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A Budapeste dos cafés e restaurantes

Parte importante da Expedição 2015 foi conhecer diferentes cafés e restaurantes de Budapeste, seja para descansar dos intensos passeios nos dias de folga, seja para sair um pouco de casa nos dias de trabalho e passar o dia abusando do WiFi grátis. O New York Café – o mais lindo do mundo – ganhou um post especial devido ao seu interior espetacular, mas visitamos muitos outros. Neste post ficam algumas dicas, antes que a memória comece a falhar…

BookCafé

Andrássy út 39 (mapa, Facebook)

Na chiquérrima Avenida Andrássy funcionava a Grande Loja de Departamentos Paris (Párisi Nagyáruház), que abriu em 1910 num lindo edifício no estilo Art Nouveau (na parte da frente). Hoje funciona ali a livraria Alexandra.

Fachada da livraria Alexandra, na Andrássy út

A Kis Herceg – O Pequeno Príncipe, em húngaro, na livraria Alexandra

Uma escada no segundo andar da parte dos fundos da livraria leva ao surpreendente Salão Lotz (Lotz terem), de estilo distinto (Neo-Renascentista), que abriga o BookCafé, um dos nossos preferidos para trabalhar (e o café e os pratos de almoço eram bastante bons também). Alguns garçons até nos reconheciam. Viramos fregueses!

O BookCafé poderia muito bem rivalizar com o New York Café como o mais lindo do mundo. O salão é ricamente decorado com candelabros e, no teto, pinturas de Károly Lotz – o mesmo artista húngaro que pintou o teto do salão da grande escadaria do Parlamento Húngaro e que contribuiu com vitrais para a Igreja Mátyás, em Buda.

O interior do BookCafé

Detalhe do teto do BookCafé

Smúz

Kossuth Lajos tér 18 (mapa, Facebook, web)

Outro café de que viramos fregueses foi o Smúz. Lá, o café era um dos melhores. Também servem uma deliciosa limonada quente com gengibre (Gyömbéres limonádé). Como fica na Praça Kossuth Lajos, tem vista privilegiada para o Parlamento e o Danúbio.

Não resisti e tirei foto da minha página preferida do cardápio – puro design.

Anyám szérint… According to my mom…

Wesselényi u. 25 (mapa, Facebook)

Outro café muito bom – especialmente para o café da manhã – e pertinho de casa era uma casinha de boneca de alguém que preza muito a opinião de sua mãe, a ponto de chamar seu estabelecimento de De acordo com minha mãe… Foi bastante tranquilo trabalhar no segundo andar, razoavelmente silencioso e com pouco movimento.

Hummus Bar Budapest

Wesselényi u. 14 (mapa, Facebook, web)

Passando aos restaurantes: na mesma rua do “De acordo com minha mãe…”, quase atrás da Grande Sinagoga, fica o nosso restaurante preferido da rede Hummus Bar Budapest. É de suspirar só de pensar no hummus dali. Delicioso. Porções muito fartas e baratas.

E o uso da vírgula serial (“hummus, falafel, and more…”) deixa o lugar ainda mais encantador.

Mazel Tov

Akácfa u. 47 (mapa, Facebook, web)

Quase ao lado de casa, na rua Akácfa mesmo, fica o “ruin pub” Mazel Tov. O hummus ali é igualmente delicioso ao do Hummus Bar – justamente por ser da mesma rede.

Rosé Étterem

Akacfa u. 24 (mapa, web)

Não longe do Mazel Tov fica o Restaurante Rosé (Rosé Étterem), que minha irmã insistentemente chamava de Rosie’s. Era um refúgio ideal para um almoço muito bom e próximo de casa.

KönyvBár & Restaurant

Dob u. 45 (mapa, Facebook, web)

Também no Erzsébetvaros, pertinho de casa, fica o KönyvBár & Restaurant. Repleto de estantes de livros, lembra uma aconchegante biblioteca. Foi ali que provei meu primeiro Tokaji, o vinho de sobremesa da região de Tokaj. Esse vinho recebeu a primeira denominação de origem da história, a partir de 1730.

Nonloso Caffé

Zrínyi u. 16 (mapa, Facebook, web)

Perto da Basílica de Santo Estêvão fica o Nonloso, um dos primeiros restaurantes a que fomos; talvez tenha até sido o da noite da minha chegada. A taça de vinho tinto da casa, que pedi no tamanho médio para pegar leve, era mesmo assim praticamente um balde.

Tivemos de voltar lá mais vezes para repetir o mesmo prato: queijo camembert recheado com cogumelos chanterelle refogados, servido com molho de frutos silvestres e salada de folhas frescas. “Vamos lá naquele do camembert?”

Dunacorso Étterem

Vigadó tér 3 (mapaFacebook, web)

O Restaurante Dunacorso é um restaurante mais turístico, de excelente qualidade, à beira do Danúbio. Das mesas na parte externa há lindas vista para o Castelo de Buda, logo do outro lado do rio, e para o Teatro Vigadó (Vigadó Concert Hall).

Dunacorso e, ao fundo, o Castelo de Buda

Teatro Vigadó

Callas Café & Restaurant

Andrássy út 20 (mapaFacebook, web)

O restaurante da janta de despedida, no final de maio, foi o Callas. Em plena Avenida Andrássy, bem ao lado da Ópera, o restaurante só poderia ser grandioso e de pura elegância. Escolhemos uma mesa na parte externa, para aproveitar a música ao vivo e a vista noturna da Ópera.

A Grande Sinagoga de Budapeste

De volta ao bairro judeu de Budapeste, dedicamos um post a mais uma sinagoga (além da Ortodoxa, já mostrada aqui): a Grande Sinagoga da Rua Dohány (Dohány utcai nagy zsinagóga). É a maior da Europa e representa um centro importante do Judaísmo Neológico.

Foi construída entre 1854 e 1859 pelo arquiteto vienense Ludwig Förster. Inspirada em modelos islâmicos do Norte da África e da Espanha medieval, tem estilo neomourisco ou neoislâmico, mas também com elementos bizantinos e góticos. Na fachada principal, chamam a atenção as duas torres octogonais de 43 metros, com cúpulas douradas, e a rosácea.

Detalhe da fachada principal da Grande Sinagoga

O interior – com capacidade para quase 3.000 pessoas – é deslumbrante, com afrescos do arquiteto húngaro Frigyes Feszl. Vários elementos lembram igrejas cristãs, como os mezaninos e, ainda menos comum em sinagogas, o órgão de tubos. O original, com 5.000 tubos, foi construído em 1859 e usado por músicos famosos, como Franz Liszt e Camille Saint-Saëns.

O templo, como se poderia supor, também sofreu durante a Segunda Guerra: foi bombardeado  em 1939 pelo Partido da Cruz Flechada (o primo húngaro do Partido Nazi alemão), e depois usado como base de rádio para os alemães e até como estábulo. De novembro de 1944 a janeiro de 1945, formou parte importante do Gueto de Budapeste, abrigando muitos dos judeus isolados por ordem do governo. Voltou a ser templo durante o período comunista e foi finalmente restaurado ao seu esplendor original nos anos 1990.

Nave principal da Grande Sinagoga

Detalhe da parte dianteira, onde se observa o órgão de tubos

O púlpito, outro elemento que lembra igrejas cristãs

Lustre e claraboia

Parte posterior do templo (mais alguns tubos do órgão, à direita)

Ainda no complexo da sinagoga, fica o Templo dos Heróis, para 250 pessoas; é o “templo de inverno” da congregação. No pequeno pátio lateral fica um cemitério, o que tampouco é usual haver ao lado de uma sinagoga. É que ali, muito por falta de alternativa, foram jogados e posteriormente sepultados os corpos de mais de 2.000 judeus que morreram durante o período do Gueto de Budapeste.

Na parte dos fundos, há o Memorial do Holocausto Raoul Wallenberg, em homenagem aos pelo menos 400.000 judeus húngaros mortos na Segunda Guerra. Destaca-se a Árvore da Vida, a escultura de um salgueiro-chorão, do artista Imre Varga; nos ramos estão inscritos nomes de vítimas. Ali também há o túmulo simbólico de Raoul Wallenberg, um diplomata sueco que resgatou muitos judeus, concedendo-lhes passaportes suecos e enviando-os para abrigos – e mais tarde, acusado de espião norte-americano, foi executado pelos soviéticos. Perto do túmulo há uma parede-vitral que simboliza o fogo do Holocausto.

A Árvore da Vida

Parede-vitral

Por fim, no prédio atrás do memorial (que se vê iluminado pelo sol na foto acima), há o Museu Judaico. Além de relíquias religiosas e objetos rituais, há uma sala que trata da vida dos judeus durante a Segunda Guerra. Para encerrar, fotos da repugnante propaganda anti-semita (traduções e explicações nas legendas).

No cartaz superior, um judeu com um saco de dinheiro e a inscrição: “Tomarei o reino e o poder”. No inferior: “A arma dos judeus é dinheiro. Não se entregue nas mãos de armas inimigas!”

Na entrada do gueto, o cartaz: “Bairro Judeu (Zsidónegyed): Cristãos estão proibidos de entrar”. (Faltou completar: e judeus, de sair…)

“Szalámi” é “salame”, mesmo. 🙂 Destaque para o judeu “devidamente” identificado com a estrela de Davi e para a curiosa igualização entre comunismo (a foice e o martelo) e judaísmo (a estrela de Davi).

Dia (intenso) em Buda

Neste post a Expedição 2015 atravessa o Danúbio para mudar de ares e mostrar um pouco de Buda, especialmente o bairro Víziváros (“cidade da água”), o distrito do Castelo de Buda e o morro Gellért. É possível ver todos esses lugares ao longo de um dia de caminhada intensa. Porém, para ir com calma a outras atrações de visitação mais demorada (por exemplo, a Galeria Nacional Húngara, que fica dentro do Castelo de Buda), um dia certamente não é suficiente.

Víziváros

Chegamos a Buda de metrô (linha M2), descendo na estação da praça Batthyány tér. Dali vale a pena descer às margens do Danúbio para ter a melhor vista geral do Parlamento Húngaro, que fica diretamente à frente, do outro lado do rio (a foto ficou no post sobre o Parlamento). Na Batthyány tér, chamam a atenção o Mercado construído entre 1900 e 1902 – hoje ocupado por um supermercado, um banco e outras lojas – e a Igreja de Santa Ana, um lindo monumento barroco, construído por padres jesuítas entre 1740 e 1762.

O Mercado da Batthyány tér

Torres da Igreja de Santa Ana

Seguindo ao sul pela Fő utca, a rua principal do Víziváros, logo se chega aos fundos da Igreja Calvinista, construída de 1893 a 1896. Foi a primeira igreja reformada em Buda. Chamam a atenção sua torre de 62 metros de altura, a mais alta do lado Buda, e os desenhos multicoloridos dos telhados, feitos de cerâmica Zsolnay. (Outros exemplares do uso dessa cerâmica virão… neste post e em outros!) Nos fundos da igreja, perto da Fő utca, fica uma estátua de Samu Pecz, o arquiteto da Igreja Calvinista – e também de outros importantes prédios de Budapeste, como o Grande Mercado da Fővám Square

Igreja Calvinista de Buda

Estátua de Samu Pecz

No encontro da Fő utca com a Lánchíd (Ponte de Correntes), fica a entrada imponente do túnel de 350 metros que corta o Morro do Castelo; foi construído entre 1853 e 1857, pelo engenheiro Adam Clark, que também construiu a Ponte de Correntes. A praça à frente do túnel é o centro oficial de Budapeste, a partir de onde são calculadas as distâncias rodoviárias.

A entrada do túnel

Distrito do Castelo de Buda

É possível ir a pé ou de ônibus até o alto do morro do Castelo de Buda, mas há também um meio mais turístico e cênico: o funicular (Budavári Sikló). A partir da praça Adam Clark (bem ao lado da entrada do túnel), o funicular percorre uma distância de 95 metros para subir os 51 metros de altura do morro. Foi inaugurado em 1870, mas foi destruído durante a Segunda Guerra; só foi reinaugurado em 1986.

A subida é rápida; o trem percorre 1.5 metro por segundo. Mais demorada é a espera na fila de quem não comprou ingresso antecipado! Enquanto se espera, pode-se ver no muro de contenção à esquerda uma pintura do brasão do Reino da Hungria pintada em 1880.

Esperando na fila do funicular

Brasão do Reino da Hungria

À medida que o funicular sobe, vai surgindo a bela vista que se tem do lado Peste, com destaque à Ponte de Correntes, ao Palácio Gresham (é o edifício Art Nouveau que fica bem de frente para a ponte; hoje abriga um hotel Four Seasons) e, um pouco mais ao fundo, a Basílica. E se subindo de funicular a vista já é linda, do alto do morro fica ainda melhor…

Peste, vista do funicular

Parlamento da Hungria, visto do alto do Morro do Castelo de Buda

Detalhe do Palácio Gresham, em Peste, visto de Buda

Visão panorâmica de Peste; à esquerda, o Parlamento; ao centro, a Ponte de Correntes

Dando as costas à bela vista de Peste, à direita se vê a fachada do Palácio Sándor (Sándor Palota), edifício neoclássico construído em 1806. Serviu originalmente como residência oficial do primeiro ministro até a Segunda Guerra, quando foi muito danificado. Hoje, restaurado, é a residência oficial do Presidente da Hungria (nas guaritas, guardas presidenciais à postos).

À esquerda há um portão ornamental, com escadarias que levam ao pátio do Palácio Real. Para nossa sorte, ali estava acontecendo uma festival de música e dança, com delícias húngaras à venda: sucos, geleias, pastéis, doces, marzipan…

Fachada do Palácio Sándor

O portão ornamental

O pátio do Palácio Real

Delícias húngaras!

Chás e diversos tipos de marzipan

No Palácio Real funcionam o Museu de História de Budapeste, a Galeria Nacional Húngara e a Biblioteca Nacional Széchenyi – atrações que não chegamos a visitar… é preciso mais tempo! Apenas caminhamos pela parte externa, desbravando os pátios do Palácio Real.

Fachada do Palácio Real, na entrada da Galeria Nacional Húngara, com destaque à cúpula neoclássica

Um dos destaques do pátio ocidental do Palácio Real é a Fonte Mátyás. Foi construída em 1904 e representa o Rei Mátyás Corvinus (bem no alto) em uma caçada, durante a qual se apaixonou por Szép Ilonka, também retratada na fonte.

Fonte Mátyás

Detalhe da Fonte Mátyás

Portão dos Leões, que leva a um pátio interno do palácio

No pátio interno

Saindo da área do Palácio Real rumo à parte histórica da cidade de Buda, ao lado do Palácio Sándor fica o Teatro da Corte de Buda (Várszínház), o primeiro teatro de Budapeste. O prédio foi construído como igreja e monastério carmelitas em 1763, mas convertido em teatro em 1787. Na parede, uma lembrança de que Beethoven deu um concerto ali em 7 de maio de 1800.

Ao longo da Uri urca ficam, lado a lado, casa que outrora pertenceram a aristocratas. Em muitas delas há um portão central que leva a um amplo pátio interno.

O grande destaque do centro histórico de Buda é, sem dúvida, a Igreja de Mátyás. Embora dedicada à Nossa Senhora, a igreja é conhecida pelo nome do Rei Mátyás Corvinus.

A igreja passou por diversas fases arquitetônicas. Foi originalmente construída em estilo românico no século X, pelo Rei Santo Estêvão, fundador da Hungria. Não há resquícios arqueológicos dessa construção original, destruída pelos mongóis em 1241. Foi reconstruída entre os séculos XIII e XV em estilo gótico tardio. Quando convertida em mesquita pelos turcos,  em 1541, perdeu muitos dos detalhes. No final do século XVII tentou-se reconstrui-la em estilo barroco. Mas foi no final do século XIX que a igreja ganhou o atual estilo neo-gótico, por obra do arquiteto Frigyes Schulek. Muito danificada durante a Segunda Guerra, foi restaurada de 1950 a 1970 e de 2006 a 2013.

A igreja abriga o Museu de Arte Eclesiástica, com muitas relíquias.

Igreja Mátyás

Detalhes das coloridas cerâmicas Zsolnay nos telhados da igreja

Portal principal da igreja

Interior da Igreja Mátyás

Interior da Igreja Mátyás

Vitrais do século XIX, de Frigyes Schulek, Bertalan Székely e Károly Lotz

Interior da Igreja Mátyás

Nave principal da Igreja Mátyás

Tumba do Rei Béla III e Anne de Châtillon

Se a Basílica tem a destra mumificada de Santo Estêvão, a Igreja Mátyás tem o pé direito mumificado de São János

Estátua da Imperatriz Sissi no interior da Igreja Mátyás

Também obra do arquiteto Frigyes Schulek (que restaurou a Igreja Mátyás ao estilo atual no final do século XIX) é o Bastião dos Pescadores (Halászbástya), um terraço (para fins estéticos, não de defesa) em estilo neo-românico e neo-gótico construído em 1895. Em frente ao bastião fica uma estátua equestre do Rei Santo Estêvão. Do bastião também se têm ótimas vistas de Peste, especialmente do Parlamento – com a Igreja Calvinista “atrapalhando” a vista.

Bastião dos Pescadores

Parlamento da Hungria (com a torre da Igreja Calvinista na frente!)

Réplica de um baixo relevo do século XV do Rei Mátyás

Torre barroca da Igreja de Santa Maria Madalena

A última atração sobre a qual comento da cidade antiga de Buda é imperdível Hospital na Rocha (Sziklakórház). Abaixo do morro do Castelo de Buda há um sistema natural de 10 Km de cavernas, formadas depois da era glacial. Desde a Idade Média, essas cavernas vinham sendo usadas pelos residentes (por exemplo, como excelentes adegas naturais). Porém, com a eclosão da Segunda Guerra, o governo resolveu dar-lhes nova utilização. Interligou as cavernas existentes e construiu um hospital de emergência para ataques aéreos, que funcionou de 1939 a 1945. Depois disso, até 1948, o local funcionou para a produção de vacinas. Em 1956, voltou a ser hospital, em meio à revolução que ocorria em Budapeste. De 1958 a 1962 foi ampliado e reconstruído no espírito da Guerra Fria, para funcionar como hospital e… bunker nuclear! O site oficial conta mais sobre a história do Hospital na Rocha.

Dentro dos corredores (de certa forma macabros) do hospital nas cavernas, há mobília e instrumentos cirúrgicos da época, bonecos de cera em reconstruções de cenas comuns do hospital, uma sirene de bunker que os visitantes podem ativar… e mais umas surpresas.

Quando eu disse que é imperdível, eu quis dizer que é imperdível, ok?

Entrada do Hospital na Rocha (dentro não é permitida a fotografia)

Morro Gellért

Como se a caminhada pela cidade antiga de Buda não tivesse sido suficiente, seguimos para um passeio mais esportivo: subir os 140 metros do Morro Gellért, para contemplar as mais amplas vistas de Budapeste.

Começamos a subida bem perto da Ponte Isabel (Erzsébet hid), pertinho dos banhos termais Rudas. A primeira parada para descanso (e foto) foi junto à estátua de São Gellért, que abençoa a cidade, levantando uma cruz.

Por fim, seguimos ao alto do morro, onde fica o Monumento à Libertação (Szabadság Szobor). A estátua de bronze tem 14 metros de altura e fica no alto de um pedestal de 26 metros. Foi erguida em 1947 para relembrar a liberação soviética da Hungria durante a Segunda Guerra. Por causa da sua posição privilegiada, pode ser vista de muitas partes da cidade; o formato sugestivo fez com que se tornasse conhecida como o “abridor de garrafa”.

Ponte Isabel (Erzsébet hid) e Peste, ao fundo

À esquerda, o Castelo de Buda; à direita, ao fundo, vê-se a cúpula do Parlamento, em Peste

Estátua de São Gellért

O Monumento à Libertação

Monumento à Libertação, do alto do pedestal

Uma das estátuas laterais representa a luta contra o mal

Vista panorâmica de Budapeste, do alto do Morro Gellért

Superzoom sobre a Basílica de Santo Estêvão (96 m) a Budapest Eye (roda gigante de 65 m de altura)

Caminhada pela Andrássy até o Parque da Cidade

A Avenida Andrássy (Andrássy út) está para Budapeste assim como a Champs-Élysées está para Paris: é a mais cara e elegante avenida da capital húngara.

A avenida de 2,5 Km foi construída entre 1872 e 1885, ligando o centro ao Parque da Cidade, para as comemorações do milênio da Hungria, em 1896. Ao longo da Andrássy foi surgindo um conjunto de palácios ecléticos de inspiração Neo-Renascentista, construídos por importantes arquitetos para receber residências e estabelecimentos comerciais da alta sociedade da época.

Na parte mais próxima ao Danúbio, ficam cafés, teatros e butiques de luxo; na parte mais próxima ao Parque dos Heróis (Hősök tere) e ao Parque da Cidade (Városliget), ficam belas residências e embaixadas. Ao longo da Andrássy ficam a Ópera e também a Praça Liszt (Liszt Ferenc tér), que será objeto de outro post especial.

Quando ficou pronta, a Andrássy foi considerada uma obra-prima de planejamento urbano, e até o transporte coletivo era proibido. Por isso em 1893 se começou a construir sob a avenida a primeira linha de trens subterrâneos da europa continental: o Metrô do Milênio. Foi inaugurado em 1896, por Franz Joseph e Sissi, e continua em uso; é a linha M1 ou amarela.

A UNESCO reconheceu a Andrássy como um símbolo do desenvolvimento de Budapeste como uma metrópole moderna, transformando a estrutura urbana de Peste. Em 2002, a avenida foi inscrita como Patrimônio Mundial, juntamente com o Distrito do Castelo de Buda, as margens do Danúbio, o Parlamento e as ruínas da cidade romana de Aquincum, inscritos em 1987.

O nome da avenida foi uma homenagem ao Conde Gyula Andrássy, estadista húngaro que no século XIX foi Primeiro Ministro da Hungria e Ministro das Relações Exteriores do Império Austro-Húngaro. É uma figura histórica tão importante para os húngaros que ganhou uma estátua equestre num local privilegiado: ao lado do Parlamento da Hungria.

Estátua equestre de Gyula Andrássy e, ao fundo, o lado sul do Parlamento

Bem no início da Andrássy está o Palácio Foncière, construído em 1882 para a subsidiária de uma seguradora belga. Hoje a estátua de Hermes continua lá, mas atrás dele havia uma cúpula, destruída durante a Segunda Guerra.

Parte superior do Palácio Foncière

Chamam a atenção no lado sul da avenida as estátuas na entrada de dois prédios: na loja do Empório Armani, dois guris; na loja da Gucci, duas gurias.

Os guris de Armani

As gurias de Gucci

No lado norte fica o Museu da Casa do Terror (Terror Háza Múzeum) (mapa e site oficial), com exposições e memoriais sobre as ocupações nazista e soviética.

Prédio do Museu da Casa do Terror

Também no lado norte fica o edifício da Universidade Húngara de Belas Artes (mapa e site oficial). A fachada superior está coberta de decoração em sgrafitto.

Detalhe da fachada da Universidade de Belas Artes

A Andrássy culmina na Praça dos Heróis (Hősök tere), que se vê de longe. O monumento também foi construído para comemorar o milênio da Hungria. Nos semi-círculos das laterais há estátuas de líderes húngaros, com estátuas equestres dos símbolos de guerra e paz, trabalho e bem-estar, conhecimento e glória. No alto da coluna coríntia de 36 metros de altura há uma estátua do Arcanjo Gabriel, que segura com a mão direita a coroa de Santo Estêvão e, com a esquerda, uma cruz dobrada. No centro da praça há o Monumento ao Soldado Desconhecido.

A Praça dos Heróis

No lado sul da Praça dos Heróis, fica o Palácio das Artes (Műcsarnok) (mapa e site oficial), com exposições de arte e design. No lado norte, fica ao Museu de Belas Artes (Szépművészeti Múzeum) (mapa e site oficial).

O Palácio das Artes

No Parque da Cidade, atrás da Praça dos Heróis, do Palácio das Artes e do rinque de patinação, fica o Castelo Vajdahunyad (mapa e site oficial). Parece mais antigo, mas foi construído em 1896 para as comemorações do milênio da Hungria. Originalmente era uma construção temporária, de madeira e papelão, apenas para as festividades, mas foi reconstruído em tijolo e pedra no início do século XX. As diferentes partes do castelo relembram os diferentes estilos que marcam a evolução arquitetônica da Hungria: Românico, Gótico, Renascentista e Barroco.

Entrada do castelo

Detalhes medievais góticos do castelo

Mais detalhes góticos

Réplica de Jaki Kapolna, a Capela de Jak, em estilo Românico, já com traços góticos; é a parte do castelo com o estilo mais antigo, dos séculos XI a XIII

O palácio com os estilos mais recentes (séculos XVI a XVIII) representa uma mescla dos estilos Renascentista e Barroco

Também no Parque da Cidade ficam as termas de Széchenyi.

Edifício Neo-Barroco das termas de Széchenyi

Esses são só alguns exemplos dos muitos lugares para ver e visitar ao longo da Andrássy. Uma caminhada pelos seus 2,5 Km é imperdível para quem visita Budapeste. Aqui e ali há caminhadas sugeridas para turistas, com informações interessantes.

Parlamento da Hungria e Memorial dos Sapatos

Visitar Budapeste e não ver o Parlamento (Országház) é mais ou menos como visitar Paris e não ver a Torre Eiffel nem de longe. É difícil perder de vista um edifício neogótico com 268 metros de comprimento, 123 metros de largura na parte mais larga e (tal como a Basílica) 96 metros de altura, às margens do Danúbio, em Peste. Obra do arquiteto húngaro Imre Steindl, foi construído de 1885 a 1902, usando materiais de procedência húngara sempre que possível.

Ao redor do Parlamento

A melhor visão geral do Parlamento é a que se tem a partir de Buda, do outro lado do Danúbio.

Mas as outras fotos de Buda ficam para outro outro post. Agora volto a Peste para dar uma volta ao redor do Parlamento e mostrar o prédio de diferentes ângulos.

Entrada principal, à Praça Kossuth Lajos

Indo para o lado norte do Parlamento; ao centro, a cúpula

Detalhe da fachada Norte

Mais um detalhe da fachada Norte

Já olhando para a fachada Oeste, que fica de frente para o Danúbio

Escadarias, torres e cúpula, vistas da margem do Danúbio

Memorial dos Sapatos

Perto do Parlamento fica o Memorial “Sapatos à Margem do Danúbio”, que presta homenagem aos judeus mortos por milícias do Partido da Cruz Flechada (Arrow Cross), semelhante ao Partido Nazi alemão, durante a Segunda Guerra Mundial. Os milicianos ordenavam que as vítimas tirassem seus calçados e executavam-nas à beira do Danúbio. Os corpos eram levados pelo rio – e os sapatos eram deixados para trás.

Shoes on the Danube Bank

O monumento Sapatos à Margem do Danúbio ao anoitecer; ao fundo, iluminados, a ponte Széchenyi e o castelo de Buda

Visita guiada ao Parlamento

Começando pelas desvantagens: a visita guiada é rápida (40 a 50 minutos, contando o tempo para passar por procedimentos de segurança tipo de aeroporto), a demanda é alta (e por isso há necessidade de comprar ingressos com antecedência, o que se pode fazer online, mas não evita a necessidade de esperar em fila) e o roteiro é bastante restrito. Mesmo assim, vale a pena. O prédio, além de importante política e historicamente, é rico em detalhes decorativos.

Nos corredores do Parlamento

Teto dourado de uma das 29 escadarias

Uma das partes mais deslumbrantes do Parlamento é a Grande Escadaria, com seus 96 degraus (novamente lembrando o ano de 896, quando as tribos húngaras se assentaram no atual território da Hungria), os tapetes vermelhos, os vitrais de Miksa Róth e, no teto, as pinturas de Károly Lotz.

A visita guiada passa pelo Salão de Entrada da Câmara Alta, com esculturas que lembram os antigos grupos de artesãos da Hungria. É também nesta sala que fica o maior tapete feito manualmente em toda a Europa. Eu fiquei tão horrorizado ao pensar no trânsito intenso de turistas (incluindo eu mesmo) sobre aquele rico tapete desprotegido que esqueci de fotografar.

O Salão de Entrada da Câmara Alta

E do Salão de Entrada se vai às galerias do antigo Salão da Câmara Alta, planejado para ter uma excelente acústica. O Parlamento Húngaro é hoje unicameral, por isso não há mais câmara alta ou baixa; o ambiente é usado para conferências e reuniões.

Por fim, a visita guiada também leva ao Salão da Cúpula, onde infelizmente não se permite fotografar. Tem uma cúpula interna de 27 metros de altura; acima dela é que fica cúpula externa de 96 metros, no centro geométrico do Parlamento. É ali que fica a antiga Coroa Real da Hungria. Há outras belíssimas na galeria oficial de fotos do Parlamento.

* Só para registrar: foi neste lindo edifício que, em julho de 2015, os parlamentares húngaros aprovaram a construção de uma cerca para barrar imigrantes e refugiados.

Banhos termais de Budapeste, a Cidade dos Spas

É histórica a fama de Budapeste por seus banhos termais. Há mais de 2000 anos, os romanos já haviam construído vários; vestígios de 14 foram encontrados até hoje. Durante a ocupação otomana da Hungria (1541–1699), a tradição foi reforçada com a abertura de dezenas de banhos turcos (hamam), alguns em funcionamento até hoje, quase 500 anos depois.

Hoje há em Budapeste 123 fontes e poços de águas termais, com temperaturas que variam entre 21 e 78 graus Celsius. E também há infraestrutura para quem quiser aproveitar essas águas, seja diversão, seja pelas propriedades medicinais. A empresa de spas de Budapeste (excelente site oficial) administra sete banhos termais e cinco praias.

Durante a Expedição 2015, visitamos três dos banhos termais (Széchenyi, Gellért e Rudas), que são o assunto deste post. Também visitamos uma das praias (Palatinus), que ficará para mais adiante, quando contar do passa-dia na Ilha Margaret (Margit-sziget).

Széchenyi

Um dos favoritos é o imperdível Széchenyi (site e mapa), um dos maiores spas termais da Europa. Situado no Parque da Cidade, é um dos banhos termais históricos de Budapeste: foi construído em 1913 e é o mais antigo de Peste. Há 3 grandes piscinas externas: uma de 50 metros para natação (26 a 28 graus), outra com correnteza (30 a 34 graus) e ainda outra piscina termal (38 graus). Na parte interna há 15 piscinas menores, com diferentes temperaturas, e mais 3 na parte interna reservada para fisioterapia. Também há saunas e câmaras de vapor. O site oficial descreve todas as piscinas e apresenta a planta-baixa. Vale conferir também as fotos.

Uma das portas laterais de Széchenyi, evidenciando o estilo Neo-Barroco

A piscina com correnteza, parte da piscina para natação e vista geral do edifício onde ficam as piscinas internas

Gellért

O Gellért fica em Buda, às margens do Danúbio e aos pés do morro Gellért; pra quem chega de Peste, fica ao lado esquerdo da Ponte de Liberdade (Szabadság híd). Bem em frente ao Gellért fica a Igreja na Rocha (Sziklatemplom), que é muito interessante – vale combinar as visitas! Começo por algumas fotos e relatos do Sziklatemplom.

De Buda: estátua do Rei Santo Estêvão; em segundo plano, a Ponte da Liberdade e o Danúbio; ao fundo, Peste

O Szikatemplum fica literalmente dentro do morro Gellért, em um sistema de cavernas formado por fontes termais (as mesmas que abastecem as termas de Gellért). A caverna pertence à Ordem Paulina da Hungria, que construiu a igreja em 1926 e continuou a expansão dentro da caverna ao longo dos anos 1930. Nesse período também construiu um monastério adjacente.

Depois de ter servido como hospital militar para os nazistas durante a Segunda Guerra, a igreja voltou a funcionar por seis anos, até ser tomada e destruída pela polícia secreta comunista em 1951, com o objetivo de enfraquecer a Igreja Católica. Em 1960, o Estado Húngaro lacrou a caverna com um impressionante muro de concreto de dois metros de largura. Somente em 1989, após a queda do regime comunista, o templo voltou aos monges e reabriu em 1991.

Entrada do Sziklatemplom

Resquício do muro de concreto que lacrava o templo

Interior da “nave principal” do Sziklatemplom

Vitral de Maria, Patrona da Hungria

Painéis de madeira talhada no monasterio adjacente à igreja

Painéis de madeira talhada no monasterio adjacente à igreja

Agora, sim, ao Gellért (site e mapa), outro dos banhos termais históricos de Budapeste. Foi inaugurado em 1918, em estilo Secessão – Art Nouveau. A parte interna tem 8 piscinas: 5 térmicas (entre 35 e 40 graus), 2 de imersão (19 graus) e uma de natação (26 graus). A parte externa tem mais 2: uma térmica (36 graus) e uma de ondas (26 graus). Também há saunas e câmaras de vapor de diferentes temperaturas. Mais detalhes e planta-baixa no site oficial, onde também vale conferir a galeria de fotos.

Piscina interna para natação

Vista geral da parte externa; piscina de ondas em primeiro plano

Piscina de ondas em funcionamento

Direto do túnel do tempo: como tomar banho sem estragar o penteado?

Um dos belos espaços internos do Gellért

Rudas

Rudas (site e mapa) é um dos banhos turcos de Budapeste. Também fica em Buda, às margens do Danúbio e aos pés do morro Gellért. A parte mais antiga foi construída no século XVI, durante a ocupação otomana: uma piscina octogonal sob uma cúpula de 10 metros de diâmetro, sustentada por oito pilares. Originalmente, somente homens podiam entrar nessa área. É um ambiente escuro, mas a cúpula tem furos com vitrais coloridos que permitem a passagem de um pouco de luz solar. O site oficial tem belas fotos.

No total, há seis piscinas termais (com temperaturas de 16, 28, 30, 33, 36 e 42 graus), uma piscina de natação (29 graus) e cinco piscinas na parte mais moderna do complexo.

Vista do restaurante do Rudas

Todos os prédios da foto pertencem ao complexo das termas de Rudas: bem à esquerda (onde se vê uma cúpula aramada), fica a parte nova do complexo, com a piscina ao ar livre; nos prédios do meio, o restaurante, o spa e as piscinas internas; bem à direita, a parte mais antiga, com a cúpula do banho turco do século XVI.

Complexo Rudas, às margens do Danúbio e aos pés do morro Gellért

Concertos e múmias na Basílica de Santo Estêvão

Um dos objetivos da Expedição 2015 a Budapeste foi aproveitar ao máximo a cena musical da cidade. Por exemplo, num dos últimos posts, já contei sobre Fausto e a visita guiada à Ópera do Estado Húngaro. Mas os primeiros ingressos comprados foram para o Concerto de Gala – com direito a órgão de tubos, orquestra sinfônica e coro – na Basílica de Santo Estêvão (Szent István Bazilika), já nos primeiros dias em Budapeste.

A Basílica (site em inglês) foi construída de 1851 a 1905 e dedicada ao Rei Estêvão (canonizado pela Igreja Católica como Santo Estêvão), fundador do Estado Húngaro. O primeiro arquiteto da Basílica, József Hild, faleceu durante a construção, que foi continuada por Miklós Ybl (o arquiteto da Ópera de Budapeste) e József Kauser. A cúpula original, do projeto de Hild, colapsou em 1868 devido a problemas de construção. Ybl teve de alterar o projeto original, Clássico, para o atual, Neo-Renascentista. Durante a Segunda Guerra, as torres e as paredes externas foram danificadas; toda a estrutura do telhado teve de ser substituída. Somente em 2003 a restauração foi concluída.

A praça em frente à Basílica é um agradável espaço de convivência, com diversos restaurantes e cafés (e turistas sempre circulando). O espaço aberto ressalta o caráter imponente do edifício. Segue um trio de vistas da Basílica – em dia nublado, à noite e em dia ensolarado.

Esperando para entrar pela primeira vez na Basílica, para assistir ao Concerto de Gala (8 de maio, às 20h), minha irmã Lucila e eu ficamos observando os detalhes externos.

“Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” João 14:6

Quase entrando

O programa do Concerto de Gala, regido por András Virágh, consistiu em obras conhecidas:

  1. Tocata e Fuga em Ré Menor, de Johann Sebastian Bach (BWV 565), com o organista András Gábor Virágh; e
  2. Requiem em Ré Menor, de Wolfgang Amadeus Mozart (K 626), com o Coro Jovem de Budapeste, o Coro Paroquial, a Orquestra Sinfônica Monarchia e solistas da Ópera do Estado Húngaro (soprano Ildikó Szakács, contralto Kornélia Bakos, tenor László Kálmán e baixo Lóránt Najbauer)

Assistimos à primeira récita, em 8 de maio – e ainda haverá mais duas, em 28 de agosto e 25 de setembro. A divulgação está no site www.organconcert.hu, onde é possível adquirir ingressos; os preços variam de 16 a 28 Euros.

Como o programa incluía parte com orquestra, coro e solistas (no altar) e parte com órgão de tubos (no coro, atrás), a Basílica virou uma grande sala de espetáculos com dois palcos.

Músicos no altar, durante a execução do Requiem

O grandioso órgão de tubos

Não só por causa dos dois palcos, mas fica difícil olhar para um lugar só, considerando a riqueza de detalhes da decoração interna da igreja, com muitas pinturas e esculturas.

Nas colunas centrais da Basílica, imagens de Math, Marc, Lvc e Joan, os escritores dos quatro Evangelhos

Também chama atenção a grandiosa cúpula no centro da Basílica, que atinge a altura de 96 metros. É uma referência a 896, o ano em que as tribos magiares (ou húngaras) vieram da região dos Montes Urais e assentaram-se na Bacia dos Cárpatos, para posteriormente dar origem ao Estado Húngaro. O Parlamento Húngaro (que será assunto de outro post!) tem uma cúpula de mesma altura, dando a ideia de que Igreja e Estado não se devem sobrepor um ao outro. Hoje, o plano diretor de Budapeste não permite a construção de edifícios mais altos que 96 metros, garantindo que a Basílica e o Parlamento continuem sendo os mais altos.

Por um valor acessível, é possível subir ao observatório da cúpula, de onde se têm vistas panorâmicas de Budapeste. Não chegamos a subir… mas deve valer a pena!

A cúpula da Basílica

Dias depois, arrastei comigo meu cunhado James para o concerto de órgão na Basílica, que acontece regularmente às segundas-feiras; o site www.organconcert.hu traz os horários e programas. No concerto a que fomos, dia 11 de maio, o organista András Gábor Virágh e a soprano ldikó Szakács apresentaram Albinoni (Adagio), Mozart (Aleluia), Bach (Prelúdio e Fuga, Ária, Tocata e Fuga – algumas delas, repetição do Concerto de Gala), Bizet (Agnus Dei), Liszt (Coral) e Gounod (Ave Maria).

 

Por fim, desde 1931, a Basílica guarda uma relíquia especialmente importante para os católicos húngaros: a Santa Destra – uma mão direita mumificada, que seria a do Rei Santo Estêvão e que teria poderes milagrosos (aqui, mais sobre a história da relíquia). Milhares de fiéis na Hungria fazem procissões no Dia de Santo Estêvão, anualmente em 20 de agosto, dia da morte do rei.

A urna onde é mantida, preservada, a Santa Destra

O café mais lindo do mundo

Um dos muitos encantos da localização de nossa morada em Budapeste era que bastava dobrar uma esquina para chegar ao New York Palota, ou Palácio Nova York. Foi construído entre 1890 e 1894 pelo arquiteto húngaro Alajos Hauszmann para sediar a New York Insurance Company. O estilo é eclético, mas inspirado principalmente pelo Barroco italiano.

Vista da fachada principal do New York Palota

A fachada é decorada por diversos sátiros (mitologia grega) ou faunos (mitologia romana) – divindades de corpo parte humano, parte equino – que seguram luminárias.

Reflexos e um sátiro em uma das laterais do edifício

O New York Palota hoje abriga o elegante hotel 5 estrelas Boscolo Budapest. Mas a grande preciosidade do edifício é o New York Kávéház, ou New York Café, situado no térreo, com entrada pela esquina. Foi aberto no final do século XIX, auge da popularidade dos cafés de Budapeste para a cena intelectual da cidade. Diz a lenda que o escritor húngaro Ferenc Molnár, no dia da inauguração, jogou no Danúbio as chaves do café, para que nunca mais fechasse.

Não era apenas “mais um café”: era o café mais lindo do mundo.

New York Café: The most beautiful café in the world

Anno 1894, ano da conclusão da construção do edifício

Simplesmente passar pela soleira da porta do New York Café provoca um poderoso efeito uau. Basta entrar para sentir uma rajada de esplendor e o luxo da Belle Époque, por todos os lados. Tudo ao redor – candelabros, colunas de mármore, ornamentos dourados pelas paredes – é precioso. No teto há afrescos de Gusztav Mannheimer e Ferenc Eisenhut. Os lustres venezianos são espetaculares.

Interior do café a partir da nossa mesa

Um dos diversos afrescos do teto

A riqueza de detalhes parece interminável

A maioria dos turistas vai ao New York Café pela atmosfera deslumbrante, claro. Mesmo assim, a comida e os cafés também são excelentes (embora, como se poderia esperar, mais caros que a média de Budapeste). Minha forte recomendação vai para os omeletes – com queijos, pimentões (típicos na Hungria) e mais.

Um arco de madeira sobre colunas de mármore em espiral dá acesso ao nível inferior do restaurante, onde estava montado o bufê para os hóspedes do hotel.

O arco e a área do bufê

Visão geral da área do bufê

Visão geral da área do bufê

A área do bufê, vista do outro extremo

O arco, visto de outro ângulo

Nas galerias ao lado da área do bufê, há um espaço para música ao vivo. Numa das visitas ao New York Café, havia um pianista, e em outra, uma harpista.

A área dos músicos

Durante a Segunda Guerra Mundial, o prédio foi danificado. Chegou a servir de loja e até de depósito – era o depósito mais lindo do mundo. Apesar de restaurado em 1954, durante a era comunista o prédio nunca retomou seu esplendor. Depois da redemocratização, ficou vazio por uma década, até ser restaurado pelo grupo Boscolo. Foi reinaugurado em 2006.

Ao lado do café, o jardim interno do Boscolo

Vista noturna do New York Palota, com destaque à esquina da entrada do New York Café

Magyar Állami Operaház: a Ópera do Estado Húngaro

proximidade da ópera foi um dos critérios para a escolha da nossa morada temporária durante a Expedição 2015. Mas a ideia era não só morar perto: também queríamos assistir a uma ópera em Budapeste! Conseguimos bons ingressos para assistir de camarote a Faust, ópera de Charles Gounod baseada na obra de Goethe.

Magyar Állami Operaház, a Ópera do Estado Húngaro. Foto tirada no lindo último dia da Expedição 2015.

A produção fez parte do Festival Faust225, organizado para comemorar os 225 anos da primeira publicação de “Fausto, um Fragmento” de Goethe, em 1790. O festival durou duas semanas durante o mês de maio — felizmente, bem no mês da nossa expedição! Fomos à récita de 19 de maio. Além da ópera de Gounod, quatro outras peças relacionadas à obra de Goethe foram apresentadas como parte do festival.

O poster do festival, visto do terraço do foyer, na noite do espetáculo

A produção da ópera era moderna, o que não esperávamos e que corresponde naturalmente a um maior risco de controvérsia. A Lu não gostou muito desse aspecto, mas acho que houve quem tenha gostado menos ainda, porque ouvimos até uma vaia rápida (mas forte!) logo que as cortinas baixaram após o último ato. Eu acho que teria gostado mais de uma produção clássica, mas a releitura e os aspectos cênicos moderninhos não me incomodaram tanto.

A visibilidade do nosso camarote era perfeita. A acústica também. E o teatro é só elegância.

Vista do nosso camarote

Hoje a maior ópera da Hungria, foi construída a partir de 1875 em estilo Neo-Renascentista, com elementos barrocos, na elegante avenida Andrássy út. Sua inauguração aconteceu em 1884, com a presença do Imperador Austro-Húngaro Franz Josef — que, juntamente com a cidade de Budapeste, financiou a construção — e sua esposa queridinha dos húngaros, a Imperatriz Sissi. Nos anos 1980, a ópera foi restaurada e reaberta no seu centenário, em 1984. Abriga 1261 pessoas e, segundo especialistas, tem uma das melhores acústicas entre os teatros de ópera da Europa, depois do Scala de Milão e do Palais Garnier de Paris.

Visão geral da parte posterior do auditório

Destaque para as estátuas que ficam sobre o camarote real (hoje presidencial), que representam os quatro naipes: soprano, contralto, tenor e baixo

São muitos os detalhes deslumbrantes, mas se destaca no teto o afresco de Károly Lotz que retrata deuses gregos no monte Olimpo. O fabuloso lustre pesa mais de 2 toneladas.

O afresco e o lustre

Detalhes da luxuosa decoração dos camarotes

Num dos intervalos entre os atos, passamos pela grande escadaria até o foyer.

Detalhe lateral da grande escadaria

O foyer

Na frente do teatro há estátuas de Erkel Ferenc, compositor do hino nacional húngaro, diretor da Ópera e fundador da Orquestra Filarmônica de Budapeste. Há também uma estátua de outro Ferenc (ou Franz): Liszt, o mais famoso compositor húngaro.

Estátua de Franz Liszt (Liszt Ferenc) em frente à Ópera

Outro dia voltamos à ópera para uma visita guiada, que também vale muito a pena para conhecer outras partes do teatro que não se podem visitar durante os espetáculos — por exemplo, o salão da entrada lateral construída para a corte e a nobreza. Por um pequeno adicional ao preço da visita guiada, a casa oferece um miniconcerto no foyer.

Caminhadas pelo Distrito VII de Budapeste

No Erzsébetváros, nosso lar temporário durante a Expedição 2015 a Budapeste, há elegantes prédios antigos, construídos antes da Segunda Guerra. Muitos foram restaurados, mas há outros bem decadentes, com fachadas marcadas por poluição e abandono. Em muitos prédios de uso comercial é curioso ver que a restauração chegou só à fachada do andar térreo, onde ficam as vitrines; os demais andares continuam deteriorados. Há prédios que estão quase em ruínas — e muitos desses mesmo assim estão habitados ou ocupados pelos ruinpubs, famosas atrações da vida noturna de Budapeste.

Não restaurado, mas nem por isso menos elegante

Restaurado — e já precisando de retoques

Bela fachada de edifício na Klauzál tér, 2, pela Nagy Diófa utca (a Grande Rua das Nozes)

Pertinho do final da Akácfa utca, fica a Avilai Nagy Szent Teréz Plébánia, a Igreja de Santa Teresa de Ávila. Também ficou conhecida como “nossa igreja amarela”, porque ficava perto do apartamento, caminhávamos bastante por ali e servia de ponto de referência. E porque notamos que por alguma razão há várias igrejas amarelas em Budapeste — mas aquela era a “nossa”. O edifício foi construído no início do século XIX (1801–1809). O interior foi restaurado no século XX e está muito bem preservado.

Nossa Igreja Amarela de Santa Teresa de Ávila

Interior neoclássico da Igreja de Santa Teresa de Ávila

Na diagonal da igreja chama a atenção um prédio neogótico, construído em 1847.

Ainda no Erzsébetváros — a caminho do Parque da Cidade — visitamos Árpádházi Szent Erzsébet templom, a Igreja de Santa Isabel, construída na virada do século XIX para o XX, também em estilo neogótico. O templo sofreu com um bombardeio durante a Segunda Guerra. A partir de 1993, ocorreu a renovação do teto e de uma das torres, mas na parte interna se vê que reparos adicionais são necessários.

A fachada principal da Igreja de Santa Isabel, com a rosácea e as torres de 76 metros de altura

Interior da Igreja de Santa Isabel

Voltando para pertíssimo do apartamento, na própria Akácfa utca, um prédio muito importante no nosso quotidiano: a sede da

Budapesti Közlekedési
Zártkörűen Működő
Részvénytársaság

“Budapesti” é tranquilo entender… e o resto?

Nossa plena fluência em húngaro (mas principalmente o logo sugestivo) nos permitiu concluir que se tratava de “alguma coisa municipal referente a transportes”. Mais precisamente, é a sede da Budapest Transport Privately Held Corporation (BKV Zrt.), que opera metrôs, trens suburbanos (HÉV), bondes e ônibus.

Para encerrar o post, outro destaque do Distrito VII: os belos murais pintados nos paredões de alguns prédios. Na montagem a seguir vemos dois. No da direita, uma homenagem aos costureiros de Budapeste; no da esquerda, a imitação da fachada do mesmo prédio. Há muitos outros desses murais — como retrata este post do site BeBudapest.hu.