pescoço para não perdê-la de vista em nenhum momento. <3

Atravessei o Sena, para aproveitar a linda vista e tirar fotos noturnas do alto dos Jardins du Trocadéro. Dali, contemplei a torre toda iluminada ao saborear o mais autêntico (ou turístico) crêpe au Nutella (de rua) do mundo. E me lambuzei deliciosamente.

Tour Eiffel et Pont d’Iéna

Tour Eiffel – Torre Eiffel

Tour Eiffel – Torre Eiffel, vista do alto dos Jardins du Trocadéro

Da torre, voltei de RER C (amarelo) até St-Michel – Notre-Dame e de lá conectei ao RER B (azul) de volta ao Charles de Gaulle (CDG), a tempo de tomar o próximo voo. Assim foi que espremi todo o suco de uma deliciosa escala de 7h em Paris.

E segui o retorno em direção a Porto Alegre, com mais uma pequena “escala” antes de chegar em casa – desta vez, não de 7 horas, mas de 7 dias! Sobre essa escala conto no próximo post…

Uma manhã em Amsterdã

Após uma semana em Genebra (menos um sábado em Berna) e outra em Arusha, no dia 14 de março comecei a volta pra casa – com direito a algumas escalas. A primeira delas foi em Amsterdã, na Holanda. Cheguei ao aeroporto Schiphol às 7:30 da manhã. Meu próximo voo seria só às 14:30. Sete horas de espera… jogando Angry Birds no aeroporto? Nem pensar.

Deixei a mala de mão num armário (€7), comprei um mapa da cidade (€2,50) e um bilhete diário para o transporte urbano (€15) e tomei um trem – em 18 minutos estava na estação Amsterdam Centraal. Ainda era cedo e muitos museus não estavam abertos, então aproveitei para caminhar pela cidade e tirar algumas fotos. Foi minha segunda visita a Amsterdã; a primeira tinha sido em novembro de 2000, cinco anos antes de ter uma câmera digital!

Amsterdam Centraal

Bicicletas na rua Nieuwezijds Voorburgwal. Ao fundo, à esquerda, o antigo prédio dos correios, hoje o shopping center Magna Plaza. Ao fundo, à direita, a parte dos fundos do Palácio Real

A partir dos fundos do Palácio Real, fui caminhando pela Raadhuisstraat e atravessando os canais em direção ao Prinsengracht (Canal do Príncipe), o mais longo dos canais principais.

Atravessando o Canal Singel

Atravessando o Canal Herengracht

Atravessando o canal Kaizergracht

À beira do Prinsengracht fica a Anne Frank Huis, ou Casa de Anne Frank, que queria muito ter visitado em 2000 e não tive oportunidade. Ao chegar no aeroporto de manhã cedo, tentei comprar um ingresso antecipado, que me permitiria pular a fila de uma hora de espera. Como não havia mais ingressos, resolvi não visitar – de novo – o museu. Pouco depois, inexplicavelmente, estava eu lá, esperando na fila. “Só pra ver se demora mesmo uma hora.” Pois demorou.

E valeu a pena! A visita é emocionante. Deu vontade de reler O Diário de Anne Frank, em que a menina narra o dia a dia na casa e no anexo secreto onde se escondeu, com vários outros, da polícia nazista na Holanda ocupada durante a Segunda Guerra Mundial. O museu não permite fotografia, mas o site oferece um passeio em 3D.

A fila para entrar na Casa de Anne Frank literalmente dobrava a esquina!

Esperando na fila, fotografei a torre da Westerkerk (Igreja do Oeste), onde Rembrandt está sepultado

Uma hora de espera depois, a fila atrás de mim ainda era grande

O quarteirão onde fica a Casa de Anne Frank; à direita, a torre da Westerkerk

Os dois prédios no centro da foto são a casa original de Anne Frank; à direita, um edifício incorporado ao museu

Na saída do museu, topei com uma banca de flores e plantas em minha homenagem: Martin’s Bloemen en Planten

Após a visita à Casa de Anne Frank, fui ao Bijbelsmuseum. O Museu da Bíblia fica em dois elegantes edifícios históricos de estilo holandês clássico, construídos em 1662 – são as Cromhouthuizen, ou casas de Cromhout, em alusão ao sobrenome do seu primeiro proprietário, Jacob Cromhout. Na coleção do museu, destacam-se minuciosos modelos do Tabernáculo e do Templo de Salomão, artefatos egípcios (até mesmo uma múmia) e, é claro, Bíblias, incluindo a mais antiga impressa na Holanda (1477) e um exemplar da primeira edição da versão autorizada em holandês (1637).

Fachada do Bijbelsmuseum

As Cromhouthuizen, vistas do outro lado do canal Herengracht

De volta à rua Nieuwezijds Voorburgwal (nos fundos do Palácio Real), visitei por último o Amsterdam Museum. Para mim, o destaque no museu foi a exposição Amsterdam DNA, que resume a história da cidade (e, de carona, também a do país) ao longo de sete épocas, por meio de imagens, sons, objetos e movimentos.

Em frente ao Amsterdam Museum, a interessante fachada da Posthumus, loja que produz e vende selos customizados (além de papéis, tintas, envelopes…) desde 1865

Letreiro do Amsterdam Museum

Portão de entrada do Amsterdam Museum

Foram sete horas muito bem aproveitadas em caminhadas pela cidade e em visitas a três museus importantes. Terminada a manhã em Amsterdã, voltei ao aeroporto para não perder meu voo às 14:30. À tarde fiz mais passeios… mas sobre esses eu conto no próximo post!